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Café: extra-forte

Lá estava ela, no lugar certo, no momento certo quando mais duvidava de tudo. Enquanto procurava respostas, distraindo-se pelo caminho, estava numa noite em casa, numa dessas noites que não querem dizer nada, que são só estrelas escondidas em pingos de água.

Era uma calmaria de cochilar no sofá. Na tv uma comédia romântica das de sempre, no estômago um rebuliço sem fim e nada de pensar, mas frases rondavam em sua mente... beije sempre... viva cada dia como se fosse o último. Já pensou nisso? Viva cada dia como se fosse o último... muito difícil! Porque ela pensava que não poderia ainda viver cada dia como se fosse o último porque estava ainda se preparando para viver assim. Mas, ao tempo que vivia se preparando, nunca estava pronta para simplesmente viver sem os preparos do improviso. E que momento melhor para viver na abundância da vida que não a juventude? Mas e os recursos, as responsabilidades do dia a dia que são uma parte da vida mas nunca aquela vida que queríamos?

Neste vaivém, estrondos na janela, luzes no céu. Apreensiva da grande cidade, pensou o pior: não eram trovões apesar da chuva e do frio; seriam tiros? Mas, com luzes? Intrigada, foi à janela e quando abriu foi inundada de fogos coloridos que riscavam o céu. Era um barquinho no mar, numa noite chuvosa e vazia de pessoas, mas então cheia, imensa e inteira entre água, luz e fumaça. As cores apareciam num ritmo e transição como um reveillon particular. Imagine só! E o barquinho no raso mesmo, bem próximo do poeta, bem acessível a ela, janela única num mar de prédios. Como um contrato, uma poesia, um romance; ode a uma pessoa que sozinha, lembra de vários.

Os fogos espalharam uma alegria de confusão; sensações e não entendimento. A menina ficou deslumbrada com as luzes que sutilmente lhe traziam as noites de São João em família e, ao mesmo tempo, como num filme em que a mocinha entende sua missão, ela compreendeu aquele pedacinho de tempo e riu tranquila, feliz: não podia resolver nunca suas agonias ao mesmo tempo, mas teria tempo suficiente para se distrair e viver enquanto isso.
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É muito chato dizer 'as pessoas que passam por nossa vida' etc etc... as pessoas não estão para nos servir, para nos prestar favores ou viver apenas enquanto estão por perto. Já tem um tempo que eu fico pensando em escrever alguma coisa sobre Xande, mas não é que seja difícil, só não sei o que escrever sem diminuir tudo o que esse garoto foi pra mim.

Não queria nada melodramático, porque ele era uma das pessoas mais alegres e animadas que conheci... e que ria das minhas besteiras. Também não queria ficar tecendo trezentos elogios, mas é bom enfatizar como ele sempre foi generoso e como nos dávamos tão bem. Rolava uma certa ingenuidade, uma natureza franca e tranquila, um querer bem inato. Claro que quando alguém nos deixa só pensamos nas qualidades e minimizamos os defeitos, mas o fato talvez seja que, mais importantes do que celebrar o que ele tinha de bom era ver que seus 'defeitos' eram como os confetes em cima de um bolo... ficam doces demais, mas nem tudo é perfeito e a gente come assim mesmo.

Eu já perdi pessoas antes, tios, avós... que me deixaram uma saudade incrível e que sofri como nunca e com Xande não foi diferente, mas além de ser muito repentino, ele era como eu, jovem, saudável, com aquele clichê do futuro promissor. Não foi doença, não foi idade, não foi nada além de um acidente estúpido, fruto provável de uma irresponsabilidade de um inconseqüente.

O fato é que hoje morando sozinha penso muito nesse rapaz, nesse meu melhor amigo que topava ir a praia e escapulir do trabalho quando dava tudo errado; com quem trocava problemas e discutia soluções surreais para as coisas. Xande era meu confidente e vice-versa... conversávamos com leveza nossas crises e ríamos do nosso modo ridículamente romântico de pensar certas coisas. Sei que se ele ainda estivesse vivo, já teria vindo aqui curtir esse Rio de Janeiro comigo.

Volta e meia penso em Télis (Teles) que me veio de presente ao namorar uma amiga. Aí não tinha tempo ruim e eu sempre pude contar com ele, mesmo sem nem precisar. Xande é esse menino que me deixa saudades eternas e aquele desejo de tê-lo participando de um monte de coisas. E Xande não passou pela minha vida... fui eu que tive o prazer de viver um pouco com ele e até hoje tô puta dele ter ido embora sem se despedir. Eu não sei... mas um texto nunca fará jus a nada nem a ninguém né... mas como esse espaço é meu e quem manda nele sou eu... segue meu carinho por Xande pra sempre carregado por aí. Sorte vou ter se encontrar outro parecido com ele.
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Por que não vemos documentários na televisão aberta? Ok, há aqueles dos animais que passam em alguns canais, nesses ainda há algum espaço, mas o público é sensivelmente menor. Por que os documentários não passam nas grandes emissoras? Não há interesse do público? Quem define o interesse do público? Ele mesmo, eu, você, a grande sociedade, o velho conjunto de fatores sócio-político-econômico-culturais? Por que o público mais diverso pára para ver a novela das oito? Por que esse público é o mesmo que está retornando a passos lentos ao cinema brasileiro (cinema mesmo, não produções de tv exibidas na telona)?

A primeira observação que me foi feita em relação ao texto anterior se transformou numa conversa que trouxe a questão: acho que você está com problemas em definir seu público. Há o público da tv aberta, o do cinema e há o público da tv fechada. Não entrando no mérito das interseções entre os grupos, há decerto uma definição de classe (em todos os seus aspectos) que define também o que se assiste. Mas, será que para nosso público de tv aberta os documentários que vêm sendo feitos não são interessantes?

Ao citar no texto anterior as relações entre os reality shows, a internet e os documentários, acreditei ou não firmei o pensamento na questão espectador, o assumi como uno, um erro. Há um espectador que aceita e participa das três categorias, mas a grande maioria talvez viva do espetáculo e realmente não encare as coisas da forma como tentei refletir. Se para o espectador só interessa o espetáculo, que acaba por ficcionalizar qualquer tentativa de criar ali uma 'realidade', por que levamos em conta a história 'real' dos personagens? Por que damos valor a quem tem uma história sofrida em detrimento de alguém mais favorecido? É evidente que num reality show como os atuais, se criam personagens a favor de quem os vende através muito mais dos recursos fora do cenário, na montagem, num roteiro do que vai ser exibido a posteriori. O que se vê é um tratamento do real e o público participa da história como o telespectador capaz de mudar a vida daqueles personagens. Mas, mais uma vez, há um direcionamento para o público que nos garante a não integridade de qualquer eleição feita por ele sobre o destino dos ocasionalmente confinados num espaço comum.

Nos documentários há um direcionamento, como num filme de ficção, como qualquer produto audiovisual. Há um roteiro, há montagem. Há, inclusive um espetáculo acontecendo, com clímax, anticlímax. Mas há um quê que o diferencia das outras produções: a forma como é contada a história, por vezes os personagens exibidos. Criou-se um mito de linguagem documental dessas de filmes de animais que se estendeu por sobre a história em qualquer coisa que se cunhe documentário e seja exibido na tv aberta. É esta a formação a que o precário público desses programas tem acesso, salvo episódicos filmes novos. Com isso, cria-se uma distância grande e elitiza o público do gênero, o tornando menor, restrito, diferenciado, fora dos objetivos de uma produção que quer abranger. Mas até essa forma específica de se fazer e ver documentários há tempos foi diversificada em outros formatos de tal forma que é apenas mais um tipo numa escala de subgêneros. E os espetáculos documentais preparados sob o conceito do real na tela de qualquer dimensão valem tanta diversão quanto uma ficção produzida com ar real, sem maiores obrigações (e sem entrar os estudos que evidenciam que até o real documental não existe, como bem sabemos). O que aparenta ser uma hipótese não muito distante é que assistir a um documentário pode ter se transformado numa tarefa escolar, como a criança que tem que ver para responder a uma prova na escola, ou um adolescente que tem um trabalho a fazer, até um universitário, pós-graduado, o que for, mas sempre como uma atividade compulsória, quase punitiva.

De qualquer forma, já que estamos propondo mais questões do que efetivas soluções, as perguntas que intrigam no momento são:

Há interesse em ver esse tipo de produção?
De onde vem o interesse? Como ele se constrói?
Por que ainda se vira a cara quando se ouve 'documentário'?
Por que se cria uma obrigação em assistí-los?
Por que esses filmes não passam na tv aberta?

São temas diversos, realizados de diversas maneiras, sob diferentes óticas, de muitos países. Sobre seu vizinho, ser vizinho, o mundo, a diversidade, uma história de vida, um fato, uma foto, um país, uma família, sua família, uma música... não são apenas didáticos ou zoológicos, botânicos, reportagens confundidas. Talvez seja o mote da fofoca, que se perde no meio do caminho. Não se pensa tanto em quem se deu bem ou mal, quem se relacionou com quem, apesar de ser possível encontrar isso tudo num filme também.

