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Café: extra-forte


Hannah Arendt (2012)
Um dos temas que Hannah Arendt mais estudou foi a forma de pensar. Compreender, entender, refletir, conhecer, cada uma dessas palavras – sinônimos, à primeira vista – tem uma definição que quase complementa a outra. Nós, reles mortais, precisamos de um tempo para assimilar tudo o que ela diz de forma simples.

Em Compreensão e Política, Hannah fala sobre compreender como uma atividade interminável, por meio da qual, em constante mudança e variação, aprendemos a lidar com nossa realidade, reconciliamo-nos com ela, isto é, tentamos nos sentir em casa, no mundo. Essa reconciliação e compreensão nada têm a ver com o ato de perdoar, que não é sua condição nem sua consequência. Perdoar (sem dúvida uma das grandes capacidades humanas e, talvez, a mais ousada das ações do homem, já que tenta alcançar o aparentemente impossível - desfazer o que foi feito - e tem êxito em instaurar um novo começo onde tudo parecia ter chegado ao fim) é uma ação única que culmina em um ato único. Com base nisso, começamos a entender o porquê de tanta polêmica em torno da reportagem (que virou livro) de Hannah Arendt sobre o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1963. Talvez não a tenham entendido direito.


Li o livro há pouco. Para minha sorte, o filme de Margarethe von Trotta acaba de ser lançado e trata da repercussão da reportagem publicada na New Yorker. Hannah foi acusada de ‘perdoar’ Eichmann, quando tudo que ela mostrou foi um perfil humano, buscando um entendimento das funções e responsabilidades dele na máquina de morte nazista. O filme é interessante à medida que nos prende até quando suas ações são todas de discussão intelectual. Nada grandioso acontece na tela – à exceção das cenas reais e ficcionais do julgamento – a narrativa está centrada na polêmica das interpretações feitas às pressas de um texto que merecia ser lido com cautela. Urgente o tema e a repercussão, é de se entender que a construção das ideias sobre Eichmann e o Nazismo hoje não correspondem ao que se viveu 50 anos atrás. O número de sobreviventes era muito maior, a sensibilidade de outra grandeza e o próprio pensamento sobre o assunto estava se desenvolvendo. Hoje, ao estudarmos um pouco mais, conseguimos entender ‘com calma’ o que se passou.

Eichmann foi responsável pela logística. Sua função era organizar o transporte dos judeus nos campos de concentração, de forma a enviar o máximo deles em menor número. Com isso – e aí entra o subtítulo do livro, a banalidade do mal, termo cunhado por Arendt sobre a redução da culpa pelo funcionamento burocrático do Estado: ninguém é culpado pelo Holocausto (falando da baixa hierarquia, como Eichmann), quando todos cumprem ordens e executam uma etapa no processo de extermínio. O próprio Eichmann entende dessa forma quando diz que nunca matou um judeu, portanto, não perpetrou o mal genocida. Hannah o define como um homem comum, limitado, cuja vaidade e princípios estão na execução de seu trabalho com perfeição, como se ele não alcançasse os motivos, como se não importasse a finalidade. Ele era o Chaplin de Tempos Modernos; sua função é só apertar parafusos, ele não respondia pela entrega do produto.

O filme contextualiza: conhecemos Hannah e seu entorno intelectual antes da reportagem, quando ela se oferece para cobrir o julgamento à New Yorker. Judia, sobrevivente de campo de concentração e residente em NY é uma senhora de respeito, professora de filosofia, uma das grandes pensadoras de nossos tempos, herdeira de Heidegger. Logo de início, estranhamos a interpretação pesada de Barbara Sukowa, como se a intenção fosse encarnar a própria Hannah em seus trejeitos e poses, ficando um pouco teatral. Outros atores seguem o caminho, talvez seja uma característica da direção –  deslocando o tempo do filme, dando a impressão de estarmos num grande flashback. Aos poucos nos acostumamos – ou eles estariam mais naturais? – nos entretemos com a construção do grupo de Hannah, seus amigos, marido, sua vida pessoal. Essa aproximação que o filme promove nos deixa com vontade de saber mais, é um luxo poder reconstruir a vida intelectual de forma tão íntima e, pareceu, tão verdadeira.

