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Café: extra-forte

Correndo contra o tempo e tentando conciliar muitas obrigações e pouco lazer, finalmente assisti a Sete dias com Marilyn, com grande expectativa depois de ter visto o trailer e o lindíssimo cartaz. Saber que Michelle Williams faria o papel me convenceu sem precisar de sinopse. Vamos falar dele?

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Sete dias com Marilyn

O filme trata da adaptação do livro de Colin Clark (Eddie Redmayne), na época terceiro assistente de direção, que conviveu com Marilyn Monroe e o elenco de O Príncipe Encantado, com sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh). Segundo a estória - que ainda carrega a experiente Judi Dench e a mocinha de Harry Potter, Julia Ormond em papéis menores - Laurence era apaixonado por Marilyn e achou que trazendo ela à Inglaterra, conseguiria um grande filme e um grande amor. Só não sabia quão difícil seria conviver com uma estrela ainda maior do que ele.

Michelle Williams é Marilyn, uma atriz no auge da carreira, com trinta anos, três casamentos e não à toa, problemas com barbitúricos. A atriz consegue carregar a protagonista como eu não imaginei que ela fosse capaz, com toda a insegurança por trás do mito, seus problemas, mimos, dificuldades, refletindo ainda numa carência e numa dependência de todos que estavam ao seu redor. A atriz - que não tinha traços nem o corpo da diva - se transformou de tal forma que era impossível não ganhar o Globo de Ouro. 

Colin foi o garoto novo que deu a sorte de cruzar olhares e cativar a grande atriz. Com um jeito de ‘menina levada’, fetiche dos homens de então, todos se apaixonavam por ela por ser diferente, por não ser o padrão da mulher recatada e certinha da época com quem todos acabavam casando. Busquei a biografia da moça e sua história traz respostas: Marilyn não teve a família tradicional, foi abandonada pelos pais e viveu entre orfanatos e casas de família. Casou aos 16 para evitar outro orfanato e foi descoberta para o cinema com uma beleza e um carisma inigualáveis até hoje.

O filme me lembrou Sex and the City. Morando sozinha e sem tv a cabo, acabei aproveitando para rever alguns episódios e relembrar minhas amigas de Salvador e outras que fiz no Rio, hoje espalhadas pelo mundo. São as conversas intermináveis nos cafés, almoços, cinemas, bares e livrarias que me ajudaram a sobreviver nesses anos de pós-adolescência. A chegada à vida adulta, ao trabalho, estudos, moradia e relacionamentos precisam de muito debate, sempre. Ainda na série, o grande sucesso está na facilidade com que as quatro mulheres solteiras e bem sucedidas de NY vivem e tratam de sexo, carreira e relacionamentos de uma forma nunca vista antes – pelo menos na televisão. 

Há uma honestidade nas cenas, uma franqueza e um despudor que ao contrário de vulgarizar, torna os diálogos realistas e sinceros, não como um guia de comportamento, mas em conversas íntimas e finalmente compartilhadas, trazendo pra mesa o que antes ficava preso em casa e nos diários. As referências para as histórias, a moda, o sexo são reais e tão fundamentais para a formação quanto a educação que tivemos em casa ou a escola de nossa infância. Essa terceira etapa ajuda a nos definir, a desenvolver a personalidade, reforçar amizades e, porque não, contribuir para o nosso posicionamento com o mundo. 

Marilyn aparentemente não teve isso. Muito cedo ela viveu o sucesso e a solidão. Segundo o filme, as amizades não eram mais do que muletas ou profissionais em atendê-la de pronto e personalizadamente. Ao encontrar com nosso escritor, ela chega perto de vivenciar uma experiência, um romance de sonho pra ele e o que poderia chegar mais perto de pessoa normal pra ela. Por isso ela se apegou a ele naquela curta semana, por ver ali a possibilidade de algo puro e sincero e, no mínimo, uma companhia. Ainda assim, falamos de um mito, uma lenda e é assim também que a vemos aqui. O filme nos deixa apaixonados pelo personagem que Marilyn Monroe se transformou, basta relembrar a cena em que a protagonista canta na banheira ou ri com o protagonista em casa. 

O que dá o que pensar é que tanto as mulheres de Sex and the City quanto a Marilyn deste filme têm quase o mesmo perfil. Guardadas as diferenças de contexto, são mulheres bem sucedidas que são ou querem ser livres e percebem mais ou menos da mesma forma os relacionamentos, sempre desafios e enigmas. No entanto ainda hoje – poucos anos depois da série e muitos depois da atriz – o pensamento continua o mesmo. As histórias íntimas de todas estas personagens corajosas se repetem com as pessoas normais de qualquer tempo. 

Os romances, as críticas, os envolvimentos, ser solteira, namorada, casada, amante, de caso, com mais ou menos censura e dinheiro, perpassam gerações – o que muda são os termos, o tamanho das saias, a etiqueta. Até os preconceitos são iguais. Aparentemente, o que faltou a Marilyn foi a companhia feminina, ouvidos atentos e bocas doces e sarcásticas que a ajudassem com as dificuldades da vida.

Enquanto na década de 1950, Marilyn dominava os corações, audiências e filmes americanos exibidos no mundo inteiro, hoje vemos outras tantas Marilyns – respeitando a importância e singular majestade da primeira – em nosso cotidiano. A personagem que eu vi neste filme, engrandecida pela fotografia privilegiada, linda e característica da época, me passou uma ideia de uma mulher extremamente frágil – ou uma menina – lidando com uma pressão muito grande e uma exigência em se manter personagem a todo instante, sem nem saber direito quem é. 

Marilyn Monroe se fundiu em fantasia e realidade. Não me recordo de outros filmes que tragam cenas de sua história real à tona – mas imagino que existam alguns documentários – mas este trouxe o mito para mais perto de nós. Ainda assim, a impressão que temos é a de que é impossível não se apaixonar por ela. E, claro, agradecer por ser a pimenta que foi, ajudando a trazer um pouco mais de leveza e graça às vidas das mocinhas certinhas de então. Se é que elas realmente existiram.

Título Original: My week with Marilyn
2011 / UK, USA / 99min
Dir.: Simon Curtis.
Site oficial
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Agora me dei conta que não escrevi nada sobre o Chile. Foi minha primeira viagem pra fora do país sozinha. Não conhecia ninguém, à exceção de um contato de uma amiga de uma amiga que ia se casar por lá. Claudia é chilena ia se casar com um carioca em Santiago e generosamente me convidou para a festa. Sem nunca ter me visto.

Descobri que quando viajando só, as coisas mais fantásticas podem acontecer a qualquer momento, em qualquer esquina. Este casamento para poucos é um grande exemplo. E o mais legal é que não conhecendo ninguém, absolutamente tudo se torna novo. A cerimônia foi linda e rápida, percebi que se não todos, muitos eram amigos próximos e que estavam ali com a alegria de ver duas pessoas que se amam, casando. Me colocaram na mesa dos brasileiros e o que achei que ia ser um evento – para mim, de poucas horas – me fez ficar até o final e acordar meus colegas de quarto quando cheguei ao albergue. Bebemos muito, dançamos ainda mais e comecei a viagem da melhor forma possível.


Santiago é uma cidade especial. Provavelmente essa é uma frase que vai se repetir em todas as viagens, já que cada uma deve abarcar um monte de coisas, lugares e culturas interessantes. O negócio é que todos que tinham ido à Santiago (bem menos pessoas conheciam, ao contrário de Buenos Aires), me falavam que a cidade não era nada demais e nem tão charmosa quanto a portenha, que realmente é incrível.

Santiago é limpa, organizada, seus sistemas parecem funcionar muito bem e todas as pessoas foram muito educadas, simpáticas e prestativas. Do segurança do metrô a todos os policiais. Não é uma cidade de tango, ou cidade sensual como as nossas, mas ela vai te encantando sutilmente, você vai criando intimidade aos poucos e se surpreende sempre com a brutalidade com que a natureza se apresenta no meio de uma capital federal. É virar uma esquina e está lá, a cordilheira, como um imenso desafio, piscando pra você.


Em Santiago, os homens não te cantam nas ruas (à exceção do moço do caminhão que me mandou um beijo e pediu uma foto) e nas boates, te convidam apenas para dançar. E te pedem que olhe nos olhos. Essa é uma diferença brutal de comportamento, pelo menos pra mim. Quando nos chamam pra dançar no Brasil é um indício de que vão, no mínimo, lhe tocar, abraçar, encostar em você... e nunca se preocupam com os olhos. O rapaz que me convidou não estava interessado em mim, mas em outra brasileira do meu albergue e foi por isso que começamos a conversar. Ele era um pouco tímido e ela não se interessou. De alguma forma participei do assunto, já que ela não entendia muito espanhol e fui facilitar o diálogo. Terminei conversando bastante com ele, que tinha uma doçura no olhar, misturada com uma firmeza, alguma segurança de pessoa tranquila. Dancei com ele, mas era estranho perceber que ele ficava em encarando. Era estranho e divertido ao mesmo tempo. E intimidante. Até que ele percebeu e me questionou, por que eu não olhava pra ele. Expliquei que era muito diferente pra mim e que ficava tímida, e então ele me deu a sacada da coisa toda: se você olha nos olhos de um rapaz, ele é quem fica tímido e abaixa o olhar. E com isso, entendi como a cidade funcionava.