Aguardem cenas dos próximos capítulos. E comentem, se assim acharem interessante.
Um dia talvez o pensamento se conclua. Se puder ajudar, participe. Nem que seja pra confundir.
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O que nos faz querer investigar a vida alheia como mais interessante que a nossa? A função do documentarista enquanto pesquisador vem sendo essa desde muito tempo. Esse desbravador, esse antropólogo, etnógrafo que registra em sua câmera costumes, cultura, como um armazenamento de estilo de vida, de estudo biológico e social de uma época a ser relembrada em retrospectivas e homenagens futuras. Mas o que se espera quando essa investigação é interna, é autóctone, autofágica? Este falar de si para si, essa exploração do sujeito documentarista ao objeto documentarista também atrai a atenção do espectador. Mas, de onde surgiu essa redescoberta do eu nos filmes?

Essa nova categoria de cinema de autor no documentário não pode se considerar uma vanguarda. O que há é uma conseqüência histórica da aproximação da câmera ao sujeito que a utiliza, do que é possível descobrir primeiro ao seu redor, dentro de sua cultura então ali vivida e depois do que está dentro de sua casa, numa busca de se redescobrir, se reinventar, desnudar a alma dos familiares, a própria.

Esta nova fase do documentário se reflete não apenas no cinema, como no jornalismo, nos programas de tv, nos reality shows, na internet. O que se busca ao ligar a tv em casa é investigar a vida de alguém, como ratos de laboratórios, esperando desvendar seus momentos mais íntimos, suas verdades, o que se tenta esconder, como se vive. É a fechadura da casa ao lado, que na verdade é muito similar à sua, mas enquanto você não descobre isso, tudo soa mais interessante. Essa também é a descoberta de uma nova forma de pensar a sociedade, independente do título que se dê a ela. É a pós-modernista do homem perdido, é a revolução dos costumes com novos modelos, padrões, rompimento de valores antes estagnados de tão estabelecidos. Se o homem está perdido em si, não vai buscar se reencontrar no que lhe é distante, mas buscará o que lhe é parecido, próximo, para que não se perceba só e uno, mas em um grupo que lhe abrace.

Se os reality shows são a janela para a descoberta do outro – que se camufla e esconde no próprio excesso exibicionista – é também reflexo da própria vida de quem os assiste: o que se busca nesses programas é a identificação com os personagens reais daquela história real. É a vida real na tv, no cinema. Não só ali e talvez hoje até mais importante, a liberdade de expressão na internet, a democratização de quem a ela tem acesso é o veículo onde mais se expressa o que quer e, em grande parte das vezes, o que se exibe é a intimidade.

Essa expressão da vida de improviso, de capturar o momento real veio de muito cedo, dos Lumiére, Vertov, do início do que entendemos como cinema. A própria ficção tende, inúmeras vezes, a criar identificações nos personagens com base no que se vive, trazendo ao espectador algo que lhe pareça próximo, ainda que ficcionalizado. Aí estão os filmes de ficção, os seriados, as novelas (mais do que nunca). Mas, independente do que se procure definir como real, verdade ou qualquer palavra cujo peso e responsabilidades parecem maiores ao documentarista ou repórter, muitas vezes, vive-se muito mais a ficção na grande tela do que o espaço real que antes afastava o espectador da cadeira do cinema. Entretanto, ainda assim, existe esta barreira do gênero e algumas vezes, o alívio de que o que se vê numa ficção não é real.

É esse novo momento que o documentário parece viver. Não ir tanto atrás de animais selvagens em florestas longínquas, tribos nos confins vivendo seu dia-a-dia sem perturbação dessa cultura colonizadora, mas um retrato da própria cultura do cinema, de quem queria se esconder nas câmeras para trazer o outro e que agora ao contrário – através de si, exposto, abraça o público que se descobre.

Pode parecer que ao público não faça diferença; continua sendo voyeur de uma vida que não é a sua. Mas quão maior é seu interesse ao perceber como vivem e pensam outras pessoas de seu tempo, as pessoas comuns, como é imensa ou até distante a identificação com quem lhe é próximo, é um estudo social do eu por eu mesmo, repleto de falhas, as assumindo e o mais importante: permitindo a conclusão inacabada à quem o assiste. É em busca disso que esse espectador vai conhecer esta safra de filmes e assim o cinema documental retorna com peso de desafio e novidade. Mas nada mais é senão espiar a janela do vizinho e ali encontrá-lo junto a um espelho.
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Estou sem tv. Ela quebrou ontem. Liguei à noite e ouvia, mas não via. O problema de você ter a tv quebrada é quebrar a rotina com isso. Não é simplesmente o desconforto de descer um lance de escada e mais 10 andares no elevador carregando uma tv de 29 polegadas, pegar um táxi até a assistência técnica e ainda chegar tarde no trabalho, mas o fato de não assistir seus programas e nem ter como reclamar deles.

Muito ruim. Daí não posso ler livros por muito tempo senão durmo antes do programado pelo meu relógio e me lasco numa insônia madrugada adentro. Mas já decidi não me estressar com isso hoje.

É incrível como são essas coisas que fazem a diferença e que nos lembram como é morar sozinho. Ninguém reclama dos meus quatro pares de sapatos na entrada de casa, do guarda chuva pendurado ao lado da tv, da bolsa jogada no sofá, dos casacos no outro. Dos papéis na escrivaninha e da cama quase eternamente desarrumada. E normalmente até que eu sou arrumadinha, mas esses dias têm sido complexos. Muita preguiça. Lavo os pratos.

Fazendo a rotina acontecer, tentando descobrir coisas para quebrar o marasmo. Agora mesmo, estou brincando de equilibrar a tábua da mesa do computador nas coxas, equilibrando o notebook e vendo até a que ângulo ele não vira. Ainda com frio e preguiça de botar uma roupa de gente. A parte boa é que fui ao cinema e o filme era muito bom - Se beber, não case!. Depois conto.

Ah! Hoje entrei no Copa Palace. Bonito o menino. De verdade. Chique total, pé direito nos infernos. Silencioso. Vale muito um filme de terror. 4800 a mega suíte plus da Madonna, do Tom Cruzes e do Wolverine. E, no caminho de volta, ainda descobri a melhor confeitaria do Rio de Janeiro: Traiteurs de France. Comi três coisas, e se pudesse comia mais.

Nhé. Deixetá que já já acabo com isso. Em breve, cenas dos próximos capítulos.
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Há filmes que passam por nós sem que os percebamos. Vão aos cinemas, entram nas locadoras e um belo dia encontramos na capa um motivo e a surpresa é inevitável. São filmes como Respiro que devem, primordialmente, ser vistos no cinema.


filme-respiro

Infelizmente o vi apenas agora, na minha tv, numa noite de chuva. Respiro conta a história de uma família siciliana que vive em Lampedusa, uma pequena ilha. O nome da ilha só dá pra saber se você já conhecer o local ou ler a sinopse no dvd, porque o filme não indica e prescinde disso. Esta família tem uma mãe cuja natureza é distinta de todas as pessoas ali residentes e seu comportamento confunde e incomoda a vida da comunidade.

O filme tem algo que me lembra Lucía e o Sexo, de Julio Medem. Em Lucía, a protagonista também é uma mulher impetuosa e intempestiva cuja cartilha da própria vida vai escrevendo com os sentimentos e impulsos. Ainda temos fotografias e locações (no caso de Lucía, Espanha) cuja beleza natural deve espantar até os moradores. Mas as semelhanças acabam aí.

A beleza de Respiro está na ausência. Em Grazia, que diz muito em pouquíssimas palavras, que vive conforme a natureza e o mar em seu olhar. Grazia é instinto, sua paixão pela vida está, não no que seria o termo liberdade, mas numa forma de viver autônoma e independente, espontânea. E, enquanto seu marido luta para conseguir conviver com tanto amor a esta estranheza, aqueles que estão sob sua órbita percebem apenas incômodo e desconforto. Tão próximos e não menos importantes, os filhos e seu carinho, o querer de cada um e como compreendem o que têm ao seu redor. A cada um, uma expressão particular, uma relação íntima, um entendimento. Aqui a compreensão das partes, dos filhos, das funções sociais que conhecemos tão bem vão se transformando gradualmente, suavemente como se devesse ser sempre assim.

Ao mesmo tempo em que percebemos a trajetória do filme como a história de um vilarejo em que todos parecem vizinhos, embarcamos numa cultura particular de um povo que vive bem com o que acharíamos muito pouco. A cultura arraigada ali, o calor entre as pessoas e o olhar vibrante como as palavras, criam um ritmo próprio e queremos que o filme nunca acabe. De roteiro aparentemente simples, é firme a complexidade e universalização das relações. Conseguimos fazer parte de um universo que nos é distante geograficamente, culturalmente. Assim é contada uma boa história, como acontece a um bom livro.

