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Café: extra-forte

Acabo de voltar do cinema. Vi com uma amiga uma comédia romântica gostosa que nos deixou comentários divertidos e comparações com a vida real. Não é o melhor filme do mundo, mas também não é uma sessão da tarde, como ouvi na saída. O que me chamou a atenção foi como compreendemos tão rapidamente essa ‘sessão da tarde’ e com base nela conseguimos julgar a qualidade de um filme.

Sem levar tão a fundo a discussão, definir a qualidade de um filme no cinema como ‘sessão da tarde’ pode ser mais complicado do que aparenta. Para quem chegou ao Brasil hoje, Sessão da Tarde é uma faixa semanal da Globo de exibição de filmes. É naquele meio de tarde de segunda a sexta, onde estão em casa as crianças, os aposentados, pessoas enfermas ou de folga – meio sem ter o que fazer – e que assistem a um filme qualquer que esteja passando. Mas que filmes são esses?

Hoje eu realmente não sei. Tive uma ampla cota da programação durante minha infância e adolescência e vi alguns filmes incríveis que hoje tento encontrar. Curtindo a vida adoidado, Clube dos 5, Gatinhas e Gatões, Esqueceram de Mim, História sem Fim, Labirinto, A Lagoa Azul, Meu Primeiro Amor, Conta Comigo, Os Goonies, Gremlins, Ghostbusters, Os Garotos Perdidos são os que lembrei agora e  por quais quase todos da minha geração são aficionados. Garanto que alguns, inclusive, são melhores do que o que vi hoje. É meio nebuloso identificar os outros filmes incríveis, não me lembro agora se estavam enquadrados nesta Sessão, mas acho que sim, como Te pego lá fora, Três Solteirões e uma pequena dama, Querida, encolhi as crianças, Olha quem está falando, Quero ser grande, Harry e Sally. São também deliciosos.

Os filmes que me moldaram e me fizeram ser esse aglomerado de pensamentos, sentimentos e o que mais possa existir para definir uma pessoa, tinham uma comédia ingênua, boba. A adolescência era o primeiro beijo aos 14, o primeiro amasso, as amigas-irmãs, os grupinhos de escola, as brigas bobas, as piadas bobas, o rock’n roll não tão pesado, o primeiro porre. Tudo bem que minha adolescência foi um retardo da infância em grande parte, mas ainda assim tinha relação com o que acontecia nas sessões da tarde e nessa época ninguém se importava com dublagens.

Acontece que nem só de bons filmes vivíamos. A Sessão da Tarde conseguia ser muito trash algumas vezes, com filmes repetidos até a exaustão e que só copiavam fórmulas de sucesso anteriores. Seqüências de alguns filmes acima é o exemplo. Esqueceram de mim foi até o 4 e tivemos também o impossível De Volta a Lagoa Azul, só pra sentir o drama. Não dá pra aturar essas coisas e é daí talvez que venha a expressão da mocinha que saiu do meu filme hoje. Mas este também não era ruim de todo...

Estamos falando de Sexo sem Compromisso, com Aston Kutcher e Natalie Portman. De cara, você já sabe que é uma comédia romântica. Não precisa nem ver o trailer, basta ver o cartaz. De cara, você já sabe que tudo acabará bem e que é um filme alto astral, não importa o enredo. É a mesma coisa de sempre: mocinho conhece mocinha. Os dois se separam.

Tudo acaba bem. Saímos felizes e com inveja daquela ilusão toda. É sempre assim. São comédias românticas, feitas especialmente e sob medida para nos causar esse efeito. E não adianta teimar com isso: o mocinho e a mocinha são lindos. Sempre. Partindo desse princípio, podemos deixar de lado o excesso de crítica e nos entregar, como quem não quer nada, a alguma distração boba.

Não é o melhor filme dos dois atores, na verdade passa longe disso, mas também nos ocupa com bobagens positivas, ilusões desnecessárias – como diria o mocinho de outra comédia romântica (essa sim, muito boa) 500 dias com ela – e risadas cúmplices. A verdade é: normalmente os rapazes não gostariam deste filme, as moças o acham bobo e é, de fato. Mas eu sou boba e me diverti bastante. Se fosse enquadrar na Sessão da Tarde, colocaria um tanto abaixo de Harry e Sally, mas ainda distante de De Volta a Lagoa Azul ou, pra quem não os viu, entre a clássica comédia romântica super legal e o cúmulo da inocência num filme que perdeu a diversão e deixou apenas o tédio.
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Quando estava na faculdade de cinema anos atrás, estudei um pouco sobre linguagem. Numa matéria que não me lembro agora – se oficina de comunicação escrita ou semiótica – tratamos da origem da linguagem, do fim da oralidade para a escrita e me surgiu uma questão que ficou sem resposta: como é pensar sem palavras? Porque, toda vez que pensamos, frases, verbos, construções lingüísticas são feitas em nossa mente. Como Oliver Sacks diz em Vendo Vozes, a fala faz parte do pensamento.

vendo-vozes

Estava no sebo aqui na frente de casa – que por sinal vai fechar as portas e me deixar tristíssima mês que vem – vendo se achava alguma coisa que me despertasse a curiosidade e meio sem querer, o cara que trabalha lá me mostrou esse Vendo Vozes. Resolvi levar e, entre a dúvida e o arrependimento por ter dito isso, fui pra casa com o livro na mão. Achei que esse poderia ser daqueles que compramos no impulso e ficam empoeirados em casa como uma proposta para um futuro improvável. No fim das contas, comecei a ler o livro e não consigo largar dele.

O livro trata um pouco da história da surdez pré-lingüística e o surgimento da língua dos sinais e de sua importância. Surdez pré-lingüística foi o termo que deram para aquelas pessoas que nascem surdas, que não tiveram acesso até onde se recordam de ouvir qualquer palavra. Claro que para isso, consideramos a palavra como forma de linguagem primordial e essa é uma questão também levantada e bem lembrada de sua importância quando o autor cita a Bíblia, como um dos grandes exemplos: no princípio era o Verbo. 

O que passa é durante a história da evolução da linguagem dos sinais, viu-se que o desenvolvimento humano dos surdos nesta condição era muito mais rápido do que se eles aprendessem de imediato a ler lábios, falar como fosse possível – já que não tinham parâmetro para como falar, se nunca ouviram – ou até escrever.  Mas isso ainda não respondia a minha pergunta, apenas a tornava mais densa. Eu tinha pensado nos surdos, sabia como eles se comunicavam, mas nunca havia me passado pela cabeça a possibilidade deles não pensarem como os que ouvem ou já ouviram pensam. E aí a pergunta segue viva.

A leitura é extremamente acessível, como vários outros livros de Oliver Sacks, esse neurologista que trouxe aos pobres mortais conceitos, questões interessantes e normalmente restritas aos ambientes acadêmicos e profissionais. Uma das pistas que me ajudam a chegar perto da resposta que procuro é:


“A linguagem [de sinais] que usamos entre nós, sendo uma imagem fiel do objeto expresso, é singularmente apropriada para tornar nossas idéias acuradas e para ampliar nossa compreensão, obrigando-nos a adquirir o hábito da observação e análise constantes.”

Ou ainda


“Com base na linguagem da ação, De l’Epée criou uma arte metódica, simples e fácil com a qual dá a seus pupilos idéias de todo tipo e, ouso dizer, idéias mais precisas do que as que em geral se adquirem com a ajuda da audição. Quando, na infância, somos reduzidos a julgar o significado das palavras a partir das circunstâncias nas quais as ouvimos, ocorre com freqüência que apreendemos o significado apenas aproximadamente e nos satisfazemos com essa aproximação durante toda a nossa vida. É diferente no caso dos surdos ensinados por De l’Epée. Este só tem um meio de dar a eles idéias sensoriais: é analisar e fazer com que o pupilo analise junto. Assim, ele os conduz de idéias sensoriais a idéias abstratas; podemos avaliar o quanto a linguagem da ação de De l’Epée é mais vantajosa do que os sons falados por nossas governantas e preceptores.”

Esses são trechos tirados do livro de outros autores - sendo o primeiro um surdo 'pós-linguístico' e do século XIX, quando a surdez já era vista não como um impasse, mas um desafio a superar, que era descobrir uma forma de desenvolver, de dar valor e condição a estas pessoas. 

Entretanto, minha questão primeira não foi resolvida e ainda há outras no caminho, quando leio o livro. Acabo de falar com um amigo que teve a experiência de ensinar a surdos com um intérprete para LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Ele me disse que não havia um ‘gesto’ específico para FÍSICA, e que assim, a intérprete tinha que soletrar. Tudo bem, é uma saída, mas ela destoa um pouco das noções (ok, séc. XIX) acima, quando entendiam ser a linguagem dos sinais completa. E, pensando adiante, como se definem algumas abstrações? Como se define paz, saudade... será que há um gestual ou serão soletrados também, o que acaba se tornando necessário retornar à palavra... e voltamos à questão do ensino da mesma e o pensamento ‘sem palavra’ passa a se tornar mais difícil.

Acredito que não encontrarei as respostas neste livro - nem ele se presta diretamente a esse tema, mas já traz alguns desenvolvimentos e eu ainda não passei de um terço da leitura. A partir dos surdos talvez se chegue mais perto, ou se imaginássemos aqueles idiomas de símbolos, como o Chinês, Japonês... apesar eles também escreverem conforme o alfabeto, há os símbolos que formam diretamente conceitos e não letras. Mas ainda não é o caso, já que é apenas uma convenção de conceituar através dos símbolos as palavras que entendemos. É só um ‘alfabeto’ distinto.

Isso parece mais uma história sem fim, mas até o fim do livro, alguma noção deve surgir ou pelo menos, ainda mais questões.
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Quase quatro horas. Precisamente, três horas e cinqüenta e oito minutos. E durante todo esse tempo assistimos numa boa a saga de Scarlett O’Hara, uma das personagens mais lembradas da história do cinema.


...E o Vento Levou é um filme que todo mundo já viu um pedaço. Na minha adolescência via trechos, porque passava na tv tarde da noite e sempre caía no sono. Um dia cismei que ia ver todo. Achei cansativo e não dei importância a um filme interminável com forte teor racista e uma história ‘nada demais’. Grande erro.