A compreensão é interminável e, portanto, não pode produzir resultados finais; é a maneira especificamente humana de estar vivo, porque toda pessoa necessita reconciliar-se com um mundo em que nasceu como um estranho e no qual permanecerá sempre um estranho em sua inconfundível singularidade. 

Talvez seja a busca por se enquadrar em um mundo tenha sido o objetivo de Eichmann desde o início. O que vemos no decorrer do livro é exatamente isso: um sujeito tão entranhado no sistema que não percebe a distorção daquela lógica. É como se seu trabalho representasse a reconciliação com este mundo em um grau tal, que tudo o que é externo soa estranho. O mundo é o trabalho, o sistema. A polêmica surge a partir da humanização do sujeito. Hannah, em brilhante análise, entende quando ele declara inocência pelos crimes no sentido da acusação, já que ele sozinho não pode ser responsabilizado pelo genocídio. 

Outro destaque, além da importância de popularizar Eichmann e sua história – é vê-lo em imagens reais. Ideia brilhante da diretora, o resgate de imagens de arquivo é chocante. Estamos acostumados a ver Hitler, Goebbels e Himmler nos programas de tv e filmes sobre o Nazismo. São imagens do nosso universo, imagens de poder, no auge do regime. Aqui vemos um homem franzino, estranho – o tipo do sujeito que sofreria bullying na infância moderna – e, claro com ar sociopata. Ao trazer imagens reais, eliminamos a interpretação do ator e o impacto na tela é muito maior. As cenas de Eichmann são em preto-e-branco, enclausurado em sua caixa de vidro – proteção cedida para ele no julgamento – cercado de policiais.  O desafio de Barbara Sukowa é reagir a estas imagens de arquivo, como uma experiência real – da presença de Eichmann.

É difícil pensar no livro, na História e associar ao filme sem perder parte de sua análise. O tema forte ganha espaço – sempre curto – para qualquer discussão. O filme tem o mérito de trazer uma ótima atriz no papel de uma das pessoas mais importantes do século, popularizando-a com um novo ponto de vista sobre os criminosos da humanidade. Bem construído, seguimos até o fim tensos, entre as duras – e hoje sabidas – injustas críticas que Arendt recebeu na época e a certeza de que ela não concordava com o nazista, mas entendia os limites da sua responsabilidade nos crimes cometidos pelo Estado.

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Quando parir se tornou tão complicado? Tecnologia, evolução, médicos capazes e fazer nascer uma criança de forma normal nunca foi tão difícil. Em O Renascimento do Parto, documentário de Érica de Paula e Eduardo Chauvet, encontramos algumas respostas.
O filme provoca: por que os índices de partos cesarianos cresceram tanto? Como é possível uma taxa de mais de 70% de partos em hospitais particulares serem feitos assim? Qual é a dificuldade das mulheres em gerar filhos para nascerem de forma natural? Ao que tudo indica, o defeito não está nas mães.
Em 90 minutos vemos partos de todo tipo e depoimentos de mães, pais e profissionais de saúde. Conhecemos os motivos pelos quais alguns médicos induzem futuros pais a acreditar que a cirurgia é o melhor meio, a escolha segura. Tranquilizados e horrorizados, acompanhamos a destruição destes argumentos e entendemos como planos de saúde, hospitais, clínicas e estes doutores estão mais preocupados com tempo e lucro do que com a saúde de quem deveriam cuidar.
As respostas estão, claro, na indústria da saúde. Um parto normal leva, em média 12h, entre a mulher romper a bolsa e ter o bebê. O custo disso para o hospital é baixo, se comparado ao procedimento cirúrgico de uma cesárea. Isso porque até que a mulher tenha dilatação suficiente para fazer nascer sua criança, a espera a faz ocupar um leito de hospital e, no máximo, ser monitorada durante todo o tempo. A intervenção no corpo feminino é mínima, o gasto com material idem. Ocupam funcionários em menor número, menos equipamentos. E, claro, o médico, que perde um dia de consultas e cirurgias apenas para sentar e esperar.
O filme investe uma postura ativista em prol do parto natural, de parteiras que hoje chamam-se doulas – mulheres especializadas em acompanhar as famílias durante o parto – de partos em casa, do parto normal e humanizado. O problema do filme enquanto filme, é o excesso. É  uma campanha clara, com objetivo definido e escancarado no trailer. Só com a imagem do cartaz já sabemos o que nos aguarda, mas, ao invés de nos interessar narrativamente, vemos uma sequência de acusações – justas, vá lá – intercalada por cesáreas sofridas, partos naturais lindos, depoimentos emocionados e entrevistas direcionadas. Essa parcialidade exagerada afeta na duração. É como uma propaganda política que nos enche de argumentos lógicos e mesmo tendo concordado com eles, ainda ouvimos um pouquinho mais.
Mas não desistamos, pensemos na importância do tema para a nação. Há que atentar para o futuro, para o que se pensa do destino de nossa saúde – hoje ainda mais polêmica – em como compreendemos o corpo feminino e como devemos respeitá-lo, especialmente quando carrega outra vida dentro de si. Com ritmo televisivo, O Renascimento do Parto conscientiza um público crescente para a necessidade de ter ao lado uma equipe médica de confiança que garanta o nascimento – quaisquer que seja o método escolhido – assegurando o dia mais feliz da vida de uma nova família. Financiado por doações no esquema de crowfunding  e recursos próprios, o filme segue em cartaz, inicia carreira nos festivais e merece ser espalhado e discutido por onde passar.
Acompanhe no Site!!
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One Art (em português: aqui)
Elizabeth Bishop