Felizmente vi Respiro agora. O filme há que ser visto com o carinho de quem quer conhecer, ter uma experiência de beleza e emoção, a paixão, comer com olhar cada nuance da fotografia e do natural que transborda das locações. É uma pena, porque só consigo pensar em elogios e palavras que se repetem em minha cabeça e dá vontade de conversar, falar, narrar cada cena que nos marca, cada luz e fotografia, os diálogos, os personagens, o olhar de cada um, os sentimentos ali contidos e depois expostos. A impressão que dá é que os atores não mais existem, que são aqueles personagens, que não há encenação. É um filme em que o ideal é que se escreva pouco sobre ele, que se assista e sinta. Assim é mais fácil entender, sem pensar muito, ou pensando com o coração.

Título Original: Respiro
Diretor: Emanuele Crialese
Itália, 2002. 91 min.

Citado:
Título Original: Lucía y el Sexo
Diretor: Julio Medem
Espanha, 2001. 128 min.
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Deu pra chover por aqui. Enquanto molha tudo ao redor e vai esfriando nossos pés e eu uso sempre calças e meias para dormir, fico pensando numa forma de praticar exercícios físicos. Além de grana, é o que me falta no momento.

Já me acostumei com o Rio, com o clima de chuva do inverno e já aceitei que quando chove nós temos que trabalhar assim mesmo. Já entendi que se molhar faz parte das circunstâncias e ser sábio é perceber que a hora pra isso é a de voltar pra casa. Então, nesses momentos de chuva e frio gostoso, dormir tem sido delicioso, bem como comer coisinhas, alugar filmes, ir ao cinema, escrever. O Rio é bonito com chuva também.

O engraçado da chuva aqui é que parece que as nuvens dominam todo o espectro visível. Conforme me disse um amigo ontem, as nuvens aqui são mais baixas do que lá. JC some, o Pão também. Até a violência parece se esconder sob uma voz general que diz: está frio para subir o morro.

Filmes brotam nos cinemas, lojas e locadoras. Acho o frio uma delícia, porque não é mortal como em São Paulo ou Friburgo e não é fajuto, como o da terrinha. É frio, de fato mas não de neve. É o frio de uma blusa e um casaco.

Penso no Flamenco que deixei por lá e que me custa achar por aqui. Penso no marasmo que será uma academia e que me voltarei aos pensamentos de o que estou fazendo aqui, por que as pessoas gostam e insistem em levantar peso (e se vangloriam com isso). Penso nos domingos que tiro pra sair perambulando pela Atlântica, de casaco, calça e chinelos e em como isso é muito melhor do que andar loucamente como se fugisse de alguém. Mas não dá pra caminhar debaixo de chuva. Não uma pessoa rinítica como eu.

Em dias assim, melhor mesmo é se deixar levar com o tempo. A chuva nos traz os amigos, o aconchego de um abraço, o sorriso íntimo de cada conquista. O inverno é tímido: é a estação que se encolhe no frio, mas mantem um olhar esperançoso para a primavera que se aproxima. Em dias assim, precisamos ao menos planejar, estudar, pensar nossos próximos movimentos. Estudar as propostas que ainda não recebemos. Em dias assim, capuccino ou vinho... ou café com pão de queijo à espera da próxima sessão.
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Não vá. Se você acha que um filme com Cristian Bale, Johnny Depp, Marion Cotillard e dirigido por Michael Mann tem tudo para dar certo, se enganou. Fui assistir, com a certeza absoluta de que o filme era bom, que seria interessante ver uma aventura histórica e real sobre os bandidos da América nos anos 30. Tsc tsc.

Não sei o que aconteceu. Não entendi a proposta do filme, a câmera louca, a fotografia estranhíssima. Convenhamos que de Depp não esperamos mais do que uma ótima performance, bem como de Marion (para quem não lembra, Piaf). Já Cristian Bale, que costuma me deixar em crise, assim permaneceu. Começo a achar que ele não é bom ator, mas que teve oportunidades e continua crescendo. Seu mérito é muito mais de metamorfoses físicas do que efetivamente boa interpretação.

A história rende um filme tranquilamente: bandidos nos anos 30, plena crise americana, tocando o terror em assaltos a bancos à luz do dia. Não costumam matar, mas quando fazem só atingem os policiais. Criamos ainda a identificação com John Dillinger (Johnny Depp) e seu romance com a personagem de Marion, torcemos pelo final feliz e tudo mais. Mas, ainda assim, o excesso de closes, de movimentação da câmera, além de deixar o espectador tonto e perdido, o retira do filme completamente e ele começa a olhar para o relógio.

Eu fiquei com cara de interrogação, tentando decifrar o porquê daquelas cenas, de alguns diálogos, da existência de Cristian Bale e seu personagem: não sei se ele era o espertinho ou o banana, por exemplo. Sei que ele era quase o mais espertinho dos bananas. Parecia no fim das contas, um filme feito com câmeras digitais deficientes, que careciam de lentes que suprissem planos abertos. Estranho, já que o próprio Michael Mann é responsável por ótimos filmes, como outro policial, Miami Vice. Provavelmente não foi por falta de grana ou não teríamos estes atores em cena.

O resultado do aglomerado de desacertos, com o destaque dado na trilha sonora ultra-temática é um enigma: o que queria o diretor? Um filme de arte? Uma palhaçada? Uma experiência estética? Ou ele só deu azar e bateu a cabeça antes de dirigir? Independente de que respostas encontremos, uma assertiva é válida: talvez sirva como sessão da tarde.

Título Origina: Public Enemies
Diretor: Michael Mann
EUA, 2009. 143 min.
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Parece que não muda quase nada, mas a cada casa nova, nosso coração se preenche de aventuras, possibilidades e a certeza de que sempre acumulamos tranqueiras. Essa re-acomodação do espírito e das coisas, uma quase nova rotina e olhos frescos pra vida entram na contramão do sobe e desce de bagulhos, roupas, sapatos, livros, dvds.

Agora a relação é outra. Moro num apartamento onde as coisas são minhas e isso adquire uma estabilidade que gera uma agonia, inquietação por dentro. O morar se faz ainda mais firme e não se sente isso só por estar longe de casa, em minha Salvador, com minha família, mas esse fincar de bandeira no Sudeste acentua a vontade de sair por aí. Por mais louco que pareça, é a mais sincera vontade que me percorre.

Adoro o lugar que vivo. Foi o primeiro que morei quando vim de Salvador e por acasos (ou não) da vida, parei nele agora. Enquanto construo o dia-a-dia das amizades, do trabalho, da família ao telefone, viajo em novas experiências, imagino novos caminhos e rotas. Invejo os apresentadores de tv pé na estrada. Mas acredito também que, para que a partida a novos rumos seja mais do que uma experiência de espírito e aventuras, precisamos do pé no chão, de alguma estratégia e lógico, grana.

Enquanto a partida não chega, invisto em aventuras na cidade que aprendi a desbravar e que hoje tenho a pretensão de dizer que me viro muito bem nela, conheço alguns caminhos e sou difícil de me perder. Talvez as pequenas novidades e encontros pelo trajeto atenuem minha ânsia de partir. Por enquanto, a estabilidade me tem e as tranqueiras vão virar utilidades para outros.
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Qual o problema que esse pessoal que vai ao cinema tem com os créditos? Eu até entendo que pra quem não é da área não diz muito aquele monte de letras subindo a tela depois de duas horas de projeção, mas respeitem quem curte até o fim, ainda mais se há imagens passando por detrás das letras. A parte boa é que a seqüência era bastante interessante no filme A Partida, em que o 'preparador' de corpos para o funeral japonês arruma um deles de forma bem bonita e respeitosa. Enquanto isso acontece e paramos para ver, uma senhora de meia idade fica bem na nossa frente e comenta alto com a amiga que está precisando se reconectar ou que se sente desconectada ou algo cibernético do gênero, mas acho que ela quis dizer ir para um spa.

Dizer que A Partida é um filme bobo é quase maldade. A história é bonita, mas quando não é o conteúdo, é a forma que escapole. Um violoncelista perde o emprego quando a orquestra em que tocava é dissolvida. Casado e com contas a pagar, retorna à cidade natal e encontra emprego numa espécie de agência funerária que prepara os corpos para o funeral. É um ritual japonês, da maquiagem ao figurino e sob a presença dos familiares. A esposa, claro, não sabe da profissão do marido e os problemas começam.

O que poderia ser um filme bonito cai no brega e no exagero. Minha tese é a de que, para universalizar-se com um tema tão específico à cultura oriental, eles aliviaram em alguns tons, pesaram em outros e trouxeram diversas e gratuitas referências ocidentais. Para isso temos uma esposa quase histérica de tão sorridente e aparentemente submissa, a Ave Maria tocada no violoncelo - que deprime até Amélie Poulain e Poliana - mais violoncelo e paisagens inundando o cinema, numa possível metáfora de equilibrio e ascensão de nosso personagem principal, algumas situações que puxam para a comédia da piada física: trejeitos, caretas, expressões.

