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Café: extra-forte

Em Bruxelas, uma médica aluga um apartamento e leva pra lá, um por dia, homens que seleciona no ambulatório do hospital em que trabalha. Faz sexo e dorme com eles, e depois volta pra casa, pra seu marido e filho. No dia em que visita o marido no trabalho, se depara com um desses homens, desmaia e sua história é descoberta, sua licença cassada e a crise se instaura.

Movimento Browniano não é um nome comum. Descobri na internet uma aula de física que o explica: se jogarmos um grão de pólen na água, ele não vai se dissipar homogeneamente, mas de forma caótica, porque as partículas de água, ao se chocarem com o pólen, alteram seu curso. É como se o pólen fosse grande o suficiente para ser percebido num microscópio, mas pequeno e leve para ter sua rota alterada por qualquer choque de uma partícula menor do que ele.

Inicialmente, achei que o browniano se referia ao processo de seleção dos homens. Quando ela começou as sessões com a psiquiatra para entender por que alugou o apartamento, disse que só lembrava detalhes de cada um, o olhar, os pelos do braço, uma mancha nas costas, um corpo gordo. Mas a aleatoriedade de sua trajetória foi mais profunda, foi a sequência de transformações a partir da primeira ação – os encontros – que alteraram sua rota indefinidamente. Há uma ruptura do mundo perfeito, a quebra do padrão que era sua rotina. Um casal bonito, com dinheiro, que vivia em espaços organizados. O desejo que ela tem pelo outro, nada mais é do que o desejo pelo que é estranho, e nesse momento lembrei de Diane Arbus. No livro de Susan Sontag, Sobre a Fotografia, ela nos conta um pouco sobre essa fotógrafa judia, filha de uma família rica e cercada de beleza e exatidão. O interesse de Diane estava justamente em seu oposto; seus retratos nos mostram pessoas incríveis com olhares firmes, mas pessoas deficientes, defeituosas, pessoas de circo. Seu olhar para o feio ganhou uma importância tal, que mesmo fotografando pessoas normais, notamos uma estranheza nelas. Em Movimento, num ambiente controlado por Charlotte, num apartamento extremamente organizado e limpo (e sempre em planos fixos para reforçar a sensação de experiência), é que ela se permite transgredir.

Além da questão ética – os homens eram seus pacientes – há uma relação entre fetiche, doença e moral que se misturam e torna a interpretação do que vemos um pouco turva. É nesse limbo que está seu marido, Max (Dragan Bakema). Eles se amam, são felizes sexualmente, a relação é estável e não é por algo estar errado que ela vai ao apartamento. É, talvez, por uma necessidade de ter um momento seu, que a isole do contexto familiar, da função que exerce. O fato deste momento significar sexo com outros homens não a faz se sentir culpada, mesmo ela tendo esta consciência, mas é o que a define como indivíduo e não como parte de algo. O que torna isso um problema é simplesmente a descoberta do segredo.

O filme tem caracteríscitas que me lembraram aquela ideia que se tem de cinema europeu. Os planos são longos, os cortes matemáticos. O filme é dividido em partes, lembrando Lars Von Trier e numa duração diferente da habitual. Há um tempo criou-se um preconceito com esse cinema justamente pelos filmes seguirem em outra velocidade, mais lenta que o cinema americano. Essa diferença se encaixa nos sentimentos do filme, já bastante silencioso: a permanência da câmera nas expressões da protagonista e no olhar perplexo do marido ajudam a criar uma atmosfera que nos deixa intrigados, queremos entender o que acontece com essa moça bonita, arrumada e de olhar misterioso, quase inocente e longínquo.

A aparente apatia da protagonista inquieta. O filme está centrado em seu olhar e nisso reside a força da atriz, Sandra Hüller. Conversando com um amigo, chegamos em Melancolia (Lars Von Trier, 2011), porque era esse o espírito. Nada com o fim do mundo, mas com uma inquietação que é transmitida por aquele olhar de ausência. Queremos dar essa liberdade à atriz e paz ao marido. É como se a diretora nos dissesse: o que importa agora é ouvi-la, mas ela não vai dizer tudo. Quando eles se mudam para a Índia, a mulher já não trabalha e teve dois filhos, mas ainda persiste o espaço entre eles. Por isso, não há como considerar os encontros a realização de um fetiche, mas uma válvula de escape – tanto que os lapsos de memória não são à toa, mas frutos de uma defesa inconsciente que a protege da lembrança do ato sexual, portanto da culpa.

Movimento Browniano incomoda. Não estamos mais acostumados ao silêncio – são tantos veículos para a comunicação que hoje o que está em extinção é o assunto – então a ausência de palavras intriga. Os cortes no limite da duração da cena, os planos fixos marcando o controle, e a câmera na mão a suscetibilidade dos ambientes externos não são à toa. Sem conhecer outros filmes, Nanouk Leopold chamou minha atenção. É um filme para ser visto sem pressa, entendendo que há – ainda bem – outro ritmo, nos deslocando da cadeira, deixando questões no ar. É um filme de grandes atores e com o equilíbrio perfeito entre silêncio e som. É daquele tipo do bom cinema europeu (não chato) que tanta gente tem medo e que, por isso mesmo, merece atenção.

Título Original: Brownian Movement
Diretora: Nanouk Leopold
Holanda, 2010, 97 min.
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Não sei desde quando eu gosto de Woody Allen. Não sei se foi no primeiro filme, mas é bem possível. Como é possível que minha mãe tenha me apresentado a ele – ela também é fã. Lembro bem de uma deliciosa tarde de cinema, em que fomos ver Desconstruindo Harry. Já falei bastante de Woody em outros textos, mas além de sua constante produção cinematográfica, o homem ainda tem livros publicados por ele e sobre ele e, não suficiente, aparece nos filmes dos outros.

Paris Manhattan é uma deliciosa comédia romântica francesa. Adepta desses filmes de carteirinha – também culpo minha mãe – fica cada vez mais difícil encontrar um filme inédito que preste, num amontoado de água-com-açúcar e outros muito fraquinhos com atores mais ou menos. Há também aqueles com roteiro sem noção que forçam a barra, mas esses não são comentáveis. Paris Manhattan ganha meu coração logo de cara quando encontramos a mocinha (a linda Alice Taglioni), aos 15 anos numa sala de cinema, sozinha. Ela não só é doente por Woody Allen, como já viu todos os filmes e tem um pôster gigante do cara em seu quarto. Não suficiente, ainda conversa com Woody Allen, que lhe orienta nos momentos complicados da vida, usando os diálogos de Manhattan, um de seus melhores filmes!

Ontem assisti Manhattan. Não foi minha primeira vez, mas queria rever, porque minha dúvida era se os diálogos de Paris Manhattan eram homenagem a um ou vários filmes. Estou acreditando que Sophie Lellouche focou só nesse, o que já é grande coisa. Manhattan é uma obra prima. Em preto e branco, é uma ode à cidade que Woody Allen mais ama, a número um em seus filmes, onde ele construiu sua carreira e uma nova cinematografia. Para quem não sabe, Woddy Allen faz um filme por ano e está numa fase europeia, mas o grosso de sua produção se concentra em histórias em torno da cidade. São pessoas comuns, quase sempre intelectuais (ou pseudo...) tratando da vida, dos problemas de gente comum, traição, neuroses, com graça e inteligência que fazem tudo parecer simples, sem soltar um palavrão ou ter uma cena de sexo que mostre demais. Manhattan é esse filme de encontros amorosos e frustrações, amizades e descobertas, revisão de preconceitos e de quebra, uma questão moral, com uma fotografia inacreditável.

