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Café: extra-forte

Primeira Posição é um documentário sobre ballet. No primeiro dia do Festival, com as outras salas cheias em Botafogo, assisti ao filme com mais 8 pessoas na sala. É natural, se pensarmos na especificidade do tema, mas garanto que se as pessoas tivessem visto o trailer antes, lotariam a sessão.
Eu não fiz balé quando era criança. Aliás, fiz acho que umas duas semanas e vi que não era pra mim. A repetição dos movimentos, aquela rigidez e disciplina que devemos assumir quando pequenos não me servia e rapidinho descobri isso. Lembro a professora me mandando fazer o plié 300 vezes e de como eu ficava com cara de pra quê repetir tanto. Hoje, acho o ballet lindo, vou a espetáculos e sempre me dá uma vontade imensa de estudar dança.

Neste filme, acompanhamos seis jovens entre nove (isso, NOVE) e dezenove anos que participam do Youth American Grand Prix de ballet, a mais prestigiada competição de dança que vai premiar com medalhas, troféus e bolsas de estudos das melhores escolas do planeta. Nessa competição são cinco mil jovens de todo o mundo, cerca de 300 vão à final em NY e algumas dezenas são premiados. E o que nos marca mais é a determinação, a persistência com o objetivo e a perseverança que essa turma tem desde muito cedo.

Procurando saber mais do diretor, vi que ela, Bess Kargman é uma ex-bailarina e este, seu primeiro filme. Isso foi fundamental, porque permitiu um conhecimento inato do assunto, garantindo as cenas incríveis, as entrevistas fluidas e o acompanhamento íntimo do grupo. O filme tem um ritmo incrível, conseguindo manter o foco em todos os personagens em igual medida, nos deixando apaixonados por eles, por seu balé e suas histórias de vida, entendendo seus desejos, suas necessidades. O balé é a vida pra eles e eles têm conhecimento disso de forma muito clara e tranquila.

Quando você sabe o que quer da vida – e isso não é tão nítido de perceber quanto parece – é mais fácil encontrar um foco para atingir seus objetivos. Não que a trajetória seja simples e direta, mas parece ser mais difícil se deixar vencer. Temos a história de Joan Sebastian, um bailarino de família pobre na Colômbia que saiu de lá para os Estados Unidos para realizar o sonho. Lá, vive com certa dificuldade, sem luxos e festas, concentrado apenas em garantir a subsistência para pagar as aulas. Não há como não se apaixonar por ele, a vontade que temos é de nós mesmos lhe darmos uma bolsa de estudos. Com ela, ele ainda ajudaria a família. Michaela, uma jovem de Serra Leoa que viu os pais serem assassinados na guerra civil do país, foi adotada por uma família americana que também custeia seu treino. A força do olhar dessa menina, a doçura que ela conseguiu manter e sua superação, nos faz pensar em como a nossa vida é muito mais fácil e como não nos esforçamos o suficiente. Aqui, vamos além da dança.

As transições das histórias, as mudanças da competição e os personagens se intercalam orgânica e plasticamente. Saímos das aulas de dança e entramos nas apresentações, vivemos o dia a dia desses jovens e suas famílias, viajamos com eles e ainda notamos como a pressão do teste acontece em cada participante. Tudo isso, o filme nos dá uma perspectiva que parece ser de 360 graus sem cansar. A câmera tem uma liberdade de movimento que foi conseguida com uma produção competente, pois fica claro que aquele espaço é restrito aos dançarinos. Com uma equipe enxuta e experiente, First Position é premiado em todos os festivais que participa.

Saímos do filme encantados com aquelas histórias, nos emocionando como num filme de ficção, mas com o adicional de serem pessoas de verdade, em histórias reais. Saímos do filme pensando em nossas vidas, no que fazemos de nossos ideais e em como corremos atrás de nossos objetivos, se estamos acomodados, se fazemos realmente o que queremos, se estamos buscando e investindo em nossos sonhos. E tudo isso com apenas um documentário sobre balé.

O site lindo do filme lindo está aqui.
E o site do Festival do Rio com a programação está aqui!
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Há sempre uma dúvida ao descobrir um novo filme cujo protagonista é uma pessoa doente ou deficiente. Depois de inúmeros dramas sobre pessoas de bom coração, que após acidentes terríveis ficam incapacitados e decidem se matar ou que têm um grande amor impossível de concretizar ou ainda, aqueles filmes sobre pacientes terminais com alguma doença brutal, pensamos duas vezes em ir ao cinema. Neste caso, o sucesso de bilheteria (que não indica muita coisa, mas sendo francês dá alguma esperança) e o trailer, nos encorajam. E Intocáveis vale o desafio.