Uma sequencia magnifícia e que vale o destaque: logo no início do filme, enquanto nosso herói trabalha na Orquesta, eles se apresentam numa construção belíssima da cena, tocando a nona. Melhor momento do filme.

Mas o fato é que depois de um papo de bar divertido com amigos, dois chopps devassíssimos e uma boa companhia no cinema, quase vale qualquer filme. De alguma forma esse ganhou o Oscar do ano, passando por cima de outros ótimos, como The Class e Valsa com Bashir. Na verdade, compreender porque estes dois últimos não venceram é apenas abrir os olhos um pouco mais: Bashir nos traz a guerra do Líbano, um massacre sem fim e The Class é um retrato ao que se entende, fiel das relações sociais em escolas francesas cujos alunos são, em maioria, imigrantes. Dá pra entender porque um filme tão distante da realidade americana, tão inocente e sem culpas entrou na jogada e faturou.

Críticas às cafonices à parte, o filme garante lágrimas aos mais sensíveis, imagens belíssimas de natureza (cerejeiras, pássaros... toda a fauna e flora japa que vemos nos docs da NatGeo) e um conjunto de sequencias com os rituais celebrados. Até parece um pedaço do Japão verdadeiro. Fiquei me perguntando e comentei com Mati sobre as interpretações e concordamos que tanto o protagonista quanto a esposa poderiam ser melhor elaborados, sem tanta caricatura. Já os personagens mais velhos, como o dono da agência funerária, a dona da casa de banho e seu colega de trabalho, merecem prêmios. Carregam o filme.

Acho que é o velho problema da expectativa. Eu li ou vi um filme... ou foi Bukowski... acho que foi Bukowski, um conto seu que um personagem diz: A expectativa é a mãe da decepção e o Acaso, pai da Felicidade (ou algo do gênero, que não sou boa com citações). Faz sentido até...

Título Original: Okuribito
Diretor: Yôjirô Takita
País: Japão, 2008
130 min.
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Um sopro de ar, uma leveza, um olhar, o riso. Como uma brisa que passa, ficou o sorriso solto no espaço, uma vontade de alguma coisa que não sabemos bem definir, um movimento novo na atmosfera.

O mar, como eu, está de ressaca. De dentro do táxi, só me dei conta disso quando passei pela orla à noite. Ainda com as janelas fechadas do vento frio, dava pra ver as ondas quebrando com violência na praia. Dentro, um movimento urgente, que nos intriga e inquieta. O mar tem dessas coisas, expressa tudo o que não conseguimos. Mas não há muito o que fazer. Fico parada e espero que o passarinho dentro de mim se acalme novamente e mantenha seu ninho onde nasceu. Ainda não é hora de dividir.

Quando conhecemos as histórias particulares, entendemos o que é melhor para nós, calculamos toda a matemática que nos é posta, mas o que queremos de prova é outra coisa. E, se como o vento que sopra ainda lembra a agradável brisa de outros dias, que a deixemos na memória, esperemos a turbulência sossegar e vivamos quase tranquilamente. Às vezes é só o tempo nos mandando um recado carinhoso.
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Eu fico me perguntando porque nos abalamos com esse acidente do Air France. Tudo parece um filme, tão surreal é o acontecido. Hoje, com a tecnologia que se tem, com a segurança que é voar... um avião desaparece com quase 300 pessoas no meio do mar. Ao mesmo tempo, é algo distante, não conheço os passageiros ou seus parentes e o que costumava ser exibido nos noticiários era apenas uma gripe nova.

Hoje acordei mais cedo. Levantei e a primeira coisa em que pensei foi justamente no avião. Esses acidentes, ainda mais que os terrestres, apenas atestam a vulnerabilidade de que somos feitos. Não sei, mas encaramos a vida com uma falsa segurança de que vamos viver bastante e que nosso dia-a-dia durará anos. Ainda que dentro de nós saibamos que estamos à mercê do que pode acontecer, nunca esperamos por isso.

Tive um amigo que sofreu um acidente aéreo e perdeu a vida. Mais novo que eu e muito próximo, meu querido sequer conseguiu sair do aeroporto; a aeronave tentou alçar vôo e caiu. Tão estranho o fato que uma semana antes o havia encontrado, conversávamos, vivíamos. Por mais sinistro que pareça isso tudo, é somente parte do que somos e de como é estar. Há sempre e somente o presente.

O 447 apenas nos relembra e cria uma sintonia de tristeza, uma harmonia coletiva de dor, de encontrarmos nas histórias dos passageiros-vítimas, algo com que se identificar. É dessas coisas que ninguém espera, não se entende, não se esquece. Que se pense em destino, desígnios do divino e sobrenatural. Como mais uma das questões da humanidade, o sumiço da aeronave que já se consolida com um aparecimento de destroços, não conseguirá explicar porque aquelas pessoas ou aquele vôo, se tudo não passou de uma rotina estranhamente alterada.
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Sua mãe uma vez lhe disse que as borboletas traziam sorte. Mas como trazer borboletas? Ela morava no alto de um desses prédios de cidade grande. Nunca tinha visto bichos de verdade, além desses de metrópole. Lembrou que uma vez foi no zoológico e viu, de longe, os bichos das florestas que nunca iria.

Ainda assim, desceu para o jardim do prédio. Resolveu ir em busca de borboletas. Sua mãe não lhe disse como fazer e nem teria tempo, já que essa foi uma conversa para iluminar uma criança triste sem amigos na escola. Então ela corria e corria, agora todas as tardes, esperando e tentando alcançar as borboletas. Do alto do prédio alguém observava.

Pegou duas, mas a primeira morreu esmagada na sua euforia. A segunda, depois do enterro daquela, foi tratada com bastante carinho. Ela a levou para o quarto e, segurando suas asinhas, investigou cada detalhe do inseto dourado. Não sabia ela que, quando pegamos nas asas, elas deixam de voar. Então, quando soltou a borboleta no céu a viu despencar andares abaixo. Que tipo de sorte era aquela?

Desolada, sua mãe então lhe disse que não mexesse mais com insetos, mas o estrago já estava feito. O porteiro lhe disse que não adianta pegar borboletas, mas casulos, que a graça era vê-las nascer. Sem saber o que eram casulos, perguntou E a sorte?, Você verá quando ela aparecer., ele respondeu. Mas, mais difícil do que pegar borboletas em jardins de prédio era encontrar seus casulos.

Dias e mais dias, ela desistiu. Não havia casulos em seu jardim. As borboletas precisam de árvores, natureza, tranquilidade, não um punhado de arbustos e flores instaladas em concreto. Triste, voltou ao apartamento e de lá não saiu até suas férias. Distraída na varanda, sem mais o que fazer, olhava para o teto. Lá embaixo, o jardim inútil. Em cima, teto, branco, umas folhas e flores ao redor, nada além de formigas.

Sem sorte, ela se preparava para o pior: a viagem da família. Se lembrou imediatamente do barulho, dos primos que a perturbavam, daquele ar de cheiro estranho, de como ficaria mais sozinha do que nunca, já que sua mãe a deixava lá no fim de semana. Sem brinquedos, sem revistas, Vá brincar com seus primos, ela insistia, como se fosse uma obrigação divertida. Como se eles gostassem dela.

Era uma casa grande, como uma dessas raras fazendas de família. Muito espaço, frutas, até uma vaca, tinha. Mas ela não se importava e até se incomodava demais com os mosquitos e aquele leite estranho. Resolveu andar, assim ficaria longe dos mosquitos, da vaca, dos primos. Andou tanto que cansou. Parou embaixo de uma mangueira. Não era janeiro, o que lhe restavam eram apenas as folhas verdes da copa. Olhando de perto num galho baixo, viu que tinha algo de estranho. O tronco era todo liso, terminava em galhos menores e folhas, muitas folhas. Mas aquilo não era uma flor, não era um nó, o que era? Tocou com a pontinha do dedo: nada. Mexeu de um lado para outro, aquele negócio pendurado, pequeno e marrom. Nada. Resolveu puxar. Tentou abrir, mas ficou com nojo, porque era meio mole. Deitou no chão e, como se tivesse uma lupa ou fosse um lobo, encostou o rosto e farejou, olhou, tentou entrar naquele saquinho de alguma coisa. Nessa brincadeira, dormiu.

Acordou depois de sonhar alguma coisa que esqueceu. Esqueceu também de lembrar do sonho, que ela sempre tentava fazer mas esquecia que tinha que lembrar, todas as manhãs. Nesse momento, pensou em algo mais importante. Sabia que ele era quieto, esquisito e vivia imitando ela. Se ela desceu para catar borboletas, ele foi no dia seguinte, meio escondido. Ela sempre sabia e sempre fingia que não. Era quase um jogo de esconder às avessas. Ficou pensando em como ele a venceria, depois que levasse esse saquinho para casa.