Portanto, este francês já teria que ser bom só pela presença do diretor. Imagino que a esta altura de sua carreira – posso estar enganada e ele pode surtar também – dificilmente ele perderia tempo com alguma produção que não fosse, no mínimo, criativa. Aqui, Alice é uma jovem meio confusa, daquele tipo raro das moças bonitas e inteligentes que não conseguem se envolver com as pessoas certas e saem testando um monte de gente errada, depois se cansam, desistem por um tempo, respiram fundo e recomeçam. Ela está naquele momento em que todo mundo está muito bem, quem tinha que casar casou e ela ficou por ali, entre uma diversão e outra, um coração partido aqui outro ali e muito cinema na cabeça. Seus pais já não sabem o que fazer, além de tentar arrumar alguém pra filha.

Alice é farmacêutica e herdou o negócio do pai, que resolve instalar um alarme na loja quando se aposenta. É quando Victor (Patrick Bruel), o rapaz que cria e instala os alarmes entra na história. O ator me lembrou um pouco o argentino Ricardo Darín nos filmes de comédia, sendo este um pouco mais sarcástico e o francês um pouco mais leve, como manda o figurino. Depois de alguma resistência, a amizade entre os protagonistas acontece e se aprofunda. É ele quem acaba participando das histórias familiares e descobrimos que aquela família ridiculamente feliz e equilibrada tem algumas rachaduras. Para piorar, Victor nunca viu nenhum filme de Woody. O resto é estória e contar estraga.

Este é um filme de roteiro. A diretora surpreende em seu primeiro longa e também assina o texto. A trama é bem construída e nos tornamos amigos dos personagens, torcemos por eles. Por ter o peso do convidado especial, carrega uma responsabilidade, mas consegue manter o ritmo até o fim, isso porque nem falei da trilha de Cole Porter e outros clássicos. É um filme que lhe tira da sala do cinema e – como toda história bem contada – faz esquecer os problemas, sair do dia a dia. Não precisa ser fã do diretor/ator pra entrar na história, mas é mais gostoso quando se conhece alguma coisa. É um filme pra se ver acompanhado: com amigos, namorado, família. É despretensioso e guarda surpresas tão incríveis quanto às fórmulas de cura de Alice para os males de quem lhe visita na farmácia.

Músicas deliciosas, Paris se mostrando pra nós quase como uma provocação com tanta beleza e charme, diálogos incríveis. O filme me ganhou tão fácil, que fica até difícil escrever mais e melhor. Este é o único problema de ir ao cinema sozinha, a agonia de querer compartilhar, dividir as opiniões, conversar horas e prometer mais filmes. Mas se não tiver com quem ir, vá mesmo assim.

Título Original: Paris – Manhattan
Diretor: Sophie Lellouche
2012, França, 77min (curtinho!)
O Site!
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Quando contamos histórias, temos que ter uma certeza ou, pelo menos, ideia mínima de que são interessantes. Precisamos de nossos espectadores ali até o fim, criando uma novidade a cada virada de esquina, com um deslumbramento constante, um suspense, algum mistério que os mantenha esperando o que há para ver. Todas as histórias são assim, ou não são histórias.
Borges tem um texto já clássico chamado O Jardim dos caminhos que se bifurcam, que trata do encontro de seu protagonista com um livro-labirinto, cujas decisões podem gerar resultados infinitos. As múltiplas possibilidades de futuros a partir de uma ou algumas decisões é que torna especial a obra. As histórias do novo filme de Fernando Meirelles giram em torno de caminhos que se bifurcam, de escolhas. Decisões pequenas, como as do nosso dia-a-dia, que nem sempre nos pegam preparados. São estórias que se cruzam, cujas reações às escolhas também não serão nada como destruição ou construção do mundo, mas a manutenção ou transformação de um presente que impactará diretamente na vida dos demais, um pouco mais rico do que aquela história de graus de separação, em que todos se conectam em alguma instância. São os possíveis futuros múltiplos, a partir de decisões isoladas.
Fernando Meirelles já disse há muito a que veio. Com uma filmografia irreparável e agora internacional, o diretor brasileiro e sua equipe colaboram com esse novo capítulo do cinema de fazer calar a boca dos preconceituosos e superficiais que reclamam por aí. Daniel Rezende segue como montador, dando uma pincelada mais sutil nos efeitos, amarrando o sofisticado roteiro: os jogos com a tela dividida, eliminando o foco de um só personagem, a relativização das histórias e seus significados para cada um, a inserção da trilha, a montagem do quebra-cabeças, marca registrada do diretor. A fotografia reforça tanto os tons dos figurinos que caracterizam os personagens, quanto a distinção das cidades. Distorções de luz em túneis, tons pastéis para uma vida pastel, vermelho onde se quer mudar radicalmente. O branco da neve que confunde a paisagem e as ideias, como o álcool quando começa a fazer efeito, a maquiagem forte, os espaços que delimitam os personagens. Todos os elementos da construção fílmica mais uma vez são harmônicos e não estão ali de graça, nem o Anna Karenina que aparece de tempos em tempos.
O filme é baseado na peça La Ronde, de Arthur Schnitzler, que trata das relações sociais travadas entre encontros românticos de indivíduos de classes distintas ainda no século dezenove. Nestes 360 graus encontramos, resumidamente: uma publicitária de classe média-alta (Rachel Weisz) que tem um caso extraconjugal com um fotógrafo brasileiro que busca reconhecimento, seu marido (Jude Law), que tenta encontrar uma prostituta do leste europeu (Lucia Siposová) numa viagem de trabalho. A irmã desta mesma prostituta (Gabriela Macinkova que surpreende pelo talento e beleza) que escolhe não se envolver, mas que a acompanha, para dar suporte e conhece o motorista russo de um bandido classe A, casado com uma russa que se apaixona por seu chefe, um dentista argelino (Jamel Debbouze, de Amélie Poulain). O casal brasileiro (Maria Flor e Juliano Cazarré) que mora em Londres e entra em crise; o ex-detento americano (Ben Foster) em seu primeiro dia de liberdade; um senhor inglês (Anthony Hopkins) que busca o paradeiro da filha e cruza com a brasileira no avião. Com tantas ideias mais para uma série televisiva do que um só filme, o desafio foi amarrar tudo de forma contundente, concisa e que não deixasse nada escapar, mantendo todos os seus ápices e entrelaçando os finais.