O filme inspirado em fatos reais conta a história de Philippe, um homem tetraplégico bilionário que contrata um negro que descobre ser imigrante senegalês para ser seu cuidador. O imigrante, Driss, não tem nenhuma experiência, mas também nenhuma compaixão pela situação de seu chefe, e é isso que o faz ser escolhido para o trabalho e cria a amizade entre eles. Não é difícil imaginar o número de candidatos interessados na vaga que o tratariam com a pena de lidar com um deficiente, vide os processos seletivos que assistimos no filme.

Esse é um filme pra todo o público. Quando se diz que um filme é francês ou estrangeiro (considerando a classificação das videolocadoras – americano não entra nisso e nacional é outro gênero), normalmente o público é mais restrito. O ‘estrangeiro’ se confunde com o ‘cult’, outra titulação arbitrária definida por um grupo de pessoas que mais se limita a certa filmografia do que os seleciona por alguma qualidade estético/narrativa. Um filme é bom e ponto, independente de onde venha, de que “gênero” seja. Este tem uma narrativa simples, com grandes diálogos e interpretações que se traduzem num equilíbrio delicado entre a comédia inteligente e a seriedade das situações ali vividas.

Alguns textos publicados sobre o filme falam sobre o limite do “politicamente incorreto”, de “fazer piada” com a situação, de um filme “polêmico”. Fico pensando se um tetraplégico se sente bem tendo ao seu redor pessoas que se compadecem dele, como se, ao se mostrarem sentindo e entendendo aquela situação, as tornassem mais próximas, mais compreensivas da dor do outro. Claro que não posso me colocar no lugar deste outro, mas não seria interessante receber esse sentimento, o olhar condescendente sobre mim. Ainda que exista uma desvantagem física - que se traduz na pena - o pensamento se mantém, a inteligência e é o que acaba se entendendo como perdido também, como se a deficiência fosse completa. É disso que o filme trata. O olhar humano aqui é daquele que enxerga Philippe como um homem qualquer, cuja diferença é um cuidado a mais. E Omar Sy o faz com precisão, levando pra casa o César ("Oscar" francês) de melhor ator em 2011. Esse homem que vem de outra classe, que vive na lei do mais esperto, achou que conseguiria assinar o documento que lhe garantiria a manutenção do seguro desemprego, mas acaba realmente com um trabalho e a partir disso, evolui na trama, se transforma e então nos apaixonamos por ele para sempre.

A história está centrada nesta relação e a polêmica de que tratam os outros textos se refere claro, à situação colonizador / colonizado, entretanto, ninguém aqui está promovendo uma discussão socioeconômica do que os levou a este presente, mas a uma situação dada que condiz com um dia-a-dia possível. François Cluzet (Philippe) exibe com sua imobilidade uma atuação brilhante. O personagem que imaginamos cuja vida é a sequência de dias iguais ganha outras cores e para o espectador que não tem nenhuma vivência do tipo, é mais uma novidade - talvez seja essa a preocupação de um filme francês, que passaria despercebido num americano padrão (além da qualidade fotográfica). Aprendemos sobre a situação do paciente, vemos uma vida de fato acontecer, como se fosse a nossa. Relações familiares, relacionamentos, trabalho, tudo ali acontece. São as mesmas dificuldades. O filme nos traz um viés cotidiano e com as duas vertentes, equiparando as histórias e trazendo dois protagonistas, duas vidas.

O fato de ser uma produção baseada em fatos reais é outro chamariz. Ainda que muitos não considerem a não-ficção como cinema tal qual a ficção, dão uma maior importância a histórias reais do que à pura invenção. Até porque, se esta fosse uma história totalmente criada, outras críticas surgiriam desmerecendo a obra, indicando-a como inverossímil, se enganando ao pressupor que as histórias mais absurdas – de forma geral – não acontecem. Intocáveis teve 9 indicações ao César, concorreu em outros festivais, levando 7 prêmios e abriu as salas de cinema do mundo para Olivier Nakache e Eric Toledano, diretores e roteiristas, cujas filmografias eu desconhecia. É a popularização do cinema francês – assim espero – e o início do desespero dos cults de plantão.

