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Café: extra-forte

Em tempos atuais, é importante não perder o Vejo Você no Próximo Verão. Acabei de assistir. Estreou hoje causando impacto. E é claro que a versão original do título é mais interessante; Jack goes Boating.
Em tempos atuais, porque parece que vivemos um mundo de contrários. O filme trata do surgimento de um novo relacionamento romântico, da formação de um novo casal. Um casal de amigos resolve ‘armar’ o melhor amigo com a colega de trabalho da mulher. E é isso, nada mais. O filme é sobre essa conquista, que não parte apenas de um.
Neste mundo de contrários parece que o mais importante é a coleção. Não importa quem seja a pessoa, o objetivo é como o war: quanto mais territórios temos, vencemos o jogo. Ou destruímos o oponente. Na minha adolescência, quando somos apresentados aos nossos hormônios e aos dos outros e entramos no mundo das relações amorosas, eu achava sinceramente que era tudo meio simples, que quando se gostava, ficava-se junto e pronto, acabou. Felizes para sempre. Mas todo conto de fadas existe tanto quanto as fadas. Tem um processo de conquista, muitas vezes estranho e sem propósito, que acontece e este final feliz some feito fumaça.
Depois de tantas figurinhas trocadas entre amigos e amigas, fui convidada a ler um livro mulherzinha. He’s not that into you e eu quase com vergonha admito que estou me divertindo lendo e me vendo em muitas situações ridículas. Eu admito mesmo, fiz umas coisas já, mas entendendo que cada um é cada um e que os homens e as mulheres podem agir individual e originalmente. O livro diz exatamente o contrário e tenta provar isso por a + b. É um livro escrito por um homem e uma mulher americanos (por isso o dualismo é gritante e exagerado, eu sei), roteiristas de Sex and the City. Os escritores buscam comprovar com exemplos práticos o nível de interesse do homem num relacionamento heterossexual, de forma a alertar as mulheres – sim, estas que vivem buscando justificativas para ‘segurar’ ou ‘acreditar’ em situações quase surreais – para que não percam tempo na vida com quem não interessa.
E aí aparece esse filme, que, ao tempo que comprova no extremo o que o livro nos conta, mostra o exato oposto: há um paralelo entre um relacionamento estabelecido, mais complicado e este novo casal que está descobrindo como é conviver. E enquanto as diferenças entre os pares vão se tornando cada vez mais evidentes, a transformação dos personagens ganha força e o roteiro se sobressai surpreendentemente. Não é um filme de clichês, pelo contrário, é um filme sobre a vida, sobre um dia a dia de alguns amigos que não sabem muito bem - como grande parte de nós - o que podemos e não podemos nos permitir viver.
É um filme, soube nos créditos, baseado numa peça que o próprio Philip Seymour Hofman protagoniza (além de ter dirigido e produzido o filme) e por isso há poucas locações. Ao mesmo tempo, não percebemos isso de forma alguma. Os diálogos estão na medida, bem como seus silêncios fundamentais.
Outro dia assisti Quem tem medo de Virgínia Woolf, que me remeteu a outro, O Anjo Exterminador, de Buñuel. Toda essa leva de clássicos é para uma analogia simples: em um determinado momento dos três filmes, os personagens ficam confinados numa residência e por mais que a tensão seja insuportável, eles não saem dali. E a nossa tensão aumenta absurdamente, o incômodo torna-se coletivo e nossa vontade é entrar pela tela do cinema ou da TV e arrancá-los porta afora. O Anjo Exterminador pretende com isso outro objetivo – não vou discutir os temas de Buñuel aqui – mas Quem tem medo... também nos mostra relacionamentos complicados. E como eles se solidificaram em bases frágeis ou tetos de vidro. Nada disso suporta muito tempo.
Há uma carga emocional muito forte neste novo filme. Philip Seymour Hoffman – e nem preciso falar dele, de verdade – é o cara. Sem mais adjetivos. O protagonista é um personagem extremamente sensível, que conhece uma mulher incrível e sensibilizada. Nos primeiros 2 minutos, já nos apaixonamos por ele e pela paradoxal força desta mulher: aqui também ela é a atriz que carrega o filme, com poucos gestos, tímida e resistente.
As mulheres sempre ganham esses adjetivos: resistente, forte, batalhadora. Os homens têm ganhado outros: sensível, perdido, indefinido. Em resumo: nós carregamos o piano enquanto eles decidem quem são. Não tão drástico, mas o fato é que nem sempre queremos ser e ter essa força toda. Somos mocinhas. Queremos ser delicadas, bem tratadas, reconhecidas, paparicadas. E neste filme há uma força, literalmente, que faz com que isso aconteça. Simplesmente porque era necessário para os dois, precisava ser daquele jeito. E não era um sacrifício.
Esse é um filme sensível e honesto. É simples, perfeito em sua composição e nos prende como muitos outros filmes ‘pequenos’ americanos não por coincidência (lembrei de: Sunshine Cleaning, A lula e a baleia, Pequena Miss Sunshine, O casamento de Margot, Away we go – que, no IMDB mostra em quase todos, os mesmos produtores). Só é difícil de encontrar – como nesta linda produção – uma realidade parecida. Mas é bom dormir com essa idéia, esse respiro de que se um filme assim foi possível, por que o resto não seria?