No emaranhado de situações, as relações se dão com diferentes tipos sociais de culturas também distintas, sempre. Dos executivos ingleses e russos a iniciantes prostitutas de luxo do leste europeu, imigrantes brasileiros tentando a vida lá fora, presidiários, pobres, ricos. O filme busca participar desta teia de encontros não casuais e nos faz perguntar se aconteceriam numa outra circunstância, que não emocional, sexual. Os resultados das histórias reforçam as distinções de classe e sua manutenção, como um pano de fundo, uma idéia sutil por trás de uma trama que surpreende pela sofisticação da estrutura. Vemos desde relações de poder que coisificam, como o olhar cuidadoso que humaniza, mas não salva, num ciclo sem fim ou começo, como um círculo mesmo. A sinopse de um jornal diria: histórias que se cruzam a partir das escolhas de seus protagonistas. Suspense, drama e romance são ingredientes de um filme que surge sem gênero definido, mas completo em complexidade e maturidade de direção.
Sair deste filme é um tormento. Queremos continuar sentados, acompanhando aquelas trajetórias e embalados pela trilha sonora de músicas que eu não conhecia e que são lindas, tentando decidir pelos personagens ou entender suas decisões, ainda que não concordemos. Queremos nos aprofundar, tudo ali é interessante, as cidades espalhadas pelo mundo, o que conseguimos ver de suas ruas, como se vestem, os sotaques – lembrou Cegueira no mesmo estilo cosmopolita – idiomas e comportamentos diversos e como dialogam com a moral e conceitos de classe e sociedade. As histórias estão grávidas de futuros e nos deixam ansiosos, mesmo passando pouco tempo com cada uma delas, nos despertam um querer saber mais, uma afeição, uma aflição, um carinho. Porque a construção de cada personagem foi complexa o suficiente para que não houvesse a dualidade barata, mas camadas de personalidades distintas e que precisam ser descobertas.
Um trecho dos Jardins de Borges diz assim: Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam. Quase de imediato compreendi: o jardim de caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários futuros (não a todos) sugeriu-me a imagem da bifurcação no tempo, não no espaço. A releitura geral da obra confirmou essa teoria. Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts'sui Pen, opta - simultaneamente - por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam. Como o filme nos deixa o presente dos personagens em histórias concluídas mas não terminadas, vivemos junto com eles à espera de um cruzamento na pista, para decidir um novo rumo.
***
Agora, buscando o pôster, encontrei o blog da produção do filme. Aqui!
Título Original: 360
Diretor: Fernando Meirelles
Reino Unido, Áustria, França e Brasil.
2012, 110min.
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Outro dia li uma matéria sobre Jonathan Frazen, escritor do mais novo e comemorado best-seller Liberdade. Ganhei o livro e não o li ainda, mas o que me despertou foi sua fala sobre a importância do romance na cultura. É até óbvio pensar isso, sendo ele um escritor de romances, mas é bom que o assunto apareça quando livros de auto-ajuda e biografias desnecessárias pipocam por aí. O romance nos transporta para outros mundos, estórias de vidas possíveis e impossíveis, culturas distintas. Criamos um filme para cada livro que lemos. O romance é desprendido de obrigação; se lê por prazer. Para o romance precisamos de tempo, daquele que não tem nada a ver com internet, tecnologia, bate papo, rede social. O romance só precisa que você se aninhe numa poltrona gostosa e preste atenção.

Não conheço muita gente que lê assiduamente. Como também não conheço muita gente que gosta de Woody Allen (que também escreve!). Acho que os filmes dele são como esses romances aparentemente simples, mas que vão te ganhando página por página e às vezes o prazer que sentimos nem está na história em si, mas na forma como somos levados por ela, na narrativa.

Já falei que Woody usa o cinema clássico como base para seus filmes. Há o narrador onisciente que pontua o que é importante e os filmes costumam misturar gêneros, mas sempre de forma diferente, com aquela característica sutil que define um cinema de autor – quando sabemos, ainda que por intuição, quem é o diretor (o produtor ou o roteirista) do que estamos vendo. O último, Para Roma, com amor não é diferente.

A grande decepção está em quem imagina que esse filme será como Meia-noite em Paris. Meia-noite é incrível e surpreendente, tem uma trama original e o diretor se aproveita da onda cultural europeia dos anos 20 pra fazer uma de suas melhores comédias. Roma, que também não é como aqueles filmes nova-iorquinos que fizeram sua carreira, segue outro caminho. Ao invés de se concentrar numa única trama, os contos acontecem como nosso narrador explica, que em Roma, tudo é uma história. A partir daí temos um pai de família de classe média (Roberto Benigni) que se torna famoso da noite para o dia e sem motivo, com direito a paparazzi; uma moça do interior que se perde na cidade e termina num quarto de hotel de um ator italiano; o marido dela que entra numa confusão com o futuro chefe e uma prostituta (Penélope Cruz), não suficiente Woody Allen é pai de uma americana que vai se casar com um italiano socialista e descobre no pai deste um cantor de ópera e ainda, Alec Baldwin junto com Jesse Eisenberg e Ellen Page numa história deliciosa sobre o romance propriamente dito. Acho que não falta mais nada. Com tantos recortes, só nos resta entrar com a pipoca e nos perder pelas ruas e paisagens italianas.

O filme que traz a comédia como ponto forte, destaca com ela as outras ideias do momento: a fama sem motivo e prazo determinado, o que consideramos arte, a vaidade e, o simples mesmo, os costumes. Alec Baldwin faz o papel do ‘fantasma’ que assombra a consciência do personagem de Eisenberg, que vai receber em sua casa a amiga da namorada. Ellen Page chega e, se de imediato não impressiona, depois de um tempo e algum jogo de sedução, se torna uma paixão avassaladora. Ela me lembrou a personagem complicada de Cristina Ricci em Igual a tudo na vida (Anything Else, 2003). O mesmo jeito nervoso, a mesma farsa cult. O momento Benigni traz de volta a comédia italiana num papel de homem simples e perdido na vaidade que lhe foi imposta com a fama. Não preciso nem lembrar as referências de fama volátil (jogadores de futebol, bbbs e a lista é grande) que temos por aqui. Essa brincadeira também remete àqueles nossos programas matinais incriveis e de conteúdos sempre fundamentais aos seres humanos, como o que o artista fulano comeu no café da manhã. 

As delícias desse filme não se comparam à fantasia de Meia noite. Aqui temos estórias diurnas, rápidas, contidas nas falas altas de Penélope Cruz, no noivo italiano lindo, charmoso e sério (para contrariar o estereótipo), nos jantares tensos de sua família, no conto da paixão de verão. Essa fase Europa de Woody Allen vem cheia de novos sabores e cores vibrantes – a impressão que dá é que o fotógrafo agora tem uma importância maior – ou que nos outros filmes não nos preocupamos tanto, por serem sempre nos Estados Unidos. Talvez o mais distinto de todos seja, na verdade, Vicky Cristina Barcelona mas, ainda nele, vamos umas neuroses palpitando aqui e ali.

Para Roma com Amor é fortemente um filme turístico; vemos tudo o que é bonito e agradável. É um filme que acontece no cotidiano das pessoas, na forma em que as histórias simples funcionam, com leveza e graça. Os filmes de Woody deixam a impressão de que são fáceis de fazer, mas sua construção é complexa. Orquestrar uma equipe deste tamanho – ainda que seja só uma parte do todo (porque o diretor não precisa falar com toda a equipe sempre, mas com os que estão mais próximos) – e manter o clima do filme leve é um grande trabalho. Conseguir o resultado que vemos e com a qualidade e o talento de sempre, só se consegue com uma rotina de produção constante. Vale lembrar que nosso diretor faz em média um filme a cada um ou dois anos, cronograma apertado para muitos artistas. O que me deixou preocupada na verdade foi notar que a idade está finalmente chegando pra Woody Allen. Ele pareceu estar mais frágil fisicamente nesse filme. Ainda assim, não perdeu a mão e agora só nos resta esperar o próximo romance, em qualquer poltrona, com cinema ou literatura.

Título Original: To Rome, with love.
Diretor: Woody Allen
2012, EUA, Itália e Espanha. 112min.
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Buscar apartamento no Rio de Janeiro não é uma tarefa fácil. Não é para corações fracos e há que ter estômago. É uma situação absurda frente o valor dos imóveis (especialmente na zona sul) e a abordagem anacronicamente esnobe das imobiliárias. Parece sempre que estamos pedindo um favor: por favor, me permita alugar este imóvel por um preço abusivo. Nesse momento, precisamos parar um pouco pra respirar. Tem gente que enche a cara, faz meditação, terapia, se estressa ainda mais... entre tantas coisas que também faço, uma delas é imprescindível: ir ao cinema. São várias opções para destilar o ódio no coração que fica fácil passar duas horas numa sala escura não pensando na vida real.
***
Outro dia consegui escolher o filme: O Exótico Hotel Marigold é uma comédia leve, com grandes atores e que parece ser um desses filmes de verão, só que inglês (ao invés daquelas coisas meio sessão da tarde americanas). Com um roteiro leve e promessas de satisfação garantidas no trailer, ficou fácil. A história começa com a apresentação dos protagonistas: uma turma no fim da meia idade, insatisfeita com a vida que leva na Inglaterra, encontra num site a propaganda deste hotel magnífico, numa área paradisíaca da Índia e prometendo uma experiência única de vida. Um espaço para passar seus golden years em grande estilo. O grupo se conhece no aeroporto ao descobrir que têm o mesmo destino.