Título Original: Intouchables
Diretores: Eric Toledano e Olivier Nakache
2011, França, 112min
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Em Bruxelas, uma médica aluga um apartamento e leva pra lá, um por dia, homens que seleciona no ambulatório do hospital em que trabalha. Faz sexo e dorme com eles, e depois volta pra casa, pra seu marido e filho. No dia em que visita o marido no trabalho, se depara com um desses homens, desmaia e sua história é descoberta, sua licença cassada e a crise se instaura.

Movimento Browniano não é um nome comum. Descobri na internet uma aula de física que o explica: se jogarmos um grão de pólen na água, ele não vai se dissipar homogeneamente, mas de forma caótica, porque as partículas de água, ao se chocarem com o pólen, alteram seu curso. É como se o pólen fosse grande o suficiente para ser percebido num microscópio, mas pequeno e leve para ter sua rota alterada por qualquer choque de uma partícula menor do que ele.

Inicialmente, achei que o browniano se referia ao processo de seleção dos homens. Quando ela começou as sessões com a psiquiatra para entender por que alugou o apartamento, disse que só lembrava detalhes de cada um, o olhar, os pelos do braço, uma mancha nas costas, um corpo gordo. Mas a aleatoriedade de sua trajetória foi mais profunda, foi a sequência de transformações a partir da primeira ação – os encontros – que alteraram sua rota indefinidamente. Há uma ruptura do mundo perfeito, a quebra do padrão que era sua rotina. Um casal bonito, com dinheiro, que vivia em espaços organizados. O desejo que ela tem pelo outro, nada mais é do que o desejo pelo que é estranho, e nesse momento lembrei de Diane Arbus. No livro de Susan Sontag, Sobre a Fotografia, ela nos conta um pouco sobre essa fotógrafa judia, filha de uma família rica e cercada de beleza e exatidão. O interesse de Diane estava justamente em seu oposto; seus retratos nos mostram pessoas incríveis com olhares firmes, mas pessoas deficientes, defeituosas, pessoas de circo. Seu olhar para o feio ganhou uma importância tal, que mesmo fotografando pessoas normais, notamos uma estranheza nelas. Em Movimento, num ambiente controlado por Charlotte, num apartamento extremamente organizado e limpo (e sempre em planos fixos para reforçar a sensação de experiência), é que ela se permite transgredir.

Além da questão ética – os homens eram seus pacientes – há uma relação entre fetiche, doença e moral que se misturam e torna a interpretação do que vemos um pouco turva. É nesse limbo que está seu marido, Max (Dragan Bakema). Eles se amam, são felizes sexualmente, a relação é estável e não é por algo estar errado que ela vai ao apartamento. É, talvez, por uma necessidade de ter um momento seu, que a isole do contexto familiar, da função que exerce. O fato deste momento significar sexo com outros homens não a faz se sentir culpada, mesmo ela tendo esta consciência, mas é o que a define como indivíduo e não como parte de algo. O que torna isso um problema é simplesmente a descoberta do segredo.

O filme tem caracteríscitas que me lembraram aquela ideia que se tem de cinema europeu. Os planos são longos, os cortes matemáticos. O filme é dividido em partes, lembrando Lars Von Trier e numa duração diferente da habitual. Há um tempo criou-se um preconceito com esse cinema justamente pelos filmes seguirem em outra velocidade, mais lenta que o cinema americano. Essa diferença se encaixa nos sentimentos do filme, já bastante silencioso: a permanência da câmera nas expressões da protagonista e no olhar perplexo do marido ajudam a criar uma atmosfera que nos deixa intrigados, queremos entender o que acontece com essa moça bonita, arrumada e de olhar misterioso, quase inocente e longínquo.

A aparente apatia da protagonista inquieta. O filme está centrado em seu olhar e nisso reside a força da atriz, Sandra Hüller. Conversando com um amigo, chegamos em Melancolia (Lars Von Trier, 2011), porque era esse o espírito. Nada com o fim do mundo, mas com uma inquietação que é transmitida por aquele olhar de ausência. Queremos dar essa liberdade à atriz e paz ao marido. É como se a diretora nos dissesse: o que importa agora é ouvi-la, mas ela não vai dizer tudo. Quando eles se mudam para a Índia, a mulher já não trabalha e teve dois filhos, mas ainda persiste o espaço entre eles. Por isso, não há como considerar os encontros a realização de um fetiche, mas uma válvula de escape – tanto que os lapsos de memória não são à toa, mas frutos de uma defesa inconsciente que a protege da lembrança do ato sexual, portanto da culpa.