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster

of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:

places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or

next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,

some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

-Even losing you (the joking voice, a gesture

I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Antes de qualquer coisa: independentemente da qualidade deste filme, seu mérito se garante em trazer a poesia acima. Elizabeth Bishop foi uma das mais importantes escritoras norte-americanas numa lista que não diferencia o gênero. Essa observação também está no filme e não à toa. Ela é genial.
Flores Raras é uma adaptação do livro homônimo que conta a história de amor entre Lota de Macedo Soares – a arquiteta do parque do Aterro do Flamengo – e Elizabeth Bishop, poetisa americana. Nos anos 50, quando a segunda veio ao Brasil, encontrou com Mary, uma amiga da faculdade e namorada de Lota. A partir de então as vidas das três tomaram um rumo inesperado e nada convencional.
O filme causa um estranhamento logo de cara: legendas. Atores brasileiros falam inglês o tempo todo. A solução é clara como a pronúncia de Glória Pires (Lota): trata da adaptação de Bishop (Miranda Otto) ao nosso país, convivendo com a elite carioca. Passada essa barreira, vem a velha questão do cinema brasileiro: parece besteira, mas quando vemos um filme nacional, o senso crítico sobe alguns degraus. Há uma tendência a sermos mais duros com o que nos pertence, talvez por sabermos a dificuldade histórica que é fazer cinema no Brasil, queremos sempre a qualidade magistral, um filme redondo, perfeito, ou então é dinheiro (público) jogado fora. Mas não é pra tanto, o filme preenche requisitos.
Nossas protagonistas apresentam perfis distintos, quase opostos de um casal: a mulher forte que comanda, tem o dinheiro, que paga e constrói e faz a vida acontecer. Do outro lado, uma poetisa quase pobre que de alguma forma consegue viver do que escreve. Quando se apaixonam, as personagens se transformam, a trama se torna mais complexa e em paralelo, as drásticas transformações do Brasil – com o golpe de 64 ocorrem nos ápices de suas carreiras. A profundidade das palavras de Bishop nos faz querer conhecer mais essa mulher que parece tão sensível, mas de palavras precisas e duras. Ao mesmo tempo, a força de Lota cede espaço à grande falta que sua mulher faz num momento de crise política que reverbera no seu trabalho e relações sociais, a levando à depressão. Os perfis dessas mulheres quase são cambiados e essa é a grande riqueza da obra, ficando em segundo plano, o tipo deste amor.
São três décadas, dos 1950 aos 1970, entre Rio de Janeiro – ótimo trabalho da Direção de Arte na adaptação de cenário e figurinos – Petrópolis e NY. Um incômodo são as cenas de plano aberto do Aterro – o corte brusco e o ângulo desta cena em relação a de onde foi vista remete a uma fotografia mal montada, – e ainda outra, quanto o segundo plano tem imagens do Rio que parecem ser um chroma key mal recortado.  É difícil reconstruir grandes espaços, mas há que se buscar uma solução mais cuidadosa, para não fazer o espectador sair do filme, especialmente quando o plano de fundo é a cidade do Rio de Janeiro, a mais fotografada do Brasil.