Quando começo a pensar nesta semana, milhões de pequenas histórias passam pela cabeça, não tanto como filmes, mas como um complexo amontoado de percepções íntimas, emoções de todo tipo, cenas incríveis, diálogos e vinho, muito vinho bom e despretensioso.

Fiquei num albergue perto da Avenida Brasil, mas foi sem querer. La Princesa Insolente me ganhou pelas fotos e pela pesquisa, e acertei em cheio. Não ficava no pico turístico, nas Ipanemas ou Copacabanas, mas era um espaço acolhedor e com muita gente disposta a conhecer mais gente ainda. No meu quarto eram 2 rapazes e 2 moças, contando comigo, mas nunca o mesmo grupo todas as noites. Um deles mais tarde se tornaria um companheiro acidental de quase a viagem inteira, incluindo o Atacama. Fabien é suíço e também estava viajando sozinho, com uma duração de jornada que só europeus e norte americanos conseguem ter.  Eu tinha uma semana em Santiago, outra no Atacama e parecia surreal só quinze dias para tanta coisa. De uma forma maluca, consegui encontrá-lo nas duas regiões e viramos companheiros de viagem, sempre trocando informações fundamentais, não importando se estávamos juntos ou não. A internet facilitou bastante o processo e íamos empolgando um ao outro sobre o que fazer ou não, especialmente no Atacama.


No topo do morro La Concepción tem uma santa. Como o Corcovado daqui, só que com outro clima. Claro, tinha o turismo, mas tinha silêncio. Todos tiravam fotos, mas falavam baixo e tinha uma arquibancada para sentar e ver a cidade inteira lá embaixo. Tinha também aquelas estantes com milhões de velas, promessas, pedidos e flores. A impressão que eu tenho é de que a cidade tem um tempo diferente. As pessoas param. Sentam, olham a vista, ficam nos parques, namoram. Olham nos olhos. Basta lembrar de Neruda e sua história e já dá pra ter uma ideia. E Salvador Allende. E o GAM. E a Catedral. E a garota da Catedral, desenhando calada o que acontecia ali.

E os cachorros? Santiago é uma cidade de cachorros. Estão em todos os lugares, vira-latas bem alimentados, tranquilos, convivem pacatamente com todo mundo. Estava no centro, atravessando uma rua para chegar ao prédio lindo do Correio, um monte de gente esperando o sinal. Uma policial estava do meu lado e um cachorro entre nós. Ele fez que ia atravessar antes da hora e a policial lhe chamou a atenção como se fosse dela. O cachorro obedeceu e atravessou a rua conosco. Não vi cocô nas ruas. Não sei como eles fazem para lidar com isso, mas nesse mesmo dia visitei o Museu de Arte Pre-colombiana, que também achei que ia ser um passeio rápido e me tomou um tempão. Lá tinha a história de como os cachorros eram elementos fundamentais da cultura. Tem uma escultura de um cachorro e uma explicação de que naqueles tempos eles eram guias de passagem para quem ia a La tierra de los muertos. É uma fidelidade que se mantém hoje, ainda mais quando lembramos dos filmes, tem até um com Richard Gere (com cara de ser bem meloso e ruim) que fala disso.


Em novembro, Santiago é quente e agradável de dia e fria à noite. O clima é meio seco, o que faz um bem danado pros cabelos e pra pele, desde que você também use hidratante. Senti mais sede do que o normal e era uma boa desculpa pra provar os sorvetes deliciosos de lá. Como não estou podendo comer frutos do mar, perdi uma grande parte da gastronomia, mas passei bem com as carnes e legumes. É uma cidade em que a comida não é das mais baratas, mas pra quem vive no Rio, tudo é possível e as porções são generosas. Ah! E as empanadas são sensacionais. Bem como as lojas de departamento. Precisava de roupas para o deserto e foi o que me salvou.


Esse ano, trabalhando no É Tudo Verdade, acabei conhecendo um casal de chilenos. O marido era protagonista do documentário do filho e passei alguns momentos com eles. De novo, pessoas incríveis, educadas, calorosas e tranquilas. Deve ter algo diferente na água de lá. E pensando bem, tem muito mais pra falar, mas vou deixar os pensamentos se organizarem um pouco mais, junto com as lembranças das pessoas e mais histórias surgirão naturalmente. Santiago não tem fim e ainda nem falei do deserto ao norte ou da minha vontade de ir ao sul. As viagens nunca terminam, eu acho. São sempre uma sequência de portas sem fechaduras. É só sair empurrando.
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Assisti outro dia, Ausência de Malícia (1981) de Sidney Pollack. O filme trata de uma jogada política sagaz, onde Paul Newman dá um show e ainda vemos Sally Field novinha. Filme bom, inteligente e gostoso de ver, foi indicado ao Oscar para melhor ator, roteiro e atriz coadjuvante, concorreu ao Globo de Ouro como melhor roteiro e melhor atriz (Sally) e no Festival de Berlim, vale pra uma tarde de preguiça no fim de semana. Lembrando disso e das fotos de Marlon Brando, resolvi trazer Paul Newman para trazer um pouco mais de beleza e qualidade ao blog.

A Vanity Fair fez em 2008 uma matéria legal sobre Paul, não só um dos caras mais bonitos do cinema, como um grande ator.

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Em Ausência de Malícia, com Sally Field. 

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Actor's Studio

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Butch Cassidy

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Com a esposa, Jane Woodward

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Jogando com Robert Redford
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O trailer chama atenção por já trazer os principais focos de tensão da história. Mas, mesmo sem vê-lo, só o cartaz é suficiente. Tomboy conta a chegada de uma nova garota à cidade, que está entrando na adolescência e começa a definir sua sexualidade.

Laure (Zoé Haren) tem 10 anos e acaba de se mudar com a família para uma nova cidade. Uma tarde, decide sair para conhecer os vizinhos e ao se apresentar, assume o nome de Mikael. A apresentação do filme é seu grande trunfo: as consequências e os comportamentos de Laure na rua e em casa são tão improvisados quanto essa nova identidade que concebeu para si.

O silêncio é a marca maior da produção. Voltando ao cartaz, vemos um mistério no rosto da protagonista. É ela, de cabelos curtos e camiseta, numa expressão séria e uma parede floral ao fundo. Esse é o momento em que sua irmã desenha seu retrato e pede que ela fique quieta enquanto termina. Mas a expressão, a paciência de Laure e o mistério que seu olhar carrega marcam o filme; ela é uma jovem calada. Por ser assim, por guardar para si o que lhe acontece, é que a narrativa funciona.
A câmera acompanha sua trajetória se fixando sempre no olhar; em Laure observando os garotos para mimetizá-los, em Lisa, a amiga e líder do grupo de quem passa a gostar e que se torna sua namoradinha, nos encontros com o espelho. Ao mesmo tempo, a acompanhamos em casa, nas brincadeiras com a irmã Jeanne, com os pais. Somos levados a participar da vida desta garota em planos quase documentais: não há música na maior parte do tempo, a luz é natural e os planos com poucos movimentos ampliam a visão da história que se desenrola, deixando que nos concentremos mais nas ações dos personagens do que em jogos estéticos de planos inusitados.

A questão de gênero e talvez da inocência são mote do filme e nos fazem pensar em quando e de que forma também nossas preferências sexuais são definidas. Laure se enxerga como um menino? Ela quer ser um menino? A protagonista não parece se importar com as diferenças entre ela e os garotos e só soma alguns apetrechos para não quebrar a ilusão criada. Ao mesmo tempo, se deixa maquiar por Lisa que se surpreende em como ela fica bem de menina. Outro destaque é quando sua mãe a obriga a usar um vestido, aumentando a tensão já no desenrolar do clímax. É aqui que percebemos duas fortes questões: como Laure se envergonha de usar a roupa e como sua família se comporta com essa reação. É como se a protagonista quisesse desaparecer, já que não pertence àquela situação e não se enxerga sob aquele figurino/personagem. Na verdade, sua mãe é quem a quer mais feminina – ainda que não imponha isso a maior parte do tempo, deixando-a livre para se vestir como quiser – e o pai está sempre ausente, mas com o abraço consolador que nada resolve, a relação de Laure com sua família acaba de se enchendo de não-ditos e mal-entendidos.
Com um filme tão sensível e tratando de personagens em formação, a diretora ainda teve uma grande ideia: chamar os amigos de Zoé Haren para participarem como atores mirins. Assim, ela ficaria mais à vontade no papel estando diante de conhecidos e a relação entre as crianças seria mais natural. Para fidelizar o personagem, Zoé cortou os cabelos e a transformação funcionou: ao olharmos para esta criança, não sabemos se é uma menina ou menino.
Apesar do filme se centrar na protagonista e na força de sua história, sua irmã não passa despercebida. Jeanne (Malonn Lévana) tem 6 anos, é esperta e atenta. Engraçada como se isso fosse parte não só do personagem como de si mesma, suas sacadas quebram a tensão do filme e trazem leveza, reforçando a intenção da diretora em manter a narrativa focada nas crianças. É ela que tem mais falas no roteiro e quem primeiro instaura a tensão em Laure da descoberta da farsa, quando abre a porta de casa para Lisa, que procura por Mikael.