Hoje, domingo de sol e calor aqui no Rio, não tive coragem de enfrentar o mar congelante com a areia escaldante e lotada. Fiquei em casa e coloquei o filme. Essa menina se tornando mulher na tela, se reerguendo sobre seu próprio orgulho, enfrentando tudo com a moral da necessidade e vaidade estampadas em suas ações. Era o sul dos Estados Unidos com os brancos ricos de grandes terras, famílias tradicionais, escravidão e racismo. Chegou a Guerra da Secessão e os ianques invadiram o sul, unificando o país, transformando em passado e devastação o que era a vida cotidiana dos que moravam ali. Scarlett descobriu a fome, a pobreza, a família destruída pela guerra e com isso, nos diz: Jamais passarei fome novamente.

Mas, além de toda a trama épica, este é um filme de amor. Scarlett, amava além de sua terra, sua casa Tara, amava o homem que não poderia ter, que havia noivado a benevolente Melanie. Estas duas mulheres passam a maior parte da vida juntas por necessidade e tornam-se amigas. Scarlett então conhece Rhett - interpretado pelo galã Clark Gable - e, ao contrário do esperado, sente por ele um incômodo pela semelhança na falha de caráter dos dois. Enquanto Scarlett faz o que estiver a seu alcance para conquistar seus objetivos - casa-se duas vezes, manipula os que estão a seu redor - Rhett é um aventureiro galanteador que participa de qualquer negócio que lhe renda algum lucro. 

Os anos se passam e Scarlett, agora uma mulher poderosa, casa-se com o ‘mocinho’ da história. A moral do casal os une como as duras palavras que trocam durante todo o filme. Se Rhett é um homem apaixonado, é também capaz de dizer a Scarlett que não adianta querer o homem dos outros, que nunca será dela, senão um peso no coração.

A trama segue sempre num crescente e para mim, que não lembrava da história em detalhes, foi quase como a primeira vez. Revemos cenas emblemáticas que hoje fazem parte do imaginário coletivo cinematográfico. É aqui que está o pôr-do-sol da frase que já citei ou aquela em que ouvimos de Scarlett se reerguendo mais uma vez, afinal, amanhã será um outro dia. Há sempre uma obstinação, uma certeza de que como o sol tornará a brilhar, nossa protagonista vencerá mais uma batalha. E Vivien Leigh, que era uma atriz inglesa em ascensão, com esse filme tornou-se uma das mais importantes de seu tempo. Ela vive sua personagem de tal forma que acreditamos sem pestanejar e não há um só momento de hesitação em seus atos, em sua fala, no olhar.


O filme ainda dá margem para outras questões. É uma adaptação do livro homônimo, escrito por Margaret Mitchell que ganhou o Pulitzer em 1937. O que significa que é uma obra escrita por uma mulher sobre uma mulher no sul dos Estados Unidos extremamente machista, onde a opinião feminina pouco importa e o que lhes confere valor é o marido que têm e a forma como se comportam. Aqui temos uma protagonista feminina que casa 3 vezes, rompe com as boas maneiras da mesma forma que investe no que acha importante para viver e ainda sustenta a própria família custe o que custar. É a emancipação da mulher em tempos de guerra, quando a população masculina sofria baixas consideráveis e as mulheres, sozinhas, precisavam criar seus filhos e não passar fome numa terra devastada.

Além de toda a grandiosidade da obra, há uma imensa estrutura de produção por trás. Era a época dos grandes estúdios, das grandes estrelas, que fundaram o star system da Hollywood que conhecemos hoje. Este é um filme de produtor, que contratou vários diretores, roteiristas e foi criando uma equipe diversa, imensa, desde que cumprisse com suas exigências para o que ele imaginava que deveria ser o filme, além de ser mais uma experiência com o recente cinema colorido, o technicolor. Foi o produtor, David O. Selznick, que acompanhou toda a montagem sem a interferência dos diretores. Tanto trabalho sob mão de ferro rendeu 8 dos 12 Oscars a que o filme foi indicado.

...E o vento levou não deve ser visto antes de dormir. É de fato um filme longo, mas que merece atenção; são histórias dentro de uma grande história, com muitas nuances e cujos detalhes, personagens, diálogos e tramas são enriquecidos com uma trilha sonora inesquecível. É um filme grandioso e complexo, que tem que ser visto como um filme épico e de uma época e que se sustenta como só os clássicos conseguem, sem mofar com o tempo ou perder a majestade.
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Fui pra Disney quando tinha 15 ou 14 anos. Fui com as melhores amigas num pacote turístico padrão e foi nossa primeira viagem juntas. E na Disney vimos aquele desfile com os fogos de artifício no céu. Confesso que não me disse muita coisa, porque o desfile era muito longo e chato, então o encanto foi quebrado ali mesmo.


Todo São João que consigo passar em família envolve fogos. Desde muito pequena essa é a nossa maior festa, com uma tradição gostosa de muita comida, música boa e estouros coloridos. Meu pai já sofreu acidente com fogos, mas segue feliz nessa teimosia e acabamos nos juntando a ele e somos aí, crianças novamente.

Este Ano Novo passei no Rio com outros amigos. Fizemos um esquema tranqüilo, comemos bem, bebemos e quando estava pertinho de meia noite, fomos ao Aterro do Flamengo ver os fogos. Não gosto de Ano Novo. Não me sinto muito animada, rola uma nostalgia não sei de quê e é sempre um aperto no peito. Normalmente passo em família, que ameniza um pouco a situação já que nos entendemos no olhar e conhecemos nossos comportamentos e necessidades, mas morando longe tem sido cada vez mais raro.

Na festa desse ano, tudo seguiu nos conformes e lá no Aterro, no meio de um monte de gente desconhecida, com chuviscos de água e confetes coloridos, os fogos finalmente fizeram seu espetáculo e o tempo passou sem que eu percebesse tanto.

No meio daquela multidão de roupas brancas, esperanças difusas e muita bebida, quando as maiores luzes pareciam chover sobre nós todos, como crianças nos encantávamos, nos apaixonávamos e víamos naquela pintura estridente o brilho das cores tocando nosso coração pelo olhar. Ontem eu consegui entender sentindo, o porquê dos fogos, das luzes e cores, a importância de queimar dinheiro desta forma, tão repetida no mundo inteiro em qualquer grande celebração.

É que é justamente naquele momento que todos param o que estão fazendo, param de pensar e ficam bestas mesmo, olhando, admirando, se aquecendo por dentro numa celebração contínua e conjunta, ainda que sentida diferentemente por cada um. E a multidão se entusiasma a cada novo estrondo, como uma surpresa sabida e bem vinda, festejada como um nascimento, o renascimento da juventude, da esperança, da ingeuidade, da inocência. O ano que vem nos permite isso tudo, afinal de contas. É bem ali, naquela meia noite que somos capazes de sonhar sinceramente, sem a auto-crítica apontando na esquina. E nesse meio tempo, ainda descobrimos na outra margem da baía de Guanabara que podíamos ver ainda mais luzes e cores, em Niterói. Esse espetáculo duplo nos manteve por 25 minutos em pé, elegendo quais eram os mais bonitos, ouvindo suspiros e, ainda que algum aperto no peito me soprasse, respirava manso dentro de mim, distraído, sereno.

Voltamos para casa também no meio de toda a turma da praia, num clima abafado, mas ouviam-se felizes e altos Feliz Ano Novo!, com saudações, palmas e abraços. Como uma celebração branca e baiana de Yemanjá, seguíamos todos em paz, esperando de coração, um ano melhor.
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Fim de férias sempre traz uma mistura de saudade e tristeza, não? Uma nostalgia do pouco tempo que tivemos sem preocupações até que elas sutilmente começam a nos contaminar, por jornal, familiares... e aos poucos aquela rotina anual vai se tornando presente, ainda que você tenha alguns dias restantes de suposta tranqüilidade.

Assim aconteceram minhas deliciosas férias. Fui à Argentina, tive novas e revigorantes experiências, conheci bastante gente, algumas pessoas legais que carregarei comigo, reforcei laços de amizade, aprendi mais uma vez a selecionar aqueles que me acompanham. Diverti-me bastante, visitei lugares incríveis. Mas, um belo dia, com muitos e-mails preocupados da minha família, descubro que o Rio de Janeiro entrou em guerra. Feliz por estar longe, triste pela situação e preocupada com meus amigos que vivem aqui, uma parte das minhas férias se perdeu nesse limbo e percebi que o lugar em que escolhi viver deveria perder seus apelidos e se completar com substantivos sinceros.

Continuo gostando do Rio, não tenho previsão pra sair daqui, mas sou realista. Não há como ter grandes esperanças de uma transformação radical nesta cidade, com a manutenção da força como ela é hoje constituída. E, se vimos a polícia de todos os tipos unida ao Exército para combater os traficantes do Alemão - e sentimos um orgulho da justiça nacional, uma esperança de paz e uma vontade de aniquilar os bandidos - vamos deixar claro que os grandes chefões desta equipe fugiram em escolta policial.

Se a proposta de combater o tráfico é permitir a vigência da força podre no poder, melhor seria deixar todos de volta, assim não haveria mais tiroteios, inocentes não teriam suas casas invadidas ou sofreriam queimaduras em ônibus, tiros acidentais, no fim do mês todos ficariam felizes com bolsos cheios. Mas, como o objetivo final é ludibriar a população e a impressão internacional que se tem desta capital maravilhosa, vamos à Copa do Mundo e às Olimpíadas.

E eu nem ia falar sobre isso. É que acabei de ouvir uns estrondos que não são de tiros ou bombas, talvez fogos, mas aprendemos aqui a entrar em alerta quando qualquer som similar chega para nós. Tomara que estes sons não sejam de carregamento de droga no Pavão-Pavãozinho, hoje pacificado. Ou eu preciso lembrar que um dos policiais do Pavão foi flagrado assaltando banco em Niterói?
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Em uma época imemorável, um homem e uma mulher de diferentes tribos da Patagônia Argentina se conheceram e se apaixonaram. Como suas culturas eram diversas, a norma que imperava sobre eles era o fim do amor, com a obrigatória separação. Cada um deveria seguir seu caminho, casando-se com um de seus comuns.

Mas o amor deles era muito muito forte. Era como aquele amor de Romeu e Julieta, de almas gêmeas e talvez como estes amores pelos quais as pessoas se casam com sinceridade. Em todo caso, o amor deles era muito maior do que as convenções e regras que tinham que obedecer.

