• Home
  • Sobre
  • Portifólio
  • Contato
linkedin instagram facebook pinterest

Café: extra-forte



José Saramago tem a característica dos escritores sensacionais de criar imagens singulares em quem o lê, a partir de suas histórias quase incoerentes. Ele faz parte da legião que cria para si mesmo o desafio de consolidar em nós uma verossimilhança e uma crença no que estamos prestes ou no processo de absorver. Já assistimos a mais uma reconstrução criativa e inteligente da vida de Jesus Cristo, vivemos o incrível dilema de um Homem Duplicado e fomos forçados a visualizar a cegueira. Por mais paradoxal que pareça, Saramago, que não é cego, descreveu uma cegueira que nos permite vê-la com uma simples ideia: é branca. A partir do momento em que compramos a história e passamos a participar da trama, construímos nosso filme. A graça de um bom romance é a consolidação de sua história de palavras desenhadas em palavras imagens. Mas... e se alguém gosta tanto do seu filme particular que resolve construí-lo concretamente para que outros participem de sua criatividade? É aí que nosso texto começa:

Fernando Meirelles adaptou O Ensaio sobre a Cegueira e trouxe suas imagens para nós na grande tela dos cinemas. O Ensaio, texto cujo esforço de nossa subjetividade vai além dos romances mais comuns, exige apuro, sensibilidade e precisão, para não cair nos excessos que transformam tramas complexas em suspenses banais.

Quando li o livro, me prendi na forma da doença. Acredito que a cegueira impõe uma criatividade diária para quem a tem. Todas as imagens devem ser desvendadas inventivamente, nada é gratuito. A audição torna-se fundamental neste processo, muito mais do que naqueles que enxergam. E sempre imaginamos a cegueira como ausência e a ausência como escuridão. A cegueira de Saramago é branca como leite, espuma e bruma. Outra característica que me fez não respirar foi a condição de desenvolvimento, o ritmo do texto. Saramago apresenta sempre uma escrita particular, onde diálogos quase se misturam e a forma do texto é como a do pensamento, ininterrupta. Uma cadeia de ações desencadeia outros fatores que complexificam uma situação já limite: uma epidemia de cegueira cujo foco da doença é inexplicável, é apenas o detalhe que transforma e transtorna uma sociedade.

O livro já me causava desejos, anseios e agonias. O desespero das mulheres era como o meu, se estivesse com elas; a dor de não ver, o despreparo que isso traz para nós em um espaço automaticamente desconhecido, os perigos da vulnerabilidade. Estar cego, neste caso, é estar entregue, despejado no mundo, sem defesas. Perceber o nosso redor entrar em colapso é perceber a própria derrota e a incapacidade de mudar o rumo. Ser mulher nesta condição é um risco óbvio.

A forma como a cegueira se dá no livro/filme é a mesma para o Os Pássaros de Hitchcock: não há explicação, simplesmente acontece. Não precisamos da explicação, o que importa é o fato e como ele se desenvolve. A cegueira é, antes de tudo, metafórica, e esta é, talvez, a maior dificuldade de explanar os sentidos dessa metáfora no filme. O filme é imagem, os sentidos da imagem nós também precisamos construir.


Não fui assistir a Ensaio sobre a Cegueira inocentemente. Acompanhei o blog do diretor e fui desvendando uma parte dos mistérios que encontraria tempos depois. Conhecer o livro aumentava ainda mais as expectativas. A trama de Saramago é repleta de ação, o que facilitava. Em oposição, a cegueira precisava ser exibida e Fernando Meirelles encontrou boas saídas. O uso do som com menos música e mais pinceladas, pingos de expressões sonoras em momentos de carência visual, são muito bem executados. O choque de estar cego de repente também foi bem sucedido.

Apesar de me incomodar com alguns atores – à exceção de Julianne Moore, Maury Chaykin, Yoshino Kimura e de Gael García Bernal – o filme soma pontos na carreira do diretor, agora internacional. O blog indicava algumas questões acerca do tom do filme; os produtores entenderam que as primeiras versões estavam fortes demais, muito carregadas e que possivelmente o público se incomodaria. Ledo engano. O filme, a meu ver, poderia carregar nas tintas, mas esta será sempre uma observação de alguém que já tinha seu próprio filme na cabeça, antes de ver o de outro diretor.

A seleção de atores com diversas nacionalidades, a fotografia e a diversidade de locações para simbolizar um espaço mundial – uma história sem cidade, mas uma história possível em qualquer nação – somada à arte desbotada, traduzem um espaço onde poucos enxergam. Aquele seria realmente o mundo onde ninguém vê? A cegueira é a anulação do ser humano para tornar-se o animal que presenciamos na trama? O que significa ver e não ver? O que deixamos de ver? Para o quê fechamos nossos olhos? Além da banalização do ser humano, sobram as necessidades, a dependência e, por conseqüência, o egoísmo. Havendo apenas uma pessoa que enxerga, a memória nos traz a brincadeira: em terra de cego quem tem olho é rei? De que serve enxergar o que ninguém vê? O que se enxerga onde ninguém vé?

A sociedade da cegueira branca entra no colapso e se expõe da forma como ninguém gostaria de ser visto. Ao estarem todos cegos, a vergonha perde espaço, o despudor ganha forma e une-se ao desrespeito, à soma de todos os poderes, à lei do mais forte. E o reflexo dos totalitarismos soa como uma lembrança plausível. E a personagem que vê? A única mulher que vê e se deixa violentar para a sobrevivência de um grupo, é a mesma que assiste a um mundo que tombou ao caos. Ao contrário uma possível situação de controle, ver é quase nada, até o suportável. Até onde é possível sustentar este silêncio? E este caos não é o que vemos diariamente? Ou é aquele que fazemos questão de fingir cegueira?

O filme, como toda imagem já realizada, sublima algumas questões. Nos prendemos à trama e deixamos o incômodo surgir sorrateiramente em nós, nos dias que passam, nos momentos seguintes ao filme, na esquina de nossa rua, na violência de guerras espalhadas. A cegueira aqui é apenas o que não queremos ver. Mas... e se formos obrigados a enxergar novamente, haverá alguma diferença?


Título original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
País: Brasil, Canadá, Japão
2008, 120 min

*Veja o site depois de ver o filme.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários

Estou finalizando um curta sobre meu avô. No tempo de meu avô, ficou curto de verdade, não sei se chega aos cinco minutos e é uma brincadeira com imagens do Arquivo Nacional e fotos antigas da família.

Não saiu muito como eu queria, acho que ainda falta sentimento em minha voz, nas palavras, alguma direção nesse sentido. Mas, além de não ter outra pessoa e eu dirigir minha própria atuação, estamos condenados ao uso de imagens que não escolhemos e assim fica mais difícil. Queria ter mais seqüências que retratassem o que imagino de meu avô, mas isso quase não consegui.

Acho que ficou um produto interessante, mas pretendo depois, construir um maior e mais livre. Inventei um avô que me interessa muito. Inventei uma vontade, inventei uma idéia, inventei uma vida. Mas não inventei a saudade.

É uma saudade engraçada, porque eu era criança e só sei dele criança. Minhas imagens dele são muito carregadas de silêncio e silêncio que eu via nele, como uma aura. Da varanda da casa de minha avó em Brotas (Salvador), da cadeira de balanço. E até da minha primeira casa, quando aconteciam os almoços e aniversários. Eu sempre achava que uma hora ele ia gritar com alguém. Mas nunca conseguia falar direito com ele. Eu também era uma pessoa de silêncio, pequena e criança, mas era.

As fotos que conseguimos selecionar representam a família muito bem. Ainda que sejam de um tempo muito anterior a esta fase de nossas vidas, traduz uma imagem bem sincera de como somos. Uma família simples e divertida, cheia de neuras, carinhos e piadas. Um pouco como toda família. Fotos antigas são as coisas mais bonitas que podem existir. Elas te resgatam sentimentos, momentos, pessoas, abraços. Fotos sempre renovam sentimentos. É um passado com sentimentos de presente.

A mais surpreendente de todas as coisas que vi nesses tempos é a foto dele sorrindo. E o depoimento de minha avó, Dona Lita. A foto dele sorrindo é a coisa mais fantástica do mundo. Porque não é simplesmente um sorriso, é como se ele estivesse rindo e querendo gargalhar, como se estivesse prendendo o riso e não conseguiu segurar direito, escapou um sor-riso tímido e vermelho. É linda.

O depoimento de minha avó. Tirando os problemas com o som e com minha entrevistadora agoniada demais, conseguimos grandes frases. Os sorrisos de minha avó a denunciam. Foram anos de convivência relembrados em pequenos instantes. Foi a História do Mundo e a História Deles, ainda maior, mais importante, mais bonita, é o surgimento de uma família. Foram as alegrias e as agonias... e agora ficou a saudade dela, o carinho e todas as suas lembranças. E deu pra ver. Minha avó é uma fortaleza, mas cheia de emoções... em também sorrisos, muito mais fáceis de conseguir.