No elenco indiano, encontramos Dev Patel (o protagonista de Quem quer ser um milionário), como o gerente do hotel. A interpretação dele incomoda um pouco. Não sei como são os indianos na vida real, mas este me pareceu extremamente agitado para qualquer padrão. Com uma necessidade de sempre agradar os clientes num hotel caindo aos pedaços e os tendo como únicos hóspedes, não poderia ser diferente, mas ele sustenta uma aura de extrema ansiedade, combinada com uma agitação exagerada. A falta de respiração é tão constante que sua presença cansava, imaginando aquela positividade como uma esperança diante do impossível, uma agonia romântica. Em contrapartida, quase todos os outros personagens indianos do filme são pacientes, na medida correta (ou verossímil...).

Judi Dench é quem carrega o filme do lado inglês. Ela é nossa narradora ocasional a partir do momento que decide escrever um blog para contar ao filho à distância, a nova aventura. Ela acaba de se tornar viúva e viver na Inglaterra sem o marido perdeu o sentido. Como alternativa, resolve partir do zero num país desconhecido, completamente diferente de tudo o que já viu e com pessoas que lhe eram estranhas. Com coragem, consegue um emprego numa empresa de telemarketing, tendo como diferencial treinar os funcionários para atender o púbico de que faz parte adequadamente.

Encontramos também outros grandes atores, todos nomeados no cartaz, com destaque para Bill Nighy, no papel do marido que todos gostaríamos de ter. Este homem doce e gentil sofre com a intolerância da esposa que não consegue enxergar além de seu universo de mulher mimada e preconceituosa portanto, não se adapta.

Ainda e não menos importante, Maggie Smith faz uma das personagens importantes, talvez a que mais se transforma. Com uma postura rígida, acompanha a maior parte das outras estórias individuais, mas, ao contrário de Judi Dench que nos conta um pouco mais de si e dos outros, a primeira atua como uma observadora crítica e distante. Ao mesmo tempo, a partir do momento em que necessita da ajuda de outro e aí o confronto com as diferenças entre as culturas se torna evidente, é que surge a reviravolta e sua história se transforma.

Cada um parece estar ali não apenas para essa experiência exterior, como para – lembrando Comer, Rezar, Amar – se reencontrarem. Os dois filmes são parecidos nesse sentido; os personagens vão a um lugar diferente, buscando o estranho e acabam reconhecendo e relembrando quem são. Como o roteiro é  estruturado em cima de um grupo protagonista, temos ritmo e alguns momentos-chave; as interpretações dos estereótipos ganham peso frente às estórias particulares que devem preencher. Ali, sem conhecer ninguém, não é necessário manter uma máscara ou uma postura defensiva, mas dá para baixar a guarda e se permitir não censurar.

Com uma leveza nada boba – ao contrário de Comer... que acaba irritando quem o assiste – o filme nos guia entre piadas, estórias nem sempre tranqüilas e uma boa dose de sinceridade. Judi Dench nos carrega e junto com seus novos companheiros de vida mostram que uma nova oportunidade está sempre ali – com o perdão do clichê – basta saber procurar. Neste caso, a conclusão do filme tem ainda um plus, de não sabermos exatamente como terminaria cada estória, sem, no entanto, deixar nada por responder.


Título Original: The Best Exotic Marigold Hotel
2011, 124min, Reino Unido.
Diretor: John Madden.
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Correndo contra o tempo e tentando conciliar muitas obrigações e pouco lazer, finalmente assisti a Sete dias com Marilyn, com grande expectativa depois de ter visto o trailer e o lindíssimo cartaz. Saber que Michelle Williams faria o papel me convenceu sem precisar de sinopse. Vamos falar dele?

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Sete dias com Marilyn

O filme trata da adaptação do livro de Colin Clark (Eddie Redmayne), na época terceiro assistente de direção, que conviveu com Marilyn Monroe e o elenco de O Príncipe Encantado, com sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Segundo a estória - que ainda carrega a experiente Judi Dench e a mocinha de Harry Potter, Julia Ormond em papéis menores - Laurence era apaixonado por Marilyn e achou que trazendo ela à Inglaterra, conseguiria um grande filme e um grande amor. Só não sabia quão difícil seria conviver com uma estrela ainda maior do que ele.

Michelle Williams é Marilyn, uma atriz no auge da carreira, com trinta anos, três casamentos e não à toa, problemas com barbitúricos. A atriz consegue carregar a protagonista como eu não imaginei que ela fosse capaz, com toda a insegurança por trás do mito, seus problemas, mimos, dificuldades, refletindo ainda numa carência e numa dependência de todos que estavam ao seu redor. A atriz - que não tinha traços nem o corpo da diva - se transformou de tal forma que era impossível não ganhar o Globo de Ouro. 

Colin foi o garoto novo que deu a sorte de cruzar olhares e cativar a grande atriz. Com um jeito de ‘menina levada’, fetiche dos homens de então, todos se apaixonavam por ela por ser diferente, por não ser o padrão da mulher recatada e certinha da época com quem todos acabavam casando. Busquei a biografia da moça e sua história traz respostas: Marilyn não teve a família tradicional, foi abandonada pelos pais e viveu entre orfanatos e casas de família. Casou aos 16 para evitar outro orfanato e foi descoberta para o cinema com uma beleza e um carisma inigualáveis até hoje.

O filme me lembrou Sex and the City. Morando sozinha e sem tv a cabo, acabei aproveitando para rever alguns episódios e relembrar minhas amigas de Salvador e outras que fiz no Rio, hoje espalhadas pelo mundo. São as conversas intermináveis nos cafés, almoços, cinemas, bares e livrarias que me ajudaram a sobreviver nesses anos de pós-adolescência. A chegada à vida adulta, ao trabalho, estudos, moradia e relacionamentos precisam de muito debate, sempre. Ainda na série, o grande sucesso está na facilidade com que as quatro mulheres solteiras e bem sucedidas de NY vivem e tratam de sexo, carreira e relacionamentos de uma forma nunca vista antes – pelo menos na televisão. 

Há uma honestidade nas cenas, uma franqueza e um despudor que ao contrário de vulgarizar, torna os diálogos realistas e sinceros, não como um guia de comportamento, mas em conversas íntimas e finalmente compartilhadas, trazendo pra mesa o que antes ficava preso em casa e nos diários. As referências para as histórias, a moda, o sexo são reais e tão fundamentais para a formação quanto a educação que tivemos em casa ou a escola de nossa infância. Essa terceira etapa ajuda a nos definir, a desenvolver a personalidade, reforçar amizades e, porque não, contribuir para o nosso posicionamento com o mundo. 

Marilyn aparentemente não teve isso. Muito cedo ela viveu o sucesso e a solidão. Segundo o filme, as amizades não eram mais do que muletas ou profissionais em atendê-la de pronto e personalizadamente. Ao encontrar com nosso escritor, ela chega perto de vivenciar uma experiência, um romance de sonho pra ele e o que poderia chegar mais perto de pessoa normal pra ela. Por isso ela se apegou a ele naquela curta semana, por ver ali a possibilidade de algo puro e sincero e, no mínimo, uma companhia. Ainda assim, falamos de um mito, uma lenda e é assim também que a vemos aqui. O filme nos deixa apaixonados pelo personagem que Marilyn Monroe se transformou, basta relembrar a cena em que a protagonista canta na banheira ou ri com o protagonista em casa. 