Quando sua mãe finalmente a pegou, ela estava tranquila. Havia passado dois dias inteiros na mangueira, olhando o saquinho marrom. Assim que chegou em casa, achou importante e digno bater à porta do vizinho. Ele sabia que ela estava a caminho, já que viu o carro entrando na garagem. Abriu a porta assustado, como se tivessem descoberto seu segredo. Sem muito dizer, ela abriu a mão e ele viu, sabia o que era, ainda que ela dissesse que era seu saquinho da sorte, já que não encontrara borboletas e nem nada parecido. Ele, que sabia um tanto mais, ao tentar pegar o casulo, ela deu um passo atrás. Ele foi à frente e, quando abriu a boca para contar então o segredo, o saquinho começou a se mexer e ela sentiu medo. Ele pôs sua mão embaixo da dela, para que não deixasse cair. Ela quase chorava, mas não faria isso na sua frente. A borboleta voou pelo apartamento. Ela precisava da borboleta, era dela, ela havia encontrado. Ele queria a borboleta, merecia, sabia o que era o casulo. Mas, quando a borboleta encontrou a janela, era tarde demais. Indo embora, virou-se um instante para os dois e, como se piscasse com o bater das asas, se despediu. E eles ficaram ali, juntos e calados, sem perceber que a sorte lhes chegara em forma de amizade.
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1.
O maior problema do Flamengo nessa cidade são seus torcedores. Eles passam horas gritando de onde estiverem para quem quiser e não quiser ouvir, 'mengo'. Ontem, no começo do jogo (Botafogo x Flamengo), o 'mengão' fez um gol. Eu estava saindo de casa e vi uma cena que depois percebi ser clássica: ouvi a torcida e pensei: gol. Um sujeito estava em seu apartamento, foi até a janela e gritou 'mengo!'. Ele viu que quase não tinha ninguém na rua além de mim. Gritou de novo, já meio sem jeito. Segundos depois, uma menina, no mesmo prédio que o dele, foi à janela e gritou 'mengo!'. Essa nem percebeu o vazio da rua e o vizinho calado que a observava na janela ao lado. Eles me lembram os cachorros que trocam uivos distantes nas noites de cidades menores.

2.
Era uma vez uma viagem ao Rio. Eles, alemães. Pai, mãe e filho. A mãe, gorda, rosto bonito, queria fazer topless e ler revistas. Foi ao mar. O filho, de talvez 14 anos, parecia bastante com o pai, só que mais magro e atlético. O pai, um sujeito de meia idade, provavelmente desses que tem amante, mais pelo dinheiro do que pela beleza. Barrigudo, calvo de fios lisos, pálido. Feio.

A família feliz vê duas meninas na praia. Sentada a branquinha, deitada a morena. Como o costume manda, o pai olha para a morena. Ela, já acostumada à situação, comenta cansada com a amiga. Elas observam o comportamento do pai. A mãe finge que não vê. A criança é criança. O pai insiste.

Traçou-se um perfil raso e talvez falso da família. O que importa é a intransigência, audácia e ousadia do pai. Não há mais respeito. É o tipo do olhar que de tanta teimosia, irrita. Fomos almoçar. Ao olhar o cardápio do restaurante de beira de praia, ganho uma flor com um 'for you'. Thank you. Provavelmente outro pai. Não me virei para olhar.

3.
Noite de Hamlet. Contos depois.
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Por que há tanta necessidade de se definir tudo? Por que é tão difícil perceber que algumas coisas que vivemos e sentimos simplesmente não possam se definir? O que há de errado nisso? Uma breve reflexão sobre o texto e diálogos em Kim-Ki-Duk e Kieslowski.

primavera-verão-outono-inverno-filme
Primavera, verão, outono, inverno...e primavera
É engraçado como esse é um pensamento recorrente em mim. Hoje tive uma conversa com uma amiga que retomava essa história, uma busca por definições de sentimentos, pensamentos, experiências... acho sim que a partir do momento em que definimos algo, acabamos perdendo toda a dimensão que este mesmo algo poderia ter. É como se eu perguntasse a você: Quem é você? E você me respondesse: Eu sou Fulano. Mas, a quantas pessoas eu posso fazer essa mesma pergunta e obter a mesma resposta? Você se define apenas por um nome? Ou uma frase?

Assim também e talvez ainda mais evidente seja se tratarmos dos sentimentos. Quando dizemos que amamos alguém, limitamos tudo o que sentimos a uma frase, a um termo. Mas o amor, o ódio, o carinho, o sentimento que for, é muito mais amplo e infinito em nós do que um verbo consegue exprimir.

kieslowski-filme
A dupla vida de Veronique
O mais interessante da conversa toda é a confluência das situações que vivi ainda hoje e que entraram em sintonia com o tema. Assistindo A Dupla Vida de Véronique, de Kieslowski vemos com força total a expressão de sentimentos sem o prejuízo da palavra. Numa estória em que sentimentos são o mote principal, não há espaço para aquele conhecido excesso de diálogos. E o diretor conseguiu traduzir na tela, com a fotografia, com o elenco, com a música. Há forma melhor do que essa para reinterpretar ou transmitir o que sentimos?

Agora, acabo de ver o Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. O filme quase não tem diálogos e os que há são fundamentais. Dá para sentir como a ausência de fala pode dizer muito mais. É um filme que lhe transporta, transforma seu estado de espírito, te inunda com um outro olhar, num outro tempo e espaço. Numa outra vida mesmo. São filmes assim que nos tornam diferentes, causam estranhamento, nos dão aquele tempo de sentir, de pensar, de participar ou, como diria um professor de artes, de fruir. Mais uma vez, não adianta tentar definir muito, apenas indicar o filme. Para esse, não vale nem sinopse.

Acredito que precisamos de momentos como os que tive hoje, simples, baratos, tranquilos e ricos. São eles que nos sustentam, nos fazem crescer. É tempo de parar e refletir, não viver apenas o todo-dia-a-mesma-coisa. E, se faltarem palavras, relaxe: a brincadeira é exatamente essa. Até porque, você nunca consegue dizer tudo o que quer e jamais será entendido como espera.

Filmes:
A Dupla Vida de Vèronique
Título original: La double vie de Vèronique
Diretor: Krzysztof Kieslowski
País: França, Polônia
1991, 93 min.

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
Título original: Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom
Diretor: Kim Ki-Duk
País: Coréia do Sul
2003, 99 min.
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simplesmente-feliz-filme

Um filme sobre a ousada proposta de levar a vida mais leve.

Normalmente os domingos costumam ser mais ou menos assim: acordo tarde porque saí na noite anterior; às vezes estou com uma ressaca mortal que me deixa letárgica, às vezes é só preguiça: costumo passar o dia de camisola, no sofá, vendo tv, lendo livro e cochilando. No sábado, fez um dia lindo. Estamos no Outono e a temperatura está uma delícia. Não vemos muito isso em Salvador, que costuma ser quente quase o ano inteiro. Aqui está tudo muito gostoso: venta de leve, céu azul, é um ar fresco e à noite tem feito um friozinho de dormir sem ventilador e ter sono profundo.

Acontece que ontem passei o dia inteiro quase de preguiça, entre conversar com Luciene e fazer nosso almoço, ir ao salão para deixar as unhas de mocinha e tomar susto com a Esquadrilha da Fumaça. Em seguida, cine e boteco. Dormi às 02:30h. Acordei às 10h, de sono pesado e mamis ao telefone. Fiquei lerda sem ressaca e coragem de sair. Me situei entre que dia lindo para fazer alguma coisa e jamais irei na praia, que deve estar lotada: o que eu precisava mesmo era de um impulso de um amigo, parente, conhecido, vizinho etc. Não rolou. Me obriguei a sair de casa às 16:15h para ir ao cine novamente. E é onde tudo começa.

O filme foi Simplesmente Feliz. Vendo o trailer você decide se conseguirá ver o filme com uma protagonista que é quase irritante O negócio é que a professora de primário de 30 anos que vive com a amiga em Londres é uma otimista do tipo quase-débil. Ela é feliz em todas as direções, à primeira vista: reconciliadora, graciosa, irritante e risonha. Mas o que me interessou no trailer é que eu tinha a certeza de que seria um filme leve, sem maiores pretensões e que tinha chances de sair uma comédia divertida mesmo, nos limites que o roteiro prevê. E assim foi.

Sozinha no cinema mais cult da cidade, com três salas pequenas, café, teatro, exposição e livraria, cheguei mais cedo e me deparei com milhares de velhinhas e velhinhos com menos preguiça do que eu. Fui à livraria e quase desandei no consumismo. Fiquei um tempo olhando os livros, esperando que algum me desse um tchauzinho ou piscasse o olho. Tentei, esperei, mas consegui sair da loja sem gastar. Estou em busca de livros específicos e preciso me concentrar neles e não no resto do universo. Entrei no cine e descobri que uma sala com pessoas mais velhas é sempre melhor, porque elas realmente ficam caladas e estão interessadas em ver o filme de verdade. Terminado o filme, tentei uma outra sessão, mas já tinha visto o seguinte e fui pra casa.