O que ganho com esse projeto é meu avô, minha avó, meu pai, minha família. São recordações e revelações tão bonitas quanto surpreendentes. Acho que assim vou amenizando a saudade, retomando a vida do lado de cá e construindo novas idéias.
Share
Tweet
Pin
Share
5 Comentários
Tenham paciência... um dia terei a versão final desse layout.
:)
Share
Tweet
Pin
Share
9 Comentários
E cada passada de mão era só mais uma mão que passava por meu corpo. Só mais uma mão. Enquanto os desejos vinham como ondas fortes e eu me ancorava nas pedras, pensava que não era a mão que tinha que estar ali. E meu desejo esvanecia e parecia uma nuvem cinza. E eu voltava a acordar e sentir o pesadelo vivo daquele momento.

Enquanto ele dormia ao meu lado, eu me perguntava porque aquilo tudo acontecia. Me permiti deixar levar por um desconhecido para um caminho escuro que só eu tinha a chave, mas permiti também que ela sumisse por uns momentos. A menina que abriga esta mente perigosa estava mais acordada do que nunca. Desamparada, ela queria o telefone que nunca tocava. Só uma chamada e seria salva.

O telefone jamais tocou. Passou a noite em claro, tentando organizar os pensamentos e minimizar os danos. Ela percebeu, entretanto, que não poderia se enganar. Achou que, com toda a inteligência que ainda acredita ter, se deixou emburrecer por uns tempos e virou uma adolescente novamente. Ou seria aquele o momento em que estava deixando de ser? Sempre se chamando de menina, independente de toda a maturidade que aparenta, gostou do momento em que mais uma vez conseguiu se sentir sozinha.

Saí da cama. Não conseguia dormir e quando fechava os olhos, os pensamentos voavam ainda mais rápido. Lembranças da noite. Todo o desenrolar e a certeza de que dominaria tudo, mesmo quando se deixou levar pela saudade de outros beijos, beijando novamente. Mas não era novamente. O ato de beijar não queria dizer muito, eram bocas coladas, entrelaçadas as línguas, mas sem muito estímulo. Era a pessoa que faltava, mais presente do que nunca.

Na janela da sala ela pensava. Com um copo de água na mão, matava a ressaca de várias noites em uma só. Um silêncio no amanhecer e um sorriso de canto de boca. A independência é um amanhecer silencioso perto da praia.

Eu estava finalmente feliz de novo. O dia chegava, a noite acabava levando a desilusão embora. Talvez eu tenha perdido o que seria um amigo. Talvez, e muito mais provável, ele não seja nada e nunca queira ser nada e este era só mais um ideal romântico. Não sei se o que sinto agora é a perda da inocência, acho que ainda não.

Os pensamentos dela continuam a se contradizer. Ela faz análise dela mesma e agora tem onde gastar o tempo: as atividades intelectuais estão tomando corpo e finalmente consegue produzir. O tempo me distrai e me concentro no que seria um estudo prático, uma experiência profissional. Algumas noites ainda pesam.

O que mais machuca nisso tudo é o vazio, na verdade. Não importa a noite errada. Ainda que não tenha sido tão ruim, não foi boa e eu intimamente já esperava por isso. O que incomoda é essa realidade das relações sem sentido, sem motivo. Ainda conservo a inocência em mim, se ela for o cuidado e a necessidade de conhecer e gostar. Esta ilusão é necessária.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
Quando entramos numa turma, num novo grupo de pessoas, buscamos logo a identificação com alguns. Um olhar que sintonize com o seu, uma frase solta, um sorriso de concordância ou até a brutal discordância em algum momento. E uma aula de quatro horas torna-se possível.

Mas o que pensar quando perdemos esse detalhe? Quando confundimos ou deixamos confundir toda essa troca de carinho com um algo mais que na verdade não existe? A ilusão se quebra e a rotina das aulas volta a ter seu peso.

Dois pesos, duas medidas. O fato não importa, o que vale é a reação. Ao que minhas expectativas se transformam em conseqüências inesperadas, só resta o dia seguinte ao encontro: o próximo e agora, inevitável, segundo encontro.

A desilusão, quando as luzes do cinema se acendem e temos que sair daquele aconchego para a dureza da luz do dia ou a secura fluorescente e branca, nada mais somos capazes de ver como antes: o olhar tornou-se mais um, o sorriso perdeu o sentido e as piadas, a graça.

As aulas tornaram-se aulas novamente e talvez até mais produtivas. Agora busco outra identificação. Muito mais cuidado com a dose do carinho poque todos podemos confundir as situações e não se erra tantas vezes, simplesmente não é possível. Vamos levar a vida a sério como adultos que um dia devemos nos tornar. Será?
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários

... depois de um dia de sol e maresia, me peguei ouvindo as músicas. Domingo ordinário com outros tons.

I

If you didn't care what happened to me,
And I didn't care for you,
We would zig zag our way through the boredom and pain,
Occasionally glancing up through the rain,
Wondering which of the buggers to blame
And watching for pigs on the wing.

II

You know that I care what happens to you,
And I know that you care for me too,
So I don't feel alone,
Or the weight of the stone,
Now that I've found somewhere safe
To bury my bone.
And any fool knows a dog needs a home,
A shelter from pigs on the wing.

Pigs on the Wing (I e II)
Pink Floyd.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
O que parece mais um novo filme nos espanta com a nitidez da realidade. As fotos publicadas da mais nova guerra mundial nos transportam para a emoção da dor com tamanha qualidade estética que mais parece um ensaio fotográfico revolucionário. Mais uma vez, a vida real vence para as superproduções da sétima arte.

Os soldados, os civis, as paisagens incríveis e o contingente populacional envolvido surpreende. Os fotógrafos merecem o prêmio da estética, ainda que a ética permaneça em xeque. Eu gosto muito das fotos, as acho belíssimas e as cores são tão fundamentais como os sentimentos diversos expressos em cada imagem. É surpreendente o que o pessoal de comunicação aprende com esse tipo de reportagem. Guerras não faltaram como escolas.

Falar em guerra... eu fico me perguntando qual a razão disso tudo. Eu não sou estúpida e as razões para as guerras eu até sei, mas é que parece tão antiquado. É uma forma tão arcaica de humilhar o outro, de provocar o pior intencionalmente – porque não é já simplesmente o mal – é causar tanta dor e tanta dor já conhecida por todos.

Até o tema já perdeu a graça. E ficamos vendo a miséria de camarote... a mesma e diferente da que temos em nossas esquinas todos os dias. E aposto que ainda tem gente dando graças a Deus por não estar na Geórgia, Afeganistão, Rússia, Iraque, Israel, Palestina, Tibet, China, África(s) e mais um sem fim de nações em permanente conflito. Nossa rotina é nossa guerra particular.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários

Acabei de ser transportada. Fui levada a um mundo onde a serenidade acontece em harmonia com a paixão. O equilíbrio dos homens é visto quando percebemos seu contato íntimo com a natureza, de afinidades, sem receio. É uma música que soa diferente em nossos ouvidos, uma tradição distinta e limpa, cores sutis, ainda que o clima seja o mesmo quente e úmido que conhecemos.

Vi um filme rodado no Vietnã. Mais uma vez, o sentimento do filme me levou a sair de minha cama, de debaixo das cobertas e ser uma das personagens. Ou querer ser. Vemos uma vida se descortinar sob nossos olhos... uma criada, criada desde pequena em uma casa de família, ao tornar-se adulta é obrigada a sair por falta de condições financeiras da casa. Ela passa a trabalhar para um amigo da família, mantendo o mesmo círculo social, a mesma situação. E há um misto de passividade e leveza, onde os valores são outros, as ambições não se percebem tanto e vemos o comportamento minimalista e sereno de outra cultura.

Não que o Vietnã seja tranqüilo e pacato, mas isso pouco importa neste momento. O Cheiro do Papaia Verde nos domina pelo olhar, pelo gosto que quase sentimos e odor que queremos tanto participar. Não há muito barulho e até a desarmonia, se é que podemos tratar as dores assim, é flagrada nas expressões de pessoas de rosto simples e bonito.

Sim, é um filme de pequenas grandes ações. Os corações desavisados podem sofrer de amor ou desilusão nesse filme. Os longos planos-seqüência nos ajudam a entrar no clima, se deixando valer por entre-salas e janelas ornamentadas. Os movimentos de câmera vão construindo nosso caminho no andar dos personagens nos ambientes das casas filmadas.

É um filme do silêncio da natureza, ainda muito mais forte aqui do que no levemente urbano Luzes de um Verão, do mesmo diretor. Também a atriz principal é a mesma, como concorda mais uma vez com o poder reflexivo do primeiro filme. Luzes de um Verão é o amor de uma família impregnando-se em nós como a música do Lou Reed que suavemente nos contamina não conseguimos tirar da cabeça.

O Cheiro do Papaia Verde traz a doçura da infância que não foi perdida pelo meio. A inocência se esvai como uma música que acaba, mas as cores ficam, junto com o barulho dos grilos e sapos. Para quem se interessa por um mundo diferente, estes dois filmes são fundamentais. É uma pena que já os vi.

Em mim, ficou a experiência do reencontro com o cineasta, com seu estilo e seus tempos. Em mim, ficou a vontade de ser um pouco daquilo como já acho que sou em meus momentos, e o receio de estar perdendo isso aos poucos vai se esvaindo cada vez que me deparo com uma parte da minha natureza nestas carinhosas obras de arte.

O Cheiro do Papaia Verde (1993) - 104 min.
Cyclo (1996) - 123 min.
Luzes de um Verão (2000) - 112min.
Dir.: Anh Hung Tran
Vietnã.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
Estou vivendo sob um grande risco. Estou construindo meu avô através da minha memória e dos meus familiares. Ele morreu quando eu tinha 12 anos, mas a pouca convivência e nosso jeito de ser não permitiram que fôssemos mais próximos.