O que dá o que pensar é que tanto as mulheres de Sex and the City quanto a Marilyn deste filme têm quase o mesmo perfil. Guardadas as diferenças de contexto, são mulheres bem sucedidas que são ou querem ser livres e percebem mais ou menos da mesma forma os relacionamentos, sempre desafios e enigmas. No entanto ainda hoje – poucos anos depois da série e muitos depois da atriz – o pensamento continua o mesmo. As histórias íntimas de todas estas personagens corajosas se repetem com as pessoas normais de qualquer tempo. 

Os romances, as críticas, os envolvimentos, ser solteira, namorada, casada, amante, de caso, com mais ou menos censura e dinheiro, perpassam gerações – o que muda são os termos, o tamanho das saias, a etiqueta. Até os preconceitos são iguais. Aparentemente, o que faltou a Marilyn foi a companhia feminina, ouvidos atentos e bocas doces e sarcásticas que a ajudassem com as dificuldades da vida.

Enquanto na década de 1950, Marilyn dominava os corações, audiências e filmes americanos exibidos no mundo inteiro, hoje vemos outras tantas Marilyns – respeitando a importância e singular majestade da primeira – em nosso cotidiano. A personagem que eu vi neste filme, engrandecida pela fotografia privilegiada, linda e característica da época, me passou uma ideia de uma mulher extremamente frágil – ou uma menina – lidando com uma pressão muito grande e uma exigência em se manter personagem a todo instante, sem nem saber direito quem é. 

Marilyn Monroe se fundiu em fantasia e realidade. Não me recordo de outros filmes que tragam cenas de sua história real à tona – mas imagino que existam alguns documentários – mas este trouxe o mito para mais perto de nós. Ainda assim, a impressão que temos é a de que é impossível não se apaixonar por ela. E, claro, agradecer por ser a pimenta que foi, ajudando a trazer um pouco mais de leveza e graça às vidas das mocinhas certinhas de então. Se é que elas realmente existiram.

Título Original: My week with Marilyn
2011 / UK, USA / 99min
Dir.: Simon Curtis.
Site oficial
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Agora me dei conta que não escrevi nada sobre o Chile. Foi minha primeira viagem pra fora do país sozinha. Não conhecia ninguém, à exceção de um contato de uma amiga de uma amiga que ia se casar por lá. Claudia é chilena ia se casar com um carioca em Santiago e generosamente me convidou para a festa. Sem nunca ter me visto.

Descobri que quando viajando só, as coisas mais fantásticas podem acontecer a qualquer momento, em qualquer esquina. Este casamento para poucos é um grande exemplo. E o mais legal é que não conhecendo ninguém, absolutamente tudo se torna novo. A cerimônia foi linda e rápida, percebi que se não todos, muitos eram amigos próximos e que estavam ali com a alegria de ver duas pessoas que se amam, casando. Me colocaram na mesa dos brasileiros e o que achei que ia ser um evento – para mim, de poucas horas – me fez ficar até o final e acordar meus colegas de quarto quando cheguei ao albergue. Bebemos muito, dançamos ainda mais e comecei a viagem da melhor forma possível.


Santiago é uma cidade especial. Provavelmente essa é uma frase que vai se repetir em todas as viagens, já que cada uma deve abarcar um monte de coisas, lugares e culturas interessantes. O negócio é que todos que tinham ido à Santiago (bem menos pessoas conheciam, ao contrário de Buenos Aires), me falavam que a cidade não era nada demais e nem tão charmosa quanto a portenha, que realmente é incrível.

Santiago é limpa, organizada, seus sistemas parecem funcionar muito bem e todas as pessoas foram muito educadas, simpáticas e prestativas. Do segurança do metrô a todos os policiais. Não é uma cidade de tango, ou cidade sensual como as nossas, mas ela vai te encantando sutilmente, você vai criando intimidade aos poucos e se surpreende sempre com a brutalidade com que a natureza se apresenta no meio de uma capital federal. É virar uma esquina e está lá, a cordilheira, como um imenso desafio, piscando pra você.


Em Santiago, os homens não te cantam nas ruas (à exceção do moço do caminhão que me mandou um beijo e pediu uma foto) e nas boates, te convidam apenas para dançar. E te pedem que olhe nos olhos. Essa é uma diferença brutal de comportamento, pelo menos pra mim. Quando nos chamam pra dançar no Brasil é um indício de que vão, no mínimo, lhe tocar, abraçar, encostar em você... e nunca se preocupam com os olhos. O rapaz que me convidou não estava interessado em mim, mas em outra brasileira do meu albergue e foi por isso que começamos a conversar. Ele era um pouco tímido e ela não se interessou. De alguma forma participei do assunto, já que ela não entendia muito espanhol e fui facilitar o diálogo. Terminei conversando bastante com ele, que tinha uma doçura no olhar, misturada com uma firmeza, alguma segurança de pessoa tranquila. Dancei com ele, mas era estranho perceber que ele ficava em encarando. Era estranho e divertido ao mesmo tempo. E intimidante. Até que ele percebeu e me questionou, por que eu não olhava pra ele. Expliquei que era muito diferente pra mim e que ficava tímida, e então ele me deu a sacada da coisa toda: se você olha nos olhos de um rapaz, ele é quem fica tímido e abaixa o olhar. E com isso, entendi como a cidade funcionava.


Quando começo a pensar nesta semana, milhões de pequenas histórias passam pela cabeça, não tanto como filmes, mas como um complexo amontoado de percepções íntimas, emoções de todo tipo, cenas incríveis, diálogos e vinho, muito vinho bom e despretensioso.

Fiquei num albergue perto da Avenida Brasil, mas foi sem querer. La Princesa Insolente me ganhou pelas fotos e pela pesquisa, e acertei em cheio. Não ficava no pico turístico, nas Ipanemas ou Copacabanas, mas era um espaço acolhedor e com muita gente disposta a conhecer mais gente ainda. No meu quarto eram 2 rapazes e 2 moças, contando comigo, mas nunca o mesmo grupo todas as noites. Um deles mais tarde se tornaria um companheiro acidental de quase a viagem inteira, incluindo o Atacama. Fabien é suíço e também estava viajando sozinho, com uma duração de jornada que só europeus e norte americanos conseguem ter.  Eu tinha uma semana em Santiago, outra no Atacama e parecia surreal só quinze dias para tanta coisa. De uma forma maluca, consegui encontrá-lo nas duas regiões e viramos companheiros de viagem, sempre trocando informações fundamentais, não importando se estávamos juntos ou não. A internet facilitou bastante o processo e íamos empolgando um ao outro sobre o que fazer ou não, especialmente no Atacama.


No topo do morro La Concepción tem uma santa. Como o Corcovado daqui, só que com outro clima. Claro, tinha o turismo, mas tinha silêncio. Todos tiravam fotos, mas falavam baixo e tinha uma arquibancada para sentar e ver a cidade inteira lá embaixo. Tinha também aquelas estantes com milhões de velas, promessas, pedidos e flores. A impressão que eu tenho é de que a cidade tem um tempo diferente. As pessoas param. Sentam, olham a vista, ficam nos parques, namoram. Olham nos olhos. Basta lembrar de Neruda e sua história e já dá pra ter uma ideia. E Salvador Allende. E o GAM. E a Catedral. E a garota da Catedral, desenhando calada o que acontecia ali.