Tomboy, que não tem palavra similar no português, significa menina que gosta de brincadeiras e atividades tipicamente de meninos. Não suficiente, o filme se apodera do sentido e o estende até o limite; tudo o que encontramos para caracterizar Laure é masculino: o quarto azul sem detalhes femininos, bonecos masculinos, roupas. Ao mesmo tempo, não aparenta uma confusão ou uma negação do corpo, como dito anteriormente. Talvez a idade ainda não propicie mudanças tão drásticas às crianças que ainda estão descobrindo a sexualidade e entrando na adolescência. Não é à toa que Lisa se interessa por ele/ela; já conhece todos os garotos e o mais misterioso e que não é como os outros é Mikael.

Cheio de grandes questões, esse é um filme simples. Com muito pouco e filmado em um verão, é o segundo longa de Céline Sciamma, feito de forma ainda mais enxuta que o primeiro, Lírios d’água (Water Lilies, 2007), que também aborda sexualidade e homossexualismo, só que na adolescência. Acredito, entretanto, que Tomboy não entra nessa classificação que o reduziria, mas como uma obra aberta e sensível. É um filme sobre a infância e o início da adolescência, um período de descobertas e formação, que aqui vivenciamos de forma leve e gostosa, nos permitindo tanto voltar no tempo e lembrar nossa própria história quanto pensar em como seria o futuro desta.

Título Original: Tomboy
Diretora: Céline Sciamma
2011 França / 80 min
Site Oficial
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O primeiro filme do Oriente Médio que eu vi na vida acho que foi Filhos do Paraíso, do diretor Majid Majidi. Por coincidência também é iraniano e lembro que na época eu já tinha essa vontade de ver filmes de vários lugares do mundo. O que me deu segurança foi o fato de ser um filme sobre crianças, de ser de lá e, é claro, a nominação ao Oscar de filme estrangeiro em 1997.

Enquanto ficamos em dúvida sobre algumas escolhas das outras categorias, a de Filme Estrangeiro merece crédito. Eles selecionam os melhores filmes do ano de verdade e ainda ficamos sofrendo com outros incríveis que não entram. Só pra lembrar, o ano passado foi de Em um Mundo Melhor e em 2010, O Segredo de Seus Olhos. Quem conhece vai concordar com qualquer prêmio que seja dado a eles. Esse é o ano de A Separação. De Filhos pra cá, tenho buscado ver esses filmes de terras distantes e não só isso, a cinematografia de lá tem uma estrutura própria, uma forma de contar histórias que me agrada. É mais próxima dos filmes realistas e documentais, do próprio neo-realismo italiano com não-atores, um pouco de cinema novo, só que mais fluido e de uma sensação firme de que o que se conta ali é de fato o que acontece na vida real. Essa marca se torna ainda mais forte se imaginarmos uma história parecida contada pelo cinema americano.


A Separação trata de um casal em que a mulher pede o divórcio porque quer sair do Irã e o marido se nega a acompanhá-la. Ela só poderia sair com a separação e queria levar a filha adolescente, para que fossem viver num país em que tivessem mais liberdade e que sua filha pudesse fazer suas próprias escolhas. O marido não pode ir porque precisa cuidar do pai com Alzheimer e não quer perder a guarda da filha. Com o problema estabelecido já na primeira seqüência, entendemos que esse filme quer nos contar mais algumas histórias.

Enquanto Filhos do Paraíso ganhou o mundo contando uma fábula terna sobre uma garotinha pobre que perde os sapatos e não pode ir à escola sem eles, A Separação traz uma história adulta sobre questões cotidianas e de mudança de comportamento - por isso se tornam universais - ao invés de reforçar marcas culturais específicas. Essa atualidade do cinema iraniano não vem apenas com esse filme, mas com o que Abbas Kiarostami e Samira Makhmalbaf, pra citar apenas dois diretores, vêm trazendo ao longo dos anos.

Quando vemos um filme iraniano imaginamos outro tempo, um alongamento da narrativa, preso em pequenos pequenos detalhes que vão transformando a história aos poucos, sempre mantendo a religião como marca forte, quando não o centro por onde a narrativa se desenvolve. Aqui, o diretor consegue – e talvez esse seja um dos primeiros filmes iranianos com essa marca – se concentrar na ideia de que as mulheres estão buscando seu espaço no mundo, são profissionais que precisam ajudar a sustentar a família e os homens têm que aprender a lidar com essa nova estrutura familiar. O arranjo ainda não funciona pra maioria, mas perceber famílias modernas num país extremamente radical e notoriamente desigual com em relação aos gêneros nos faz repensar nosso conceito sobre o país.

O filme tem uma graça que lhe é própria, há um despreparo do marido em viver sem a esposa que sempre cuidou de tudo – como as nossas brasileiras com dupla e tripla jornadas de trabalho – e de lidar com a nova diarista grávida, devota à sua religião e que por isso não pode fazer algumas atividades, como cuidar apropriadamente de um idoso. Para se ter uma ideia, ela não pode ser tocada ou tocar em outro homem que não seu marido. Há ainda a filha da diarista que nos ganha só com o olhar e as peripécias com o novo avô que ganhou inesperadamente.

As principais mulheres do filme explicitam essa idéia de mudança de comportamento. A forma com que se vestem seria o primeiro indício; enquanto a mulher que quer se divorciar é professora e usa roupas mais leves – inclusive a que lhe cobre os cabelos vermelhos – a outra usa trajes pesados, como se o fato de se cobrir mais do que a outra a tornasse mais pura e protegida contra os males do mundo e ainda trabalha escondido do marido. A relação que estabelecem com seus maridos, idem: a primeira, já que não pode tê-lo para conquistar o que almeja na vida, pede o divórcio, para que cada um viva de acordo com o que entende como correto, enquanto a outra está sempre submissa, escondendo com medo as mais inofensivas descisões e atitudes. E mais, a religião - que como dita comportamentos, regras e leis no Irã - não pode ficar de fora. Tanta é a devoção religiosa da diarista, que lembra um pouco o que vemos por aqui, com os evangélicos, batistas, Testemunhas de Jeová, que também carregam diversas restrições não só de vestuário, como de pensamento em regras que nem sempre fazem sentido para a vida prática.

O filme corre e ganha complexidades inesperadas, envolvendo a justiça num crime que aproxima a todos e a narrativa cresce. Passamos a acompanhar um dia-a-dia cada vez mais tenso, em que as soluções se parecem distantes e embaralhadas, como as relações familiares dos dois lados. A educação, as diferenças, o que é certo e errado se mistura e até nós precisamos repensar nossas conclusões a cada desenrolar. Meu favorito, por exemplo, mudou de personagem em personagem até se instalar no mais improvável, mas acredito, no mais humano de todos.

A indicação para o Oscar não foi à toa. Não importando quaisquer questões políticas por trás da escolha – a premiação é dos EUA – não tira o mérito da produção. O filme é divertido, tenso e com questões universais. E ver a mulher em papéis de destaque e voz, ainda que não igual perante a justiça ou sociedade, mas em situações que a colocam em primeiro plano, a quem cabe as grandes decisões, é garantir um novo olhar e a quebra de alguns preconceitos sobre um país e região estereotipados pela mídia. Aqui não há terrorismo, guerras, bombas ou tiros. É o cotidiano particular de famílias e sentimentos, cujas histórias se cruzam em momentos delicados.


Trailer aqui!!!
Título original: Jodaeyie Nader az Simin
Diretor: Asghar Farhadi
2011 / Irã 123 min

Ah! Encontrei o blog Cinema Iraniano, que tem uma pesquisa bacana sobre o assunto.
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Na noite anterior também tinha ido ao cinema. Fui ver um filme leve, Românticos Anônimos. Estava decidida a pegar duas sessões, naquela ânsia de recuperar o tempo perdido nas férias e no corrido fim de ano, mas imaginei que o segundo filme ia acabar se impondo e eu perderia um pouco da graça do primeiro. Como previ, A Guerra está declarada é grande. Drama com tema difícil de abordar de forma criativa e que exige cuidado para não se tornar um daqueles arranca-lágrimas: um casal jovem se apaixona, casa e tem um filho. Descobrem que o bebê tem um tumor maligno no cérebro e a luta pela cura se inicia.