Movimento Browniano incomoda. Não estamos mais acostumados ao silêncio – são tantos veículos para a comunicação que hoje o que está em extinção é o assunto – então a ausência de palavras intriga. Os cortes no limite da duração da cena, os planos fixos marcando o controle, e a câmera na mão a suscetibilidade dos ambientes externos não são à toa. Sem conhecer outros filmes, Nanouk Leopold chamou minha atenção. É um filme para ser visto sem pressa, entendendo que há – ainda bem – outro ritmo, nos deslocando da cadeira, deixando questões no ar. É um filme de grandes atores e com o equilíbrio perfeito entre silêncio e som. É daquele tipo do bom cinema europeu (não chato) que tanta gente tem medo e que, por isso mesmo, merece atenção.

Título Original: Brownian Movement
Diretora: Nanouk Leopold
Holanda, 2010, 97 min.
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Não sei desde quando eu gosto de Woody Allen. Não sei se foi no primeiro filme, mas é bem possível. Como é possível que minha mãe tenha me apresentado a ele – ela também é fã. Lembro bem de uma deliciosa tarde de cinema, em que fomos ver Desconstruindo Harry. Já falei bastante de Woody em outros textos, mas além de sua constante produção cinematográfica, o homem ainda tem livros publicados por ele e sobre ele e, não suficiente, aparece nos filmes dos outros.

Paris Manhattan é uma deliciosa comédia romântica francesa. Adepta desses filmes de carteirinha – também culpo minha mãe – fica cada vez mais difícil encontrar um filme inédito que preste, num amontoado de água-com-açúcar e outros muito fraquinhos com atores mais ou menos. Há também aqueles com roteiro sem noção que forçam a barra, mas esses não são comentáveis. Paris Manhattan ganha meu coração logo de cara quando encontramos a mocinha (a linda Alice Taglioni), aos 15 anos numa sala de cinema, sozinha. Ela não só é doente por Woody Allen, como já viu todos os filmes e tem um pôster gigante do cara em seu quarto. Não suficiente, ainda conversa com Woody Allen, que lhe orienta nos momentos complicados da vida, usando os diálogos de Manhattan, um de seus melhores filmes!

Ontem assisti Manhattan. Não foi minha primeira vez, mas queria rever, porque minha dúvida era se os diálogos de Paris Manhattan eram homenagem a um ou vários filmes. Estou acreditando que Sophie Lellouche focou só nesse, o que já é grande coisa. Manhattan é uma obra prima. Em preto e branco, é uma ode à cidade que Woody Allen mais ama, a número um em seus filmes, onde ele construiu sua carreira e uma nova cinematografia. Para quem não sabe, Woddy Allen faz um filme por ano e está numa fase europeia, mas o grosso de sua produção se concentra em histórias em torno da cidade. São pessoas comuns, quase sempre intelectuais (ou pseudo...) tratando da vida, dos problemas de gente comum, traição, neuroses, com graça e inteligência que fazem tudo parecer simples, sem soltar um palavrão ou ter uma cena de sexo que mostre demais. Manhattan é esse filme de encontros amorosos e frustrações, amizades e descobertas, revisão de preconceitos e de quebra, uma questão moral, com uma fotografia inacreditável.

Portanto, este francês já teria que ser bom só pela presença do diretor. Imagino que a esta altura de sua carreira – posso estar enganada e ele pode surtar também – dificilmente ele perderia tempo com alguma produção que não fosse, no mínimo, criativa. Aqui, Alice é uma jovem meio confusa, daquele tipo raro das moças bonitas e inteligentes que não conseguem se envolver com as pessoas certas e saem testando um monte de gente errada, depois se cansam, desistem por um tempo, respiram fundo e recomeçam. Ela está naquele momento em que todo mundo está muito bem, quem tinha que casar casou e ela ficou por ali, entre uma diversão e outra, um coração partido aqui outro ali e muito cinema na cabeça. Seus pais já não sabem o que fazer, além de tentar arrumar alguém pra filha.

Alice é farmacêutica e herdou o negócio do pai, que resolve instalar um alarme na loja quando se aposenta. É quando Victor (Patrick Bruel), o rapaz que cria e instala os alarmes entra na história. O ator me lembrou um pouco o argentino Ricardo Darín nos filmes de comédia, sendo este um pouco mais sarcástico e o francês um pouco mais leve, como manda o figurino. Depois de alguma resistência, a amizade entre os protagonistas acontece e se aprofunda. É ele quem acaba participando das histórias familiares e descobrimos que aquela família ridiculamente feliz e equilibrada tem algumas rachaduras. Para piorar, Victor nunca viu nenhum filme de Woody. O resto é estória e contar estraga.