Vim com uma sensação estranha, o filme me causara uma pontuação no peito. Eu estava feliz? Eu estava tranqüila? E por que um filme aparentemente bobo me causaria tantas perguntas? Saí da praia de Ipanema e segui pra minha rua com cara de interrogação, exclamação e muitas reticências, como se andasse em outro planeta. Sabe como é? É como se você desconhecesse tudo a seu redor, as pessoas que te olham quando você passa, os elogios decorosos e indecorosos, o filhote de labrador que ficou brincando comigo até eu entender que o coroa dono dele poderia achar que meu interesse era nele e saí de perto.

Acho que esse filme traz um amálgama de reflexões que parte de situações do cotidiano que vivemos, sem interpretar a todo instante. É um novo ponto de vista vindo de um filme que não usa a fantasia – como Amélie Poulain – mas o dia-a-dia de qualquer pessoa. E a personagem irritante com roupas coloridas além da conta vai ganhando outras dimensões, como todo indivíduo. Sua complexidade é intensificada de acordo com suas reações a acontecimentos banais. Uma grosseria, uma briga, uma situação delicada no trabalho, com a irmã, e como a personagem reage a tudo, um ponto de vista novo que não infantiliza as situações vividas, mas nos traz novas perspectivas e oportunidades.

É ainda um filme que fala de amizade, de escolhas que fazemos na vida e de como elas nos transformam sem percebermos. É um filme que, ao contrário de particularizar situações, nos aproxima delas, como se todos pudéssemos passar por experiências similares. Sem maiores pretensões, é um filme que nos preenche a cada seqüência, a cada nova resposta para as perguntas ali expostas. É, por fim, um filme leve e tranqüilo, com uma velha lição de moral que é dada de uma forma diferente e inteligente. E ela ainda dança flamenco!

Título original: Happy-go-Lucky (2009)
Diretor: Mike Leigh
País: Inglaterra
118 min.
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Não sei se todo mundo viu, mas eu vi e, mais uma vez, acho que a repercussão que teve aqui foi muito pequena e superficial. Nesta semana, com a greve dos trens da empresa SuperVia do Rio de Janeiro, milhares de trabalhadores ficaram sem transporte principal e mais, quando a greve começou a ceder e alguns trens voltaram a funcionar, os clientes foram espancados e levaram chicotadas ao entrar nos vagões. Eu não sei o que acontece... eu sei que vi apenas uma pessoa do trabalho comentar o assunto e tudo se passou como se o caso não fosse grave. Por que os caras não foram presos?

Ás vezes fico me perguntando porque as pessoas tomam algumas atitudes de forma tão desesperada. Não sendo alienada ou estúpida, entendo a agonia do povo em tomar os trens - o Rio de Janeiro é uma cidade grande que se espalha muito além da Zona Sul e Centro e o trem é um meio de transporte fundamental de ligação destes com os bairros periféricos. Os moradores dos bairros distantes costumam ter poder aquisitivo bastante inferior aos que moram do lado de cá e faltar um dia de trabalho ou os 4 da greve pode lhes causar o emprego de que dependem. Mas, ao tempo que penso nisso, se eu visse os funcionários da SuperVia chicoteando pessoas que entravam nos trens, eu não entraria. E acho surpreendente como não aconteceu um quadro de violência ainda maior, sinceramente, não entendi como ninguém cercou esses animais da SuperVia e lhes deu uma surra.

Cesar Cabral criticou as concessionárias de transporte público cariocas, dando ênfase óbvia aos trens (para quem não está ligado, são aqueles trens que aparecem no filme Central do Brasil). Esses trens estão sucateados até o limite, os acidentes nas vias são praticamente semanais, sem falar que ocasionalmente ainda acontecem trocas de tiros de traficantes com traficantes e traficantes com policiais. A falta de respeito com os conterrâneos é absurda por aqui. Não que seja em gradação menor em outros cantos.

Essa situação da SuperVia só se tornou alarmante de fato porque o espancamento foi veiculado ao vivo, lembrando as situações de tortura que rolam mundo afora. Surpresa para poucos: se Sérgio Cabral não fez um pronunciamento efetivo de suspensão das atividades da empresa, se o diretor da empresa apenas pediu desculpas e admitiu a fragilidade de seus funcionários agora demitidos, se os direitos humanos não apareceram para reclamar, não sei porquê. O que eu sei é que ainda haviam policiais no local que se fizeram de besta e não impediram a ação dos psicopatas.

No fim da história, em busca do escrever por aqui, saiu essa agonia. O jornal da manhã mostrou as imagens da semana e, mais uma vez, saiu a sequência de imagens da GloboNews mostrando as agressões nos trens abarrotados de gente. Que a semana que vem mostre alguma coisa legal, para variar.
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P.s.: Estou a disposição para ganhar livros para ler. Aceito todos de coração aberto e mente ávida. Indicações são também bem-vindas.
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Ontem li um texto de Borges que contava a história de um labirinto. Segundo o autor, era um romance policial que o leitor só entenderia no último paragrafo. Não era simplesmente um labirinto, mas um emaranhado de livro e labirinto que tratava da infinitude, do tempo, dos universos paralelos, como questões de múltipla escolha, sendo todas possíveis.

Estou digerindo a idéia junto com outros pensamentos correlatos, mas hoje me peguei pensando no Ano. Há mais ou menos um ano participei de uma edição do É Tudo Verdade aqui no Rio. Hoje fui novamente e vi uma estréia do filme de Eduardo Coutinho – Moscou – do qual ainda falarei. Fiquei pensando em quem eu era e em quem eu me tornei nesse intervalo.

Tudo acontece muito rápido. Faz-se a escolha e depois é só seguir o caminho quase que automaticamente. Nem dói. Os dias vão se tornando cada vez mais curtos em nossa memória e daqui a pouco já é amanhã e tenho muito o que fazer hoje, incluindo uma boa noite de sono. Noite essa, que já passo uma parte longa acordada. O dia é curto para nossas tarefas.

Há um ano eu começava meu primeiro trabalho. Há um ano eu ainda me equilibrava para me sustentar e hoje já dou cambalhotas e faço piruetas. Hoje estou indo ao terceiro trabalho, com sorriso no rosto de satisfação e agradecimento a tudo e todos que contribuíram para essas reviravoltas.

Sentei na poltrona do cinema e ela me pareceu familiar. Ao contrário do ano passado já conheço, reconheço e sou reconhecida por algumas pessoas que passam por mim, sentam, compartilham as sessões e espaços. Estou deitada numa cama de um apartamento quarto-e-sala em Copacabana, pertinho da rua que Drummond viveu e escreveu sua vida. Há pouco mais de um ano, morava com meus pais em Salvador, numa casa deliciosa e confortável, calorosa e com She-Ra para me proteger e acarinhar.

Que doidice. Um ano é muito e pouco ao mesmo tempo. Pense aí em quem você era há um ano e em quem você é hoje. Pense nas escolhas, nas oportunidades e alternativas que você aceitou e abdicou e em como elas vão lhe definindo. Ainda há por aí, em Salvador, a garota que não veio pro Rio. O que ela estará fazendo agora? Será que ela ainda pensa em partir? Mas quando? E para onde? Uma coisa é certa: a menina que partiu está por aqui, continua fazendo escolhas, definindo a própria vida e, quem sabe, mais cedo ou mais tarde dará outro pulo do gato.

Como Borges conta, todas as alternativas são possíveis e para cada bifurcação há duas opções que futuramente se transformarão em mais opções e vamos escolhendo aos poucos uma a uma para viver. Se escolhemos não escolher, é também uma escolha. Eu escolho escolher e vou seguindo esse caminho, meio perdido aparentemente, mas cheio de confiança e desafios. Antes assim do que olhar pro teto e elucubrar incessantemente viagens em sonhos de contos de fadas e vidas perfeitas.


Ah! O livro: Ficções, de Jorge Luis Borges.
O Conto: O Jardim de Veredas que se Bifurcam.
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Enquanto o texto não vem, vi este de rascunho. Completei:

Aníversário deveria ser uma semana. Um dia é muito pouco. Aperte Play e deixe a vida te levar no seu único dia de festejos sendo todos devidos somente a você. Eu, particularmente já começo semanas antes, importunando os queridos com lembretes da comemoração da minha existência.

A idade em si pouco importa. O que vale é passar anos e anos aprendendo, construindo, rindo, chorando, brincando e levando tudo muito e quase nunca a sério. Na minha festinha muita gente faltou, quase uma cidade*. Mas carreguei todos no meu coração, exatamente como fiz no Carnaval. Tudo o que construí desde o ano passado e que vou elevando andares a cada dia devo a mim e a vocês que de alguma forma estão a meu redor.

Um brinde a nós todos com o Champagne já bebido do dia 4 de março e os muitos que virão adiante!
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Onde estão as grandes histórias? Como encontrar motivos para filmar e como definir se eles são de fato filmáveis? Ao buscar o desconhecido, os documentaristas estão se voltando ao redescobrimento do que lhes é familiar.