Éramos seis na sala de cinema. Eu e, na fila atrás, um grupo de amigos – da idade de meus pais – e um cara da minha idade, filho de um deles. Estávamos próximos e simpáticos, então engatamos conversa. O rapaz da minha idade não sabia sobre o que era o filme e quase me deu pena lhe contar a sinopse; de forma crua não parece muito estimulante. As luzes se apagaram e voltei pra tela. O filme é econômico: conta de forma dinâmica e divertida o início do romance e de como seus nomes Romeo e Juliette, indicam que alguma tragédia está por vir, mas estão dispostos a assumir o risco e a partir de então, já gostamos do casal. A simplicidade com que eles se encontram e se unem é tão gostosa e natural que quase estranhamos a dificuldade e os malabarismos que as pessoas criam ao se relacionar com outras na vida real.

O filme foi dirigido sob uma forma orgânica, a construção da intimidade do casal, sua consolidação, as decisões e a chegada do filho, tudo parece natural. A narrativa segue fluida para o espectador que se deixa levar solto, completamente entregue e cativado, mas esperando o momento trágico que virará a trama e a partir de então o mais importante; descobrir como será a reação dos heróis frente uma grande ameaça. Essa imposição da doença enquanto guerra é que passa a organizar o filme. A saída para a luta é planejada como uma estratégia de combate, dia após dia pensando em cada nova batalha e como vencê-la.

A voz em off é um inesperado ponto forte, quando nos indica o pensamento como uma conversa íntima; por vezes Romeo direciona seu olhar, seus gestos para Juliette e pensa para nós, o que não consegue lhe dizer em voz alta. Esse recurso substitui algumas falas e o filme se aproveita do silêncio que a tragédia impõe. O drama é claro e vivido de forma realística (vi num site a classificação como documentário), mas não se torna novelesco e não imprime com a música aquela carga que aperta nossos corações gratuitamente. A trilha está ali, tal qual a luta que eles decidem travar em família, como um imperativo: destaca os momentos-chave, em especial os de alegria e quase desaparece quando há muita tensão; essa jogada mostra a maturidade da obra e realça seu valor: a história já é dolorosa por si só e forte o suficiente para se sustentar com poucos e inteligentes artifícios.

Os atores que fazem o casal merecem e ganharam prêmios por suas atuações. Juliette é Valèrie Donzelli que ainda assina a direção e o roteiro e Jérémie Elkaïm é também roteirista e protagonista. A história é baseada em fatos reais e faz parte da vida deles, que tiveram o filho doente. É por isso e pela incrível força dos atores/autores que o filme se torna tão marcante. A descoberta da doença, o comportamento que eles assumem, a postura positiva diante de cada desafio são quase surreais se pensarmos no histórico dos filmes de doenças. E são justamente os protagonistas da história real que a recontam na ficção. A verossimilhança agradece e aplaude não só a obra, como o que deve ter sido viver fora dela. O filme é o eleito pela França para concorrer ao Oscar 2012 de filme estrangeiro. Forte candidato, já levou três prêmios no Festival Intenacional de Gijón, na Espanha, passou por aqui no Festival do Rio e abriu a Semana da Crítica do Festival de Cannes.

Quando saí do cinema reencontrei meus colegas de sala. Estava calada e pensando tanto na história que o filme me trouxe quanto em como ele foi feito. A história e a sensação pesavam mais do que essa ideia de construção da obra naquele momento – até porque não tinha me tocado que os atores eram autores – mas acho que é isso que torna o filme especial; deixar essas reminiscências. Me despedi do pessoal e o rapaz me perguntou se eu falaria bem ou mal do filme. Não poderia escrever de outra forma: o filme é excelente.

Título Original: La guerre est déclarée
Direção: Valérie Donzelli
2011 / França / 100 min
O trailer está aqui!


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Agora segue o texto na íntegra, publicado inicialmente na Revista do Cinema Brasileiro.

As Canções trata de amor. Perdido, sofrido, realizado, feliz. Todas as canções de Coutinho são lindas porque sinceras, de histórias reais e íntimas.

Demorei pra ver este filme. Por algumas razões, mas a maior delas foi uma espera. Estava me preparando porque músicas sempre trazem sentimentos e queria receber esse filme de forma que pudesse apreciá-lo por inteiro. A música, como o cheiro, é um dos instrumentos da memória. É a partir dela que revivemos um passado de sentimentos, de pessoas e histórias. Com elas ficam marcas, tatuagens de cenas que vivemos e se eternizaram. Há músicas que evito ouvir e outras em que faço questão.

O filme veio bem e se tornou curto para o seu potencial. As conversas eram mais uma vez naturais e ocupavam o cenário que conhecemos desde Jogo de Cena; um fundo de palco e uma cadeira: o entrevistado volta-se para a câmera / diretor e faz o seu papel.

A intimidade que os personagens têm com a câmera parece reforçar a presença delas hoje no cotidiano das grandes cidades. A invasão das câmeras é tão grande e dispersa – domésticas, celulares, internet, televisão, trânsito – que o encabular-se deixou de acontecer. Hoje todos querem ser protagonistas, querem aparecer e por que não, estrear no cinema. Então, Coutinho se aproveita dessa vontade do outro de se expressar para construir seus filmes. Com mais de dez grandes filmes em sua trajetória, o diretor é quase um psicanalista que está a ouvir, conhecer e reforçar momentos-chave de cada sessão.

Ano passado fiz psicanálise. Foram poucos meses, então aconteceu mais como uma conversa-desabafo inicial. A psicanalista ouvia e pouco falava; sua participação destacava nas minhas frases, trechos para enfatizar mais o que era importante ser lembrado por mim, do que esclarecer algo da narrativa. Coutinho faz o mesmo. Ele ouve as canções e suas histórias íntimas com experiência e maestria, envolvendo tanto o espectador quanto o personagem na mesma situação: ouvimos e vemos aquelas pessoas comuns se abrindo para nós, para a lente da câmera. São pessoas fortes, dispostas a se expor sem medo ou pudores, com histórias particulares que nos remetem às nossas próprias e às nossas canções, tornando-se universais.

Fui à sessão pensando em quais seriam as minhas canções e histórias. Pensei ainda no que haveria de interessante para trocar com o outro, em como despertaria seu interesse. As histórias de amor são cada uma, um filme em si. Quando as ouvimos, o filme as transforma e as preenchemos com nossas experiências, na imaginação. E em tempos em que o amor parece ser tão difícil e volátil, aqueles momentos tão românticos e sinceros são perenes, lembrados de forma marcante e ditos como “essa era a nossa música”, nos contagiam em emocionantes e francas declarações de amor e felicidade.

Com um dispositivo simples – pessoas que não desafinassem, soubessem a letra e tivessem uma boa história – e mais de 230 depoimentos gravados, 18 se tornaram documentário. Um filme que fala com música, sobre amor. O documentário acaba e nos deixa sentados, esperando a próxima história e músicas que, apenas com a voz de seus narradores, nos preenche naqueles instantes. Na verdade, não parece terminar – ou não queremos que aconteça – e quando vieram os créditos, um suspiro tomou o cinema; todos queriam mais. Ficamos para relembrar os títulos das músicas e seus intérpretes, pensando naqueles personagens e em nossas histórias.

Com 90 minutos de curta duração, Canções traz grandes músicas brasileiras e composições próprias em histórias reais de personagens diversos e desconhecidos. Mantendo seu estilo iniciado talvez desde Santa Marta ou até mesmo no pioneiro Cabra Marcado pra Morrer, Eduardo Coutinho extrai do comum, o extraordinário. Para o diretor de 79 anos e uma filmografia de respeito, o que interessa são histórias de vida, tendo as pessoas sempre como foco e objetivo.

Título Original: As Canções
Diretor: Eduardo Coutinho
Brasil / 2012 / 90 min.
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Resolvi começar pelo final. A última grande etapa da minha viagem foi a visita ao Salar de Uyuni, na Bolívia. Como foi o que mais me marcou, fica ainda muito fresco na memória e talvez seja o mais importante de toda a viagem. Ou não.
Quando estava em Santiago e em Valparaíso, conheci outros viajantes que tinham ido ao Atacama. Como eu, alguns viajavam sozinhos, os europeus e norte americanos sempre por mais tempo que brasileiros ou vizinhos. Como eu estava prestes a chegar lá, queria estar segura do que ia encontrar. Todos me falaram para ir ao Salar de Uyuni, no altiplano boliviano.

Eu nem sabia como era o Salar, não tinha noção de como seria o passeio, com quem eu ia, como ou quando. Contaram que seria uma viagem de três ou quatro dias e que eu veria as paisagens mais impressionantes da região desértica. E que valeria muito mais a pena do que fazer passeios menores em torno de San Pedro.