Em tempo de revolução política e cultural, a sexualidade segue escondida debaixo das saias num país católico e conservador. Se hoje quebramos à picareta o tabu homofóbico, naquela época seria impensável para a maioria encarar duas mulheres se beijando, se amando. Talvez para reforçar essa relação, a proposta da atuação forçada de Glória Pires, pesando no caráter masculino de Lota. Mary também estava travada, como se o controle na direção da atuação fosse demais. A participação mais natural ficou para Miranda Otto, ao criar sua Elizabeth – ainda assim, um pouco mais doce do que a da vida real, mas mais perto da verossimilhança. As cenas de beijos e carinhos merecem um brinde à coragem da direção, que as conseguiu produzir com sinceridade.
Bruno Barreto pensou em fazer este filme numa tentativa de reatar o casamento com sua ex-mulher, Amy Irving. No fim das contas, fez uma obra bonita, que trata de um amor difícil de ver na tela e tratado na medida certa, sem queimar os olhos dos puritanos ou ofender os radicais. No fim, resultou num trabalho sobre a perda, sobre o 'fim' de um amor e talvez agora o diretor tenha conseguido exorcizar o que lhe afligia.

Aos apaixonados por Bishop ficará a vontade de ver e ouvir mais. Muita gente vai continuar sem saber quem ela foi, sem procurar seus livros. Suas posições radicais passaram como uma bruma leve em algumas cenas, mas vale contextualizar essa artista e aceitar suas opiniões sobre o Brasil como um gosto que não se discute. Flores Raras tem a alegria de fazer renascer duas figuras importantes para seus países, a poeta e a arquiteta do Aterro e de um tempo em que se achava possível resolver os problemas do país com um golpe militar. Eu as ignorava. Não me lembro ter lido nada de Bishop, mas com esse poema que abre e fecha o filme... não tem mais como fugir dele, nem delas.
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Assim como acontece com Woody Allen, toda vez que estreia algum filme de Almodóvar, é quase uma obrigação assistir. É um trato seguro, os filmes de diretores consagrados são escolhas certas e priorizadas no circuito cinematográfico. São os filmes de autores, garantias de entretenimento pra quem os segue, reduto cult e panelinha do cinema mundial, não importando a estética, gênero e narrativa.

Pois então: com toda essa certeza, fui ver o trailer de Los Amantes Pasajeros e cheguei à triste conclusão de que era bem fraquinho. Um anúncio de comédia boba e afetada, com uma estória que parece só ter meio e não sustenta nem os 3 minutos da propaganda. Ainda assim, o suspense sobre a participação de Penélope Cruz e Antonio Banderas, aliado a um elenco de peso chamavam a atenção e dava uma pontinha de esperança.
Um avião sai de Madri em direção à Cidade do México e tem seu destino alterado quando se descobre que o trem de pouso tem um defeito. A aeronave circula pelo céu espanhol à espera de um aeroporto em condições de atender a um pouso de emergência. A tripulação da classe executiva lida com a tensão do acidente iminente e a tentativa de acalmar seus passageiros, enquanto a classe comercial segue dopada, junto às suas comissárias de bordo – evitando o pânico generalizado. São 90 minutos de avião e filme no ar e até aí tudo certo, não faltam boas histórias em ambientes restritos.
A crise do filme está na ausência de estória que sustente a duração. Enquanto o avião segue gastando combustível e paciência, vemos despedidas por telefone, personagens se conhecendo em diálogos vazios, comédia rasa. Os comissários, três homossexuais, piloto bissexual e co-piloto se descobrindo gay são os comandantes de uma fábula fraca, onde o excesso de chistes cansa mais do que extrai sorrisos. Parece que estamos diante de um roteiro mal escrito, feito às pressas. Depois de A Pele que Habito, é difícil encontrar em Amantes Passageiros a mesma alegria de ver um bom filme. Talvez o diretor tenha chegado àquela linha tênue de vaidade em que acredita poder fazer o que quiser, considerando seu público fiel.
O problema é o contraste. A genialidade dos filmes de Almodóvar está em diálogos bem construídos em tramas intrincadas. Há um cuidado em deixar o filme fechado esteticamente, que nos prenda do início ao fim, num êxtase crescente. Aqui não há trama, mas uma ênfase no sexo pelo sexo. As próprias cenas picantes são tão ocas como a droga que tomam em coquetéis para aliviar a tensão, lembrando quase uma pornochanchada atualizada e com ótima fotografia. Exageros à parte, o incômodo é que, depois de uma filmografia importante, sai um filme diluído em água, sem gosto.
Penélope Cruz e Antonio Banderas abrem o filme indicando problema da trama: o inevitável está ali. As cores e o figurino e os tons de 30, 40 anos atrás favorecem, mas não preenchem a lacuna fundamental da narrativa. Um raro momento que relembra filmes anteriores é a única sequência importante que acontece em paralelo ao avião, mas em terra: um ator dentro do avião liga para sua namorada suicida e acaba reencontrando a ex que nunca deixou de amar. É aqui que chegamos perto de um final feliz. 
Os Amantes Passageiros talvez não seja mais do que isso; uma sequência de situações para fazer passar o tempo, mas que acaba sem rumo definido.
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A pergunta esdrúxula e de resposta óbvia não é tão simplista, mesmo comportando apenas três palavras.