Homem Urso (2005)
Ainda que o espectador possa se enganar no início, O Homem Urso não fala simplesmente de um viajante excêntrico que resolve morar na natureza. A vida nas intempéries e com perigos que os instintos animais – e aqui conto com o humano dentro do conjunto – é apenas o pano de fundo para a exibição daquele que se colocou diante das câmeras, o real personagem que se exibe numa comunicação de programa de tv inexistente. E há uma questão que complexifica o que exibimos: temos as seqüências realizadas pelo personagem que se apresenta e conversa com a câmera e ainda a mão do diretor, Werner Herzog, que traduz em história horas de material bruto.

Em Svyato, vemos uma criança que descobre, como Narciso, seu reflexo. O pai o ‘protegeu’ do momento até seus dois anos e agora registra e exibe para nós, o encontro de Svyato consigo mesmo. Acompanhamos sua surpresa, seu susto, o medo, o confronto a tentativa de encontrar o outro – pois não conhece sua imagem. Vitor Kossakovsky buscou na sua maior intimidade um mote para filme, o jogo da representação mais puro e honesto – no caso das expressões da criança – para transformar o documentário numa experiência de quem se assume voyeur.

Nos filmes acima, percebemos o olhar do outro em duas escalas: enquanto Svyato se apresenta na tela sob o olhar de seu pai, O Homem Urso mescla imagens de um sujeito-personagem, registros de uma vida, montados por um diretor distante. Mas ainda há uma outra possibilidade: a da exibição do próprio autor. Em Passaporte Húngaro, a brasileira e diretora Sandra Kogut se põe diante das câmeras numa tentativa de tirar o passaporte húngaro através da herança genética familiar. Sandra não apenas se mostra, como conta a história de sua família através de seus parentes mais velhos.

A questão que se abre nos três filmes é a clara intimidade do autor com o que tenta exibir. À exceção do primeiro, em que este não é diretamente o produtor-ator das imagens, nos outros dois a intimidade é marcante. A idea de transformar em filmes, relatos da vida particular é o que nos interessa.

Em O Homem Urso, vemos a construção do personagem entre entrevistas de amigos e suas próprias imagens por ele produzidas, contando sua rotina, seus sentimentos, suas necessidades como se, de um diário íntimo, fizesse um programa de tv sobre a relação do homem com a natureza selvagem. Esta necessidade do relato, de deixar o registro diário marcado, da narração se voltar a um público, é fruto de uma geração que compartilha seus diários. São os blogs, por assim dizer, a marca desta geração que com a adição da popularização das câmeras digitais, transforma-se também num produtor de imagens para o mundo.

É a necessidade de expressão, a ideia de que há um conhecimento que precisa ser partilhado, este mote de que cada um torna-se produtor de conhecimento e informação sugere que todos temos algo a dizer aos demais. Mas, o que há de tão interessante e fundamental a ser dito? Por que essa necessidade de transmitir conhecimentos particulares ao mundo?

Enquanto Thimothy Treadwell enxerga o mundo e nos mostra através de suas lentes, Werner Herzog as reinterpreta e tenta descobrir aí não o que o personagem-produtor quer nos mostrar, mas uma tentativa de revelar quem é esse personagem, o que vemos dele no que ele conta. Para um documentarista contemporâneo, é um material riquíssimo, já coberto de polêmica e narrativa: um personagem que passou momentos da vida se filmando na natureza selvagem ao redor de ursos, morre como alimento para eles. Com final trágico e registrado, é quase um filme pronto e com público garantido. Não tirando o mérito de Herzog, é um filme sensível e que nos dá essa dimensão do outro que buscamos encontrar nas imagens montadas, muito mais do que nos depoimentos tradicionais de quem o conheceu.

Svyato (2005)
Em Svyato, a história toma outro rumo. É um diretor que exibe também a intimidade de alguém na tela, entretanto o confronto é um pouco mais complicado: tratamos de uma criança, do filho do autor, que lhe prega uma peça e nos mostra. Por muito tempo se pensou que os documentaristas precisariam buscar tesouros perdidos, encontrar antropólogos etnográficos e descobrir nações outras, pessoas diferentes, mundos ou grandes histórias. Kossakovsky se esconde através de espelhos, liga suas câmeras e espera o filho vir descobri-los, como em um trote. Em sua experiência, assistimos nos surpreendendo com as expressões e manifestações da criança que só agora entendeu o que é sua imagem refletida. São 45 minutos quase sem texto ou cortes, em planos fixos. Svyato, muito mais do que um documentário diferente, é uma experiência prática para educadores, psicólogos, curiosos. Com um tema simples, a pretensão do diretor está justamente em contar histórias banais.

Kossakovsky já havia nos presenteado com sua outra experiência Tishe!, registros a partir da janela de seu apartamento de uma esquina russa por um ano. O filme se vale da montagem para transformar semanas e meses em poucas horas e, ainda assim, entendermos o passar do ano por suas estações. Presenciamos também nos momentos de rotina, ciclos outros e, em um final singelo e surpreendente, conseguimos não ter a impressão de que o tempo passou por nós e nos perguntamos se o que vimos foi de fato um documentário.

Sandra Kogut aprofunda as questões antes abordadas. Ela não se deixa filmar, ela não é o personagem de alguém; ela filma e se filma. Ela é o personagem e diretor, inserindo ainda, sua família como coadjuvante. Com mais uma idéia de investigação, a diretora parte para a resolução de um problema, ampliando sua esfera de atuação. Convoca seus avós na pesquisa de herança genética e colhe daí muito mais, histórias de mundo e vida entrecruzadas por quem viveu momentos importantes.

Um Passaporte Húngaro (2001)
Sandra Kogut concretiza, por fim, o mote de falar de si para exibir o mundo: ao contar histórias de seus avós e familiares, percebemos as vivências no mundo, no contexto de eventos marcantes historicamente, tratando literalmente de temas polêmicos, importantes não só para esta família, mas para muitas outras. O interesse de quem assiste pode começar apenas na intenção curiosa, mas é surpreendido e ampliado pelos relatos ali exibidos.

Sandra amplia o blog da geração, trazendo importância, fontes que viveram os momentos que contam, comprovações. Ainda é o descobrimento de um novo mundo, ainda que dentro de sua própria casa. Se Sandra tira de sua casa o mundo para quem a assiste, Kossakovsky traz o mundo para sua casa, as descobertas íntimas de seu filho, a exibição da própria imagem. Por fim está Herzog, que do mundo retirou para seu filme um sujeito que tentava exibir a vida selvagem dos documentários de busca tradicionais. Herzog, entretanto, consegue nos mostrar intimidades da figura que apresenta o mundo, como num jogo do contrário, em que o que nos interessa é ver quem ou o quê está próximo e não o longínquo desconhecido.


Passaporte Húngaro, Sandra Kogut
Brasil, Bélgica e França, 2001 - 72 min.

O Homem Urso (Grizzly Man), Werner Herzog
EUA, 2005 - 103 min.

Svyato, Vitor Kossakovsky
Russia, 2005 - 45 min.
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Um passarinho pousou na minha janela. Era domingo nublado. O dia de preguiça, tv e sofá foi interrompido por essa visita inusitada: morando no térreo, quase não vemos passarinhos. Ele pousou na minha janela e ficou me encarando, me provocando pra ver o que eu faria.

Eu fiz o que tinha que ser feito: fiquei encarando o passarinho pra saber o que ele faria. Ele ficou lá, parado, volta e meia fingia que ia voar, tentando me testar. Achava ele que eu ia correr para ver que caminho ele tomaria. E eu ficava ali, parada, vendo ele sacudir as asas, se exibindo. Desliguei a tv.

O passarinho passou a tarde comigo, nessa brincadeira boba que nos deixa felizes. Dei água e ele se esbaldou. Tentei alcançá-lo, mas se assustou. Nesse tempo todo, quase não me dei conta de que o passarinho precisava voar. Quando menos esperava, ele ia longe, pelo céu cinza e sem vento. E o meu domingo de preguiça, tv e sofá foi transformado pela beleza dos pequenos gestos.
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As fotos são de Murray Garret, na casa do ator, nos anos 60. Você pode vê-lo 22 vezes mais na Caixa Cultural carioca por estes dias, em seus filmes. Marlon foi ícone de um tempo em que não haviam tantas categorias e que a frescura masculina era restrita aos homossexuais. Sem emo, homo, uber, metro ou qualquer outro derivado, aquilo sim, era homem de verdade numa época em que a musculação era trabalho braçal e bomba só se conhecia da que explodia.
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Há gente que pensa que para tudo há uma explicação complicada nas artes. Você vê um filme simples e acha que o diretor quis fazer uma interpretação implícita, uma crítica social. Você vai a um museu e passa três horas olhando o quadro da Monalisa para descobrir se ela está rindo, cínica, chorando ou simplesmente curtindo com sua cara. E com a poesia não é diferente. Como eu sou o tipo da pessoa que desconfia das coisas, costumo pensar que às vezes as coisas simplesmente são uma brincadeira, uma manifestação do tédio, uma curtição qualquer.