Quando cheguei a San Pedro, estava mais perdida que cego em tiroteio. O hostel era bom, mas não era tão amigável ou com uma boa área comum para conhecer gente como os anteriores. Ainda não sabia direito que passeios fazer ou como encontrar o tour pra Bolívia. Dei sorte de no meu quarto ter uma garota canadense que virou minha comadre atacamenha e compartilhamos bebidas e comidas, compras, todos os nossos dilemas de viagem, de vida e do que mais aparecesse pela frente.

Última noite antes do tour, entro na internet pra enviar e-mails, além de uma pesquisa de 3 segundos sobre o mal da altitude. Vi os sintomas e como marinheira que não mareia, achei que no iba a  pasar nada.

Dia 01 – Entrando na Bolívia.
Deixamos San Pedro cedo num micro-ônibus para dar saída com o passaporte na polícia federal da fronteira chilena. Uma hora depois estávamos na polícia boliviana, num frio do cão, aguardando o novo carimbo. Tudo certo. Tomamos café da manhã ali mesmo e trocamos o confortável buzu pelo jipe com capacidade pra seis pessoas. Ali já era no meio do nada, ao longe uma carcaça de ônibus, a polícia boliviana era uma casinha com 2 cômodos, a bandeira do lado de fora e o mundo vazio, mas cheio de potencial para as nossas expectativas. Éramos 3 americanos – um casal e a amiga – 2 austríacos e eu. No outro jipe: suíços, irlandeses, alemães e franceses. Dali em diante meu espanhol se restringiu aos nativos e inglês por 4 dias consecutivos. Pra mim estava ótimo, porque nunca falei tanto os idiomas ao mesmo tempo. Mas toda manhã era um parto. O cérebro ainda não estava 100% e começar o dia numa outra língua requer um esforço quase sobrenatural diante da falta de oxigênio. Minha glória foi quando em outro grupo apareceram uns portugueses e nunca gostei tanto daqueles meninos por intensos dez minutos.

O primeiro dia foi o mais cruel. Achei que ia segurar a onda, mas a falta de oxigênio provocada pelos 4800m de altitude me deu uma dor de cabeça constante, um cansaço absurdo, sem falar na incapacidade de comer. Ainda assim, consegui ver todas as lagunas que nosso guia Johnny nos apresentou: Verde, Blanca, Colorada, Geysers fedorentos. Incríveis, vimos o vulcão Licancabur mais de perto em toda a sua grandeza e as primeiras paisagens de adjetivos que não são suficientes para expressar o que estava diante de nós. Tanto que não falávamos (e também porque eu não conseguia falar muito...). Tirávamos fotos e víamos e para mim era muito discrepante o que eu via do que eu conseguia registrar. Primeiro porque ao vivo é ao vivo e é 360 graus com todos os seus sentidos excitados e você percebe como as palavras beleza e natureza se associam de forma tão perfeita. Segundo, porque além de estar aprendendo a fotografar, precisava de lentes de maior alcance para chegar mais perto daquela magnitude. E terceiro, porque a foto é sempre um recorte, nunca vai te dar toda a amplidão e, principalmente nesta situação, jamais lhe dará a idéia de todo. Sempre algo se perde .
Mas entre uma laguna e outra, entre uma grande vista com parada para fotos e outra, havia todo o deserto. O altiplano é lindo e poderoso, mas eu estava num estado de sonolência atroz. Dividindo o último banco com Martin (um dos austríacos), sempre que entrava no carro passavam 5 minutos e eu me recostava. Ele via minha situação ridícula e perguntava: vai dormir? Tá tudo bem? E eu sempre respondendo: acho que sim, só um pouquinho. Até que não nos falávamos mais; assentíamos com a cabeça e sabíamos que eu ia me encolher no banco e fechar os olhos. Precisava sumir com a luminosidade por uns minutos. Quando estamos no deserto, todos os nossos sentidos afloram: o ruído do vento, o cheiro da terra estranha, o gosto dessa mesma terra, a luz do sol mais forte do que nunca, as pedras e os animais que tocamos, sem falar de tudo isso que sentimos de uma só vez e com seu corpo se adaptando àquelas alterações. E com tanta informação ao mesmo tempo, não dava para captar tudo sempre e precisava desligar algum botão. Todos estavam acostumados à altitude, já haviam passado pelo Peru (Cusco, Macchu Picchu e tudo mais), de forma que fui a única café com leite.

Mas todo mundo foi muito gentil e parceiro. Acabou que os onze cuidaram de mim de alguma forma e eu cuidei de alguns. Acho que fiz a diferença no grupo com aquele calor brasileiro, a alegria gratuita por simplesmente estar ali. Meu estado de graça – ainda que contrastasse um pouco com o físico – estava completamente exposto, devassado. Era impossível ser discreta com o que estava diante de mim. Mesmo abatida e sem ter almoçado no primeiro dia. Passei o dia sem comer, ainda mais tendo botado pra fora o café da manhã. Mas deu tudo certo, consegui dormir e a dipirona reduziu meu mal estar. No dia seguinte, acordei bem e provavelmente fui a que dormiu melhor. A noite foi realmente muito fria, mas estava tão protegida e dormente que nem percebi.
Dia 02 – Comendo poeira.
Engraçado que agora parei de escrever e estava revendo algumas fotos... cada uma traz tantas recordações de pequenos detalhes, conversas, uma vida tão intensa em cada um daqueles dias que parece que viajei por muito mais tempo. Acho que estar distante de todos e tudo que conhecemos, de estar realmente no deserto, isolado, longe, é de uma transformação talvez maior do que eu já tenha percebido. Sei que algo de diferente e especial aconteceu, mas acho que ainda não consegui captar tudo. Tento ficar atenta para não perder, não deixar essa energia tão forte se dissipar. Mas não sei também direito como se manifesta. Estou sentindo.

Viver aqueles dias neste contato direto com uma natureza estranha faz notar como a própria entidade natureza é realmente uma. É a única palavra – além de selvagem – que temos para definir tudo aquilo. E são essas duas palavras que também usamos para outros lugares, outros encontros extraordinários em regiões especiais. Eu estava com mais 11 pessoas, além dos guias, distintas e em seus pares, completamente alheias a mim inicialmente. E todas experimentavam o mesmo ambiente e em suas gradações eram mais ou menos generosas, mas sempre dispostas. Eu era toda receptividade. Não como uma figura zen, hippie, mística maluca ou qualquer coisa do tipo, mas o que havia ali para apreender era tão intenso – tanto nas relações sociais quanto com o ambiente – que não havia espaço para a reclusão – exceto quando eu não estava bem e aí havia um conflito interno entre o afastamento e o que esta escolha nos faz perder. Ainda assim, nunca conseguia dormir totalmente no carro, era quase um olho aberto e o outro fechado. Acho que por estar viajando sozinha, tudo isso se intensifica. Todos estavam com alguém ali e eu, mesmo estando com todos, estava muito mais apenas comigo. E a música boliviana ali, sutil, nos transformando.
O segundo dia foi bem cansativo. Eu estava muito mais disposta, já tinha tomado um pouco do chá de coca e estava indo bem, me alimentando e bebendo muito mais água do que no dia anterior. É importante sempre beber água, por mais óbvio que pareça. Como o altiplano é muito seco, perdemos água sem sentir e a ausência dela ajuda a intensificar algum desconforto. Por isso, eu e um dos irlandeses sentimos mais no dia anterior. Ainda assim, quando andava muito, ficava cansada, como uma senhorinha. Éramos todos idosos naquelas caminhadas curtas e o coração quase na boca ao menor esforço. Era engraçado.

Pegamos estrada o tempo inteiro e intercalamos com outros 2 jipes no caminho, então nem sempre éramos os primeiros na rota. A estrada era um caminho sem trilhas entre a areia e barro que Johnny conhecia muito bem, mas um dos outros dois motoristas não, então ele tinha que ser responsável por este carro, se posicionando atrás dele a maior parte do tempo, enquanto o terceiro seguia na frente. Com isso, comemos muita poeira. Não sei como resisti tanto tempo e nossos cabelos eram uma massa intocável de pó.

Não tínhamos tomado banho na noite anterior e a secura da região tirava qualquer possibilidade de ondas no meu pobre cabelo. Como uma índia, eles estavam lambidos e agora entupidos desse pó fino que não só estava no meu nariz e garganta, como em todo o meu ser. A rota off road batia muito. Foi bastante complicado e ainda tínhamos mais lagunas para ver. Estávamos meio cansados disso, então quando fomos ver a última – creio que La Negra – já tínhamos abstraído a pobre e tudo o que nos interessava eram as rochas, as formas imensas no meio do nada. Tudo era sempre no meio do nada. Como as nuvens que constroem figuras para decifrarmos, assim elas eram. De todos os tamanhos, desenhos... e era incrível como em alguns momentos era tudo planície, pouca ou nenhuma vegetação e imensas pedras no meio do nada, como se tivessem sido jogadas ali.
Em algum momento da tarde, paramos num vilarejo chamado Copacabana. O jipe passou muito rápido e não consegui a foto, mas juro que era esse o nome. Ermo, com umas quatro quadras em cada lado da praça, igreja e escola, era tudo que havia para ver. Acho que um dos guias mora ou tem família ali e decidiram parar para resolver algo ou descansar. Nós ficamos na praça, esperando as definições de nosso líderes e aproveitamos para fazer xixi num cantinho escondido e conversar ou simplesmente... esperar.