E os cachorros? Santiago é uma cidade de cachorros. Estão em todos os lugares, vira-latas bem alimentados, tranquilos, convivem pacatamente com todo mundo. Estava no centro, atravessando uma rua para chegar ao prédio lindo do Correio, um monte de gente esperando o sinal. Uma policial estava do meu lado e um cachorro entre nós. Ele fez que ia atravessar antes da hora e a policial lhe chamou a atenção como se fosse dela. O cachorro obedeceu e atravessou a rua conosco. Não vi cocô nas ruas. Não sei como eles fazem para lidar com isso, mas nesse mesmo dia visitei o Museu de Arte Pre-colombiana, que também achei que ia ser um passeio rápido e me tomou um tempão. Lá tinha a história de como os cachorros eram elementos fundamentais da cultura. Tem uma escultura de um cachorro e uma explicação de que naqueles tempos eles eram guias de passagem para quem ia a La tierra de los muertos. É uma fidelidade que se mantém hoje, ainda mais quando lembramos dos filmes, tem até um com Richard Gere (com cara de ser bem meloso e ruim) que fala disso.


Em novembro, Santiago é quente e agradável de dia e fria à noite. O clima é meio seco, o que faz um bem danado pros cabelos e pra pele, desde que você também use hidratante. Senti mais sede do que o normal e era uma boa desculpa pra provar os sorvetes deliciosos de lá. Como não estou podendo comer frutos do mar, perdi uma grande parte da gastronomia, mas passei bem com as carnes e legumes. É uma cidade em que a comida não é das mais baratas, mas pra quem vive no Rio, tudo é possível e as porções são generosas. Ah! E as empanadas são sensacionais. Bem como as lojas de departamento. Precisava de roupas para o deserto e foi o que me salvou.


Esse ano, trabalhando no É Tudo Verdade, acabei conhecendo um casal de chilenos. O marido era protagonista do documentário do filho e passei alguns momentos com eles. De novo, pessoas incríveis, educadas, calorosas e tranquilas. Deve ter algo diferente na água de lá. E pensando bem, tem muito mais pra falar, mas vou deixar os pensamentos se organizarem um pouco mais, junto com as lembranças das pessoas e mais histórias surgirão naturalmente. Santiago não tem fim e ainda nem falei do deserto ao norte ou da minha vontade de ir ao sul. As viagens nunca terminam, eu acho. São sempre uma sequência de portas sem fechaduras. É só sair empurrando.
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Assisti outro dia, Ausência de Malícia (1981) de Sidney Pollack. O filme trata de uma jogada política sagaz, onde Paul Newman dá um show e ainda vemos Sally Field novinha. Filme bom, inteligente e gostoso de ver, foi indicado ao Oscar para melhor ator, roteiro e atriz coadjuvante, concorreu ao Globo de Ouro como melhor roteiro e melhor atriz (Sally) e no Festival de Berlim, vale pra uma tarde de preguiça no fim de semana. Lembrando disso e das fotos de Marlon Brando, resolvi trazer Paul Newman para trazer um pouco mais de beleza e qualidade ao blog.

A Vanity Fair fez em 2008 uma matéria legal sobre Paul, não só um dos caras mais bonitos do cinema, como um grande ator.

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Em Ausência de Malícia, com Sally Field. 

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Actor's Studio

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Butch Cassidy

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Com a esposa, Jane Woodward

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Jogando com Robert Redford
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O trailer chama atenção por já trazer os principais focos de tensão da história. Mas, mesmo sem vê-lo, só o cartaz é suficiente. Tomboy conta a chegada de uma nova garota à cidade, que está entrando na adolescência e começa a definir sua sexualidade.

Laure (Zoé Haren) tem 10 anos e acaba de se mudar com a família para uma nova cidade. Uma tarde, decide sair para conhecer os vizinhos e ao se apresentar, assume o nome de Mikael. A apresentação do filme é seu grande trunfo: as consequências e os comportamentos de Laure na rua e em casa são tão improvisados quanto essa nova identidade que concebeu para si.

O silêncio é a marca maior da produção. Voltando ao cartaz, vemos um mistério no rosto da protagonista. É ela, de cabelos curtos e camiseta, numa expressão séria e uma parede floral ao fundo. Esse é o momento em que sua irmã desenha seu retrato e pede que ela fique quieta enquanto termina. Mas a expressão, a paciência de Laure e o mistério que seu olhar carrega marcam o filme; ela é uma jovem calada. Por ser assim, por guardar para si o que lhe acontece, é que a narrativa funciona.
A câmera acompanha sua trajetória se fixando sempre no olhar; em Laure observando os garotos para mimetizá-los, em Lisa, a amiga e líder do grupo de quem passa a gostar e que se torna sua namoradinha, nos encontros com o espelho. Ao mesmo tempo, a acompanhamos em casa, nas brincadeiras com a irmã Jeanne, com os pais. Somos levados a participar da vida desta garota em planos quase documentais: não há música na maior parte do tempo, a luz é natural e os planos com poucos movimentos ampliam a visão da história que se desenrola, deixando que nos concentremos mais nas ações dos personagens do que em jogos estéticos de planos inusitados.

A questão de gênero e talvez da inocência são mote do filme e nos fazem pensar em quando e de que forma também nossas preferências sexuais são definidas. Laure se enxerga como um menino? Ela quer ser um menino? A protagonista não parece se importar com as diferenças entre ela e os garotos e só soma alguns apetrechos para não quebrar a ilusão criada. Ao mesmo tempo, se deixa maquiar por Lisa que se surpreende em como ela fica bem de menina. Outro destaque é quando sua mãe a obriga a usar um vestido, aumentando a tensão já no desenrolar do clímax. É aqui que percebemos duas fortes questões: como Laure se envergonha de usar a roupa e como sua família se comporta com essa reação. É como se a protagonista quisesse desaparecer, já que não pertence àquela situação e não se enxerga sob aquele figurino/personagem. Na verdade, sua mãe é quem a quer mais feminina – ainda que não imponha isso a maior parte do tempo, deixando-a livre para se vestir como quiser – e o pai está sempre ausente, mas com o abraço consolador que nada resolve, a relação de Laure com sua família acaba de se enchendo de não-ditos e mal-entendidos.
Com um filme tão sensível e tratando de personagens em formação, a diretora ainda teve uma grande ideia: chamar os amigos de Zoé Haren para participarem como atores mirins. Assim, ela ficaria mais à vontade no papel estando diante de conhecidos e a relação entre as crianças seria mais natural. Para fidelizar o personagem, Zoé cortou os cabelos e a transformação funcionou: ao olharmos para esta criança, não sabemos se é uma menina ou menino.
Apesar do filme se centrar na protagonista e na força de sua história, sua irmã não passa despercebida. Jeanne (Malonn Lévana) tem 6 anos, é esperta e atenta. Engraçada como se isso fosse parte não só do personagem como de si mesma, suas sacadas quebram a tensão do filme e trazem leveza, reforçando a intenção da diretora em manter a narrativa focada nas crianças. É ela que tem mais falas no roteiro e quem primeiro instaura a tensão em Laure da descoberta da farsa, quando abre a porta de casa para Lisa, que procura por Mikael.

Tomboy, que não tem palavra similar no português, significa menina que gosta de brincadeiras e atividades tipicamente de meninos. Não suficiente, o filme se apodera do sentido e o estende até o limite; tudo o que encontramos para caracterizar Laure é masculino: o quarto azul sem detalhes femininos, bonecos masculinos, roupas. Ao mesmo tempo, não aparenta uma confusão ou uma negação do corpo, como dito anteriormente. Talvez a idade ainda não propicie mudanças tão drásticas às crianças que ainda estão descobrindo a sexualidade e entrando na adolescência. Não é à toa que Lisa se interessa por ele/ela; já conhece todos os garotos e o mais misterioso e que não é como os outros é Mikael.