Este é um filme de roteiro. A diretora surpreende em seu primeiro longa e também assina o texto. A trama é bem construída e nos tornamos amigos dos personagens, torcemos por eles. Por ter o peso do convidado especial, carrega uma responsabilidade, mas consegue manter o ritmo até o fim, isso porque nem falei da trilha de Cole Porter e outros clássicos. É um filme que lhe tira da sala do cinema e – como toda história bem contada – faz esquecer os problemas, sair do dia a dia. Não precisa ser fã do diretor/ator pra entrar na história, mas é mais gostoso quando se conhece alguma coisa. É um filme pra se ver acompanhado: com amigos, namorado, família. É despretensioso e guarda surpresas tão incríveis quanto às fórmulas de cura de Alice para os males de quem lhe visita na farmácia.

Músicas deliciosas, Paris se mostrando pra nós quase como uma provocação com tanta beleza e charme, diálogos incríveis. O filme me ganhou tão fácil, que fica até difícil escrever mais e melhor. Este é o único problema de ir ao cinema sozinha, a agonia de querer compartilhar, dividir as opiniões, conversar horas e prometer mais filmes. Mas se não tiver com quem ir, vá mesmo assim.

Título Original: Paris – Manhattan
Diretor: Sophie Lellouche
2012, França, 77min (curtinho!)
O Site!
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Quando contamos histórias, temos que ter uma certeza ou, pelo menos, ideia mínima de que são interessantes. Precisamos de nossos espectadores ali até o fim, criando uma novidade a cada virada de esquina, com um deslumbramento constante, um suspense, algum mistério que os mantenha esperando o que há para ver. Todas as histórias são assim, ou não são histórias.
Borges tem um texto já clássico chamado O Jardim dos caminhos que se bifurcam, que trata do encontro de seu protagonista com um livro-labirinto, cujas decisões podem gerar resultados infinitos. As múltiplas possibilidades de futuros a partir de uma ou algumas decisões é que torna especial a obra. As histórias do novo filme de Fernando Meirelles giram em torno de caminhos que se bifurcam, de escolhas. Decisões pequenas, como as do nosso dia-a-dia, que nem sempre nos pegam preparados. São estórias que se cruzam, cujas reações às escolhas também não serão nada como destruição ou construção do mundo, mas a manutenção ou transformação de um presente que impactará diretamente na vida dos demais, um pouco mais rico do que aquela história de graus de separação, em que todos se conectam em alguma instância. São os possíveis futuros múltiplos, a partir de decisões isoladas.
Fernando Meirelles já disse há muito a que veio. Com uma filmografia irreparável e agora internacional, o diretor brasileiro e sua equipe colaboram com esse novo capítulo do cinema de fazer calar a boca dos preconceituosos e superficiais que reclamam por aí. Daniel Rezende segue como montador, dando uma pincelada mais sutil nos efeitos, amarrando o sofisticado roteiro: os jogos com a tela dividida, eliminando o foco de um só personagem, a relativização das histórias e seus significados para cada um, a inserção da trilha, a montagem do quebra-cabeças, marca registrada do diretor. A fotografia reforça tanto os tons dos figurinos que caracterizam os personagens, quanto a distinção das cidades. Distorções de luz em túneis, tons pastéis para uma vida pastel, vermelho onde se quer mudar radicalmente. O branco da neve que confunde a paisagem e as ideias, como o álcool quando começa a fazer efeito, a maquiagem forte, os espaços que delimitam os personagens. Todos os elementos da construção fílmica mais uma vez são harmônicos e não estão ali de graça, nem o Anna Karenina que aparece de tempos em tempos.
O filme é baseado na peça La Ronde, de Arthur Schnitzler, que trata das relações sociais travadas entre encontros românticos de indivíduos de classes distintas ainda no século dezenove. Nestes 360 graus encontramos, resumidamente: uma publicitária de classe média-alta (Rachel Weisz) que tem um caso extraconjugal com um fotógrafo brasileiro que busca reconhecimento, seu marido (Jude Law), que tenta encontrar uma prostituta do leste europeu (Lucia Siposová) numa viagem de trabalho. A irmã desta mesma prostituta (Gabriela Macinkova que surpreende pelo talento e beleza) que escolhe não se envolver, mas que a acompanha, para dar suporte e conhece o motorista russo de um bandido classe A, casado com uma russa que se apaixona por seu chefe, um dentista argelino (Jamel Debbouze, de Amélie Poulain). O casal brasileiro (Maria Flor e Juliano Cazarré) que mora em Londres e entra em crise; o ex-detento americano (Ben Foster) em seu primeiro dia de liberdade; um senhor inglês (Anthony Hopkins) que busca o paradeiro da filha e cruza com a brasileira no avião. Com tantas ideias mais para uma série televisiva do que um só filme, o desafio foi amarrar tudo de forma contundente, concisa e que não deixasse nada escapar, mantendo todos os seus ápices e entrelaçando os finais.