Fomos pro segundo refúgio e como eu tinha pouca bagagem, só uma mochilinha (tinha deixado o restante em San Pedro), consegui ser a primeira a tomar banho, com o imenso prazer de descobrir que realmente tinha água quente – ninguém acreditou que isso aconteceria. O banho foi incrível e deu uma renovada no astral do grupo. Éramos gratos por nos livrar momentaneamente de toda aquela terra, de poder pentear os cabelos (e descobrir que de novo ficariam irritantemente muito lisos) e não suficiente, ainda tomar café brasileiro no meio do altiplano boliviano.
Agora sim, eu estava de verdade em estado de graça. Eu ria na mesa enquanto conversava com o povo, ria de graça e sem motivo, enquanto na noite anterior ficava mais calada, esperando passar toda aquela confusão que estava sentindo. Eu falava agora e o café funcionou muito bem, quase como uma droga, com um efeito incrível e que desceu esquentando o coração e a mente. Foi uma noite muito boa e ainda teve lhama de jantar, mas fiquei com pena da bichinha e não comi. E quando fui lá fora – sim! No meio do nada! – para ver as estrelas, meu deus. O que era aquilo! Um mar, mais uma vez, de estrelas, como o que vi no observatório perto de San Pedro. As únicas luzes eram as do refúgio e o resto era nada, deserto escuro, iluminado por quantas constelações. Só consegui ficar uns poucos minutos ali fora, porque o romantismo todo some quando está muito frio. Acho que nessa viagem eu nunca senti tanto frio por tanto tempo.

Dia 03 – O Salar.
Terceiro dia. Todos estávamos ansiosos pra conhecer o Salar. Acho que ninguém sabia direito como era nosso percurso, estávamos nas mãos dos guias bolivianos e acho que não queríamos saber muito, na verdade. A graça estava no inesperado, na surpresa. Mas acabou que o refúgio era bem perto do Salar, então foi bem mais fácil do que tinha imaginado. Pegamos os jipes e em 10 minutos, era tudo branco e azul.
O caminho todo era como um mar ao contrário, ou como ir a uma praia em que o mar nunca chega. Andamos de carro um bom tempo e demos de cara com uma ilha de Cactus no meio do nada. Incahuasi, que em quéchua significa Casa do Inca é cactus, vegetação rasteira, lhamas e quase nada mais. É muito bonita e intensifica o caráter surreal do lugar. Inclusive, fiz alguns vídeos numa tentativa de criar algo em cima, mas minhas narrações ridículas são uma mescla de surreal, inacreditável e especial, além de bizarro. Porque era tudo muito extremo sempre e nunca há palavras suficientes para descrever esse tipo de coisa, então, como estamos mais sentindo do que pensando, as palavras saem soltas, quase sem sentido ou necessidade.

Era nosso último dia e quando pisamos naquele sal, éramos todos crianças. Como um imenso papel branco diante de nós, aquele chão era nossa rua, nosso jardim de infância; cada um buscava uma brincadeira, um jogo diferente pra fazer e registrar. Eu, como sempre, fiquei pensando nas maluquices, como dar estrelinhas e ficar de cabeça pra baixo, articulando e obedecendo os meninos nas artes deles. Foi muito divertido, mas em algum momento eu não conseguia tirar o chapéu gigante – que eu tinha comprado pra meu pai, mas que salvou minha vida – ou os óculos e ainda assim meus olhos ardiam. Era sal, branco, o céu muito azul e uma coisa refletia a outra! Mas brincamos muito e nessas horas não tem mal tempo, não problemas, preocupações... só existe o presente. E só existe ali.
Éramos catorze (com os guias) no meio do nada, com o mundo em volta. O horizonte, finalmente plano em qualquer direção, era branco e azul.  E a essa altura já tínhamos músicas americanas misturadas com as mais deliciosas e bregas como minhas nordestinas, bolivianas. Ouvir a letra das músicas era uma diversão quase só minha e eu ria sozinha, mais uma vez, tentando em vão explicar aos gringos o que dizia. Era tudo festa. Mas, por mais único que tenha sido, tinha que acabar. E fomos embora, a caminho de Uyuni, a cidade.

Paramos uma última vez, agora num cemitério de trens. Eram vários vagões e acho até que trens completos; uns em trilhos, uns fora deles. Parecia Mad Max, porque tudo que é metal velho retorcido e enferrujado me remete a Mad Max. Como não sei a história do lugar, ficou tudo meio solto, mas foi legal. Agora que éramos crianças e já tínhamos ganhado nosso brinquedo, poderiam nos levar pra qualquer lugar que estava ótimo. E esses trens não chegavam a ser mórbidos, mas sim retratos de um passado desconhecido, esqueletos enferrujados e pichados de assinaturas, românticos. Não sei por que, mas tinha gesso no chão, então como boa brasileira, deixei a marca. Mais brincadeiras, fotos e piadas. Fomos embora.
Tínhamos que deixar a maior parte do pessoal na cidade de Uyuni, eles partiriam de lá para dentro da Bolívia e eu, a americana e os suíços, voltaríamos para San Pedro. Ficamos um tempo rodando por Uyuni atrás de biscoitos e água (nossa vida girava em torno das garrafas individuais de 2L) e vimos que a cidade é meio triste, ao contrário de todo o passeio. Acho que ela era pequena demais, que os trens não existem mais e ela ficou meio esquecida. Parecia uma cidade dos filmes de velho oeste, toda em tons de terra e poeira. E meio vazia. Conseguimos comprar e agora era esperar o novo jipe. Em frente à nossa agência de turismo havia um bar, o mais bonitinho da região, com uma cara tropical engraçada, com folhagens fazendo um teto para sombra e cadeiras e mesas vermelhas, daquelas que as cervejarias patrocinam. Éramos poucos quando sentamos, não imaginei de reencontrar o resto do pessoal que já estava hospedado nos albergues. De alguma forma quase todos apareceram e conseguimos a despedida daqueles três dias realmente surreais.

O novo guia nos chamou, demos tchau aos novos amigos e partimos para o terceiro e último abrigo em alguma cidadezinha boliviana mais perto da fronteira. Teríamos um longo dia seguinte de caminho de volta.

Dia 04 – Fim de festa.
No caminho de volta ainda seguíamos animados. Agora eu já era amiga de Martin e Marc, os suíços que foram meus companheiros de jornada. Michelle, a americana, ainda estava nos conhecendo e agora, talvez por necessidade, ela se uniria mais a nós, já que seus amigos ficaram em Uyuni e ela teria mais uma noite e meio dia conosco. Acabou que ela também era uma menina divertida e fomos conversando o caminho até o último refúgio, à noite.

Curiosamente, nossa paisagem estava mudando e até em asfalto andamos com o carro. Entendi que como a etapa passeio estava no fim, poderíamos pegar uma estrada regular para chegar mais rápido ao destino. Chegamos na maior cidade que havíamos passado desde então e que também não me lembro o nome. Só lembro que ficamos animados com a ideia de estar em algum lugar mais povoado, com construções maiores. Mas logo que entramos no refúgio essa imagem desapareceu. Sabíamos que seria rústico e que teoricamente nem teríamos jantar, por isso as provisões. Tivemos um jantar de salsichas com purê de batatas e tomate que estava bom, mas os banheiros eram meio de filme de terror. Tinham uma porta sempre aberta e claro que não separavam por gênero. Michelle foi escovar os dentes e deu de cara com um turista sei lá de onde nu, tomando banho. Um dos boxes tinha porta e o outro não. Mas também não era desesperador. Decidimos de comum acordo que não tomaríamos banho gelado e fomos dormir. Acordamos acho que às 5h, num frio incrível e, claro, tomaríamos o café da manhã na fronteira, como fizemos na ida.

De volta à estrada, com e sem asfalto, com córregos, lhamas, cabras, montanhas mágicas e novas paisagens deslumbrantes. Estávamos relaxados e entre uma conversa e outra, um cochilo e outro, o tempo ia passando. Sem perceber, chegamos à fronteira. Era o café da manhã, o carimbo de despedida e o adeus à Bolívia. Dali em diante era só retorno. San Pedro. Santiago. Rio de Janeiro.
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Um dos melhores filmes da vida, um charme e delícia de assistir que ultrapassa décadas. Um clássico atemporal e para rever sempre. Este é Acossado, de Jean-Luc Godard.