Acho que eu tinha receio de meu avô. Como ele sempre foi muito calado, achava que um dia ele ia falar alto e sério com alguém... ele ria pouco... tão pouco que não me lembro. Estou recolhendo fotografias dele de todos os tempos que posso e estou observando a vida de outra pessoa em momentos que eu nem mesmo vivi. É um pouco como a praia que fui hoje. Levei a máquina a tiracolo na intenção de encontrar alguma coisa interessante pra ver, como sempre tem. Observei a vida dos outros e fotografei algumas pessoas... vim pra cá e fico com as pessoas olhando a vida e nunca sei o que elas pensam.

Nas fotografias, acabo vendo mais meu avô do que pelo relato de meus parentes. É que a foto registrou um momento que hoje não passa por interpretações e rasgos das memórias. A fotografia não vem com explicação de personalidade; vemos a imagem, as expressões e o momento. Nada mais.

E nesses momentos vem sempre a nostalgia e o sentimento de estar conhecendo mais, a vontade de ter convivido mais, sabido mais, conversado mais, mesmo sendo pequena. E a imagem que eu tinha antes, a idéia deste avô vai se completanto com novas versões, personagens e características de atitudes que vamos ganhando ao ouvir os outros.

Cada um carrega consigo esse conjunto de idéias sobre as pessoas e ao somá-las conseguimos um padrão razoável, mas jamais um perfil fiel. Agora com as novas histórias sobre esse fantástico personagem, percebo que temos muito mais em comum do que minha infância previa, mas esse é também o grande risco: criar a nova imagem como uma ilusão da vida de alguém que já se foi e que não temos como verificar. E os desejos de pertencimento que construimos podem não corresponder à realidade, caso ele estivesse vivo. Jamais saberei.

Sei que ele era quieto, observador, estudioso, inteligente e sorridente em algumas fotos. Mas sempre parecia à parte, como se estivesse esperando por alguma coisa que nunca acontecia. Mas, ainda estou pesquisando, observando, escrevendo e esperando, para também aprender mais.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários

Hoje fez frio novamente. Foi bom, porque quando faz frio ficamos em casa, fazendo o que há de melhor num domingo: se esbaldar no excesso da preguiça.

É muito diferente fazer isso quando moramos só. Não tem o barulho do domingo coletivo, como era lá em casa, em que tinha a televisão do quarto de meus pais, a televisão da sala, os barulhos de cozinha, a falação no meio do filme. O telefone sempre tocando. Aqui, o barulho é meu e da rua. No meu domingo tem feira no começo da rua; tem menos carros e ônibus. Tem barulho de gente passeando, ainda que faça frio. Tem os meus barulhos, da cozinha, do teclado do notebook, da televisão. Não tem gente falando.

Hoje passei esse domingo todo em casa. Até me deu uma vontade de sair pra passear e de talvez encontrar algumas pessoas... mas logo desisti. O tempo friozinho só me deu vontade de fazer uma coisa de verdade: tirar fotos. Estou investigando minha vida nesses tempos e dentro dela descobri um desejo incontrolável de mexer com fotografia, de trabalhar, de aprender, de viver assim.

E existiu a joaninha. Ela surgiu na minha janela, enquanto eu olhava a rua e tirava fotos das amendoeiras. Achei as amendoeiras fantásticas na mudança de suas cores, as folhas caindo no asfalto. Deu um outro ar à cidade. Pensei como deveria estar bonito o Jardim Botânico que ainda não conheço. Fiquei da janela, com aquelas surradas calças de pano folgadas, uma blusa branca, óculos e a câmera digital automática sem lentes legais. Mas eu precisava fazer alguma coisa.

Como não consegui sair de casa, fiquei na janela, atenta ao barulho das folhas cortado com o pouco trânsito. Vi uns velhinhos amigos. Aqui é muito bonito nesse sentido. Na minha família somos muito fechados em nós mesmos. Eu insisto nas amizades de meus mais velhos, que se visitem, que se curtam. Aqui os velhinhos se visitam a todo instante, passeiam juntos, vivem jogando dominó ou dama ou alguma coisa, porque sempre estou passando e os vejo em umas mesinhas, mas não dá pra saber que jogo é. E eles vão à praia, vão caminhar e uma vez até os vi, corajosamente no mar, muito cedo da manhã. A água é fria e eu fico me tremendo ao meio-dia de sol quando decido mergulhar.

A joaninha apareceu na minha janela. No parapeito, onde eu me esgueirava para descobrir meu melhor ângulo preguiçoso para ver a rua, o mar, as amendoeiras coloridas, as pessoas passeando. Fiquei tentada em fotografar a joaninha, que me percebeu de imediato. Invadi a joaninha, aproximando cada vez mais a câmera, ao passo que ela cada vez mais se assustava e virava de costas para mim. Acho que ela esperava que eu a destroçasse, como deve ter visto acontecer, mas eu estava muito encantada e só queria conseguir tirar sua foto. As joaninhas são muito pequenas, redondas e vermelhas. Para minha inexperiência se comprovar, esqueci de pôr a câmera no manual e ficava insistindo em focá-la no automático, mas a lente apenas queria encontrar o foco a uma distância maior, na rua, nas folhas. Eu tentei até a joaninha ir embora.

A joaninha cansou. Eu tirei as fotos, mas só consegui ficar sem foco, como uma pequena mancha no parapeito branco e as folhas verdes lá atrás, lindas e quase nítidas. Perdi dessa vez. Acho que isso tudo significa que eu preciso estudar. Estudar mais e muito. Ainda vou ter minha câmera fotográfica analógica, manual, com algumas lentes. Vocês vão ver.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários

Ao assistir o novo Batman – O Cavaleiro das Trevas, sentimos que estamos vendo mais do que uma superprodução. O herói conhecido por todos retorna numa nova seqüência e, talvez também pelo falecimento daquele que faz seu principal oponente, saímos sem saber direito como digerir o filme. Há um misto de sensações de bem-estar, pela qualidade e entretenimento e mal-estar, por seu caráter sombrio e pela morte de um magnífico ator em seu melhor momento.

Mas, ainda assim, não é só isso. Ficamos extasiados com a qualidade das imagens, com as seqüências em velocidade, com os figurinos exatos e com o ritmo do filme. Vemos a face do Bem em crise: Batman não é um herói; ele salva as pessoas, mas com um preço a pagar à sociedade. Batman não é o perfil do Bem nos Estados Unidos. Batman, resumindo, não é o Super-Homem. O Coringa, por outro lado, é a exemplificação do mal insano, não sabemos seus motivos para os crimes, ele é um psicopata onde todos, até a vilania, o temem.

A estória se resume com a luta do Batman contra o Coringa, para livrar Gotham City deste mal e a polícia continuar seu cerco às máfias que controlam partes da cidade. Ficou confuso? Batman está sendo procurado pela polícia de Gotham, para que vá preso por seus danos à cidade, entretanto, o Comissário Gordon não o prende porque conta com ele para a dissolução dos crimes. As máfias diversas dominam a cidade e, ao se perceberem ameaçadas, fazem um acordo com o Coringa, que conhece bem e é o único oponente real do Cavaleiro das Trevas.

O homem-morcego é interpretado por Cristian Bale, que fez também o primeiro e bom, Batman Begins, mas a novidade e todas as atenções do filme estão concentradas no Coringa, cuja interpretação de Heath Ledger transformou para sempre a idéia que tínhamos deste personagem. Sombrio, com um sorriso sardônico fixo no rosto pela maquiagem, esquecemos que ali é o mesmo ator que fez Brokeback Mountain, anos antes. A perversidade do Coringa prende o espectador por três motivos: inevitabilidade, imprevisibilidade e consciência. Sabemos que ele virá em algum momento, não sabemos como e nem o que ele vai fazer e, o mais importante, ele traz questões para o espectador.

O roteiro busca transmitir uma identidade humana ao Batman, firmada na realidade ali construída com raízes em nossa sociedade ocidental. Batman é o mal necessário, é o humano comum, ancorado nas tecnologias que lhe garantem supremacia física e alguma defesa. Coringa se compara a Batman, introduzindo no espectador a luta de gigantes, o clássico Bem e Mal, em que o Bem não é o que a sociedade espera ou, sequer, aceita. É o ideal do Bem desconstruído numa versão de necessidade e não, de desejo. E o Mal existe para contrapor o Bem e, também, porque é divertido. Essa relação se torna ainda mais tênue e preocupante, quando o Coringa renega alguns valores e põe outros em xeque: ele não luta por dinheiro e responsabiliza a própria sociedade em sua organização, em sua conduta moral.