Título original: Jack goes boating
Diretor: Philip Seymour Hoffman
2011 - EUA - 91 min
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Na semana passada, no dia treze, foi o dia mundial do rock. Aqui no Rio não aconteceu nada de interessante, mas me peguei ouvindo uma banda baiana que me tomou por inteira e me levou para os shows que ia em Salvador no início dos anos 2000. Scambo era o nome e Salvador conhecia as letras originais e as versões, e percebi que me marcou muito mais do que eu imaginava.
Nessa leva de baianidade, troquei boa parte das músicas internacionais que ouvia diariamente por outras baianas e às vezes meu coração aperta de saudade e me dá vontade de cantar bem alto, mas quase sempre estou dentro de um ônibus e o que acontece é meu coração explodir por dentro e uns risos meus, sorrisos, enquanto olho o mar carioca.
Hoje assisti a pré-estreia de Filhos de João, o filme de Henrique Dantas sobre os Novos Baianos. Dei uma sorte danada, porque encontrei outros baianos e vi o filme entre eles. Nada melhor, já que ouvi o sotaque de pertinho, vi o filme, cantamos umas partes e no final, mais baianidade no coquetel. Parece bobagem, mas esse retorno é realmente importante. Às vezes o tempo vai passando e deixamos passar junto um pouco do que somos e vamos nos tornando outros, sem perceber... às vezes é só uma música, a companhia ou um filme que nos avisa com um ‘psiu... lembra? Você é isso também’. Era tudo o que eu precisava.
O que acontece é que este filme foi feito durante 11, 12 anos e trouxe entrevistas de tempos diversos, mas que juntas, davam um tom gostoso e interessante, traduzindo numa boa forma de contar a história. E eu nem sabia que João Gilberto era esse João do título e sua importância na formação do grupo. A questão é que João Gilberto já era um mestre nos anos 60 e essa turma dos Novos Baianos, de músicos fantásticos estava se descobrindo, quando o músico-padrinho mostrou possibilidades e novos olhares que transformariam o rock dos baianos numa música essencialmente brasileira e fundamental.
O filme mostra raridades, trechos de shows, da convivência deles num sítio aqui no Rio, de como as canções se formaram, de como eles viviam e cresciam, se multiplicavam. E múltiplo é também o filme, que nos dá o prazer de ver os pais da guitarra elétrica, do nosso Carnaval baiano, de Armandinho, Dodô e Osmar, até de Gil e Caetano, como quem não quer nada. É um prazer de ver e ouvir. E é a história da música brasileira. Isso tudo num documentário inesperado, lindo e divertido.
Tom Zé abre o filme e faz as vezes de mediador da história, ditando os momentos importantes da virada, com sua fala completamente original e, que pode parecer a muitos ‘viajante’ e metafórica, mas, se pensada e ouvida faz total sentido. Todas as suas palavras e adjetivos. Junto com isso, um contexto da época na Bahia, com os filmes de Edgard Navarro e tantos outros – porque os Novos Baianos também fizeram filmes – e toda a efervescência cultural de uma época que aconteceu assim no mundo inteiro. E o legal é que eles todos falam num tom simples, com tranqüilidade, sem maneirismos ou palavras difíceis. É um filme para todos. Todos que gostam de música, cultura, de Brasil, de Bahia.
Acabei de chegar em casa e não consegui não escrever sobre o filme. E tenho que agradecer à minha irmã que me apresentou a esses baianos maravilhosos quando eu nem sabia de nada. Hoje o filme chegou tímido e me deu uma recarga de baianidade no inverno carioca, não tão gelado como em outras cidades, mas longe de ser aconchegante como na minha terra. E quando isso acontece, não tem essa adversidade que me tire o humor. E nem falemos de outros filhos dos filmes de música; gostei muito dos de Francisco, mas não se comparam a esses aqui. Assim como a analogia ao Admirável Mundo Novo, aqui se justifica plenamente no filme. Era uma geração que buscava algo novo, diferente, livre... que se perdeu na ingenuidade do velho sonho de romper um sistema - na verdade, talvez um sonho ainda novo naquele tempo - mas que ainda assim permaneceu num sistema próprio tempo suficiente para criarem vida e nova música. É isso, Novos e Velhos baianos no rádio e agora nos cinemas, por favor.