Resolveram fugir. Era a única forma de viverem juntos e construírem com seu amor uma nova família, até formando uma nova tribo baseada no amor e com ele fortalecido. Eles correram e correram e se viram diante de um lago muito profundo e frio, o lago Mascardi. Conhecedores da região, sabiam que a única forma de viverem juntos seria na outra margem, onde as duas tribos não os alcançariam. Ao mesmo tempo, a margem oposta era muito distante e o lago de águas quase polares poderia matá-los.

Mas, mais uma vez, pensaram que não poderiam viver sozinhos separados - casados com outras pessoas que não eles e foram com o amor do mundo nas mãos dadas ao lago.

Nunca mais se ouviu deles.

Foram procurados em todas as terras, em todas as margens e vales. Tribos se comunicavam, as mais distintas, para saber que fim tiveram os dois jovens mais importantes que haviam em cada comunidade. Nenhuma resposta. Não havia nenhum sinal deles em lugar nenhum, nenhum corpo encontrado, nenhum corpo avistado.

O tempo passou.

Neste mesmo local onde eles haviam pulado, nasceu um mirante, de tanto as pessoas tentarem vê-los. Numa tarde de sol já sem esperanças, alguns passavam por ali e viram uma sutil movimentação na água. Aos poucos, uma ilha nascida verde submergiu das águas profundas. Alguns metros afastada, outra ilha, parecida com a primeira também se viu nascer. Aos poucos, as duas foram de encontro uma à outra e tornaram-se apenas uma, com um formato nunca antes visto, mas agora perpetuado como símbolo de amor eterno.

Piuque Huapi em Mapuche significa Ilha Coração.

*Essa lenda foi contada por Mapu, um índio Mapuche que era nosso guia em um dos passeios por Bariloche este mês.
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Ontem eu lia um livro que em aparecia um personagem que falava da infância. A história do livro é legal, sobre um cara que vai se redescobrindo a partir de um pé na bunda recebido de uma mulher de quem ele não se lembrava. Este outro personagem falava que não gostava de crianças, mesmo sendo um escritor de livros infantis e que só gostaria daqueles que fossem seus. Ele dizia que a infância é muito séria, que as crianças são sérias e cheias de idéias sobre as coisas e o trato consigo mesmas não é tão livre quanto os adultos pensam. Dizia ele que as crianças da forma como são, dariam ótimos adultos.

Fiquei pensando nisso, porque dá a impressão de que esquecemos como fomos agora que crescemos e as lembranças parecem ficar presas em caixas, que quando abrimos, vemos uma bagunça de histórias acumuladas e não dá pra ter uma idéia mais precisa de quem éramos, fica apenas uma nuvem confusa de memórias. Ao mesmo tempo, acho que com um exercício de volta ao passado, dá pra lembrar de grandes momentos, recolher as fotos e os amigos, até pra ver se o que queríamos ser quando grandes, conseguimos realizar.

A história de Nicolau inicia assim. Está na sala de aula, sua professora pede a todos que façam uma redação sobre o que querem ser quando crescerem. E ele descreve seus amigos naquele instante pelo que querem ser, enquanto ele mesmo ainda não sabe. É essa seqüência que abre O Pequeno Nicolau, em cartaz nos cinemas.

De início nada sabemos, o cartaz é uma foto divertida de alunos de uma mesma sala de aula, todos com caras sapecas e suas descrições resumidas em legendas, já dá a impressão de ser um filme divertido. Mas esta situação transcende a imagem parada. Nicolau é este menino no centro da imagem, com cara de líder da máfia infantil que está preocupado com o que lhe vai acontecer quando seu irmãozinho nascer – ele acredita que será deixado numa floresta, esquecido para sempre. Para resolver a situação, junta seus amigos e bola um plano para fazer com que seus pais o queiram de volta. Com isso, o filme não fala apenas sobre Nicolau, mas também de seus amigos, das famílias e da escola, criando não um retrato, mas uma coleção de memórias sobre a infância.

Aqui a infância é tão séria como a que li no livro lá de cima – Talvez uma história de amor, Martin Page – as questões têm fundamento, os medos são sinceros, os planos inteligentes. Há inclusive essa relação da infância com a vida adulta e as justificativas para o que eles querem ser quando crescer são tão honestas que nos trazem um sorriso no rosto: antes todos fôssemos simples assim. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da história do filme casa direitinho com o desenrolar da narrativa de Virgile, protagonista do livro, com suas interpretações sobre sua infância de circo. É incrível como obras tão díspares conversam tão bem.

O Pequeno Nicolau traz cenas que nos lembram Amélie Poulain pela doçura e inocência. Ao mesmo tempo, enquanto Amélie nos encanta, Nicolau e seus amigos nos fazem rolar de rir. Aqui não importa a idade neste filme infantil, já que são situações que quando não estamos vivendo, lembramos de nossa própria história ou simplesmente nos deliciamos com as mirabolantes construções infantis. Assistir a um filme cuja visão do mundo e narrativa é entregue a uma criança torna tudo mais divertido. O diretor e roteiristas merecem prêmios por isso.

Ainda vemos o cuidado com a construção fílmica além diálogos: a fotografia tem uma marca importante que se associa à direção de arte e figurino; estão realçadas as cores, em especial o vermelho, os figurinos são marcados e datados, bem como a decoração das casas, o carrinho de bebê, os carros. Fica claro que não estamos nos dias de hoje, ainda que as situações sejam plausíveis para qualquer década. Sendo um filme baseado num livro dos anos 50, notamos isso claramente também na construção dos personagens adultos: a mãe dona de casa, o pai querendo crescer no trabalho e convidando o chefe para almoçar em sua casa; a necessidade da mãe ser uma mulher moderna e sua transformação, são emblemas de uma geração adulta que percebia a necessidade de uma mudança que ali era embrionária.

Para nós que temos Turma da Mônica e O Menino Maluquinho, as comparações são claras. Os planos de Cebolinha e Cascão, as artimanhas do Menino Maluquinho - este até mais parecido pela relação com a fantasia e o personagem central ser um garoto da mesma faixa etária - nos remetem a um mesmo universo de trapaças infantis. Mas, enquanto o Menino Maluquinho se volta mais para o público infantil, neste filme Nicolau funciona bem para todas as idades. É quase impossível não gostar.

Este filme dá vontade de ter em casa, de assistir mais umas vezes, de rir muito com aquelas crianças, de entender seus problemas e, melhor do que tudo, ver que todos podem se resolver. Dá vontade de deixar esses grandes atores mirins continuarem assim para sempre e esperar muitos outros filmes que nos levem pela lembrança do que fomos e pela fantasia do que queríamos ser.

Notas
Filme: O Pequeno Nicolau
Título Original: Le petit Nicolas
Diretor: Laurent Tirard
2009, França e Bélgica, 91 min.

Livro: Talvez uma história de amor
Autor: Martin Page
Ed. Rocco, 2008 - 157 páginas.
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Essa é uma atualização obrigatória, preliminar de um texto útil a ser desenvolvido brevemente. É uma limpeza da mente, um esvaziamento do excesso de palavras e idéias meio perdidas e sempre bobas que ficam escondidas em cantos, como moedas atrás dos móveis.

Uma noite estava dormindo e o telefone tocou. Era Cristiano, às 03:10 da manhã. Perguntou por que eu estava acordada àquela hora, disse que viu meu telefone em sua agenda e me ligou. Até aí tudo bem. Só que eu não sabia quem era Cristiano.

Toda vez que vou ao trabalho, passo por avenidas de praias. Acaba sendo um passeio agradável quando consigo me sentar no ônibus e por uns instantes esquecemos da rotina e até por ela, temos sorte de passar por ali quase todos os dias. A cada dia, um turbilhão diferente de palavras sobre o mar surge em minha mente, mas o tempo passa e esqueço de anotá-las.

Outro dia eu estava pensando nas cores do mar. Tem gente que diz que é azul, tem gente que diz que é verde. Eu percebi que perto da margem é verde e lá no fundo fica azul. Claro que várias teorias foram construídas em cima disso, mas a mais legal é a de que como a areia é amarelinha e teoricamente a água era pra ser azul por conta do céu, o verde não era amarelo + azul? Achei essa mais convincente e aceitei como verdade.

Minha casa é um abrigo de amigos. Antes era só um espaço meio meu, mas agora posso contar os dias que ela tem só a mim. É divertido e interessante receber pessoas, mas o tempo de pensar sozinho e escrever vai diminuindo devagarzinho. Não reclamo das minhas pessoas, as convido a ficarem porque a casa é nossa, afinal de contas e são as minhas pessoas favoritas. Mas foi bom passar o dia inteiro aqui, quietinha. Matei saudades de mim.

Tem alguém na rua ou no prédio da frente assoviando. Não sei porquê. Não pode ser para um cachorro, porque isso já dura bem uma meia hora.
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Comemorei meus quinze anos com festa de debutante. Meio sem querer mesmo, já que quem queria era minha mãe, para realizar um antigo e em sua época impossível desejo. Foi divertido diante das circunstâncias e meus amigos daquela época ainda o são hoje. Não me lembro agora se estava apaixonada por alguém... era adolescente e talvez mais lerda do que a maioria para essas coisas do coração.

Me apaixonei e desapaixonei por alguns garotos e de todos ficaram hoje boas lembranças. A vida adolescente é intensa e, como meus pais me diziam, eu ainda ia sentir falta disso. Nunca senti tanto como hoje. Tive um dia infernal no trabalho, milhões de problemas para resolver e que me tomaram muito tempo e desgaste diante de alguma incompetência alheia. Mas todo trabalho é assim. E uma manhã cheia de atribulações domésticas que escolhi pra mim com todo o orgulho da independência de quem justamente quer sair da fase 'casa dos pais'. Mas aconteceu agora de noite um filme que me deixou com vontade de apertar rewind e sentir tudo de novo.