Este Coringa é o pior antagonista das HQs adaptadas ao cinema. Sem o ar infantil ou apenas espalhafatoso, Heath Ledger traz um homem cuja face assusta naturalmente e extrapola a cada olhar, caminhar, movimento. O Coringa é o filme, ainda que Comissário Gordon(Gary Oldman), Duas Caras (Aaron Eckhart), Alfred (Michael Caine), Lucius Fox (Morgan Freeman) e Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) tenham seu peso. Comprovado por todos os espectadores do mundo, o filme se justifica a cada fala do Coringa, a cada duelo verbal. O Coringa é o psicopata cuja empatia – renegada em entrevista por seu ator – se faz à primeira vista. A maquiagem esconde uma cicatriz, que a cada momento, é explicada em novas versões às suas vítimas. Acreditamos na primeira e, ao ouvir uma outra completamente diferente, ficamos surpresos e apreensivos. O sorriso perfeito numa boca escancarada e com batom vermelho borrado nos assusta ainda mais, se somamos aos olhos negros em um fundo de pasta branca que toma todo o rosto. Sua maquiagem, assim como o cabelo são montados para dar uma preocupação estilística que define o personagem criado pelo próprio vilão: o Coringa cria seu personagem, à medida que assume em diálogo no filme a maquiagem e o terno roxo. São detalhes que constroem o personagem dentro do personagem e introduzem um novo olhar ao espectador atento. Não há limites para o mal e não há medo, essa é a característica do vilão.

Com a tecnologia das câmeras IMAX, utilizadas com película de 70mm, só lamentamos não poder assistir nas telas apropriadas. Ainda assim, é possível notar a qualidade artística da fotografia soturna e brilhante. Cristopher Nolan acertou em cheio na direção do filme, bem como no roteiro, com grandes diálogos em cenas bem recortadas. Até agora, a questão imposta pelos críticos se dá com uma possível indicação ao Oscar póstumo para Heath Ledger, entretanto, acredito que o filme pede outras indicações. Ao que tudo indica, muitos sairão das projeções como eu saí: feliz por ter experienciado mais um grande filme e triste, por perder para sempre uma possível e brilhante carreira artística de um ator agora consagrado. O desafio de Nolan é maior: caso continue a saga de Batman, terá que reconstruir um Coringa à altura, já que ao menos o personagem continua vivo.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
E ela resolveu sair pra dançar. Morria de frio em terra de amiga, se reconstruindo de mais um clichê desses que nos aparece na vida. Com meias rosa-choque até o joelho, escondidas numa justa calça jeans, blusinha leve por dentro, manga comprida e gola alta por fora, botas e casaco, desceu a rua, atravessou a praça e seguiu pro forró.

Lá dentro, nada acontecia. As amigas conversavam animadamente, analisando o circo ao redor: como em todos os lugares dançantes do mundo, uns dançavam, outros olhavam e comentavam os dançantes e outros apenas caçavam, olhavam, buscavam um primeiro contato pra se dar bem até o final da noite.

As amigas, como de costume, só queriam conversar, beber, dançar e rir. Sempre foi assim, desde que são amigas. O tempo de convivência é tão raro, que apenas o encontro delas é suficiente. O forró havia começado e os rapazes que já olhavam as duas estranhas na cidade, ameaçavam uma aproximação. Elas, cujo interesse era apenas esquentar os ossos nos seis graus da noite serrana, aceitariam qualquer oferta razoável.

Depois de ensinarem, cada uma, uma média de cinco rapazes afoitos por um canto da boate, elas desistiram. A primeira, já de saco cheio por seus próprios clichês, postou-se ao lado da banda que tocava músicas gostosas. Não ia dançar com mais ninguém, mas gostava de olhar quem sabia dançar e se esbanjava acompanhado no meio do salão. A amiga teve mais sorte: encontrou outros amigos e descolou uma conversa de interior.

A sina que perseguia a dona dos clichês era ainda mais cruel do que o hábito de gostar de dançar. Eles, certamente acima dos 45, a encarava como se ela estivesse ali, única e disponível para mostrarem-se bem sucedidos e ela aceitar. Mas ela não aceitava nem começo de conversa àquela altura do campeonato. No primeiro ‘oi’, cansada de ser simpática, virava a cara. Com a continuação da perseguição, sucessivos ‘não’ eram ouvidos secamente. Quando estava à beira de uma grosseria educada de menina esnobe, o rapaz a chamou para dançar. Com o sorriso de que finalmente teria sua noite salva, num ar de vingança, olhou para o cinqüentão e saiu para o centro com o menino de quase 30. Ela, de 25, finalmente iria dançar, rir, esquecer. Rodou, abraçou, apertou, gargalhou. A dança não parava e eram só eles dois naquele momento, no mundo. Uma felicidade a inundou como se precisasse ser salva e houvesse encontrado seu príncipe.

Brigada, você é ótimo. E você dança muito bem! Vai na minha peça amanhã, ver a gente. Vou sim. Ele era ator, mas foi ela quem fingiu por último.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários

Dias atrás...

Agora estou num avião. Enquanto o vôo não acontecia, minha tensão aumentava a cada segundo de atraso. Passei a não gostar de aviões.

Agora que estou no avião em vôo, a coisa muda de figura. Há um mar de nuvens abaixo de nós e acima um céu azul que não se vê lá da terra. O Rio estava nublado e frio, são estas aí, as nuvens dele. Estou indo a Salvador, que também tem nuvens, só que em menor quantidade.

É sempre a mesma história: um drama pra voar, contido e fingindo que tudo está indo muito bem e estou muito segura de mim. Tudo mentira. Eu sempre sei que vai dar tudo certo, mas sempre me lembro de todas as histórias em que aconteceu tudo errado. E passei uma semana de filmes não muito benéficos para o momento, até que vôo e fico tranqüila.

Neste mar de nuvens. Primeiro vemos as nuvens de baixo pra cima, cinzas e ameaçadoras. Depois entramos no meio de campo, tudo branco, parecendo aquelas metáforas de Céu... depois subimos ao paraíso dos relevos brancos e macios. Dá vontade de mergulhar nas nuvens, de se prender no avião com uma corda e deixar ele te levar por entre elas, porque as nuvens são também mar.

Uma criança brinca no fundo do avião, pra dar graça ao vôo, após uma hora e meia de atraso. Lá na frente, uma mulher a cara da Maria Bethânia, mas acho que ela é muito chique pra pegar um vôo desse... mas é a cara... o mesmo cabelo, pelo menos.

É engraçado, a gente voa e voa e parece que vai tão devagar... eu sempre quero chegar logo. Uma hora e meia de vôo, o piloto falou. Passaram-se 20 minutos até agora. Daqui a pouco é a hora do suco com amendoins condimentados e barra de cereal: a pior refeição que um avião poderia nos servir.

A única coisa a lamentar da beleza das nuvens, é perder a vista da terra. Mas não se pode ter tudo. Apenas relances de um pouco de cada coisa. Pelo menos dá pra saber que não viajamos por mar, mas por terra de fato.

Só para calar a minha boca infame, nos serviram sanduíche com suco. Creio que seja por causa do almoço e pra nos alegrar, depois de tanto atraso. Ainda mais: como é meu dia de sorte, consegui ver bastante terra e ainda um rio, que não tenho idéia de qual seja. Agora nuvens e nuvens.

Há uma senhora ao meu lado, com idade de ser minha mãe. Bem vestida, ela pediu sanduíche light, que não tinha. Aceitou o que tinha, que nem é esse macdonald's todo de gorduras, pelo contrário: queijo branco e peito de peru. Depois do sanduíche normal com suco de caju light, uma trufa de chocolate, pra fazer valer logo tudo de vez. Vai entender... ela bem quer saber o que tanto escrevo, tenta ler com o Ray Ban preto, mas finjo que não é comigo. Ela disfarça, olhando pra minha janela. Bobinha...

Como sempre, estou com frio. Mas isso é só uma anotação sem muito sentido no texto. Estou chiquerésima com meu casaco comprido, jeans escuro e salto preto. Óculos tão chiques quanto o de minha vizinha e me tremendo de frio. Acho que as pessoas chiques não sentem muito frio... droga. Todos os meu pêlos estão arrepiados e é claro que meus pés, nos saltos pretos, congelados. Minhas unhas vermelhas de esmalte, possivelmente estão arroxeadas na vida real. Coisa de nordestino quente. E olha que lá fora tá 27 graus e é meio-dia e quarenta e dois.

O piloto informa: chegaremos em Salvador às 13:50, que me dá ainda mais de uma hora de vôo. A única meta é segurar a bexiga até lá e evitar as besteiras no texto.

Agora estamos em cima do mar. Eu vi a passagem acontecer... eu reparei, e não é a primeira vez, que quando vemos a costa, a orla mesmo, bem do alto, dá a impressão de que está tudo parado, né? Como uma fotografia dessas de iamgens aéreas. Vemos a faixa branca das ondas quebrando, vemos as ondulações do mar e vemos as nuvens... tudo parado... e agora estamos descendo e eu peso 250 quilos. Faltam mais ou menos trinta minutos para pousarmos... fiquei tentando descobrir que praias eram as da costa. Certamente já estamos na Bahia. Pense comigo: um vôo Salvador-Porto Seguro dura aproximadamente 50 minutos. Tendo isso em mente e entendendo que falta mais ou menos meia hora pra chegar na terra, já passamos por Porto Seguro, certo? Achei uma boa dedução...

Eta! Tripulação, preparar para o pouso. Temperatura de 27 graus.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários

Essa é a foto. Essa é a foto porque me lembra um momento... ou todos os momentos especiais que passei com minhas amigas. Elas são recorrentes nos textos e acho que pouquíssimas efetivamente os lêem. Mas não importa. Essa foto é da Adelaide Preguiçosa, uma sobremesa que já proporcionou milhares de encontros e memórias gostosas.