No emaranhado de situações, as relações se dão com diferentes tipos sociais de culturas também distintas, sempre. Dos executivos ingleses e russos a iniciantes prostitutas de luxo do leste europeu, imigrantes brasileiros tentando a vida lá fora, presidiários, pobres, ricos. O filme busca participar desta teia de encontros não casuais e nos faz perguntar se aconteceriam numa outra circunstância, que não emocional, sexual. Os resultados das histórias reforçam as distinções de classe e sua manutenção, como um pano de fundo, uma idéia sutil por trás de uma trama que surpreende pela sofisticação da estrutura. Vemos desde relações de poder que coisificam, como o olhar cuidadoso que humaniza, mas não salva, num ciclo sem fim ou começo, como um círculo mesmo. A sinopse de um jornal diria: histórias que se cruzam a partir das escolhas de seus protagonistas. Suspense, drama e romance são ingredientes de um filme que surge sem gênero definido, mas completo em complexidade e maturidade de direção.
Sair deste filme é um tormento. Queremos continuar sentados, acompanhando aquelas trajetórias e embalados pela trilha sonora de músicas que eu não conhecia e que são lindas, tentando decidir pelos personagens ou entender suas decisões, ainda que não concordemos. Queremos nos aprofundar, tudo ali é interessante, as cidades espalhadas pelo mundo, o que conseguimos ver de suas ruas, como se vestem, os sotaques – lembrou Cegueira no mesmo estilo cosmopolita – idiomas e comportamentos diversos e como dialogam com a moral e conceitos de classe e sociedade. As histórias estão grávidas de futuros e nos deixam ansiosos, mesmo passando pouco tempo com cada uma delas, nos despertam um querer saber mais, uma afeição, uma aflição, um carinho. Porque a construção de cada personagem foi complexa o suficiente para que não houvesse a dualidade barata, mas camadas de personalidades distintas e que precisam ser descobertas.
Um trecho dos Jardins de Borges diz assim: Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam. Quase de imediato compreendi: o jardim de caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários futuros (não a todos) sugeriu-me a imagem da bifurcação no tempo, não no espaço. A releitura geral da obra confirmou essa teoria. Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts'sui Pen, opta - simultaneamente - por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam. Como o filme nos deixa o presente dos personagens em histórias concluídas mas não terminadas, vivemos junto com eles à espera de um cruzamento na pista, para decidir um novo rumo.
***
Agora, buscando o pôster, encontrei o blog da produção do filme. Aqui!
Título Original: 360
Diretor: Fernando Meirelles
Reino Unido, Áustria, França e Brasil.
2012, 110min.
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Outro dia li uma matéria sobre Jonathan Frazen, escritor do mais novo e comemorado best-seller Liberdade. Ganhei o livro e não o li ainda, mas o que me despertou foi sua fala sobre a importância do romance na cultura. É até óbvio pensar isso, sendo ele um escritor de romances, mas é bom que o assunto apareça quando livros de auto-ajuda e biografias desnecessárias pipocam por aí. O romance nos transporta para outros mundos, estórias de vidas possíveis e impossíveis, culturas distintas. Criamos um filme para cada livro que lemos. O romance é desprendido de obrigação; se lê por prazer. Para o romance precisamos de tempo, daquele que não tem nada a ver com internet, tecnologia, bate papo, rede social. O romance só precisa que você se aninhe numa poltrona gostosa e preste atenção.

Não conheço muita gente que lê assiduamente. Como também não conheço muita gente que gosta de Woody Allen (que também escreve!). Acho que os filmes dele são como esses romances aparentemente simples, mas que vão te ganhando página por página e às vezes o prazer que sentimos nem está na história em si, mas na forma como somos levados por ela, na narrativa.

Já falei que Woody usa o cinema clássico como base para seus filmes. Há o narrador onisciente que pontua o que é importante e os filmes costumam misturar gêneros, mas sempre de forma diferente, com aquela característica sutil que define um cinema de autor – quando sabemos, ainda que por intuição, quem é o diretor (o produtor ou o roteirista) do que estamos vendo. O último, Para Roma, com amor não é diferente.