15 anos e meio é um filme francês que está nos cinemas. Conta a história do retorno de um pai à vida da filha depois de quinze anos, agora ela nessa idade. Como eles não conviveram juntos, os conflitos óbvios surgem e essa comédia ‘romântica’ vai nos guiando por alguns estranhos caminhos, mas cheia de boas intenções. O pai é um profissional reconhecido, mestre em seu trabalho, mas se vê como amador quando se relaciona com a filha. Ela, geniosa, mas doce e complexa, vive as situações e ainda lida com esse pai que não se adapta às suas condições. Os dois atores funcionam muito bem juntos – não precisamos nem adjetivar Daniel Auteuil, que faz qualquer personagem muito bem e Juliette Lamboley, que conheci agora – e acho que suprimiria algumas fantasias do filme, quase de comédia pastelão, mas que não foram grande sofrimento assistir. Os coadjuvantes dão uma graça a mais ao filme, especialmente os adolescentes, que são mais coerentes do que os extremos apontados nos adultos. A intenção parece ser a de mostrar que a diferença entre as idades é muito menor do que aparenta e que o que importa é muito mais a troca de experiências do que uma situação de pai que manda e ensina e filha que obedece e aprende. Acaba sendo um filme mais para meninas, mas cabe para quase qualquer público. É leve, engraçada, com situações possíveis e que nos levam para viagens incríveis no tempo. Uma boa para domingos chuvosos.

Como toda história bem contada, essa se torna universal. É a vida adolescente x vida adulta, é a noção de família, são as descobertas das meninas e os choques dos pais, o eterno problema das gerações. E esse descompromisso adolescente, essa vida de si para si e seus amigos, essa falta de responsabilidades e obrigações e o coração batendo forte pela paixão são marcantes no filme e na vida real. Para quem está iniciando a jornada nas águas misteriosas da fase adulta, acho que só cabem as férias para rever um pouco disso. E em um mês temos que resolver todos os nossos sonhos e fingir que não temos grandes responsabilidades. No fundo, sabemos que é impossível e por isso o coração aperta quando lembramos com muita saudade de nossos tempos de escola, quando o que mais queríamos era crescer. Por isso é que filmes assim são tão fundamentais. Agora, me resta o reencontro com os amigos – coisas que só a ‘idade’ traz – e, quem sabe, reviver as histórias nas conversas de bar e cafezinho.



Título Original: 15 ans et demi
Ano: 2008, França.
Dir.: François Desagnat e Thomas Sorriaux.
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Assim, a Anne boa nunca é vista acompanhada. Ela nunca aparece, ainda que quase sempre assuma o palco quando estou sozinha. Sei exatamente como gostaria de ser, como sou... por dentro. Mas infelizmente só sou assim comigo mesma. E talvez seja por isso – não, tenho certeza de que este é o motivo – que penso em mim como uma pessoa feliz por dentro, e os outros pensam que sou feliz por fora. Sou guiada pela Anne pura, de dentro, mas por fora sou apenas uma cabrita fazendo cabriolas, forçando a corda à qual está amarrada.

Como já disse, o que falo não é o que sinto, e por isso tenho reputação de assanhada e namoradeira, de sabichona e leitora de romances de amor. A Anne jovial gargalha, dá uma resposta ferina, encolhe os ombros e finge que nem liga. A Anne quieta reage do modo oposto. Se estou sendo completamente honesta, tenho que admitir que isso me importa, que tento arduamente mudar, mas me vejo sempre diante de um inimigo mais poderoso.


Anne Frank me acompanhou esses dias. De início, imaginava que sua história era outra, que de alguma forma, ela havia estado em um campo de concentração e de lá narrasse suas memórias. Claro que isso se mostrou uma ilusão até infantil, já que deveria ser proibido escrever qualquer coisa ali – até porque viver era proibido... a questão é que eu não imaginava com que força esse diário de uma adolescente durante a guerra ia me impactar.

Quando lemos diários, participamos da vida das pessoas, do que há mais íntimo e particular nelas. Porque, na época dos diários, era de fato tudo secreto, íntimo. Hoje os diários quase não existem, deram lugar ao movimento oposto – blogs, twitters, Orkut, facebook, myspace... – onde o secreto se torna popular e a intimidade deixa de existir, como se todos tivéssemos interesse nas vidas alheias, quando elas se tornam cada vez mais banais e desinteressantes; mostrando muito mais vazio do que algo válido de conhecer.

O diário de Anne é uma extensa correspondência para uma suposta amiga. Dali extraímos o dia a dia de pouco mais de oito pessoas que se forçaram a viver juntas por serem judeus em Amsterdam na Segunda Guerra. Esse livro deveria ser lido na adolescência. Porque, além de falar da óbvia guerra, fala muito mais da fase, do momento, da criação de Anne. Fala de ser menina virando mulher em outros tempos, mas escritos de uma forma universal e atemporal, a exemplo dos trechos lá de cima. Ás vezes, até pensamos quando lemos, ‘mas não muda muito, é só a rotina’. Mas é justamente nessa rotina que vemos as transformações, como o confinamento a que se submeteram na esperança de sair dali sufocava as pessoas, antes amigas, agradáveis e educadas.

Anne Frank humaniza a guerra; a tira dos livros didáticos, dos dados, das execuções. A narrativa pessoal de um período tão visado até hoje na mídia altera nosso olhar e saímos do clichê. Parece que estamos vendo um longo filme, tentando não sofrer, pois já sabemos o final.

Quando terminei o diário e ia seguir para o posfácio, dei de cara com uma frase que me chocou:


O DIÁRIO DE ANNE TERMINA AQUI.


E temos a continuação da tragédia coletiva onde, literalmente, só sobrou o pai para contar a história. Mas a frase, ali, centralizada após os últimos parágrafos – para mim os mais bonitos – e sem despedidas, afundou meu coração e me deixou perdida. Não acreditei quando virei a última página, não queria que isso acontecesse, não queria sair do meio da história. E logo quando Anne estava se compreendendo, quando eu estava me compreendendo... quando a identificação finalmente entrou com tudo no meu peito e na minha cabeça e eu entendi finalmente porque não conseguia deixar o livro em casa e tinha que lê-lo a caminho do trabalho. Acabou. E o sentimento de incapacidade, inutilidade... contrasta com a possibilidade de ler algo assim. Uma confusão se instaurou em mim e ainda não consegui diluir o final.
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Eu poderia dizer que hoje existem dois tipos de garotas da minha idade: as que já iniciaram sua família e estão ou querem estar o quanto antes, grávidas; e aquelas que estão solteiras, vivendo a vida de outra forma. Claro que entre uma coisa e outra existem gradações que diversificam e relativizam tudo, mas vamos manter assim pra facilitar. Burt e Verona são esse casal, um pouco mais velhos que eu e que estão grávidos, mas cuja vida se parece muito mais com a minha do que com essa referência organizada dos jovens casados. Até porque eles não são casados, apenas vivem juntos. Em seu sexto mês de gravidez, decidem partir para descobrir onde e como querem viver e finalmente fazer surgir a família que eles esperam.

Do outro lado, tenho esse casal de amigos que estão grávidos e super organizados. Eles são minha referência mais próxima de jovens pais, ainda que estejamos em regiões distintas do país. E quanto mais perguntas eu faço a ela para saber como é estar grávida, o que se sente, o que muda, ela me dá as respostas evasivas de uma grande transformação: nulas. Porque, quando se está em processo pouco se sabe dele se há muita distração, e às vezes as transformações são muito mais íntimas e sutis do que algo que seja fácil de notar, como uma cor nova nos cabelos.

Burt e Verona estão neste filme de Sam Mendes, Away we go, que vi ontem aqui em casa. Nesta viagem, buscam suas referências de amigos e familiares em algumas cidades dos EUA e Canadá. Assim, encontram tipos de família tão díspares como podem ser na vida real e, mais do que perdidos, compreendem que estão no caminho certo, ainda que não saibam bem qual seja. O que esse filme tem de incrível é a possibilidade que ele cria. As situações são tão comuns que dá pra se enxergar nelas. Por serem mais velhos que eu, já imagino que minha gravidez não seguirá como a de minha amiga, mas muito mais próxima da ‘realidade’ deste filme. Estarei grávida pelos trinta, não sei se numa situação de conforto e estabilidade (ainda mais tendo em conta minha situação financeira atual...) e levaremos isso como der.

E o formato do filme nos prende nessa jornada; filmes de viagens tendem a nos levar pelos caminhos de belas paisagens, mas neste vamos além, estamos por eles, por nos vermos em parte como eles são e até por concordarmos que existem aqueles tipos que acompanhamos; nas histórias tristes, nas famílias desestruturadas, nos desequilíbrios de pais despreparados, naquelas pessoas que nunca deveriam ser pais, nos pais alternativos e naqueles fantásticos que queremos nos espelhar.

Essa seleção de situações que espelham as famílias americanas é mais uma que Sam Mendes nos traz. O diretor fez além desse, Beleza Americana, Revolutionary Road e Soldado Anônimo , além de Estrada para Perdição. Talvez dê para perceber mais fortemente nos três primeiros a particularidade das visões que ele tem sobre seu país, que já o identificam num cinema de autor. No caso de Away, é estranho, mas ele não chegou aqui aos cinemas, foi direto para as locadoras, mesmo tendo público garantido. Não é um filme impactante como Beleza Americana ou Estrada para Perdição, mas tem seu impacto e é sensível como poucos. As atuações são mais uma vez impecáveis; o casal é muito bem construído e o mais engraçado é ver a inocência inteligente no olhar do pai – John Krasinski - e, com isso, a preocupação da mãe - Maya Rudolph - em não saber como será esse futuro, na certeza de que eles se amam e de que não querem ser como os outros. Ainda Maggie Gyllenhaal como a mãe ‘alternativa’ e o casal incrível interpretado por Melanie Lynskey e Chris Messina.

Não suficiente, Jeff Daniels – que já é um expert em filmes sobre o comportamento da sociedade americana – a trilha sonora incrível e a fotografia de Ellen Kuras, que já fez tanta coisa que me surpreendi de não ter notado seu nome antes, quando vi a filmografia no imdb. Incrível. É um filme sincero e simples, dando os melhores significados para esses dois adjetivos. Não há mais o que falar, só que precisamos sempre ver filmes assim e esperar que sejam feitos mais e melhores, se isso for possível.


Título original: Away we go
Diretor: Sam Mendes
2009, EUA.
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Achei que seria um texto fácil de começar, na verdade. A questão é que o filme trata da dor de perder uma pessoa querida e isso em si, já traz bastante sentimento, quando você passa a associar a sua vida como exemplo. Porque para você chegar onde o filme pretende te transportar, naturalmente e até sem querer, você acaba se comparando àquela situação. E daqui pra ali já começa a apertar o coração.