Tão antiga quanto o conceito de humanidade, a homossexualidade parece ressurgir socialmente de tempos em tempos como uma grande novidade. Anormalidade, doença, opção, são todas palavras equivocadas e insuficientes.

Se invertermos os pólos e analisarmos a heterossexualidade, não há muita diferença. E para os heteros como eu, certamente não é uma opção. Aqui não é uma discussão de gênero e sociedade, mas somente uma opinião de quem partilha algum desejo. O desejo não vem como opção, mas como uma pulsão, uma das forças que nos move independentemente de nossas vontades.

É muito estranho que a sociedade precise se meter na sua cama e avaliar se você deve ou não dormir com alguém e por quê. Não sei quem lhes deu esse passe livre sobre nós e como se concordou tão rapidamente com tudo.

O fato é que sempre houve essa posição conservadora – também familiar – que encontra aí por alguma razão o direito de intervir em nossas intimidades. Vi de perto uma dessas histórias e insisti sempre no porquê da polêmica do não pode, não deve. A procriação e tudo mais é possível pra todos assim como a constituição de uma família e o casamento. Dá pra entender, as famílias não querem deixar de existir, querem perpetuar esse legado incrível e individualista do nada que somos. O que não se entende é que até para as famílias, a diversidade é possível. E saudável.

Trabalhando com comunicação, tenho a sorte de conviver na diversidade. Já ouvi de amigos gays sobre sua infância e adolescência e em como era uma batalha diária se entender, se aceitar e se preparar pra uma luta mesmo, de autodescoberta, exposição e sofrimento. De como essas marcas só começam a ser suavizadas agora que se transformam em adultos.

E dá pra ver que assim, a minha vida sempre foi um mar de rosas, com algodão doce e ursinhos carinhosos, não importando qualquer problema que estivesse vivendo. Sem ter que me explicar o tempo inteiro ou até fazer terapia para entender por que eu seria e me via de forma diferente, eu era simplesmente igual a todo mundo, isso não era uma grande novidade e não havia ninguém de cara feia me olhando.

E por que, nestes tempos depois de tanta História e histórias se volta a crer que um projeto de lei possa entender a "opção" sexual como parâmetro de (a)normalidade? Justo agora que se levantam bandeiras, mais uma vez, contra as intolerâncias? Agora que os preconceituosos finalmente estão recebendo uma merecida e atrasada lição e que se pode reclamar abertamente os abusos e ter seu direito justificado sem sentir vergonha? Parece que vivemos num mundo retrô, onde voltamos às ruas para lutar pelo que, teoricamente, havia sido conquistado décadas atrás.

Há que ser um preconceito tão antigo como a segregação religiosa, há de vir de uma mente tão tacanha como a de um sujeito cujos próprios desejos parecem estar reprimidos, tensionados em uma paixão tão forte e tão proibida que se transforma em ódio e intolerância. Como Alan Chambers e sua igreja de cura gay nos Estados Unidos que hoje pede desculpas ao mundo por sua trajetória horrenda e, ele próprio se assumiu homossexual, este pastor brasileiro precisa acordar do pesadelo em que vive. Ele sim precisa de tratamento e todos os que concordam com essa ação insana.