Estive com Mari neste fim de semana. Ela é minha tábua de salvação mais próxima, trocamos confidências, aumentamos nossa intimidade, vivemos coisas muito parecidas. Nossa necessidade de se encontrar cresce a cada dia, estipulamos prazos limites para as visitas, já que ela mora em outra cidade aqui do Rio. Estivemos juntas e as conversas não foram suficientes. Nunca são. Elas têm um prazo de validade definido, até que queremos trocar mais e mais palavras e sentimentos. E nosso último encontro foi tão intenso, nesse sentido, que foi percebido por outras pessoas. De poderosas a maravilhosas, éramos notadas por nossa atenção concentrada em nós mesmas; aproveitávamos o ambiente apenas para ocupar o espaço e nos servir dele. A conversa toda era nossa e em torno de nós, porque nós duas estamos sozinhas em nossos cantos. Nós duas fizemos esta escolha.

Acabei de ver dois episódios de Sex and the City. Pra quem leu o texto sobre o filme, já sabe que é impossível ver a série sem pensar nas amigas e em algum relacionamento, passado ou presente que tenha seus incômodos e momentos perfeitos. É isso o que segura a gente no dia-a-dia, é isso que nos faz agüentar as coisas todas de estar longe de todo mundo. Porque, para nós que estamos distantes, só resta lembrar e esperar, né?

Acabei de ler um texto de Paloma. Ela tá em Sampa, na mesmíssima situação que a minha: sozinha, sem trampo, estudando, se virando em mil pra continuar lá e tentando ao máximo isso tudo ao mesmo tempo com um sorriso no rosto. Mas nem sempre dá. A garganta aperta, a saudade bate... a distância de todo mundo. E eu, como ela, ainda dei sorte de conhecer meia dúzia de gente em cada canto. Pra Paloma eu digo: aqui também tá frio demais.

O episódio da série que vi hoje me fez lembrar de um monte de coisas e me deixou pensando. Em estar só, mais uma vez, em ter escolhido ficar só e de saber que não seria fácil. A essa altura, eu esperava já estar trabalhando em qualquer canto. Fico tensa com a idéia de voltar porque não deu pra continuar. Eu quero continuar e vou... nem que eu trabalhe em qualquer canto, em qualquer coisa. Porque eu gosto de morar só, como Paloma, eu gosto de ter o controle de mim e de minha casa... e eu sei viver bem estando só.

É que a questão é outra. Chega uma hora que cansa ficar sem fazer nada. Que os dias voltam a ficar iguais, como em Salvador eram e a gente reclamava tanto. Eu sei que nós fazemos nossos dias. E vou voltar a fazer os meus, aliás, já estou no caminho disso. Porque já sei o que eu quero fazer da minha vida. Já defini, já vi uma idéia que gostei. Quero seguir isso, mas a primeira etapa é essa aqui, a mais difícil, eu espero. Porque nas outras eu levarei essa como aprendizado. E se ficar longe é o único jeito, paciência. Com o que estou me propondo a ser, acho que não há muita opção. Carrego todo mundo no meu coração e espero poder encontrá-los de vez em quando, com mais conversas intermináveis e a vontade de ficar, sabendo que tenho que partir.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários

Este filme prova que os críticos são fundamentais ao cinema. É de bom tom escolher um crítico, um entendedor de cinema e que tenha um texto fluido e interessante e acompanhar suas opiniões. O crítico ou até o bom resenhista tem acesso aos filmes antes dos pobres mortais e sua obrigação é assití-los com atenção e escrever sobre, para informar e alertar seu leitor. Faço parte deste grupo de forma bastante humilde e caí na besteira de perder minha tarde neste filme sem propósito.

Fim dos Tempos é o filme em cartaz do M. Night Shyamalan, diretor dos bacanas O Sexto Sentido, Corpo Fechado e A Vila. Mesmo tensa com a perspectiva dele fazer algo parecido com Sinais, filme que odeio por usar o argumento dos ets como solução fácil de um roteiro cheio de expectativas, fui em frente, ignorei minhas inclinações mesmo tendo visto o trailer e fui ver. Gastei dinheiro e paciência e ganhei o ódio momentâneo dos meus amigos.

Esta é a estória em que pessoas subitamente morrem na costa leste dos Estados Unidos. Elas estão em ambientes amplos e expostos à natureza e, do nada, param o que estão fazendo, como aquela brincadeira de estátua, dão três passos pra trás e se matam com a primeira coisa que encontram pela frente. O trailer mostra isso. As autoridades buscam soluções. As cenas de morte são bacanas. O Mark Wahlberg é péssimo, mas, pensamos, com uma estória bacana ele passa despercebido. Mark Wahlberg é o professor de ciências que, como outros tantos e sem motivo, consegue se safar da síndrome desconhecida.

Roteiro péssimo, com diálogos ainda piores, sublimados com interpretações superficiais de grande parte dos atores transformam sua duração num tormento. A parte divertida é muito rápida: o coordenador da escola em que trabalha o maldito professor de ciências é nosso companheiro Alan Ruck, o Cameron Frye, melhor amigo de Ferris Bueller, em Curtindo a Vida Adoidado, agora grisalho. Espectadores saem da sala, outros se enterram nas poltronas. Não há o que fazer. E vem a explicação para o misterioso fenômeno: talvez uma neurotoxina natural, produzida pelos homens ou produzida e espalhada pelas plantas (!) contamina os humanos e eles ficam desorientados, perdem a vontade de viver e se matam. Então, quando passar um vento e as folhas das árvores de mexerem, fique atento: você talvez seja vítima da fúria da natureza. Talvez sim, porque ninguém sabe porque mata uns e não mata outros. Ponto.

Deste filme nada presta. É triste e duro dizer isso, mas o fato é que é muito ruim. A impressão que dá é de que o roteiro começou a ser escrito, aconteceu a greve dos roteiristas nos Estados Unidos e, para não atrapalhar o cronograma, alguém tomou as notas do roteirista e destruiu o que poderia ser, quem sabe, uma estória legal. É surpreendente que o M. Night tenha acabado com a confiança de seus espectadores desse jeito. É misterioso como ele conseguiu dirigir um Sexto Sentido e este filme anos depois. Será que ele bateu a cabeça? E como os atores toparam se queimar desse jeito? Será que eles tinham muitas dívidas? Perguntas que não têm respostas... bem como o porquê da existência do filme. Uma coisa é certa: não indique a seus amigos.
Share
Tweet
Pin
Share
5 Comentários
Conheço uma pessoa que resolveu morar só. Juntou uma grana, comprou o apartamento e saiu da casa dos pais. Chegando na nova morada, encontrou no meio do seu processo de adaptação, um tronco de árvore à altura de sua janela. O tronco estava liso como sua árvore que, morta de aparência, era toda tronco e raiz que não se vê.

Também resolvi que ia morar só. Como não tinha grana suficiente, aluguei um apartamento e me mudei. O meu tronco é o Carlos Drummond de Andrade. O poeta está morto como o tronco, só se vê sua estátua à beira da praia, sentada num banco. Como o tronco, Drummond está cercado de vida. Como meu amigo, também fiz de Drummond meu parceiro de importantes reflexões, sentimentos e pensamentos inúteis.

A distância que separa Drummond do tronco é imensa: estamos em estados vizinhos de duas regiões do país. E enquanto converso com Drummond a distância, porque tenho vergonha de ir pertinho e falar com ele, percebo que Drummond está para todos à sua volta, como o tronco de meu amigo que abriga os passarinhos.

Enquanto meu amigo conversa escondido e convive com o tronco, vivo de Drummond. Em torno de toda essa história, uma coisa é certa: Drummond sente muita saudade do tronco. Eu sei, porque vejo no olhar dele a distância de quem espera e lembra.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários

Finalmente fui ver o filme das garotas de NY. Sempre gostei da série, que nos liberta para um ideal de vida fútil e divertida. Não dá pra ser cérebro e arte o tempo todo. Acho que a série funciona à medida que nos relembra das coisas que gostamos, das grandes amizades e, é claro, dos relacionamentos deliciosamente comentados como se fossem os nossos próprios.

Como me mudei recentemente, estou criando junto com outros também expatriados, um novo grupo de amigos. Surpreendentemente, todos são agradáveis e muito diferentes entre si. Cada um de nós combina particularidades que, se estivéssemos em nosso habitat primeiro, possivelmente acabaríamos naturalmente em grupos distintos. Fazemos concessões e vamos criando uma intimidade aos poucos, nos abrindo vagarosamente, como toda cautela do individualismo prega, não sei se tão racionalmente como pareceu aqui descrito. O que significa isso tudo é que ainda há uma diferença entre novos amigos e amigos já estabelecidos.

Todo relacionamento novo é sempre mais complicado, mais “cheio de dedos”. Vamos mostrando o que há de melhor em nós, vamos permitindo o outro em nossa vida e entrando até onde é permitido na dele. Vamos construindo nossos pequenos alicerces em momentos agradáveis e de muita conversa. As diferenças, entretanto, continuam marcantes.

Sex and the City é um filme de mulher. Não tem pra onde correr: são sapatos perfeitos, a moda das grandes grifes em roupas muitas vezes estranhas, cafés, noitadas e um grupo de amigas de longa data. Relacionamentos e a discussão deles daquele jeito que só é possível e suportável entre mulheres ou meninas. É a extensão da série anos depois, é apenas o último episódio de pouco mais de duas horas.