A família encabeçada por Pierce Brosnan e Susan Sarandon perde o filho mais velho. Era um garoto modelo, do tipo que não dá trabalho, nem cria problemas pra ninguém. O típico cara sensacional, legal pra caramba, super amigo. Como meu amigo que perdi há uns anos, por exemplo. Então encontramos essa família perdida entre a dor e não saber como lidar com isso, cada um vivendo sua própria condição e o pai tentando confortar todos, sem saber como reagir a si próprio.

O que há de especial no filme não é exatamente a trama, mas a interpretação dos atores. Porque a história é comum, com alguns exageros, algumas cenas desnecessárias, mas que se apóia em situações tão singulares quanto sinceras, basta lembrar da relação criada entre a namorada do que morreu com o pai da família. A função deste (aparentemente como todos os pais se acreditam) era segurar as pontas, quando nem ele se tinha sob controle e encontra nela uma força parecida, junto com uma necessidade de carinho e proteção. E eu, que tinha tantas críticas em relação a Pierce Brosnan, tiro meu chapéu ao ver tanta força também no início do filme, no plano-seqüência dos mais bonitos que já vi na vida, quando a família volta do enterro, no banco de trás de um carro, mudo, sem trilha sonora, como a vida mesmo.

Pensando alto e longe, essa poderia ser a seqüência do ponto de vista da família do jovem Alexander Supertramp, de Na Natureza Selvagem. As estruturas familiares são bastante parecidas; o pai enquanto dono da casa, a mãe de uma força incrível cujos embates com o marido são inevitáveis e um irmão (irmã neste caso) mais novo que perde a referência que tinha a seguir. Claro que a história real de Alexander Supertramp – Cris McCandless é diferente porque sua busca era outra e a impressão de impacto na vida dos que conviveram com ele foi muito maior até por isso (ainda mais se imaginamos que ali é real). Mas a continuação da história familiar não parece ser muito diferente do que vimos neste, como uma família que tenta se reestruturar após tanto.

Não havendo preconceitos e com alguma vontade de encarar um drama, esse até vale. Não é um filme para grandes expectativas e, talvez por eu ir acreditando nisso, tive uma boa experiência. É uma história triste, mas possível porque é americana, o próprio peso é bem dimensionado, algo que se pensássemos numa produção européia seria muito mais doído. Vale para uma tarde de tédio num domingo ou um fim de semana chuvoso em casa.

Título original: The greatest
Direção: Shana Feste.
2010, EUA,
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Não preciso dizer que algumas séries de televisão duram para sempre e que marcam o crescimento de gerações com interesses que se tornam comuns. Assim é com muitas delas e a partir daí se desenvolvem grupos tão heterogêneos que quase apenas a linguagem audiovisual consegue unificar, que diga Hollywood e todo seu sucesso histórico e global. Hoje, numa sala de cinema lotada de poucos homens e muitas mulheres, mais uma vez todas poderiam ser boas amigas.


Sex and the City 2 é um filme bobo, feminino, de meninas e mulheres, sobre amizade e relacionamentos em que todas já conhecemos os protagonistas, suas histórias de vida e não é difícil saber também o final. Sabemos que o figurino será no mínimo ousado e que todas vamos querer os sapatos que elas usam, os namorados e maridos de algumas e que ali é o reduto da fantasia que nos permitimos viver durante pouco mais de duas horas.

A série se consagrou no mundo por mostrar quatro amigas solteiras, trintonas, vivendo em Manhattan, falando e praticando sexo de maneira casual, sem maiores polêmicas. Todos os luxos eram permitidos: homens lindos, restaurantes e cafeterias, boates badaladas, moda e sapatos, muitos sapatos. E um histórico de relações que qualquer mulher pós-vinte consegue se identificar em menor ou maior instância. Não há só bobagem nisso: há uma espécie de retrato – guardando os limites da ficção – das mulheres da útlima década que vivem amizade, amor, sexo, trabalham e garantem seu espaço. Aqui falamos de independência feminina, relacionamentos e comportamento com uma comédia em tons de crônica com estilo e inteligência. Nesse bocado de ‘futilidade’ viveram e assistiram muitas outras mulheres da vida real, acompanhando as trajetórias das single ladies americanas. E agora, que na ficção continuam suas vidas nesta seqüência, marcamos outro encontro na grande tela.

Não por acaso, que aqui no Brasil surgiram programas de tevê que deram voz às mulheres: aquele com quatro mulheres independentes, algum estilo, idades variadas e importância no meio artístico-cultural que conversam sobre tudo o que rola no mundo ou outro de pior gosto une outras quatro falando de sexo tórrido e descritivo, cujo apelo é muito mais vulgar do que interessante. Este último, além da pobreza na qualidade e conteúdo cria uma confusão entre quebra de tabus, originalidade, ousadia e objetivo, este último que ainda não consegui identificar. Sem falar nas entrevistadoras e nos canais brasileiros voltados ao público feminino.

Voltando ao filme, claro que ele peca em alguns detalhes, falas muito marcadas, os estereótipos de sempre e a caricatura de um Oriente Médio que só os americanos têm a cara dura de fazer, que se inclua aí até a fotografia. De uma forma ou de outra, quem vai assistir não espera muita coisa além de reencontrar Carrie, Samantha, Miranda, Charlotte, Mr. Big e até o charmosíssimo Aidan. E sobre suspiros, risos, gargalhadas, oohhs e aahhs, as mulheres e até os homens – um senhor inicialmente rabugento que estava ao meu lado é um exemplo – riem das loucuras femininas das moças agora comprometidas e sempre complicadas.

Seria muito bom esperar uma seqüência para matar novamente a saudade das meninas, mas não sei se será possível. As crises estão acabando pra elas e o jeito vai ser comprar o box para rever as histórias que já sabemos de cor. Engraçado além do filme é ver a coreografia de risos e expressões que ganha o cinema cheio. Éramos todas comadres rindo juntas, criticando as roupas, amando os sapatos e rapazes do filme, nos surpreendendo com algumas cenas, partilhando da mesma emoção. E podem contar com mocinhas de 18 às senhoras, mães e avós. Fato que só reforça a necessidade das grandes salas frente ao mercado crescente do cinema em casa. Para que melhor, quando até as gargalhadas fora de tempo causam ainda mais gargalhadas e o público se solidariza com ele mesmo? É um cinema participativo que um dvd não se compara jamais, ainda mais se vamos aos domingos. Se esse texto saiu tão bobo e feliz com o filme, nada mais é do que o reflexo de uma boa sessão com ótima e vasta companhia, num momento mulherzinha. Que me desculpem os cults, mas tudo tem seu momento.

Título original: Sex and the City 2
Diretor: Michael Patrick King
2010, 146 min. EUA.
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Quando asistimos Estamira, imaginamos aquela mulher re-construída no documentário de Marcos Prado, com aquela voz, poder e miséria pouca vezes repetida no audiovisual. Neste documentário, mistura de dor, genialidade e belíssima fotografia, Estamira mais uma vez e tantas outras, pois é difícil esquecê-la quando a conhecemos assim. Garapa dói ainda mais. Agora José Padilha é quem nos mostra outra miséria, escondida nos programas assistencialistas do país... miséria que até sabemos existir, mas esquecemos diante do progresso sem ordem deste Brasil.

Garapa é a mistura de água com açúcar dada em mamadeiras às crianças pelas mães, no intuito de enganar uma fome permanente. As crianças deste filme, desnutridas, cheias de doenças e com a maior delas: uma falta de futuro, de fim útil, o excesso de ignorância e miséria reinantes, a pobreza que ninguém quer ver. Porque estamos acostumados a meninos de rua, viciados em crack, assaltantes, desesperados. O que não estamos acostumados é a apatia, o fim pelo fim, a aceitação por não se saber outro que são expostos nesse filme. É a crueza do Sertão, aquele de Vidas Secas lá atrás... atualizado nesse documentário em p&b.

Não importa onde estejam: se à margem de uma cidade maior, se no meio do nada, se atendidas ou não por algum programa do governo. Ainda há pessoas sem carteiras de identidade que sequer sabem sua própria idade; ainda há pessoas que vivem sem saber mesmo o que significa este verbo; ainda há pessoas sem sonhos. E as crianças deste filme, muito ou tão doloridas quanto seus pais, todos vítimas. Outro dia estive conversando com uns amigos e se falava do crescimento econômico do país, da possibilidade de se chegar do quase nada à classe média em pouco tempo, da ‘facilidade’ de entrar em uma universidade e todos acreditávamos nisso, nesta nação grande, aconchegante e democrática, de um presidente forte internacionalmente, ele mesmo o próprio retrato de esperança... há que assistir Garapa para perder um pouco dessa ilusão.

Ao mesmo tempo, enquanto alguém que estuda a arte, há um embate moral nessa história toda. Aprendi a defender o filme pelo que ele se propõe, por seu objetivo final, mas, como uma pedra no sapato, fica a questão da ‘exploração’ da imagem de quem só tem isso a que se agarrar. Essas três famílias passam fome. Uma equipe vai fazer um filme sobre a fome e os encontra como exemplo perfeito. Como é lidar com uma situação tão discrepante e depois voltar ao hotel, jantar, almoçar, tomar café com a impregnação do real a alguns quilômetros de distância? Como se manter próximo para filmar e distante para algum apoio? Como ignorar o assunto do filme que se faz e não prestar qualquer ajuda, ou ver a fome enquanto lhe sobra comida? Numa situação limite, foi dado um analgésico a uma criança com dor de dente. Mas é um detalhe diante do todo. Independente de uma assistência futura, de uma promessa de ajuda pós-filme... algo de culpa permeia minha cabeça sem nem ter feito parte desta equipe, ao mesmo tempo que defendo a produção e encaro a obra como pronta, ótima e útil e, que se houvesse algum assistencialismo prévio, não haveria filme. Dilemas.