Que não seja uma sina, que esse movimento de contrassenso funcione no seu extremo oposto em tempos de ruas cheias. Que nos faça ridicularizar o sujeito, sua ideia e destituí-lo de seu poder político, religioso e perigoso. E que no próximo futuro retrô, com causas tão fundamentais como estas de hoje, se ria dessa sandice, se conte como uma piada de bar, o dia em que um político entendeu que sexo era doença.
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Não estive nas manifestações. Não vi o bicho pegar, não corri da polícia, não tomei bala de borracha.

Pego ônibus todos os dias, uns mais caros que outros a depender da hora que vou ao trabalho. Moro no Rio, onde várias pessoas sofreram acidentes por falta de treinamento de seus motoristas, minha mãe inclusive, há muito tempo. Ontem, quando tudo aconteceu, estava no trabalho.

Acompanhei pela tv e pelo facebook que, com tanta gente diferente falando da mesma coisa, temos um panorama menos oficial e talvez por isso, mais honesto.

Tenho amigos jornalistas e mesmo que não fosse o caso, sofri pela repórter que tomou bala de borracha no olho. Fiquei pensando, entretanto, que se ela virou notícia por ser da notícia, quantas outras pessoas não se tornaram vítimas dessa ação desmedida da polícia e de quem a comanda, e não ficamos sabendo. Hoje ex-coronéis avaliam a operação e não mencionam o excesso de força, como se não fosse significativo, como se os outros não fossem importantes.

Porque o problema não está simplesmente na instituição policial, mas em alguns bandidos que fazem parte dela. Eles talvez estivessem aguardando a carta verde que receberam de alguém para botar pra fora toda a sua raiva contida, sua monstruosidade, sua brutalidade diária que já esparramam aonde a notícia não chega.

É óbvio dizer que não é mais o preço da passagem. Acho que a Turquia ajudou a lembrar de que é importante ter opinião, que se não falarmos, a democracia perde sua razão de ser. A Turquia viu sua praça se tornar o início, o que levou a outros problemas talvez muito maiores do que mais um shopping. Como aqui, a ira policial nos fez ver além, nos trouxe tudo o que evitamos pensar todos os dias, em prol do trabalho, das contas, os direitos assegurados e não exercidos.

Acho que é o momento fundamental para a imprensa se posicionar como vem fazendo, apoiando quem lhe parece mais justo. Nos cabe ler os dois lados, entendendo seus relatos, sem necessariamente aceitá-los. Soa moderado demais nessa semana absurda falar assim, mas é ingênuo crucificar o jornal pela opinião que emite.


Os jornalistas que estiveram ontem em São Paulo e no Rio viram o que aconteceu. Eles têm alguma ideia de quem fez o quê e isso é preciso que seja dito, espalhado como uma epidemia, se não nos jornais que são oficiais, corporativos e políticos demais, nos blogs, nessas redes sociais todas, para que se conheça a indignação, os porquês diversos e acumulados por tanto tempo.

As notícias de hoje contam que os policiais prenderam manifestantes por formação de quadrilha. Imagino que tinham uns baderneiros nessas cidades, como tem o pessoal que vai ao Carnaval só pra procurar briga. Nas aglomerações as distorções são possíveis, mas não representam o todo e não devem ser tomadas como referência, mas como ponto de atenção. As manifestações de ontem já não serão as únicas e chamarão, espero, mais gente ainda. São reuniões de protesto, não de combate. Ninguém quer bater ou apanhar ali, só querem ser ouvidos por quem eles decidiram que deveriam ocupar seus governos.

É um sentimento estranho esse. É triste ver as imagens de ontem, da sandice da Ordem. O descontrole assusta, ainda mais quando é dele o poder de fogo. É esquisito não ter feito parte, ter acompanhado no conforto de uma sala fria de ar-condicionado. É também incômodo eu acho, talvez essa seja a palavra mais próxima, ver isso tudo e ver gente que consegue sublimar esse presente e viver da rotina alienada da opinião formada, da alegria sincera até, do alívio de encerrar uma semana de trabalho, de hoje ser mais uma sexta-feira. Mas é corajoso, não encontrei a palavra que represente o sentimento, ver que há mais por vir, que é importante se colocar agora, especialmente nesse ano que todos miram o Brasil, esse país jovem, menos bobo do que eu pensava e de futuro complicado.
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Buenas!