Mari, minha comadre, esteve aqui neste último fim de semana e me trouxe um livro pra ler: Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto. O livro traz logo de cara uma entrevista deliciosa com o poeta, seguida de intervenções de outros amigos que aparecem para homenageá-lo. Ainda estou na entrevista, feita por telefone, numa circunstância muito difícil, em que a filha do poeta estava internada num hospital e ele sofria do coração. Duplamente.

O livro é um achado e a diversão segue ainda que com estes percalços. É muito divertido, por exemplo, quando Drummond fala sobre programas de tv e diz que assiste ao Sem Censura, o programa eterno da TVE (atual TV Brasil). Ele diz que como são vários entrevistados sempre, às vezes fica meio chato. Pense nisso: Leda Nagle comanda! Outro programa que ele gosta, e aí lembro de meu pai, é o dominical Globo Rural. Eu gosto do programa porque via como meu pai cedinho no domingo, coisas de fazenda, mato, bichos, sementes, plantações, cultivo. Drummond diz que não sabe como não se tornou fazendeiro.

Como Woody Allen, o escritor sabe prender o leitor com suas palavras simples e jeito de viver sem vaidades aparentes. Enquanto Geneton o persegue tentando arrancar algum orgulho de seus textos, ele os assume como expressão de sentimentos, nada mais. Segue um predacinho que resume a história e deixa muito professor de literatura envergonhado:

“A pedra, afinal, existiu de verdade ou foi somente uma imagem?

Não; foi uma criação minha. Não tinha nada. Minha intenção era fazer apenas um poema monótono,sobretudo monótono – e com poucas palavras. Um poema repetitivo. Um poema chato mesmo. Uma brincadeira. Não tinha intenção nem de fazer uma coisa que agredisse o gosto literário nem também uma coisa que permitisse uma revolução estilística. O poema muito menos tinha uma intenção filosófica – aludindo a dificuldade que a vida pode oferecer à pessoa. Nada disso!


Apenas o seguinte: fazer um poema com poucas palavras repetidas e bastante chato, bastante árido, bastante pedregoso. Uma brincadeira! Eu tinha vinte e poucos anos e nenhuma pretensão de fazer nada que pudesse irritar os outros. Era uma brincadeira, como a gente costuma fazer quando moço.”


E saber que ficamos tentando descobrir, cruzando referências de tempo, espaço e história o porquê da maldita pedra.
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Se você acha que esta aí é a minha primeira ou até a última etapa para chegar ao trabalho todos os dias, está muito enganado. Fazendo as contas aqui, é a terceira. Vamos contar:
metro-rio
Rio de Janeiro, Cosme Velho
  1. Saio de casa, ando oito quadras até a estação de metrô;
  2. Pego o delicioso metrô com ar condicionado e leio o jornal curtinho que resume em poucas linhas as principais matérias do dia. Minha estação de metrô é gênia, porque é a primeira da linha, então SEMPRE tem lugar pra sentar;
  3. Saio do metrô e chego nesse ponto aí que vocês estão vendo. É o Largo do Machado e o ônibus de integração (faz parte da linha do metrô) me leva até Cosme Velho;
  4. A parte terrorífica: chego no último ponto do trajeto e subo andando uma ladeira esperta. Sem respirar, chego na porta do trabalho.
Apesar da atividade física e dos trajetos todos, é fácil chegar lá e não demora tanto. A parte mais lenta é a do ônibus, mas, muito mais pelo trânsito e por eu sair no último ponto do que pela distância. A única coisa brutal disso tudo é subir a ladeira depois da noite do seu aniversário, de ressaquinha e com 35 graus na cabeça. Você acaba achando que vai morrer em algum momento, mas já descobri a técnica: finja que a ladeira não existe. Suba na paz do senhor, devagar e sempre e sempre, sempre leve uma garrafinha de água. A ladeira não é muito comprida, mas dá pra cansar.

E como tudo pode ser um pouco pior do que parece, aqui está a ajuda divina que nos impulsiona pra cima: quando chegamos numa etapa da ladeira, temos a opção de virar à esquerda ou direita. Como as forças sobrenaturais estão de acordo comigo ainda, a minha ladeira é a da direita: infinitamente menos brutal que a da esquerda (que, se você subir pra sempre dá no Corcovado - sentiu o drama?). Outra coisa sensacional é que estamos num bairro extremamente arborizado, que alivia o sofrimento. A solução para a maratona é se forçar a ser uma garota saudável e evitar sair durante a semana, evitar beber e dormir cedo. Ou você acaba com a ladeira ou ela lhe acaba. A diferença é que ela não faz esforço algum.

Em resumo, é como dizem os sábios: se não güenta vara, peça cacetinho.
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Rio de Janeiro. Com muitas indefinições em vista, não consegui me programar para ir a Salvador no Carnaval. Achei que ia ser tranqüilo, ainda que quisesse realmente ir e passar uns momentos no circuito. O Carnaval chegou, as indefinições tornaram-se definições e não pude ir. Não poderia simplesmente pegar um avião e ir à minha cidade, fazer uma visita.

O carnaval daqui é expressamente diferente do de lá. Ainda que eu tenha minhas chatices bairristas, de fato, não há como comparar a festa nas duas cidades. Aqui está acontecendo o carnaval de rua e as escolas de samba. As escolas não me interessam tanto, o desfile, o glamour... a festa que eu conheço é aquela das pessoas pulando, rindo, numa alegria eufórica e contagiante. O carnaval de rua é o que mais se aproxima disso. Fui a uns blocos, mas todos tocavam samba e não me empolguei tanto.

Em um desses dias, me falaram que ia tocar um bloco afro e que as músicas eram mais parecidas com as de Salvador, que até atabaques tinham. Fui. Me perdi de umas companheiras de festa e estava sozinha no meio do bloco. De repente Já chegou o verão, calor no coração, a festa vai começar soou alto e eu estava no Carnaval da Bahia. A mesma alegria me pegou e carregou e todas as pessoas ao meu redor tornaram-se Barra-Ondina. Enquanto eu cantava e pulava de uma forma que não esperava nunca, lágrimas caíam numa violência que eu lutava entre cantar e chorar.

É como eu amo Salvador sem nem perceber. É como nós estamos enraizados ainda que distantes. Não é simplesmente o carnaval da cidade. Não é simplesmente o povo ou minha família. Salvador tem uma espiritualidade ou uma energia que só quem é de lá consegue sentir na plenitude. Quem não é de lá e participa de uma festa como essa normalmente se apaixona, mesmo sem saber pelo quê. Não conheço muitos lugares no mundo, mas com certeza nenhum se compara. E não é exagero. É uma força tão grande que os blocos daqui tocam músicas de lá, que o carnaval daqui homenageia o de lá. É um conjunto. Minha cidade é um aglomerado de corações que, quando batem no mesmo ritmo, entram em sintonia com o universo e mesmo longe, podemos sentir sua vibração.
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Cá estou eu ouvindo a chuva. Enquanto o tempo passa arrastado, o novo céu cinza do Rio despenca. Na casa de Pedro não se ouvem carros. Talvez de longe. É só o barulho da chuva. Pingos no chão, em canos, em lona, em alguma coisa metálica. A janela que dá para os fundos é só chuva e prédios, fundos de prédios. Na casa de Pedro é silêncio de chuva.

Lembro de minha casa em Salvador. Há a mesma chuva torrencial, há um silêncio parecido, com uns barulhos de pássaros no meio. Há uma rede e um gramado. Há o sofá da sala e sempre que posso deito nele e curto a melhor preguiça de todas. Há agora uma saudade gostosa de minha cachorra nos dias de chuva.

De volta à minha casa carioca, mesmo sem estar lá agora, sei que é chuva, ônibus, pessoas, buzinas e carros. E acaba sendo tudo preguiça e talvez um friozinho à noite. Pode ser o clima do filme que estamos criando: duas casas, duas pessoas, uma amizade e trilha sonora. Acho que é uma combinação, uma coordenação de temas, motivos e características que fazem essa história combinar muito mais com cinza, água e ventos do que com o céu estupidamente azul e os trinta e cinco graus do verão.

Precisamos trabalhar. Enquanto a construção da primeira idéia, o primeiro corte do filme chega ao fim (e é claro que a segunda etapa é tão ou mais difícil que esta e está chegando), acredito que já posso ir desvendando e desenvolvendo as conclusões deste aprendizado.

Cada filme, independente de seu tamanho, conteúdo e complexidade, traz um universo de aprendizados que nunca conseguimos traduzir totalmente em imagens. O filme traz uma parcela, um conjunto de experiências selecionadas que se combinam numa lógica e traduzem uma história. O que sobra é a maioria, são as reflexões, os encontros, as conversas, pedaços de textos e vozes, pensamentos que guardamos como registros de mais um trabalho, de saberes adquiridos e trocados, e sempre vontade de fazer mais, pensar mais, produzir mais.

O cinema é como um vício que, com todas as dificuldades, insistimos em querer passar a vida fazendo. Muito mais do que pensar em produzir arte - porque esta é uma grande palavra de status - queremos produzir apenas e tentar construir novas histórias. Há sempre muito o que contar por aí.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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