As semelhanças em Estamira não são à toa. Não apenas a temática, a questão ética, quanto à parceria entre os dois diretores é permanente. Marcos Prado e José Padilha se reencontram aqui também, na fotografia, no cinema brasileiro direto, na aposta em filmes importantes. E é esse o cinema que permite a ‘não’-interação com o tema a filmar e que o torna tão íntimo para quem assiste e talvez até para quem participe. A vida daquelas pessoas é tão escancarada que percebemos que sequer onde moram as famílias têm privacidade. Como as cidades pequenas em que estão localizados, seus habitantes participam e têm opiniões a dar, reclamações, invasões. Vizinhos são sempre observadores de nossas vidas, como a câmera-olho que os permite nos visitar. E é essa exposição que evidencia a importância vital das mulheres nestas famílias. Invariavelmente elas se tornam protagonistas das ações, já que depende delas o parco sustento de todos, desde a preparação da garapa, a busca por água, o cuidado com os filhos, o recebimento do bolsa família, a visita a uma ONG ou até a defesa da própria situação frente às criticas de quem os invade. Aos homens, álcool, desilusão, despreparo, apatia, brigas, doenças e o cuidado mais como favor do que como obrigação aos filhos.

É um filme duro e importante. Traz-nos uma culpa pelo que desperdiçamos, nos indica uma perspectiva escamoteada pelas políticas públicas e índices eleitoreiros, escancara o que não queremos ver, mostra que este Brasil existiu desde sempre e ainda existirá por muito tempo. A situação de insegurança alimentar que esse filme expõe também identifica uma condição internacional, já que há esta fome em todo globo. Aqui temos um detalhamento apurado do cotidiano dessas famílias à beira de um precipício. E não há melodramas, novelas ou um quê de responsabilidade social que poderia ser pregado como um religioso no seu palanque/palco. A idéia que temos ao assisti-lo é simplesmente de que é daquela forma que realmente eles vivem. E isso sim, é a mais grave e dolorosa conclusão.

Garapa
Direção: José Padilha
Ano: 2009 - Brasil
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É impossível não falar sobre a chuva. Quando o verão desse ano assou e fritou a todos nós aqui no Rio também não dava para pensar em outra coisa. Em todos os lugares, bares, restaurantes, trabalho, bancas de revistas era sempre calor e um verão quente além dos quarenta graus. Falou-se também sobre o apagão do calor. E todos faziam parte de uma mesma conversa, um tom monocórdio, repetitivo, uma chatice.

Achei que não ia precisar falar sobre a chuva do Rio. Não vivi o dia "D" dos alagamentos, a cidade deserta como num ataque de zumbis. Não vivi as horas de engarrafamento maiores que uma jornada de trabalho, os prejuízos, afogamentos, a devastação. Neste dia eu passava frio em São Paulo e esperava. Não tinha aeroporto aberto. Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, que será a oitava maior economia do mundo, parou.

Eu vi, entretanto, o dia "E". O dia depois de amanhã daquele pessoal de Niterói. Niterói e São Gonçalo já haviam sido as cidades da Grande Rio mais assoladas por essa tempestade louca. Mas o deslizamento de terra do dia 08 foi de uma crueldade sem limites. Não se falava em mais nada, em qualquer jornal. O Nacional, especialmente, não tinha outro assunto. A rotina carioca voltou, mas aquele monte de terra e lixo, lixo, lixo, lixo, porque não dá pra esquecer, em cima de um monte de gente...

Que o Brasil é craque em miséria, a gente sabe disso. Temos aí filmes e filmes pra mostrar, as ruas que exibem suas mazelas como uma vitrine para turista, os passeios de carros 4x4 subindo as favelas cariocas. As reportagens de fome, sujeira, os ‘Ilha das Flores’... todas as classes assistem, vêem, vivem, presenciam, cada um a seu modo. Mas nessa miséria toda é possível viver. É possível subir um aterro sanitário e chamá-lo de seu. É possível morar, construir, viver. Não pelo dinheiro, mas por aquela nossa velha apatia do poder público, dos olhos vendados da justiça, da cegueira coletiva, da estupidez e do descaso. E não tem esse direito humano reclamado que seja suficiente.

E aí, chove. E é morro. E tem terra. Lixo e chorume. É uma ladeira de lixo com casas em cima. E cai. E pouca gente se salvou. Parece o Haiti sem a música. Sem o terremoto, sem a pobreza cruel daquele país, mas a falta de humanidade deste daqui, que tem muito mais do que o Haiti e vive a mesma situação. Não dá pra falar de outra coisa. E convém lembrar que não dá pra ouvir o prefeito de Niterói dizer que não sabia. Ninguém sabia... e foram feitas melhorias na região... o que no meu português significa: estimular os moradores a permanecerem ali. Eu achei que não precisaria falar da chuva, do que todos vimos nas televisores, do que muitos infelizmente viveram de perto. Mas, se nem ao menos pensarmos um pouco e falarmos sobre, vai chegar o dia em que não se falará mais nada.
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Até hoje não entendi bem como a Globo exibiu Dourado do BBB 10 falar que apenas homossexuais pegam HIV. Até agora não entendi como a emissora não se pronunciou com uma campanha educativa e preventiva, como não aproveitou e cortou no ar mesmo a loucura que foi essa afirmação, mas se postou covardemente de forma passiva e neutra, responsabilizando apenas o personagem de seu programa por suas falas e atos.

Ora, sabemos o que é essa emissora, sabemos o poder que tem e o público deste programa, sempre imenso. E hoje, saiu uma notícia nos jornais, informando que no BBB a justiça obrigou a emissora a se pronunciar agora de forma direta sobre a doença. Eu até entendo a lerdeza da justiça, o que é difícil de entender é a displicência geral.

Essa seria uma oportunidade perfeita para uma campanha, para um movimento, para qualquer coisa. E o que reinou foi a apatia nacional. Nem ouvi pessoas comentando isso! Precisou eu lembrar a meus amigos e colegas de trabalho o caso, e discutir partindo da lembrança de apenas um e não de um incômodo geral.

Estranho isso. E olha que coisa: exatamente quando eu estava pensando nas próximas linhas para este texto quase sem fim, o BBB exibe uma cartela com uma locutora e texto, indicando as formas de contágio do HIV. Tudo bem, ajuda. Mas poderia ser melhor.

A culpa não é do personagem. Ele pode ser ignorante. Muita gente é. Nem todo mundo foi educado para muitas coisas. Pouca gente foi. Acho que não apenas a frase infeliz e, quem sabe, em alguma instância ingênua e carregada de preconceitos, mas o resultado dela, tanto da emissora quanto dos que a assistem. Esse é o reflexo deste país. É por situações como essas que adolescentes engravidam, que muita gente efetivamente contrai o HIV, que meninas morrem fazendo abortos ilegais e lipoaspirações clandestinas. E com um motivo tão óbvio, não se fez nada.

É como eu ia dizendo ao fim... muito estranho isso. E nem precisei falar da ausência do governo nesse momento. Porque uma governança séria, falaria sério sobre isso. Aproveitaria uma deixa óbvia e fácil. E a partir daí, se transformaria alguma coisa em alguém... em alguém que vê televisão, em alguém que só tem isso pra ver... em alguém onde não há como buscar educação... e tudo o que bastou aparentemente foi uma cartela de 10 segundos na tela. Lugar bom pra se viver.
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Como tudo na vida, no início ninguém reclama muito, o que vale é a experiência, tudo é diferente. Por mais que eu já tivesse usado ônibus algumas vezes em Salvador, a experiência cotidiana tem outros... sabores.

No buzu, o convívio social é mais democrático. Pessoas com algum dinheiro, pessoas sem dinheiro, pessoas sem nem a sombra do dinheiro volta e meia se encontram, com suas particularidades. Uma vez, um pirralho adolescente resolveu que queria fumar dentro do veículo. Já mais vazio, eu, um homem alto e fortão um pouco mais à frente, uma senhora também. O pentelho sequinho fantasiado de rebelde senta justamente atrás de quem? Pois é, e me acende um cigarro. Não deu outra: o fortão se levantou em todos os seus vários quilos e músculos de trabalhador braçal, grudou ao lado do pirralho e disse: você vai apagar agora ou prefere que eu faça isso? Me apaixonei.

E quando o ônibus parou pela primeira vez numa lanchonete no meio da minha volta pra casa? Passageiros dentro, normalmente à noite. Eles param em uma lanchonete específica de Copacabana, pegam o lanche e sobem novamente. Quando vi isso, não sabia bem o que pensar, se: “pô, ele deve estar com fome mesmo, pra parar nessa agonia aqui” ou “ok... ele é o DONO do ônibus e pouco liga pras outras pessoas... os CLIENTES que estão aguardando a refeição do motorista e cobrador”. A meu ver, os motoristas e cobradores têm momentos de parar seus carros para justamente irem ao banheiro e comer. E eles nem avisam... simplesmente param e se você tem um compromisso, se está com fome também, se simplesmente está cansado e precisa ir pra casa, problema seu.

Mas nem sempre as coisas são bizarras. Existem muitos motoristas bacanas e gentis, educados, generosos. Na chuva, principalmente. Facilitam nossa vida, tentam parar onde pedimos, até se oferecem para nos ajudar. No fim das contas, pegar ônibus é uma arte. Não pode simplesmente esperar e algumas vezes terá que sair correndo no meio da rua, de salto, com saia balançando ao vento. Relaxe: todo mundo já fez isso um dia. E ônibus para mais pra mulher bonita mesmo, não tem jeito. Mas também... não custa nada sorrir e agradecer.

O maior problema do buzu é a higiene. Esqueça detalhes como ônibus apostando corrida, fechando carros, freando bruscamente, você caindo por cima das pessoas. O negócio é que esse contato democrático não respeita a higiene. A igualdade é para todos, mas a limpeza pra poucos. E nem é por grana, é porcaria mesmo, educação. Minha sorte é que não costumo pegar ônibus muito cheios, então não rola aquele constrangimento e guerra da apalpação masculina. Mas o calor carioca do verão tira nossas forças. Caí na besteira de economizar e tentar a sorte dos raros com ar condicionado que me servem. Quando não achava, pensava, mas esse aí também vai pra lá e entrava. Eu chegava no trabalho cansada, destruída. Não digo nem suada, porque com 40 graus poucas pessoas não estavam assim. Mas é cruel, porque realmente tem gente que não gosta de banho, então você pensa né, lavar a mão, impossível.