A grande decepção está em quem imagina que esse filme será como Meia-noite em Paris. Meia-noite é incrível e surpreendente, tem uma trama original e o diretor se aproveita da onda cultural europeia dos anos 20 pra fazer uma de suas melhores comédias. Roma, que também não é como aqueles filmes nova-iorquinos que fizeram sua carreira, segue outro caminho. Ao invés de se concentrar numa única trama, os contos acontecem como nosso narrador explica, que em Roma, tudo é uma história. A partir daí temos um pai de família de classe média (Roberto Benigni) que se torna famoso da noite para o dia e sem motivo, com direito a paparazzi; uma moça do interior que se perde na cidade e termina num quarto de hotel de um ator italiano; o marido dela que entra numa confusão com o futuro chefe e uma prostituta (Penélope Cruz), não suficiente Woody Allen é pai de uma americana que vai se casar com um italiano socialista e descobre no pai deste um cantor de ópera e ainda, Alec Baldwin junto com Jesse Eisenberg e Ellen Page numa história deliciosa sobre o romance propriamente dito. Acho que não falta mais nada. Com tantos recortes, só nos resta entrar com a pipoca e nos perder pelas ruas e paisagens italianas.

O filme que traz a comédia como ponto forte, destaca com ela as outras ideias do momento: a fama sem motivo e prazo determinado, o que consideramos arte, a vaidade e, o simples mesmo, os costumes. Alec Baldwin faz o papel do ‘fantasma’ que assombra a consciência do personagem de Eisenberg, que vai receber em sua casa a amiga da namorada. Ellen Page chega e, se de imediato não impressiona, depois de um tempo e algum jogo de sedução, se torna uma paixão avassaladora. Ela me lembrou a personagem complicada de Cristina Ricci em Igual a tudo na vida (Anything Else, 2003). O mesmo jeito nervoso, a mesma farsa cult. O momento Benigni traz de volta a comédia italiana num papel de homem simples e perdido na vaidade que lhe foi imposta com a fama. Não preciso nem lembrar as referências de fama volátil (jogadores de futebol, bbbs e a lista é grande) que temos por aqui. Essa brincadeira também remete àqueles nossos programas matinais incriveis e de conteúdos sempre fundamentais aos seres humanos, como o que o artista fulano comeu no café da manhã. 

As delícias desse filme não se comparam à fantasia de Meia noite. Aqui temos estórias diurnas, rápidas, contidas nas falas altas de Penélope Cruz, no noivo italiano lindo, charmoso e sério (para contrariar o estereótipo), nos jantares tensos de sua família, no conto da paixão de verão. Essa fase Europa de Woody Allen vem cheia de novos sabores e cores vibrantes – a impressão que dá é que o fotógrafo agora tem uma importância maior – ou que nos outros filmes não nos preocupamos tanto, por serem sempre nos Estados Unidos. Talvez o mais distinto de todos seja, na verdade, Vicky Cristina Barcelona mas, ainda nele, vamos umas neuroses palpitando aqui e ali.

Para Roma com Amor é fortemente um filme turístico; vemos tudo o que é bonito e agradável. É um filme que acontece no cotidiano das pessoas, na forma em que as histórias simples funcionam, com leveza e graça. Os filmes de Woody deixam a impressão de que são fáceis de fazer, mas sua construção é complexa. Orquestrar uma equipe deste tamanho – ainda que seja só uma parte do todo (porque o diretor não precisa falar com toda a equipe sempre, mas com os que estão mais próximos) – e manter o clima do filme leve é um grande trabalho. Conseguir o resultado que vemos e com a qualidade e o talento de sempre, só se consegue com uma rotina de produção constante. Vale lembrar que nosso diretor faz em média um filme a cada um ou dois anos, cronograma apertado para muitos artistas. O que me deixou preocupada na verdade foi notar que a idade está finalmente chegando pra Woody Allen. Ele pareceu estar mais frágil fisicamente nesse filme. Ainda assim, não perdeu a mão e agora só nos resta esperar o próximo romance, em qualquer poltrona, com cinema ou literatura.