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Acossado, Jean-Luc Godard

Já vi o filme algumas vezes e ontem foi mais uma. Presente da Nouvelle Vague, Acossado consagrou ao mesmo tempo Godard, Truffaut, Chabrol, Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg para sempre. Foi o primeiro filme dirigido por Godard e ele ainda aparece, como Hitchcock fazia, com um pequeno papel. Truffaut é o roteirista e Chabrol supervisionou a produção. Belmondo faz o papel de Michel Poiccard, um ladrão de carros que, saindo de Marselha, acaba matando um policial. Vai a Paris para receber o dinheiro de uma dívida e encontrar Patrícia Franchini, uma jornalista americana a quem tenta convencer a viverem juntos em Roma. Patrícia é essa moça que não usa sutiã e prefere ser independente a viajar com Michel sem garantias, numa condição desfavorável pra ela.

Nossa heroína faz uma brincadeira sobre Romeu e Julieta, Michel procura o horóscopo no New York Herald Tribune. A sorte de que ela desdenha é a mesma que ele parece não encontrar, apesar de circular pela cidade e se resolver como um gatuno, um desses vagabundos que tanto adoramos no cinema. Michel é um anti-herói. Ele é o oposto da ordem, moral e bons costumes tanto quanto outros grandes anti-heróis do cinema, vide Scarface (que serviu como inspiração para o filme), ou o brasileiro Super Outro, do baiano Edgard Navarro. O trailer o identifica como o mocinho sem caráter e anárquico, já que ele nada busca ou defende, quer apenas sair daquela situação e viver em outro lugar.

Não só isso, a construção do personagem e a intimidade dos protagonistas nos fazem querer ser aquele casal, estar naquele apartamento, participar daquela intimidade. Jean Seberg conquista qualquer um com um rosto que parece desenhado, um charme irresistível e também por se opor àquele por quem nós já estamos apaixonados. Seu corte de cabelo será repetido no cinema em todas as décadas seguintes.

Saindo do encantamento dos atores, corremos para a direção. Godard passeia com a câmera na mão boa parte do filme, com a agilidade de um roteiro policial e exibindo aquela privacidade dos protagonistas. A impressão que temos é de que tudo é iminente e que em algum momento a polícia vai chegar. Essa urgência que vemos é tanto reflexo da década - da Cahiers du Cinéma (que também tem uma pontinha no filme), de uma nova forma de ver cinema, menos empolada, mais simples e com gente nova e sedenta de criatividade e ritmo - como da própria agilidade de produção; o roteiro era constantemente revisto pelo diretor e as cenas eram entregues aos atores momentos antes de filmá-las.

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Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo | Acossado

O filme é participativo: constantemente os personagens nos fazem alguma revelação, como se conversassem conosco, voltados para a lente. Nada passa despercebido e até quando algo acontece no plano de fundo, o diretor não nos abandona; ele aponta: olhem ali. A montagem funciona como um personagem, instaurando uma nova forma de associar planos alterando a duração e recepção de uma mesma ação – ao invés de esperar o fim de uma e cortar pra outra – e dissociando o som do que se vê, enriquecendo de significados a engrenagem da construção de sentidos no cinema.

A trilha ajuda a manter o ritmo do filme, junto com a montagem entrecortada que hoje é estudada nas escolas de cinema e usada como influência e homenagem em diversos filmes. Uma música entre o misterioso e corriqueiro, entre as escapadas, as artimanhas de nosso herói e os embates românticos ganham uma graça, um tom leve, não tão carregado de suspense, mas de cotidiano, reforçando ser aquela a rotina do protagonista.

A impaciência do dia a dia se solidifica na repetição das ações, do comportamento, do esvaziamento que a rotina traz e que se mostra ainda mais concreta quando voltamos a um lugar que não vamos há tempos e ele segue igual – inclusive nas pessoas que freqüentam (parecem saídas de um molde) – como se todos os dias em que estive ali se resumissem em um. Mas esquecemos de tudo isso nestes 90 minutos, nos entretemos com um filme já visto e revisto sem tédio, encontrando sempre algo novo dentro da obra. Filmes assim seguem sem data, ou talvez com o reforço dela. A graça de Acossado está também em relembrar aquele movimento que estava nascendo, um pouco como aqui no Brasil com o Cinema Novo ou na Itália do Neo-Realismo, uma revolução cultural única em séculos no mundo inteiro e que eu não estava lá pra ver.

Não dá pra fazer crítica de clássicos, só nos resta opinar. A crítica serve como formação de público a filmes novos, para que o espectador decida se o filme está de acordo com sua curiosidade. Com Acossado, o que podemos fazer é relembrar como foi, a grande importância que teve e assegurar diversão garantida a um preço justo. Ainda não sei se o problema está em mim, nos grandes filmes ou lugares pequenos mas, cada vez mais, troco as saídas que se repetem pelos clássicos a se rever.


Vamos manter este blog delicioso funcionando? Vem tomar um café comigo! =)
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Esse é certamente o mais formalista dos filmes de Almodóvar. É um thriller, um suspense intenso que nos deixa cada vez mais tensos e boquiabertos a cada cena. É a estória de um cirurgião plástico viúvo (Antonio Banderas) que desenvolve pesquisas para construção de tecido humano. Ele mantém em cativeiro uma cobaia (Elena Anaya) que recebe os cuidados de uma governanta-enfermeira (Marisa Paredes). Todos mantêm uma relação de intimidade conformada, compreendida inicialmente por estarem vivendo sob o mesmo teto, a mansão do médico.
As dicas do filme são só essas: é uma história de vingança e sobrevivência, o título é descortinado após um tempo e gera um encantamento imediato pela inteligência do roteirista e diretor, e de Thierry Jonquet, escritor de Tarântula, história em que se baseia o filme. Os figurinos minimamente desenvolvidos por Paco Delgado a quem desconheço, mas com colaboração de ninguém menos que Jean-Paul Gaultier, com tecidos elásticos que cobrem todo o corpo como uma segunda pele, os cenários simbolicamente definidos entre a ausência e a abundância de objetos, o voyeurismo. Neste filme, literalmente, tudo tem seu lugar.
A trama não comporta escrúpulos ou saídas fáceis. Entendemos isso logo no início e também deles temos que nos libertar, o filme precisa ser visto sem amarras, entendido como um jogo e ser participado com cúmplices e não juízes. Muitos fetiches e como não poderia de ser, há também uma importante questão de gênero e poder. Marca registrada do diretor, a sexualidade mais uma vez é ponto-chave na trama, mas agora levada a um outro patamar e abordada de uma forma inteiramente nova na filmografia do diretor.
O filme acontece num labirinto de situações que vão explicando aos poucos o que seria o presente, preenchendo as lacunas de um mistério kafkaniano e nos preparando para um desfecho quase imprevisível. Quase, porque as saídas deixadas para a resolução da trama vão se reduzindo com a gravidade das ações dos personagens, os abusos de poder, as violências, seus passados. A trilha sonora é tão presente quanto os demais elementos; como sempre, Almodóvar orquestra todas as camadas da criação de forma a torná-las fundamentais à diegese. As músicas eliminam as palavras e nos deixam sem ar, assim como as interpretações dos atores. Os cenários como já citei, nos ajudam a imaginar uma prisão confortável para o corpo mas, como todas devem ser, impossível para a mente.
O formalismo se justifica nas minúcias da produção, no desenrolar de uma trama ousada, arquitetada quase matematicamente. A música forte, incidente, criminosa quase, traz à memória o suspense Hitchcockiano e o amplia. Funciona como pontos de intensidade e, ao mesmo tempo que nos deliciamos com a velocidade das notas dos violinos, ficamos emocionados e quase escondemos o rosto ou tapamos os ouvidos. O efeito criado é como de um voyeurismo para os ouvidos, às avessas. Ou como nos filmes de terror em que sabemos que o mal vai aparecer e tampamos os olhos com as mãos, mas sempre deixando os dedos afastados. É impossível não olhar, como neste filme é impossível não ouvir. Antonio Banderas está transtornado como seu personagem exige, transformado em outro ser, e quanto à Elena Anaya e Jan Cornet, é melhor que não se diga muito. Suas atuações são como o mistério da obra, não merecem ser reveladas em texto.
Diferente de outros filmes em que costumamos dizer que as histórias são todas iguais e defendê-los indicando que o que importa é a forma de contá-las, em La Piel que Habito temos duas imensas razões para assisti-la: uma história verdadeiramente original abraçada a uma forma perfeita. Que fique claro: o começo-meio-e-fim existe, o filme garante a narrativa que conhecemos e que não temos dificuldades em acompanhar. Há aquele momento decisivo, onde o personagem não terá sua vida cotidiana de volta porque sua atitude marcou seu destino. E o melhor de tudo: neste filme, a reviravolta acontece com todos os maiores personagens. Todos têm um pouco da trajetória do herói em suas próprias vidas.
Mais um dos filmes que nos deixa perplexos e felizes, Almodóvar surpreende numa obra realmente nova, escapando um pouco de seus temas habituais de amor e ambicionando outros ‘gêneros’, se é que podemos enquadrar um filme deste diretor em algum. Não sei se pela importância e poder de que este filme já é imbuído, mas foi o melhor dos 14 que vi no Festival e possivelmente o melhor do ano até agora.