E o barulho? Tem gente que, não suficiente com o sacolejar dos ônibus-sardinha com seus metais batendo, ainda liga algo no celular e acha que toda a comunidade tem que ouvir junto. A pessoa que inventou o mp3 no celular nunca pegou ônibus. Nem todo mundo tem fone ou cérebro, afinal de contas. E a música NUNCA é boa. Mas, com todas as agonias e diversões de um passeio de ônibus, não é tão ruim. É questão de hábito mesmo, tranqüilidade e cálculo. E a forma mais sincera e visceral de conhecer uma cidade. Mas... de vez em quando um taxi também não mata ninguém.
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Ao contrário do que parece, é fácil entender porque Guerra ao Terror ganhou vários prêmios. Mas, antes de tudo, vamos entender realmente do que ele trata. O filme é sobre o trabalho de um esquadrão anti-bomba no Iraque. Este grupo de 3 homens vai onde há uma ameaça e enquanto dois dão cobertura, um terceiro vestido adequadamente vai ao local e a desarma. E, uma pequena observação: o filme é dirigido por uma mulher.

Por mais que isso pareça pouco, é estranho e interessante ver um filme de guerra dirigido por uma mulher. Em nossa cabeça passa, ainda que sutilmente, aquela idéia de porque uma mulher se interessaria em fazer um filme de ação, um filme de guerra e ainda: quase não pôr mulheres no filme. Mas a melhor parte desse pensamento que aparece sem querer e sem que queiramos, é que ele rompe com o ideário padrão.

Antes de ver o filme fiquei me perguntando se ia ganhar o Oscar. Como todo mundo, tinha visto Avatar e me deslumbrado com seus efeitos, com a brincadeira 3d, com a megalomania. No caso de Kathryn Bigelow não tem muito disso. O foco, aliás, bem escolhido levando em conta o tema, a relação destes homens com sua atividade e, principalmente, entre si. A chegada de um novo líder na equipe, aquele que desarma as bombas, após a morte iminente do grande amigo e líder anterior, desequilibra as relações e percepções dos envolvidos. E é nisso que está a graça.

Logo na primeira seqüência, o filme já diz ao que veio: o esquadrão em atividade, um dos três colocando a roupa de proteção, as cenas de ambientação, “cenas de Iraque”, cenas meio sujas, câmera na mão, tensão. O filme mantém esse ritmo até o fim e nossa respiração fica presa a cada investida deles em campo. Não adianta: nos afeiçoamos aos personagens, independente de política. O filme foi construído assim, o roteiro é assim, assim quis a direção. E são bons personagens. Jovens, bonitos e corajosos, humanos, homens dispostos a enfrentar o "vida ou morte" todos os dias, com seus dilemas, seus medos. Cada um dos protagonistas carrega um motivo que cria a empatia; um é o mais novo, que precisa de mais cuidados; o outro não sabe bem o porquê de estar ali e muito menos de não estar e o terceiro, com aquele perfil de estou aqui porque gosto, é disso e para isso que vivo.

O filme ganhou quando me perdi dentro dele. Cada cena fora do quartel era uma tensão, ainda que saibamos que no início ninguém morre senão o filme acaba. Essa tensão é difícil de construir quando as situações são parecidas e têm que ser mesmo, afinal o objetivo é mostrar o dia a dia. Não suficiente, a fotografia merece várias exclamações (!!!!!!!!!). O câmera conseguiu ser repórter, espectador, documentarista e diretor de fotografia de ação. Os planos à luz quase natural o tempo todo ou tendendo a isso criou uma atmosfera realista, bem como a inconstância de movimentos, os planos quase tremidos mas perfeitamente inteligíveis. E não vou nem comentar aqueles em super câmera lenta, porque são obras de arte. Só vendo pra sentir.

Não vi todos os filmes que concorreram ao Oscar desse ano. Vi apenas Avatar e este. Mesmo tendo gostado bastante de Avatar, não passa muito de efeitos especiais numa história bonita até, mas secundária. Tudo compreendido, deve ter sido bastante difícil e caro de fazer, de construir o mundo de James Cameron. Mas, mais interessante achei esse. Mesmo sendo um filme de guerra, mesmo sendo unilateral e mesmo mantendo os iraquianos calados e de cara fechada todo o tempo com uma única exceção trágica do garoto, passemos por cima das obviedades. Kathryn deu um show de direção num filme de situação estabelecida. Teoricamente não há heróis, mas participantes do mesmo conflito. O filme não prevê o fim da guerra, muito pelo contrário, a meu ver não culpa tanto os iraquianos, não há nada muito tendencioso (além de ser um filme americano, claro) que nos impeça de assisti-lo. Claro, melhor seria se fosse mais ambíguo, se ouvíssemos aqueles que armam as bombas e suas também tragédias diárias, mas não era o objetivo deste, não era seu recorte.

O Oscar é uma premiação política. Filmes sobre não só essa, mas todas as Guerras americanas pelo mundo são sempre melhor posicionados. Há um cuidado em se manter o moral norte americano, essa é a política óbvia. É preciso que se vá a ele sem esperar muito. É um filme de guerra, é um filme de relações humanas numa guerra, é um filme de ação. Tem tiros, tem crueldade. E é americano e bom.

Título Original: The hurt Locker
Direção: Kathryn Bigelow
EUA, 2008, 131 min
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Sabe aqueles filmes que nos cativam a cada novo e instantâneo, natural pensamento que aflora sobre ele? Sem querer, após sermos apresentados, vão ressurgindo na memória durante o dia, ou a semana e queremos manter aquela satisfação da boa surpresa e o deleite de uma grande e sensível produção que participamos. Nordestina e visceral, esta Suely me tomou de corpo inteiro.

Parece que há um destino a ser cumprido, uma missão para determinadas mulheres e indo de encontro à correnteza que tenta lhe arrastar, ela se sustenta e rema, nada na direção contrária da tradição. E assim, toma outros rumos e vive sua própria jornada. Suely/Hermila é essa mulher; é a representação de tantas outras que querem ser apenas uma de cada vez e não parte de um conjunto.

Hermila é uma mãe que retorna à sua cidade natal vindo de São Paulo à espera do marido para aí viverem com o filho que carrega no colo. Como manda o destino trágico das mulheres, o marido não retorna e daí nasce Suely, um corpo novo na então Hermila que se rifa a troco de dinheiro para viver como nova em um outro mundo.

Atualmente, da safra do cinema nacional, a que mais me interessa é a nordestina. Muito por ser de onde eu vim, mas principalmente por ser o cinema puro, o cinema menos misturado à linguagem televisiva, o cinema mais distante das grandes emissoras. Talvez também o cinema mais pobre e por isso, mais rústico, mas isso é um engano estético, na verdade, porque a riqueza dele está na sutileza e no retrato do nosso coração em sua forma mais sincera. São filmes que nos tocam a alma, que nos lembram quem são e o que são as pessoas, a diversidade da vida neste país, os lugares menosprezados, as vidas nas pequenas cidades, quase documentários de tão reais situações encenadas.

Há poesia e beleza nas cenas deste filme, há a elegância da atriz e personagem Hermila que nos faz compreender suas estranhas ações, seu desespero controlado em movimentos calculados para atingir seus objetivos. Há uma doçura de jovem mulher e uma coragem pouco vista nas meninas de nossa idade preocupadas com pequenos problemas. E há uma tradição familiar quebrada em pequenos fragmentos com um roteiro muito bem amarrado em personagens-chave.

O Céu de Suely é um filme para mulheres que buscam seu próprio caminho, para mulheres que estão satisfeitas com a correnteza que as impulsiona e para os homens, muito bem retratados numa história que finalmente não os privilegia. Acima de tudo, é um filme sobre pessoas e sentimentos incompletos, que se totalizam na confusão da vida, nas conseqüências das decisões que tomamos com o coração e enfrentamos com a rotina. É um filme que lembra a mim mesma, às minhas comadres espalhadas pelo mundo, às nossas travessuras de novas adultas ainda meninas e à força que nos impulsionas para sermos apenas uma de cada vez e não todas de uma vez só. E essa sensibilidade veio de Karim Ainouz, um homem que surpreende, nordestino e fantástico, também retirante e vivente sensível de uma grande cidade que não a sua. O céu de Suely pode não ser o paraíso, mas vive de pôr-do-sol como nenhum outro poderia.
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Estou lendo De cuba, com carinho, de Yoani Sanchez. O livro contém uma seleção dos posts dessa autora no Generación Y, sobre as situações que vive e conhece na Cuba de hoje, esmigalhada por seu próprio governo. Textos curtos, muito bem escritos levaram essa filóloga ao topo do mundo, ainda que não consiga sair de sua própria ilha.

Enquanto Cuba se consome, penso no que acontece ao meu redor. O Rio de Janeiro, ridiculamente futura sede olímpica, mantém os mesmos problemas de sempre e não parece medir esforços suficientes para aplacar a situação, apesar das propagandas políticas. Aqui o tráfico de drogas é a rotina, bem como as trocas de tiros, as balas perdidas. É claro que nem todos os acontecimentos são noticiados, mas este tipo de evento não assusta mais ninguém.

Como nosso Rio está o Irã e seus vizinhos; ninguém se abala mais com tantos atentados, vítimas, mortes à toa. Fico pensando em quantos blogueiros seriam necessários para tratar dos temas de cada país, de forma a impactar seu próprio sistema. Para que não pareça exagero: a cubana Yoani, ao lançar seu livro com sucesso mundo afora sem conseguir ir aos lançamentos, foi seqüestrada e espancada. Sem mencionar a luta diária para usar a internet ilegalmente.

Quando pensamos que aqui como Cuba, sofre de problemas crônicos, não vemos novidade nenhuma nas notícias dos jornais. A corrupção nacional, os viciados, seus traficantes e policiais, balas perdidas e assassinatos são notícias passadas e preenchem lacunas nos impressos na falta de coisa melhor a dizer. Agora, com algumas tragédias dignas de 2012, os tiroteios cariocas e atentados no Oriente Médio cederam lugar a Angra, Ilha Grande e Haiti. Não se preocupem, em um mês ou dois, as velhas novidades retornam às primeiras páginas.
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Enquanto eu olho os postais dos Médicos Sem Fronteiras, fico pensando no que fazemos por aí para nós e para os outros. Nada dessa megalomania de vamos salvar o mundo ou 2012 chegará, mas as pequenas ações mesmo. E é claro que essa reflexão vem por conta do novo ano.