Cheio de grandes questões, esse é um filme simples. Com muito pouco e filmado em um verão, é o segundo longa de Céline Sciamma, feito de forma ainda mais enxuta que o primeiro, Lírios d’água (Water Lilies, 2007), que também aborda sexualidade e homossexualismo, só que na adolescência. Acredito, entretanto, que Tomboy não entra nessa classificação que o reduziria, mas como uma obra aberta e sensível. É um filme sobre a infância e o início da adolescência, um período de descobertas e formação, que aqui vivenciamos de forma leve e gostosa, nos permitindo tanto voltar no tempo e lembrar nossa própria história quanto pensar em como seria o futuro desta.

Título Original: Tomboy
Diretora: Céline Sciamma
2011 França / 80 min
Site Oficial
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O primeiro filme do Oriente Médio que eu vi na vida acho que foi Filhos do Paraíso, do diretor Majid Majidi. Por coincidência também é iraniano e lembro que na época eu já tinha essa vontade de ver filmes de vários lugares do mundo. O que me deu segurança foi o fato de ser um filme sobre crianças, de ser de lá e, é claro, a nominação ao Oscar de filme estrangeiro em 1997.

Enquanto ficamos em dúvida sobre algumas escolhas das outras categorias, a de Filme Estrangeiro merece crédito. Eles selecionam os melhores filmes do ano de verdade e ainda ficamos sofrendo com outros incríveis que não entram. Só pra lembrar, o ano passado foi de Em um Mundo Melhor e em 2010, O Segredo de Seus Olhos. Quem conhece vai concordar com qualquer prêmio que seja dado a eles. Esse é o ano de A Separação. De Filhos pra cá, tenho buscado ver esses filmes de terras distantes e não só isso, a cinematografia de lá tem uma estrutura própria, uma forma de contar histórias que me agrada. É mais próxima dos filmes realistas e documentais, do próprio neo-realismo italiano com não-atores, um pouco de cinema novo, só que mais fluido e de uma sensação firme de que o que se conta ali é de fato o que acontece na vida real. Essa marca se torna ainda mais forte se imaginarmos uma história parecida contada pelo cinema americano.


A Separação trata de um casal em que a mulher pede o divórcio porque quer sair do Irã e o marido se nega a acompanhá-la. Ela só poderia sair com a separação e queria levar a filha adolescente, para que fossem viver num país em que tivessem mais liberdade e que sua filha pudesse fazer suas próprias escolhas. O marido não pode ir porque precisa cuidar do pai com Alzheimer e não quer perder a guarda da filha. Com o problema estabelecido já na primeira seqüência, entendemos que esse filme quer nos contar mais algumas histórias.

Enquanto Filhos do Paraíso ganhou o mundo contando uma fábula terna sobre uma garotinha pobre que perde os sapatos e não pode ir à escola sem eles, A Separação traz uma história adulta sobre questões cotidianas e de mudança de comportamento - por isso se tornam universais - ao invés de reforçar marcas culturais específicas. Essa atualidade do cinema iraniano não vem apenas com esse filme, mas com o que Abbas Kiarostami e Samira Makhmalbaf, pra citar apenas dois diretores, vêm trazendo ao longo dos anos.

Quando vemos um filme iraniano imaginamos outro tempo, um alongamento da narrativa, preso em pequenos pequenos detalhes que vão transformando a história aos poucos, sempre mantendo a religião como marca forte, quando não o centro por onde a narrativa se desenvolve. Aqui, o diretor consegue – e talvez esse seja um dos primeiros filmes iranianos com essa marca – se concentrar na ideia de que as mulheres estão buscando seu espaço no mundo, são profissionais que precisam ajudar a sustentar a família e os homens têm que aprender a lidar com essa nova estrutura familiar. O arranjo ainda não funciona pra maioria, mas perceber famílias modernas num país extremamente radical e notoriamente desigual com em relação aos gêneros nos faz repensar nosso conceito sobre o país.

O filme tem uma graça que lhe é própria, há um despreparo do marido em viver sem a esposa que sempre cuidou de tudo – como as nossas brasileiras com dupla e tripla jornadas de trabalho – e de lidar com a nova diarista grávida, devota à sua religião e que por isso não pode fazer algumas atividades, como cuidar apropriadamente de um idoso. Para se ter uma ideia, ela não pode ser tocada ou tocar em outro homem que não seu marido. Há ainda a filha da diarista que nos ganha só com o olhar e as peripécias com o novo avô que ganhou inesperadamente.

As principais mulheres do filme explicitam essa idéia de mudança de comportamento. A forma com que se vestem seria o primeiro indício; enquanto a mulher que quer se divorciar é professora e usa roupas mais leves – inclusive a que lhe cobre os cabelos vermelhos – a outra usa trajes pesados, como se o fato de se cobrir mais do que a outra a tornasse mais pura e protegida contra os males do mundo e ainda trabalha escondido do marido. A relação que estabelecem com seus maridos, idem: a primeira, já que não pode tê-lo para conquistar o que almeja na vida, pede o divórcio, para que cada um viva de acordo com o que entende como correto, enquanto a outra está sempre submissa, escondendo com medo as mais inofensivas descisões e atitudes. E mais, a religião - que como dita comportamentos, regras e leis no Irã - não pode ficar de fora. Tanta é a devoção religiosa da diarista, que lembra um pouco o que vemos por aqui, com os evangélicos, batistas, Testemunhas de Jeová, que também carregam diversas restrições não só de vestuário, como de pensamento em regras que nem sempre fazem sentido para a vida prática.

O filme corre e ganha complexidades inesperadas, envolvendo a justiça num crime que aproxima a todos e a narrativa cresce. Passamos a acompanhar um dia-a-dia cada vez mais tenso, em que as soluções se parecem distantes e embaralhadas, como as relações familiares dos dois lados. A educação, as diferenças, o que é certo e errado se mistura e até nós precisamos repensar nossas conclusões a cada desenrolar. Meu favorito, por exemplo, mudou de personagem em personagem até se instalar no mais improvável, mas acredito, no mais humano de todos.

A indicação para o Oscar não foi à toa. Não importando quaisquer questões políticas por trás da escolha – a premiação é dos EUA – não tira o mérito da produção. O filme é divertido, tenso e com questões universais. E ver a mulher em papéis de destaque e voz, ainda que não igual perante a justiça ou sociedade, mas em situações que a colocam em primeiro plano, a quem cabe as grandes decisões, é garantir um novo olhar e a quebra de alguns preconceitos sobre um país e região estereotipados pela mídia. Aqui não há terrorismo, guerras, bombas ou tiros. É o cotidiano particular de famílias e sentimentos, cujas histórias se cruzam em momentos delicados.


Trailer aqui!!!
Título original: Jodaeyie Nader az Simin
Diretor: Asghar Farhadi
2011 / Irã 123 min

Ah! Encontrei o blog Cinema Iraniano, que tem uma pesquisa bacana sobre o assunto.
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Na noite anterior também tinha ido ao cinema. Fui ver um filme leve, Românticos Anônimos. Estava decidida a pegar duas sessões, naquela ânsia de recuperar o tempo perdido nas férias e no corrido fim de ano, mas imaginei que o segundo filme ia acabar se impondo e eu perderia um pouco da graça do primeiro. Como previ, A Guerra está declarada é grande. Drama com tema difícil de abordar de forma criativa e que exige cuidado para não se tornar um daqueles arranca-lágrimas: um casal jovem se apaixona, casa e tem um filho. Descobrem que o bebê tem um tumor maligno no cérebro e a luta pela cura se inicia.