Fui ver o filme com aquela ansiedade que temos em rever uma grande amiga. Fui com uma nova amiga, dessas agregadas expatriadas e amiga de longa data de minha prima. Fomos como novas amigas com este e mais alguns interesses em comum. Fomos juntas e na mesma ansiedade, mas entendendo que precisaríamos de nossas amigas antigas nesses momentos. Foi ótimo ver o filme com ela, mas fiquei pensando bastante nas minhas amigas antigas e eternas que nunca mais vi. Morri de vontade de tomar um café depois e falar as abobrinhas típicas que resultam de um filme de mulher. Minha companheira de sessão teve que sair mais cedo. Fui pra um café, comi sozinha e depois segui para a aula que, claro, não me concentrei nem um pouco. Cheguei atrasada e um filme acabava de ser exibido e estava em discussão. Eu estava no pós-Sex and the City-último episódio da saga Mr.Big-Carrie.

O filme é divertido em todas as suas idas e vindas. O reencontro das amigas de Manhattan e o vai-e-vém de seus relacionamentos. As crises que nós passamos e passaremos. Tudo pede uma conversa de fofoca, papo de amiga, abobrinha que nem toda menina (inclusive) tem saco para participar. Apesar de se estender em alguns momentos e mostrar muito figurino inusitado, o conto de fadas moderno chega ao fim e me deixa com alguns questionamentos. Tenho uma opinião sobre a conclusão do filme, que me incomodou um pouco, mas não vou estragar a surpresa. Vou esperar minha visita às amigas e discutir com elas, que me disseram que também já viram este último episódio, com o mesmo sentimento de que está faltando alguma coisa, ou melhor, alguém na poltrona ao lado.
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários
Tudo bem que esses caras dos anos 60 são importantes e participaram dos movimentos que nos transformaram em comportamento, nas artes e na forma de pensar. Tudo bem que agenda do Meio Ambiente é fundamental e com a saída da Marina Silva talvez não dê tempo pra se preocupar com outras coisas... mas essa Era Hippie acabou.

Acabei de ver o Minc num discurso em rede nacional no horário nobre. Ele fez o favor de esquecer os figurinistas e adicionar a uma camisa social branca uma gravata estampada e, por cima dela, um colete também estampado. Enquanto assistia à importante fala de nosso novo ministro verdinho, fiquei confusa, se olhava para a moça que traduzia para LIBRAS - que sempre prende minha atenção - ou encarava a confusão visual do modelito.

O Minc, que lembra bastante seus colegas de faixa etária em ideais, propostas e objetivos, não foge também ao figurino de cores desbotadas e estampas estranhamente combinadas. E, ainda que não se veja muita importância imediata em notar o vestuário de nossos governantes, eles precisam atentar para tal, já que devem passar suas informações da forma mais clara possível. Esta confusão visual atrapalha a compreensão do discurso e nos faz pensar nas baboseiras do dia-a-dia e na moda, ao invés da mensagem. Eu sei que a preocupação do Minc certamente não era essa, mas, por favor, agentes de comunicação, mexam-se!

Aproveitando o momento, agora percebo que posso estar cometendo uma grande gafe. Acabo de passar pela seção de moda da revista TPM deste mês e vi muitas estampas a la Minc. Será que eu é que estou errada, que a onda do momento é misturar tudo mesmo, como num liquidificador de tecidos? Definitivamente não entendo de moda... quando acho que estou por dentro, tomo uma rasteira das tendências mundiais...
Share
Tweet
Pin
Share
3 Comentários

Tem filmes que não adianta resistir, um dia eles aparecem diante de nós e somos obrigados a ver. Agora mesmo, me apareceu Turistas, um filme de terror-tortura filmado no Brasil e que por isso gerou uma onda de polêmica e algumas tentativas de boicote no país. Levando em conta que não me interesso muito por filmes tortura e que não acho que vale o momento sublime da sala de cinema, não tinha visto até que apareceu na tv, em horário propício. O filme está passando.

Oito turistas entre ingleses e americanos estão a passeio numa praia perto da Bahia. Depois de uma noitada de álcool, funk, areia e aditivos, todos acordam pela praia selvagem sem bagagens. Em paralelo, um grupo se organiza com perversidade no olhar. Roubados, os jovens decidem ir à vila e buscar ajuda, até que encontram um suposto amigo brasileiro que os ajudaria a sair da cidade. Claro que ainda há muita coisa pra acontecer.

Entre críticas superficiais sobre o país, prostitutas de festa e estrangeiros tentando se dar bem, o filme não traz nada de novo ou interessante além de carnificina e nojeira. Não se constrói uma boa história, não há retrato do país nem de longe, é só mais um filme como O Albergue ou Jogos Mortais. O arrependimento do amigo brasileiro faz com que alguns se salvem, mas provavemlente ele morrerá até o fim da trama. O medo, claro, está presente na possibilidade de fazer o mal, personificado num grupo de toturadores com alguma prática médica, conforme a História mostra. A idéia é retirar órgãos dos turistas como uma vingança ao uso inescrupuloso de nossas belezas.

Enquanto eu gosto de filmes de terror e suspense de diversos tipos, fico me perguntando: o que ganhamos ao ver um filme desse? Não muito, além de visões do paraíso perdido que nos cerca. Uma seqüência, entretanto, prende nossa atenção: a perseguição embaixo d´água. Os três sobreviventes da estória fogem de um perseguidor entre os buracos de ar e formados pelas pedras de um leito de rio, embaixo de cavernas e grutas. A falta de ar e o nado constante dos quatro nos deixa tensos o tempo todo, como se nós estivéssemos sufocando com eles.

Os turistas continuarão a aparecer por aqui pelos mesmos motivos do filme, violência existe no mundo todo e o aqui não há retrato disso como característica do país. Pensar que um filme como este pode gerar uma polêmica por ferir nosso orgulho ufanista é ser muito pequeno e levar a sério demais Hollywood. Pra coroar a surrealidade da obra, a música final é aquela doce e enjoada de Buchecha, cantada por Adriana Calcanhoto, que não faz sentido com nada do filme... exceto por ser brasileira.
Share
Tweet
Pin
Share
No Comentários
E então, estávamos mais uma vez na boemia. Numa fila de festa e minha irmã apertada para ir ao banheiro. Do nosso lado, apenas um lugar se mostrou plausível: o Hotel. No bairro em que estávamos, todos os ambientes de hospedagem eram um tanto suspeitos. Haviam dois Hotéis para Solteiros, cujas entradas eram definidas por homens estranhos com caras de más intenções e nada muito limpo, desde a porta até o corredor que se seguia.

O Hotel não era para solteiros. Pelo menos, não era sua indicação. No corredor da fila, desviamos dos amigos e entramos pelas portas de vidro. Um salão amplo e vazio, com poucas luzes e um balcão no fundo. O barulho da tv indicava um programa de sexta à noite de grandes emissoras. De alguma forma, os eventos da rua não influenciavam no silêncio do ambiente. Um homem velho, um senhor branco e simpático, com olhar beirando o sombrio, levantou-se da cadeira e nos atendeu com um sorriso. Boa noite, dissemos. Boa noite. Podemos usar o sanitário? Aqui não tem sanitários, vão no 105. Então podemos ir ao sanitário. Vão ao 105. Com o terror instaurado do quarto 105, como dos quartos onde pessoas morrem de forma macabra, seguimos por um corredor estreiro e fomos escada acima.

No primeiro andar, diversas portas. Éramos duas garotas e resolvemos nos separar. No fundo do corredor em que estava, saiu um homem similar ao recepcionista, baixo, branco, estranhamente educado e com olhar cansado, mas bastante receptivo. Minha irmã percebeu o senhor e, diante de sua agonia em usar o banheiro e sair logo, não se deu conta de um possível problema: onde é o 105, por favor? A esta altura já estávamos no meio do corredor, o senhor se aproximando. É logo aí, ao lado de vocês. Ao nosso lado, grandes sacos de pano no chão brancos, uma entrada estreita, diferente dos outros quartos. Duas portas abertas. A primeira, à frente, parecia ser um setor de serviços, uma despensa de limpeza. Ele indicou: o quarto é aí do lado. Entrei na frente, ela me seguiu. O quarto estava desmontado, como se uma limpeza fosse iminente, mas nunca feita. O quarto não era pequeno e fui atrás do banheiro. Com um olho na frente e outro atrás, entrei, minha irmã me acompanhou, mas pude observar o ambiente. O banheiro, escuro, mais escuro ficou, quando minha irmã apagou a luz. Quase em pânico, mas fingindo calma universal, falei: Marcela, a luz. Ao que ela acende, percebemos outra luz se acendendo: o velho do corredor acendeu a luz da entrada do quarto. Fiquei esperando ele entrar, vigiando a porta, enquanto minha irmã fazia xixi. Esperei pela entrada do velho com o machado, esperei Jack Nicholson e o guri no triciclo, as gêmeas e até a música dos Carpenters do quarto 1408. Estava pronta para tudo, menos para o sumiço repentino do bom velhinho.