Não me venham com o altruísmo não existe, que ele em si carrega o que há de mais egoísta que é o sentimento de bem estar por ter feito algo por alguém em condição pior. Nada dessa energia carregada de amargura. Vamos pensar sim, no que podemos fazer por quem precisa, independente de qualquer sentimento ou benefício próprio. Talvez seja por isso que a medicina me ronda a cabeça como uma possibilidade.

Cenas de destruição no início do ano, réveillon devastado por diversas tragédias pelo globo e isso acontece sempre. Talvez por estar mais próximo de mim, no mesmo estado em que resido, me afetam de forma diferenciada. Ou talvez não, a situação em si, a dor coletiva de uma tragédia 'natural' é o que mais nos abala, as perdas de vidas que desconhecemos, as perdas em si.

Há muita tensão comigo e minha família nesse fim e início de anos. Problemas íntimos nos tomam o coração e o máximo que conseguimos é empurrar um sorriso de batalha e pensar para o bem, para um futuro promissor, para uma saúde coletiva, um bem maior, uma vida resolvida. Enquanto as coisas se encaminham para isso com obstáculos superados dia-a-dia como uma formiguinha carregando seu alimento maior que ela própria, o coração segue apertado, interrompido por momentos de distração no trabalho, com os amigos. De tanta oração, para tantos deuses e religiões, pedidos à natureza, esperamos sempre o melhor. O melhor para o ano, para nós, para todos.

E chega dessa ladainha positivista. A vida segue. Que nesse ano sejamos mais honestos, diretos, reflexivos, lutadores, pensantes, ativistas. Que novos ideais surjam, que a coletividade aumente, cada indivíduo se destaque como uno, se compreenda e então conviva.

E pode parecer difícil, complicado, distante e a preguiça nos ronda. Somos tomados de leve pelo conforto, pelo marasmo e pela paciência, mas no chega e basta é que corremos atrás e vemos de que substâncias somos feitos. É esse o sangue que tem que ferver. Que os orixás, deuses de todos os cantos e naturezas nos guiem e conosco, nos tranformem no que acreditamos que podemos ser e, por fim, sejamos.
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A única resenha possível para um livro tão maravilhoso, lá em 2009! Vem ler A solidão dos números primos, de Paolo Giordano comigo, aqui no Café. Um update maravilhoso a esse texto de emoção é dizer que saiu o filme, anos depois, que também é esplêndido, para a nossa sorte e felicidade. Mas é claro, leia o livro antes.

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Acabei o livro. Comprei sábado de tarde e acabei hoje, segunda. Toda vez que eu acabo um livro, sinto alguma coisa que me percorre o corpo, mas que na verdade é puramente mental. É como se naquele momento exato da última palavra da última frase estivesse a resposta que vínhamos buscando desde a página um. Mas não, na verdade não é isso, o negócio é que como todo filme muito bom, ficamos com aquela expressão de quem acabou de conhecer alguma coisa diferente. Mas, como todo filme que acaba e livro que se lê, quase uma tristeza nos diz: agora eu já sei, a surpresa se foi.

Esse livro veio como uma surpresa boa. Caiu em mim uma matéria sobre seu autor, como se ele fosse uma pessoa que eu poderia ser: físico, 26 anos, primeiro romance. Pensei em fazer física um dia e me perguntei como seria o primeiro romance de um físico que, não suficiente, ganhou o prêmio mais importante da literatura italiana. Comprei, comecei a ler na manhã de domingo e o levei até mais da metade até a noite. Li mais um pouco hoje de manhã, como uma necessidade urgente de dar segmento à história. Fui pro trabalho com outro livro na bolsa, na tentativa de impedir que o final daquele chegasse logo. No trabalho, um senso crítico se apoderou de mim e começou a questionar o livro, se era realmente bom, se eu não o estaria aumentando, criando ilusões em cima de uma obra menor. O negócio é que quando me vi em casa, deixei a tv de lado, o computador e fui de encontro a ele, entre a agonia de ver as páginas indo embora e a delícia da história acontecer.

A Solidão dos Números Primos, conta a história de duas crianças que se conhecem numa escola. As duas carregam uma tristeza latente fruto de tragédias que não podem ser esquecidas. E crescem ao avançar das páginas. Não vale falar mais do que isso; é uma história de duas pessoas, num universo que poderia ser o nosso, com uma linguagem simples e rápida, sem muitos adjetivos. Há um motivo muito bonito para o título.

Agora que o livro se foi e será relido em breve com mais calma, verificando e ouvindo internamente cada frase, ficou aquele vazio da vontade de falar e falar sobre ele e sentir com alguém aquela experiência naquele mundo fictício. Enquanto isso não acontece, vivo os personagens em minha cabeça, recriando as situações, entendendo seus sentimentos, até sendo um pouco como eles.

*A Solidão dos Números Primos, Paolo Giordano. Editora Rocco.
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Uma noite dessas estive numa festa de aniversário de uma pessoa que não conhecia. Fui acompanhando uma amiga em comum e aproveitei pra conhecer o bar na Lapa.

Saímos de lá, agora quatro meninas num carro dirigido por Camis, a amiga. Nossa motorista havia bebido umas cervejinhas antes, umas oito da noite e tinha parado por aí. Agora já eram 00:30. Na Praia de Botafogo a caminho de casa, uma blitz da Lei Seca.

A blitz ainda não se entendeu em estrutura. Eles sempre causam engarrafamentos surreais onde param. Paciência. Das risadas que foram minguando, o policial nos fez parar. Instantaneamente, nosso clima de curtição se transformou em tensão. Nenhuma de nós era da área de saúde para saber a duração do álcool no sangue e todas haviam bebido.

Camis foi chamada ao bafômetro. Tensa, tadinha, com razão já que era a dona do veículo, já imaginava o pior. Ao nosso redor, dezenas de carros, muitos meninos na casa dos vinte e início de trinta e um casal que chamou atenção: eram de meia idade, a senhora usava um vestido pavão em cores, maquiagem e uma cabeleira loira presa no alto da cabeça. O senhor, em eterna pose, caminhava e falava ao telefone. Na certa, os policiais pensaram: whisky. Até acho que eles foram pegos, porque não estavam com uma cara de muitos amigos. Outra figura era uma garota de top e short estilo esportista que conversava animadamente com um dos policiais. Momentos depois, uma das meninas de nosso carro lhe perguntou se tinha bebido e ela respondeu: muito.

Camis foi ao seu martírio junto comigo. Eu explicava segundo a lógica do momento: relaxe, você bebeu bem mais cedo, já tomou refrigerante e comeu coisinhas. Tudo acabará bem. E fingindo calma, fomos. Ela soprou três vezes o negócio na esperança do O.O aparecer no visor. Na maior educação e presteza, nosso algoz nos disse enfim: muito bem, senhoritas, podem ir pra casa. Na mesma calma, dissemos com o olhar: Viu? E por fim, ele: parabéns. Ela: Obrigada. Ainda que esse pudesse ser o início de uma história de amor com tantas gentilezas, acabou aí mesmo e fomos buscar nossa liberdade no carro.

A euforia continuou como havia iniciado antes da blitz, agora com a ênfase da vitória final. Ao deixar as duas meninas na primeira parada, uma delas diz: mas tem é gente bonita nessa Lei Seca, hein? À parte a surrealidade da comadre, a tensão não vale a pena. Ainda mais quando são policiais. Ainda mais no Rio. Ainda mais quando eu lembro que dois dias antes, saindo do banho de mar matinal do verão desavisado e toda enrolada na canga pra atravessar a rua, dois policiais desses que acham bonito mostrar a ponta do fuzil no carro, falam coisas quando passam por você.
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foi-apenas-um-sonho

A diferença entre o jovem e o adulto é que enquanto o primeiro vai levando a vida com a sacola carregada de sonhos acreditando que pode realizar a maioria deles, o adulto resume tudo numa bolsa, já os têm sob medida e restritos à realidade que conseguiu para si. É tudo uma questão de expectativas x frustrações e sucessos. À medida que vamos crescendo e adquirindo responsabilidades e anseios cada vez maiores, vamos entendendo a dificuldade de atingir nossos sonhos e mesuramos o que queremos e o que podemos ter. Isso é crescer. Por mais frustrante que pareça, é inevitável e pode quem sabe, promover os sucessos que tanto planejamos. 

Revolutionary Road é uma ficção. Dirigido por Sam Mendes, trata da vida do casal representado por Kate Winslet e Leonardo DiCaprio. O casal jovem, vivendo nos subúrbios americanos da classe média, se depara com sua vida e com a que pensaram em levar um dia. E surgem os conflitos naturais. 

O que interessa nesse filme, além das interpretações de todos os atores e da fotografia palatável, é o enfrentamento que o tema do filme propõe. Quem nunca se questionou como a vida seria, como será? Quem nunca almejou grandes objetivos e viu que na hora H tudo toma outras dimensões? Nada contra os sonhos, que carrego vários comigo, mas há sempre frustração quando se sonha demais.

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Encontramos aqui um círculo social muito bem construído que universaliza a trama: os vizinhos, os colegas de trabalho, os filhos. O mundo que cerca os protagonistas é tão importante e diz tanto quanto suas interpretações; é o contexto que incomoda, que exemplifica ao espectador a recusa à satisfação. E somos carregados em discussões ácidas construídas com uma intimidade natural do casal de atores, os encontros dos secundários com eles e vamos percebendo situações que vivemos no dia a dia. É um texto que prescinde de temporalidade, de época. 

Ainda assim, Revolutionary Road é ambientado no início do século 20 sem crise americana. Uma geração de mulheres submissas, no velho conhecido espaço machista recebe este casal sedutor e inteligente que se apregoa diferente dos demais, ainda que viva a mesma realidade coletiva, da mesma forma. A insatisfação culmina num desmembramento da relação perfeita e encontramos no casal a verdade que não queremos ouvir: o contentamento e a decepção. 

É também um filme que fala sobre a coragem e o desespero e vemos uma linha tênue muito bem traçada entre os extremos. Filme que nos apaixonamos de cara, com um início profundamente sedutor que nos leva pelas entrelinhas do roteiro e quase não acreditamos no rumo dos acontecimentos. Vale cada prêmio. 

Ficha Técnica
Título ridículo em português: Foi Apenas um Sonho
2008, 119 min.
Diretor: Sam Mendes
Atores:
Kate Winslet
Leonardo DiCaprio
Kathy Bates
Michael Shannon
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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