Em 2011, participei de um concurso do SESC DF, chamado Prêmio SESC de Contos Infantis - Monteiro Lobato. Eu tinha escrito um textinho, Borboletas, acho que em 2009 e que tinha ficado por aí. Publiquei no blog e pronto. Nessa do por que não, mandei. Fui selecionada para a coletânea e aí toca a esperar a publicação, entrar em contato com o pessoal do Sesc, até que imaginei que era um daqueles embustes e deixei pra lá. No último mês, depois de uma troca de e-mails iniciada por eles, combinam comigo de enviar as cópias do livro e pronto! Ontem eles aparecem aqui em casa!!

Igual a uma criança que ganha brinquedos no Natal, assim que o porteiro me deu o pacote pardo, abri, já imaginando o que seria. Rasguei tudo em 3 segundos, esperando o elevador chegar e estavam lá: as cinco cópias do livro infantil. Cheguei em casa pulando - Fiona, a cachorra, saiu correndo e se escondeu debaixo da cama - e querendo falar com o mundo.

É muito fácil ser feliz. O livro veio todo fofo, colorido, a fonte uma delícia de ler. Até ilustração tem! Eles foram super cuidadosos na edição, eu achei, não que eu entenda muita coisa de fazer livros. E também estou apaixonada por ele, então rola aquele momento de ilusão cega.

Mas, voltando, a sensação é muito gostosa! Não pela premiação em si, mas por ser um livro, porque agora a estória vai fazer parte - e aqui rola um rio de esperança - da vida e imaginário de outras pessoas. E não por vaidade, mas para compartilhar histórias, ideias. Um pouco como o blog, mas com outra dimensão e voltado pra crianças! É legal imaginar que outras pessoas concordaram com você, que curtiram suas ideias, que encontraram ali, alguma razão para te espalharem, ainda que seja só uma estória pra criança.

Cheguei no trabalho ainda pulando de alegria, como se tivesse ganhado na loto. Isso é bacana, dá uma estimulada legal, te retorna ideias, te investe de pensamento criativo e claro, porque ninguém é o suprassumo da humildade eterna, algum orgulho. Consegui falar com minha avó Lita, que escreveu um livro inteiro à mão, num caderninho e que me dá a força de sempre; falei com minha outra avó Angélica, porque ela é incrível, uma força que não sei de onde vem; com minha irmã linda e com meus pais, claro, sem eles, nada feito, são sempre os primeiros.

A internet ajudou a dividir isso com quem está longe e pude receber o carinho e apoio dos amigos. Essas comemorações são cada vez mais raras, eu acho. Normalmente essas redes sociais são cheias de abobrinhas e coisas que preferíamos não saber sobre os outros, mas a facilidade de comunicação também pode ser útil. Meus 15 minutos de fama se foram, mas a sensação gostosa continua. Quem sabe daí não saem mais maluquices da minha cabeça?

Para comprar: vou ver se o livro vende em algum lugar além do próprio SESC DF, que dificulta bastante a vida. Vou pedir alguns, em todo caso. Sei que é baratinho, 10 reais, mas lá em Brasília!



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Elena era diferente. Era intensa, uma artista com alguns problemas e extremamente sensível, como sua mãe e irmã. Elena sumiu e mesmo sem tê-la conhecido, sentimos sua ausência. Elena se tornou parte de nossa família quando virou filme.

Quando estava cursando a pós de Documentário, os professores insistiam para que fizéssemos filmes que só poderiam ser feitos por nós. Ainda que a premissa sirva para qualquer produção artística, o que eles queriam dizer era para falarmos de um tema nosso, que nos tocasse. Essa proposta, cada vez mais penso nisso, é o fator transformador do documentário brasileiro. A partir do momento em que seu criador decide falar de algo seu, essa esfera particular automaticamente – quando bem feito – deixa de ser uma exposição do próprio umbigo e passa a se relacionar com o universo do espectador. E aí, as referências individuais do autor conversam com as nossas, nos tornando participantes daquela história.