*Festival do Rio 2011.
Título Original: La Piel que Habito
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet
Diretor: Pedro Almodóvar
Espanha, 2011. 117 min
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Quando saí do Roxy depois da sessão, havia uma senhora com o pé engessado tentando entrar em um táxi. Vi tudo de soslaio, porque estava andando rápido, doida pra chegar em casa. Mas a cena me fez virar a cabeça umas duas vezes para ver como terminava e ninguém foi ajudar a velhinha. Não sou heroína de história infantil, mas ela estava com uma dificuldade e eu poderia facilitar a vida dela naquele instante... por que não? E tinha gente por perto olhando a cena, curiosos provavelmente de ver se a senhora conseguiria entrar no táxi sozinha ou tímidos, distraídos para qualquer atitude. Fiz quase nada: abri a porta do táxi, ela sentou, me agachei, conseguimos colocar suas perninhas pra dentro e tchau. De novo, não sou madre Teresa, mas essa não deveria ser uma ação automática?
Enfatizo o ocorrido porque havia justamente uma cena nessa comédia romântica francesa em que a mocinha está no vagão do metrô com o paquera que acabou de conhecer e um casal de idosos caminha vagarosamente em direção ao vagão. Ela sabe que eles não conseguirão entrar a tempo e corre pra impedir que a porta se feche. Exatamente neste momento o público riu e provavelmente se identificou e/ou pensou: essa menina é bacana, engraçada, maluca. Provavelmente concordaram que era uma ação inesperada e imprevisível, mas uma atitude legal. E diante do real, nada acontece. Passa batido.
Voltando ao filme, acho que os romances franceses com voz off pós-Amelie Poulain sofrem o mal terrível da comparação. Sabemos que as comédias românticas desse estilo têm textos engraçadinhos, crônicas da vida com frases curtas, interessantes e sempre buscando uma forma diferente de descrever e completar o que os olhos vêem. Pois é, como Amelie. Entretanto, ainda que siga esse padrão e  que também tenha uma mocinha atípica, o filme vence isso numa boa. A estória: um homem de seus 40 anos (Jacques Gamblin), filho de mãe judia e pai francês, conhece a mocinha de vinte e poucos, Bahia Benmahmoud (e há referências sobre o Brasil por seu nome) filha de argelino com francesa hippie. Bahia (Sara Forestier) é politizada e radical e tem por objetivo converter ‘fascistas’ através do sexo. Só que o mocinho não tem nada a ver com isso e é aí que a brincadeira começa.
Uma questão de roteiro é que a partir de um ponto nos perguntamos onde está o problema que originará o clímax que tanto esperamos. Há indícios, mas nada parece forte o bastante. Tudo acontece rápido e muito bem e isso quase incomoda, mas a complexidade finalmente chega. A marca que o filme nos deixa está na construção dos personagens. O crescimento e a trajetória de cada um, com seus segredos a desvendar um para o outro, as diferenças entre cada um, a crescente intimidade, as descobertas. O filme sai do superficial e torna o próprio relacionamento idílico mais concreto.
A fotografia com o jogo de câmeras também fazem parte da trama. Parece até óbvio dizer isso de um filme, mas é que aqui há uma preocupação estética, um jogo, como repito. Como em 500 dias com ela, há um paralelo no uso de câmeras 16mm e 35mm, em que o filme 16mm normalmente acontece sem voz, apenas para imagens poéticas de tão bonitas, com uma granulação quase palpável que cria uma época de ‘memória’, mas não de passado. Remete às nossas próprias histórias quando apaixonados, em que colorimos as fotos de nossos grandes momentos com o olhar e guardamos no coração. Os detalhes, o sorriso, o cabelo, a pele, o cheiro. E mais: Sara Forestier não deve nada às atrizes populares no quesito beleza. Linda, de uma forma não tão óbvia, mas cativante, ainda tem um corpo que é muito bem explorado pelo diretor. Um pouco gratuito às vezes, mas com um ar provocativo que perde a vulgaridade com a atuação extremamente natural, à vontade com as cenas e com a câmera.
É um filme de brincadeiras agradáveis, que trabalha com temas sérios e um tanto caros aos franceses – o Holocausto e a colonização argelina, a mestiçagem, a política, as religiões, as culturas – com a leveza das comédias românticas que nos deixam tranqüilos após um dia de trabalho e com nossas próprias histórias para pensar.

Ah! Esse também é fruto do Festival do Rio, mas deve entrar em cartaz.
O trailer.
Título Original: Les Noms des Gens
Direção: Michel Leclerc
França, 2010. 104 min.
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Quando o trabalho exige criatividade, muitas idéias surgem quase ao mesmo tempo. A vida é um eterno pensar, descobrir, desenvolver e desistir. Quantas idéias os escritores têm por dia, mês ou ano? E os músicos, quantas letras são deixadas pela metade? O mesmo acontece com os roteiristas. E quando temos aquela idéia genial que vai timidamente se cristalizando em nosso cérebro, sendo de repente alimentada numa torrente de frases quase desconexas e temos que correr para qualquer lugar a fim de colocar tudo em alguma ordem, para que desse monstro saia alguma beleza?

Juntos para sempre é a história de um jovem roteirista que tem a idéia genial. Mais um argentino digno de aplauso do Festival do Rio, o filme é uma comédia inicialmente boba, mas complexa de execução e com um roteiro engenhoso – como não poderia deixar de ser – em que sentimos o cheiro do humor negro bem de perto. Gross (Peto Menahem) acabou de descobrir a pólvora, a sinopse ideal para um grande filme e precisa desenvolvê-la antes que se perca, enquanto sua namorada resolve lhe contar que teve um caso com o vizinho. Na obsessão pelo trabalho, sua vida desanda, Lucía termina o relacionamento e insiste que visite um psicólogo. Em paralelo, vemos a história criada de Gross, seu roteiro vira filme dentro do filme: um pai, Fabián, sai de férias com a família e abandona um a um pelas estradas que percorre. Seu objetivo é reencontrar, livre de qualquer amarra, um grande amor do passado que acredita ainda esperar por ele.

Enquanto vemos Gross adaptar sua vida em prol da estória que cria, sua mãe – numa interpretação incrível de Mirta Busnelli como uma mulher depressiva e histérica – tenta conversar com o filho sempre ausente. Nosso personagem fictício da metalinguagem cresce; sua história é tão interessante e simbólica quanto a de seu criador. E a psicologia, claro, bate à porta. O filme todo é um grande exercício. Imagino que para escrever o roteiro, o roteirista da vida real deve ter se divertido bastante e tomado um cuidado para não cair na própria armadilha. E dá tudo certo: o filme nos ganha desde o princípio e todas as guinadas vão se tornando cada vez mais interessantes, inteligentes e engraçadas. 

O humor negro, aquele íntimo que nos habita, é compartilhado. A doença do protagonista nos contamina; somos ele nos primeiros minutos, mas não sei se queremos continuar a sê-lo nos que se seguem. E, mesmo sabendo que tudo vai acabar, queremos continuar apostando, como viciados, como Gross e como sua criação, o pai obcecado.

A direção foi coesa – acabei de descobrir que o roteirista é também o diretor, Pablo Solarz – e o filme acontece com atores afinadíssimos. A fotografia se torna sombria à medida que o filme se inclina para o mórbido com sutileza, na proporção exata da transformação de todas as histórias ali contidas.

É incrível perceber como o filme metalinguistico nos parece simples na apresentação dos personagens:  a voz de Gross está ali, freqüentemente nos alimentando em off e ao vivo com cada desenrolar da trama, mas também aqui ela vai tomando corpo, como um Frankesntein que se apodera e tem vida própria. Luís Luque, o ator de Fabián é perfeito: apenas com sua expressão - até porque tem poucas falas, o que é um grande triunfo do filme - nos intriga. A quase ausência de voz em Fabián no início e o crescimento de seu personagem no final é o equilíbrio ideal para a progressiva mudez de Gross. Se no início sua intenção era buscar platéia para contar sua idéia e ter opiniões, agora já não é necessário, a certeza do sucesso lhe toma tanto quanto a semelhança que vai ganhando com seu personagem.

Esse é mais um caso em que os argentinos dominam, reafirmando o que disse sobre Querida. Melhor ainda é imaginar quantas pessoas foram ver esse filme acreditando ser uma comédia romântica.
O site do filme!

Título original: Juntos para siempre
Diretor: Pablo Solarz
Argentina, 2010. 98 min.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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