Não apagamos a luz. Saímos muito rápido e depois de um calmo trocar de muito obrigada e boa noite, conseguimos fugir do Alicante Hotel. Na rua, os sons de volta, a fila e o mesmo lugar. Decidimos que era hora de ir embora.
Share
Tweet
Pin
Share
7 Comentários
Por falta de condições físicas para postar coisas legais, mando esse texto razoável sobre o Serras da Desordem. De antemão, informo que era uma resenha para a pós e que me faltou um pouco de inspiração. Aceito críticas. :)


O documentário brasileiro vem tratando da inovação da linguagem e da presença mais visível do autor como nunca. Agora admite-se com menos embaraço a parcialidade fundamental do diretor e seu ponto de vista, sepultando de vez o entendimento do real absoluto, da verdade única vista nas telas apenas com a apresentação do fato registrado. Descobrir se o que está passando na tela é real ou um fato encenado é uma questão recorrente e o documentário, categoria do cinema a experimentar as transições e extrapolar os limites desta dualidade, inova a cada instante, variando em sua linguagem e outros atributos para nos garantir uma interpretação do que acreditamos ser real e documentado.

Serras da Desordem conta a história de Carapiru, um índio encontrado na mata por uma comunidade no sertão baiano após o massacre de sua família. O que o filme traz de diferente é a forma como desenvolve a trama. Misturando ações encenadas por não atores, imagens de arquivo e atuais, o filme tenta diminuir a quantidade de depoimentos, focando na montagem acelerada e significativa. Imagens-símbolo da atualidade e das causas para a demarcação do território indígena nos remetem aos filmes de Godfrey Reggio (trilogia "qatsi", de produção de Francis Ford Coppola), que firmam-se apenas na música e montagem, deixando para o espectador a interpretação para a modernidade e o caos que nos cerca. Por outro lado, a encenação de Carapiru de sua história insere o questionamento da fidelidade do fato revisto na tela e de sua importância.

Santiago é hoje o documentário brasileiro mais autoral já feito e é justamente nele que questionamos todo o real inscrito. João Moreira Salles quer que seu público conheça o mordomo de sua casa e, com visitas a ele após anos de trabalho, descobrimos um personagem que fica preso ao filme que o diretor quer fazer, a uma fidelização que este tinha com o Santiago de seu imaginário. O Santiago real é mostrado nos intervalos, quando aceita ser dominado aos desejos e intuições do cineasta e o obedece como o mordomo de outros tempos. Em Serras da Desordem não é diferente: Andrea Tonacci toma as rédeas do que quer expor e comanda a vida de Carapiru, reencenando seus hábitos e dominando sua fala, que ouvimos tão pouco.

Dócil como o bom selvagem de Rousseau, Carapiru está sempre rindo ou com olhar vazio, de alguém que perdeu seu espaço e vive em um meio que lhe é indiferente. Não há como saber os detalhes do acontecimento, mas a encenação de Carapiru identificada nas primeiras seqüências e que traduzem o nosso ideal de índio inserido na natureza e sendo parte integrante dela, é confirmada final, como uma possível homenagem a Flaherty e seu Nanook. Aqui, a voz de Tonacci indica o ação! cinematográfico, compreendido logo no início para espectadores atentos ou acostumados a este tipo de intervenção.

A passividade do índio é o facilitador para o diretor, que aproveita sua história para nos fazer lembrar de um problema que pouco é resolvido no país. A questão indígena é tratada como pano de fundo, o trabalho da FUNAI, a vigilância fraca, o desmatamento clandestino e o espaço do índio. Enquanto Carapiru se apresenta, vemos como ele é tratado, com a tentativa de incorporação ao mundo civilizado e o retorno aos seus, agora protegidos em uma território especial.

Serras da Desordem
é filme de experimentação, é a descoberta de uma situação que não temos o costume de acompanhar e seu mérito está em nos fazer crer, a partir de uma história verídica, todo o acontecido, agora encenado por seus protagonistas reais. Apesar de ser um filme extenso e por vezes cansativo, conhecer Carapiru e entrar em sua intimidade pelo olhar do outro quase incomoda, quando pensamos que ele quase não nos compreende e o estamos observando, como voyeurs de uma personalidade distinta, de um tempo passado e espaço desconhecido. A câmera indica o exótico em seu dia-a-dia e o investigamos a partir dela, tirando conclusões com base em uma opinião apresentada pelo diretor. Tanta subjetividade não impede o espectador da experiência com o personagem real do filme, ao contrário, a sinceridade com a voz final do diretor reme a autoria e sua tentativa de recriar o real, para que possamos visualizar o acontecido e não ficar presos apenas em uma narrativa oral, com imagens criadas com base em nosso imaginário sobre o tema.
Share
Tweet
Pin
Share
2 Comentários

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade

* * *

Estava aqui, procurando coisas sobre meu companheiro aí de cima. Descobri um site oficial, cuja abertura é um filme de David Neves e Fernando Sabino. Depois do filme procurei mais coisas sobre o poeta e não encontrei... Mistérios a parte, minha surpresa foi imensa quanto ao filme. Primeiro por ter Drummond como a única voz, ele conta sua história e suas impressões da vida, de Minas e do Rio. Segundo por ser um filme de Fernando Sabino! Quanta coisa bacana não era esperada... e conhecemos mais o Drummond, que ainda brincava muito e ria e era uma dessas pessoas aparentemente normais que andam por aí. O filme é meio devagar, admito, mas vale a pena, porque o poeta se desenvolve nele e vemos muito mais do que suas palavras escritas.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Para ler jornal, tem que se acostumar. Outro dia recebi uma ligação do jornal que leio, me oferecendo mil e uma vantagens para assiná-lo mais barato, quase de graça e ainda ganhar muito com isso. Como atualmente não estou muito de ganhar e gastar, fui simpática, mas neguei. No dia seguinte, jornal na porta.

Já faz uma semana que recebo o jornal. Gosto muitíssimo dele, é completo, tem matérias muito legais e me acostumei a lê-lo, dando agonia quando não sei as notícias do dia. Mas, visitas importantíssimas chegaram e atrasei o jornal.

Adorei minhas visitas, fico cada dia mais feliz em ver as pessoas amadas e que me fazem muito muito bem. Mostrei minha nova cidade a elas e as fiz se divertir e me conhecer em um novo ambiente. A grande agonia, entretanto, continuava me atazanando o juízo: o jornal chegava todas as manhãs e não dava conta dele. Levava o caderno de cultura pra passear e o resto ficava lá, somando no revisteiro, papel em cima de papel, poeira acumulando, notícia ficando velha.

Uma das visitas já retornou à minha outra cidade e a casa ficou vazia novamente. Estou começando a leitura dos jornais velhos e novos, cortando umas partes dos mais antigos, que se repetem e atualizam a cada nova matéria. Ler jornal velho é uma arte ou coisa de gente com manias, algo que estou descobrindo cada dia mais forte em mim.

Fico pensando, com a pilha de jornais do meu lado, se não sou dessas pessoas com transtorno obsessivo compulsivo, que tem aquelas agonias com algumas coisas e que somadas, mostram o grau de doidice: jornais velhos, somar algarismos das placas de carro e ver se dividem exatamente por 3, mania de arrumar a casa, toda semana definir o dia ideal pra lavar roupas, levando em conta as condições do clima...

Doença ou não, passo o olho no jornal impresso e acabo esquecendo de ver o da televisão, substituo meu adorado audiovisual pelas letras em colunas, a cada segundo mais ultrapassadas. É que tenho a idéia de que as notícias fazem parte dos meus estudos, já que quem vive de comunicação e arte deve saber o que ocorre por aí. Aí, como num ciclo, entro na neurose do jornal da tv, que atualiza a cada hora as notícias e fico mais doente por elas. Daqui a pouco, acordarei mais cedo para ouvir o noticiário da rádio, que ouvia antes, quando ia trabalhar em Salvador. O máximo que vai acontecer é escrever textos comentando os fatos com um ibope menor, já que todo mundo sabe pelo menos o básico do que acontece no mundo.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Não lembro de ter conhecido a Birmânia no meu ginásio ou segundo grau. A escola trazia ao nosso conhecimento os países de maior importância ou que já tiveram alguma relevência histórica fundamental para conhecermos o mundo de nosso tempo. A Birmânia, portanto, estava longe destas alternativas.

Mianmar ou Birmânia, todos conhecemos hoje. Vemos sua tragédia na televisão, nos impressos, na internet. Hoje estima-se que até 100 mil pessoas estejam mortas devido a passagem do ciclone Nargis e à rapida elevação das águas no rio Irrawaddy. Entendemos que as grandes tragédias acontecem nos países mais miseráveis e não sejamos ingênuos de acreditar em falta de sorte.

Como não me conformei com minha ignorância, recorri aos jornais e internet para descobrir mais. A União de Mianmar, como a Índia, era uma colônia inglesa. Em 1948, após uma sangrenta invasão japonesa durante a Segunda Guerra, conseguiram sua independência e, nos anos 60, um golpe militar deu fim a um governo democrático. Esta ditadura foi deposta nos anos 80, dando lugar a outra, que perdura e dificulta surrealmente a chegada de ajuda internacional no país.


Mianmar fica entre a Índia, Tailândia e China e, como acontece em alguns países onde a miséria não se pode esconder, há quem se revolte e faça a diferença, acarretando num Prêmio Nobel da Paz, uma mulher, Aung San Suu Kyi. Depois de uma prisão domiciliar por cinco anos e agora com as liberdades ainda restringidas, a filha do responsável pela formação das Forças armadas no país antes de sua independência e assassinado antes de sua efetivação, Aung San, Suu Kyi exerce forte influência no povo no que condiz às liberdades e abertura política de seu país.