Título Original: To Rome, with love.
Diretor: Woody Allen
2012, EUA, Itália e Espanha. 112min.
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Buscar apartamento no Rio de Janeiro não é uma tarefa fácil. Não é para corações fracos e há que ter estômago. É uma situação absurda frente o valor dos imóveis (especialmente na zona sul) e a abordagem anacronicamente esnobe das imobiliárias. Parece sempre que estamos pedindo um favor: por favor, me permita alugar este imóvel por um preço abusivo. Nesse momento, precisamos parar um pouco pra respirar. Tem gente que enche a cara, faz meditação, terapia, se estressa ainda mais... entre tantas coisas que também faço, uma delas é imprescindível: ir ao cinema. São várias opções para destilar o ódio no coração que fica fácil passar duas horas numa sala escura não pensando na vida real.
***
Outro dia consegui escolher o filme: O Exótico Hotel Marigold é uma comédia leve, com grandes atores e que parece ser um desses filmes de verão, só que inglês (ao invés daquelas coisas meio sessão da tarde americanas). Com um roteiro leve e promessas de satisfação garantidas no trailer, ficou fácil. A história começa com a apresentação dos protagonistas: uma turma no fim da meia idade, insatisfeita com a vida que leva na Inglaterra, encontra num site a propaganda deste hotel magnífico, numa área paradisíaca da Índia e prometendo uma experiência única de vida. Um espaço para passar seus golden years em grande estilo. O grupo se conhece no aeroporto ao descobrir que têm o mesmo destino.

No elenco indiano, encontramos Dev Patel (o protagonista de Quem quer ser um milionário), como o gerente do hotel. A interpretação dele incomoda um pouco. Não sei como são os indianos na vida real, mas este me pareceu extremamente agitado para qualquer padrão. Com uma necessidade de sempre agradar os clientes num hotel caindo aos pedaços e os tendo como únicos hóspedes, não poderia ser diferente, mas ele sustenta uma aura de extrema ansiedade, combinada com uma agitação exagerada. A falta de respiração é tão constante que sua presença cansava, imaginando aquela positividade como uma esperança diante do impossível, uma agonia romântica. Em contrapartida, quase todos os outros personagens indianos do filme são pacientes, na medida correta (ou verossímil...).

Judi Dench é quem carrega o filme do lado inglês. Ela é nossa narradora ocasional a partir do momento que decide escrever um blog para contar ao filho à distância, a nova aventura. Ela acaba de se tornar viúva e viver na Inglaterra sem o marido perdeu o sentido. Como alternativa, resolve partir do zero num país desconhecido, completamente diferente de tudo o que já viu e com pessoas que lhe eram estranhas. Com coragem, consegue um emprego numa empresa de telemarketing, tendo como diferencial treinar os funcionários para atender o púbico de que faz parte adequadamente.

Encontramos também outros grandes atores, todos nomeados no cartaz, com destaque para Bill Nighy, no papel do marido que todos gostaríamos de ter. Este homem doce e gentil sofre com a intolerância da esposa que não consegue enxergar além de seu universo de mulher mimada e preconceituosa portanto, não se adapta.

Ainda e não menos importante, Maggie Smith faz uma das personagens importantes, talvez a que mais se transforma. Com uma postura rígida, acompanha a maior parte das outras estórias individuais, mas, ao contrário de Judi Dench que nos conta um pouco mais de si e dos outros, a primeira atua como uma observadora crítica e distante. Ao mesmo tempo, a partir do momento em que necessita da ajuda de outro e aí o confronto com as diferenças entre as culturas se torna evidente, é que surge a reviravolta e sua história se transforma.

Cada um parece estar ali não apenas para essa experiência exterior, como para – lembrando Comer, Rezar, Amar – se reencontrarem. Os dois filmes são parecidos nesse sentido; os personagens vão a um lugar diferente, buscando o estranho e acabam reconhecendo e relembrando quem são. Como o roteiro é  estruturado em cima de um grupo protagonista, temos ritmo e alguns momentos-chave; as interpretações dos estereótipos ganham peso frente às estórias particulares que devem preencher. Ali, sem conhecer ninguém, não é necessário manter uma máscara ou uma postura defensiva, mas dá para baixar a guarda e se permitir não censurar.

Com uma leveza nada boba – ao contrário de Comer... que acaba irritando quem o assiste – o filme nos guia entre piadas, estórias nem sempre tranqüilas e uma boa dose de sinceridade. Judi Dench nos carrega e junto com seus novos companheiros de vida mostram que uma nova oportunidade está sempre ali – com o perdão do clichê – basta saber procurar. Neste caso, a conclusão do filme tem ainda um plus, de não sabermos exatamente como terminaria cada estória, sem, no entanto, deixar nada por responder.


Título Original: The Best Exotic Marigold Hotel
2011, 124min, Reino Unido.
Diretor: John Madden.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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