Éramos seis na sala de cinema. Eu e, na fila atrás, um grupo de amigos – da idade de meus pais – e um cara da minha idade, filho de um deles. Estávamos próximos e simpáticos, então engatamos conversa. O rapaz da minha idade não sabia sobre o que era o filme e quase me deu pena lhe contar a sinopse; de forma crua não parece muito estimulante. As luzes se apagaram e voltei pra tela. O filme é econômico: conta de forma dinâmica e divertida o início do romance e de como seus nomes Romeo e Juliette, indicam que alguma tragédia está por vir, mas estão dispostos a assumir o risco e a partir de então, já gostamos do casal. A simplicidade com que eles se encontram e se unem é tão gostosa e natural que quase estranhamos a dificuldade e os malabarismos que as pessoas criam ao se relacionar com outras na vida real.

O filme foi dirigido sob uma forma orgânica, a construção da intimidade do casal, sua consolidação, as decisões e a chegada do filho, tudo parece natural. A narrativa segue fluida para o espectador que se deixa levar solto, completamente entregue e cativado, mas esperando o momento trágico que virará a trama e a partir de então o mais importante; descobrir como será a reação dos heróis frente uma grande ameaça. Essa imposição da doença enquanto guerra é que passa a organizar o filme. A saída para a luta é planejada como uma estratégia de combate, dia após dia pensando em cada nova batalha e como vencê-la.

A voz em off é um inesperado ponto forte, quando nos indica o pensamento como uma conversa íntima; por vezes Romeo direciona seu olhar, seus gestos para Juliette e pensa para nós, o que não consegue lhe dizer em voz alta. Esse recurso substitui algumas falas e o filme se aproveita do silêncio que a tragédia impõe. O drama é claro e vivido de forma realística (vi num site a classificação como documentário), mas não se torna novelesco e não imprime com a música aquela carga que aperta nossos corações gratuitamente. A trilha está ali, tal qual a luta que eles decidem travar em família, como um imperativo: destaca os momentos-chave, em especial os de alegria e quase desaparece quando há muita tensão; essa jogada mostra a maturidade da obra e realça seu valor: a história já é dolorosa por si só e forte o suficiente para se sustentar com poucos e inteligentes artifícios.

Os atores que fazem o casal merecem e ganharam prêmios por suas atuações. Juliette é Valèrie Donzelli que ainda assina a direção e o roteiro e Jérémie Elkaïm é também roteirista e protagonista. A história é baseada em fatos reais e faz parte da vida deles, que tiveram o filho doente. É por isso e pela incrível força dos atores/autores que o filme se torna tão marcante. A descoberta da doença, o comportamento que eles assumem, a postura positiva diante de cada desafio são quase surreais se pensarmos no histórico dos filmes de doenças. E são justamente os protagonistas da história real que a recontam na ficção. A verossimilhança agradece e aplaude não só a obra, como o que deve ter sido viver fora dela. O filme é o eleito pela França para concorrer ao Oscar 2012 de filme estrangeiro. Forte candidato, já levou três prêmios no Festival Intenacional de Gijón, na Espanha, passou por aqui no Festival do Rio e abriu a Semana da Crítica do Festival de Cannes.

Quando saí do cinema reencontrei meus colegas de sala. Estava calada e pensando tanto na história que o filme me trouxe quanto em como ele foi feito. A história e a sensação pesavam mais do que essa ideia de construção da obra naquele momento – até porque não tinha me tocado que os atores eram autores – mas acho que é isso que torna o filme especial; deixar essas reminiscências. Me despedi do pessoal e o rapaz me perguntou se eu falaria bem ou mal do filme. Não poderia escrever de outra forma: o filme é excelente.

Título Original: La guerre est déclarée
Direção: Valérie Donzelli
2011 / França / 100 min
O trailer está aqui!


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Agora segue o texto na íntegra, publicado inicialmente na Revista do Cinema Brasileiro.

As Canções trata de amor. Perdido, sofrido, realizado, feliz. Todas as canções de Coutinho são lindas porque sinceras, de histórias reais e íntimas.

Demorei pra ver este filme. Por algumas razões, mas a maior delas foi uma espera. Estava me preparando porque músicas sempre trazem sentimentos e queria receber esse filme de forma que pudesse apreciá-lo por inteiro. A música, como o cheiro, é um dos instrumentos da memória. É a partir dela que revivemos um passado de sentimentos, de pessoas e histórias. Com elas ficam marcas, tatuagens de cenas que vivemos e se eternizaram. Há músicas que evito ouvir e outras em que faço questão.

O filme veio bem e se tornou curto para o seu potencial. As conversas eram mais uma vez naturais e ocupavam o cenário que conhecemos desde Jogo de Cena; um fundo de palco e uma cadeira: o entrevistado volta-se para a câmera / diretor e faz o seu papel.

A intimidade que os personagens têm com a câmera parece reforçar a presença delas hoje no cotidiano das grandes cidades. A invasão das câmeras é tão grande e dispersa – domésticas, celulares, internet, televisão, trânsito – que o encabular-se deixou de acontecer. Hoje todos querem ser protagonistas, querem aparecer e por que não, estrear no cinema. Então, Coutinho se aproveita dessa vontade do outro de se expressar para construir seus filmes. Com mais de dez grandes filmes em sua trajetória, o diretor é quase um psicanalista que está a ouvir, conhecer e reforçar momentos-chave de cada sessão.

Ano passado fiz psicanálise. Foram poucos meses, então aconteceu mais como uma conversa-desabafo inicial. A psicanalista ouvia e pouco falava; sua participação destacava nas minhas frases, trechos para enfatizar mais o que era importante ser lembrado por mim, do que esclarecer algo da narrativa. Coutinho faz o mesmo. Ele ouve as canções e suas histórias íntimas com experiência e maestria, envolvendo tanto o espectador quanto o personagem na mesma situação: ouvimos e vemos aquelas pessoas comuns se abrindo para nós, para a lente da câmera. São pessoas fortes, dispostas a se expor sem medo ou pudores, com histórias particulares que nos remetem às nossas próprias e às nossas canções, tornando-se universais.

Fui à sessão pensando em quais seriam as minhas canções e histórias. Pensei ainda no que haveria de interessante para trocar com o outro, em como despertaria seu interesse. As histórias de amor são cada uma, um filme em si. Quando as ouvimos, o filme as transforma e as preenchemos com nossas experiências, na imaginação. E em tempos em que o amor parece ser tão difícil e volátil, aqueles momentos tão românticos e sinceros são perenes, lembrados de forma marcante e ditos como “essa era a nossa música”, nos contagiam em emocionantes e francas declarações de amor e felicidade.

Com um dispositivo simples – pessoas que não desafinassem, soubessem a letra e tivessem uma boa história – e mais de 230 depoimentos gravados, 18 se tornaram documentário. Um filme que fala com música, sobre amor. O documentário acaba e nos deixa sentados, esperando a próxima história e músicas que, apenas com a voz de seus narradores, nos preenche naqueles instantes. Na verdade, não parece terminar – ou não queremos que aconteça – e quando vieram os créditos, um suspiro tomou o cinema; todos queriam mais. Ficamos para relembrar os títulos das músicas e seus intérpretes, pensando naqueles personagens e em nossas histórias.

Com 90 minutos de curta duração, Canções traz grandes músicas brasileiras e composições próprias em histórias reais de personagens diversos e desconhecidos. Mantendo seu estilo iniciado talvez desde Santa Marta ou até mesmo no pioneiro Cabra Marcado pra Morrer, Eduardo Coutinho extrai do comum, o extraordinário. Para o diretor de 79 anos e uma filmografia de respeito, o que interessa são histórias de vida, tendo as pessoas sempre como foco e objetivo.

Título Original: As Canções
Diretor: Eduardo Coutinho
Brasil / 2012 / 90 min.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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