In The Quiet Land(By Daw Aung San Suu Kyi)

In the Quiet Land, no one can tell
if there's someone who's listening
for secrets they can sell.
The informers are paid in the blood of the land
and no one dares speak what the tyrants won't stand.

In the quiet land of Burma,
no one laughs and no one thinks out loud.
In the quiet land of Burma,
you can hear it in the silence of the crowd

In the Quiet Land, no one can say
when the soldiers are coming
to carry them away.
The Chinese want a road; the French want the oil;
the Thais take the timber; and SLORC takes the spoils...

In the Quiet Land....
In the Quiet Land, no one can hear
what is silenced by murder
and covered up with fear.
But, despite what is forced, freedom's a sound
that liars can't fake and no shouting can drown.



Um país de tanta beleza e história, de maioria budista e com tantas etnias sofre em mais uma ditadura que se perdeu no tempo. O surto político generalizado em seus governantes acarreta em mais e mais vítimas a cada momento, o empecilho a ajuda internacional é sem sentido, bem como a apatia das entidades internacionais em deixar acontecer e a proibição da mídia em se apresentar, como acontece no país das Olimpíadas e em Cuba. Soube há pouco que foi permitida uma chegada de aviões com suprimentos vindos da Itália. Que esse seja o começo e que culmine no fim dessa situação surreal. Que a sensibilidade dessa mulher e das pessoas que estão com ela ajudem a levantar o país.
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários


O que torna um filme especial? É o filme em si, a companhia, a falta dela ou a situação que vivemos que aguça a nossa sensibilidade? Um beijo roubado é o novo filme de Wong Kar Wai. A história de um amor que se constrói através das experiências a distância e da necessidade que um tem do outro, ainda que em espaços diferentes, marca o filme cheio de memórias e momentos para pensar.

Ao assistir o filme pela primeira vez, muito sentimento vem à tona, ficamos enebriados com a beleza do filme, as cenas lentas, a sensualidade latente de cada olhar distante. Vemos histórias de amor acabando e que dão alimento a uma nova, que guia todo o filme. E, ao sair da sessão, não sabemos se queremos chorar, pensar ou sorrir... mas um silêncio egoísta nos domina, porque não temos muitas palavras para falar do filme.

Em inglês, My blueberry nights, traz mais o sabor do filme, cujas tortas de amora aparecem suculentas em primeiríssimo plano. Quase dá vontade de lamber a tela. E cada história que a trama traz é mais um aperto no peito, mais uma das dores que todos já conheceram algumas vezes.

A narrativa de cartões postais por onde passa nossa protagonista, que literalmente dá o tom do filme – ela é Norah Jones – nos faz mergulhar no ritmo da fala de um bom observador, aquele que para se recuperar de sua própria tragédia, acaba notando que esta não é a única do mundo, mas que há histórias em qualquer lugar que se esteja. O coração partido pelo amor traído, a morte de um ex-amor de culpas, a morte de um pai. Inseguranças e muita humanidade.

Na segunda vez que assistimos o filme, já estamos preparados para a carga de emoção. Não há mais a surpresa da história, mas, ao contrário do que pensávamos e que comprova a qualidade do que estamos vendo, os mesmos sentimentos retornam e mais uma vez, lágrimas e o aperto no peito. Não há como fugir do coração. Ele é o principal determinante da qualidade de uma obra de arte. Comédias e dramas românticos existem aos montes, mas poucos realmente fazem valer a sessão.

My blueberry nights tem um ar de noite, uma nostalgia, o olhar vazio. A leveza do filme está em Jude Law, o amigo amor, o destinatário das cartas da mocinha. A história dela cruza com a dele em intervalos, enquanto vemos Rachel Weisz e Natalie Portman dominarem seus personagens. Por trás da beleza única de cada atriz, há o espetáculo da atuação, o prazer de conhecermos o personagem e acreditarmos nele e em sua história. Em cada parada na trajetória de mais um Estados Unidos que pouco vemos, uma mulher sofre de passado, de uma história que ainda não acabou, mas que sua duração indica um final infeliz. É mais uma vez um filme de estrada, agora através de uma mulher em busca de se salvar e se conhecer.

O olhar sensível de Wong Kar Wai antes visto em tantos outros filmes, como Amor à Flor da Pele e o conturbado 2046 – Os Segredos do Amor, indica que não importa o local em que se filme, mas a busca do sentido para o que se procura filmar é que traz a marca de seu diretor. E essa sensibilidade é percebida logo nas primeiras seqüências: no close-up de um par de sapatos em pés inseguros, das imagens filmadas através de filtros singulares – vitrines de uma cafeteria, porta, paredes de vidro, copos, câmera de vigilância – na trilha sonora que nos envolve sem percebermos, nas cores e em seus escuros de vida real. Esta é a nova poesia de amor do cinema incrivelmente hollywoodiano.

P.S.: Aconselho ver o filme sem ver o trailer, mas indico aqui o site pra quem já viu.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
Estes dias estou lendo entre a agonia e o desespero um novo livro. A agonia é para ler tudo e me deliciar com as imagens, já que é uma hq, o desespero é de saber que logo acabará. Estou lendo Valentina, de Guido Crepax.

Dessa vez ninguém me disse nada, ninguém me indicou. Tinha uma estante aqui meio bagunçada e eu, como toda neurótica que se preza, resolvi pôr tudo na ordem mínima de tamanho. Valentina estava meio torta na estante e a capa me interessou. Quando folheei, não acreditei e comecei a rir: tinha feito uma imensa e prazerosa descoberta.

Valentina é criação de Guido Crepax em meados dos anos 60, na Itália. Descobri, quando fui buscar uma imagem para postar, que ele é responsável também pela adaptação em quadrinhos de A História de O, de Pauline Réage, um clássico do sadomasoquismo internacional. Foi isso o que mais me surpreendeu e aumentou minha curiosidade. Já li A História de O e vê-la em quadrinhos deve ser mais chocante do que apenas ler, ainda mais sabendo quem a desenhou.

Valentina Rosselli é uma jovem fotógrafa que se envolve com o crítico de arte Philip Rembrandt, codinome Neutron, um super-herói com poderes mediúnicos. Ela é linda, morena de corte chanel, esguia de olhos grandes e lábios carnudos. Usa as roupas da moda, de grandes estilistas. Todas as mulheres retratadas são belíssimas e o que eu sinto é uma vontade imensa de me tornar uma delas, ainda que seus personagens sejam um pouco vazios e sem maior importância. A própria Valentina acaba sendo pega de surpresa em algumas situações, como uma menina boba que descobre as coisas sem querer ou cai de páraquedas nas situações mais perigosas. Pelo menos ela é uma mulher independente, fotógrafa (na época poucas mulheres exerciam a profissão) corajosa e enfrenta os inimigos como pode.

Vale ressaltar que estes anos 60, tão importantes para o mundo, são lembrados em reuniões e festas em que a dupla ocasionalmente participa: sempre tem alguém comentando sobre os livros, os pensadores, artistas, sem falar nas citações freqüentes dos filmes, até agora: Fellini e Eisenstein. Percebemos muito claramente que nada disso importa, quando vemos que por trás da falsa atenção que Rembrandt dá às conversas vazias, está, na verdade, recebendo as informações através das escutas instaladas nos ambientes da história. Acredito que toda esta brincadeira de contextualização com o universo burguês é apenas para fazer um pano de fundo para as histórias e muito menos uma provocação de pensamento artístico em meio às desventuras de bandido e mocinha.

Nossa heroína acaba se envolvendo nas tramas e vai ganhando cada vez mais espaço, até se tornar a protagonista. Para além das histórias divertidas e da criatividade sem fim de Crepax, é fundamental percebermos a beleza de seus desenhos e a importância deles para o cinema. Quadros com tamanhos diferentes, a expressão das emoções em planos-detalhe, a montagem, a complexidade e riqueza das imagens, a construção dos personagens. Em cada página precisamos ficar olhando por um tempo, para tentar guardar na memória e captar toda a idéia em cada traço. Guido Crepax é o mestre dos quadrinhos e isso tudo em p&b. Como não cheguei ao fim da história, só garanto a diversão do momento. Se pudesse, colocaria na íntegra para que vocês vissem a capacidade do autor, deixo uma imagem razoável de Valentina, por falta de uma melhor. Vou tentar ler uma página por dia, pra ver se dura mais.
Share
Tweet
Pin
Share
4 Comentários
2 altos para a faxina de nossas vidas...
Share
Tweet
Pin
Share
1 Comentários
Posts mais recentes
Posts mais antigos

Sobre mim

a


Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


Social Media

  • pinterest
  • instagram
  • facebook
  • linkedin

Mais recentes

PARA INSPIRAR

"Amadores se sentam e esperam por uma inspiração. O resto de nós apenas se levanta e vai trabalhar."

Stephen King

Tópicos

Cinema Contos e Crônicas streaming Documentário Livros Viagem comportamento lifestyle

Mais lidos

  • Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
    Primavera 2020 | 12 dicas de cinema, viagens, livros e muito mais!
  • Spotlight
    Spotlight
  • Livro da Semana - Física em seis lições
    Livro da Semana - Física em seis lições
  • Amy
    Amy

Free Blogger Templates Created with by ThemeXpose