Reforço como característica no documentário brasileiro porque é onde vejo mais obras com essa cara. Perdi o É Tudo Verdade deste ano, mas acompanho há algum tempo as estreias documentais e é isso o que se confirma e parece interessar o grande público. Citando alguns que seguem a linha e que me vieram agora à cabeça: Santiago (João Moreira Salles), Cabra Marcado pra Morrer (Eduardo Coutinho), Passaporte Húngaro (Sandra Kogut), 33, Kiko Goifman, Rocha que Voa (Eryk Rocha), Di-Glauber (Glauber Rocha), Abuelos (Carla Valencia D'Avila, Chile). Ano passado, Sarah Polley trouxe Stories we tell, um documentário canadense que falava sobre sua mãe, tentava descobrir um pouco mais dela, resgatando em sua família e amigos um passado hoje perdido. A narração de seu pai deixa tudo mais bonito e o jogo de encenação com imagens de arquivo completa visualmente o que quase não parecia faltar. É o que mais se aproxima deste.


Em Elena é como se a diretora descarnasse o tema. É isso mesmo, ela se entrega numa correspondência com a irmã, cujo direcionamento prescinde do espectador. Toda a voz off fala para Elena como numa carta, em que Petra, a diretora, se dirige a você, à irmã. Somos espectadores de uma história de amor sem fim, familiar e fraterno, de uma perda irreparável que já passamos ou passaremos em nossas vidas de alguma forma. E aí, o cotidiano delas se transforma na vida de todos. Em paralelo, o filme ilustra uma tentativa de compreender o que aconteceu, o filme indica uma busca pela justificativa ou aceitação para o fim da irmã, para saldar ou, pelo menos, amenizar a dor e a saudade. Petra faz um desenho aprofundado da irmã, mas que perpassa por ela própria, sua mãe e seu pai, reforçando a ausência do último. Esse retrato de família dá indícios dos problemas das três mulheres, sua formação cultural e social e nos deixa livres para induzir e interpretar o porquê da tragédia.

Esses perfis são o panorama, a superfície do filme. Sua construção é feita como linhas de um tecido que, olhando de perto, percebemos o traçado dos fios, seus cruzamentos e rupturas. Aqui conseguimos ver a transformação da perda em poesia, com uma montagem que intercala imagens de arquivo – quando criança, as irmãs ganharam uma câmera doméstica – com Petra criança, a mãe e Elena adulta em NY, Petra andando sozinha pelas ruas, buscando nas esquinas americanas, vestígios de uma antiga presença e por fim, encenações leves, soltas como passos de dança, que pontuam o filme. São passados distintos que se cruzam, reforçando a proximidade das irmãs, a necessidade que uma tinha da outra e de como isso foi suficiente para moldar o futuro da caçula. A trilha sonora nos absorve, mantendo esse clima de saudade, amor e até de uma melancolia que parece fazer parte de todos daquela família. 
À parte a vida real dos personagens, o filme persegue uma aura onírica que expande o que seria um simples relato, uma carta. Os elementos que compõem o imaginário de Petra sobre Elena traduzem duas irmãs em figurinos e performances de sonhos, seja Elena em suas apresentações teatrais – que parecem um prenúncio do fim, sempre tensas – ou Petra com seus passeios, olhares e a própria composição do que vemos. Saímos com coração apertado, sofrendo por elas e por nós, com questões que sequer conseguimos formular. Elena nos deixa com vontade de saber mais, mais dessas mulheres que se mostraram tanto, que se abriram para todos. É um filme de amor, uma das homenagens mais bonitas e honestas que eu já vi, com uma carga de sentimento que quase nunca aparece em documentários. É também uma aula de cinema de uma menina em seu primeiro longa, com uma liberdade de expressão que encerra aquelas questões ultrapassadas do que é e o que não é documentário, do que pode e não pode. Elena é pra ser visto despreparado mesmo, é pra sentar na poltrona e se entregar ao destino do filme. Numa sala lotada num sábado à noite no Rio de Janeiro, ouvia-se o filme, silêncio e lágrimas. Na saída, vi em todos uma satisfação se essa for a palavra, de ter participado. Talvez tenhamos entendido que foi importante ter visto o filme, que a libertação de Petra foi ter reencontrado e redescoberto sua irmã, agora que se tornou mais velha do que ela.

Aqui o site do filme!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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