Visite o site aqui!
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Quando não conhecemos um lugar, costumamos viajar por ele através das impressões dos outros. Impressões vendidas por companhias de turismo, dadas com emoção por parentes e amigos que lá estiveram, por filmes, músicas, fotos, postais, internet. Essa coleção de imagens e sons é comum e acessível a todos. É gratuita e nos permite interpretar aquilo que não conhecemos, mas que temos alguma(s) idéia(s) de como deva ser. E, enquanto não vamos lá, aprendemos daqui a perceber como seria aquela vivência, ilusão farta e romântica de um espaço, de um momento.

Meia noite em Paris trata da viagem de um casal americano junto com os pais da noiva à cidade. O noivo, Gil Pender (Owen Wilson) encantado com a capital francesa e se aproveitando dela para ganhar força e coragem para mudar sua profissão lucrativa de roteirista hollywoodiano, tornando-se um escritor de primeira viagem, entra em conflito com os anseios da noiva Inez (Rachel McAdams), que pensa na decoração da nova casa e em passeios com um casal de amigos não tão divertidos que encontrou pelo caminho. Insatisfeitos com a discrepância dos anseios individuais, o casal se separa nas noites parisienses e vaga pela cidade, cada um à sua maneira. A cada novo dia, as diferenças entre eles se tornam mais evidentes e novas descobertas os fazem rever o casamento.

Esta é uma sinopse alargada do novo filme de Woody Allen. Ao contrário dos anteriores, este não começa com uma narração. Na verdade, o filme prescinde totalmente daquele narrador, da voz que já conhecemos, presente em grande parte de sua filmografia. A história se deixa contar à medida que nosso herói vivencia a cidade e por ela se apaixona, a cada quadra, a cada esquina. Romântico, acredita que seria mais feliz em outra época, de outra forma. Esse pensamento nos transporta pelas ruas de Paris a outras décadas e todos  vivemos uma experiência inusitada.

O filme mantém o estilo leve, a narrativa fluida, a suspeita simplicidade no contar da história. Com mais de vinte filmes no currículo do diretor, não poderia ser diferente. Aqui há atores de peso – com destaque para o incrível Adrien Brody e Corey Stoll – e até Carla Bruni dá o ar da graça em momentos divertidos da história. Ainda que não soubéssemos quem havia dirigido, ficava fácil perceber a quem pertence o tom do filme. Não há um neurótico assumido, mas um homem confuso, perdido entre suas decisões, ingênuo e descobrindo o que quer e precisa, como alguém que chegou agora ao mundo. Há uma tranqüilidade no personagem de Owen Wilson e nos diálogos incríveis com o amigo pseudo-intelectual de Inez, que nos fazem gargalhar.

A surpresa do protagonista diante do inusitado – também para mim que não li nada sobre o filme, apenas vi o trailer – nos faz entrar imediatamente na história, quase como o herói de A Rosa Púrpura do Cairo, só que de forma invertida. Aliás, a primeira grande diferença deste novo filme para os demais não é tanto a ausência de voz off, mas as primeiras cenas, lindas, das pequenas ruas estreitas, de paralelepípedos, com cafés e restaurantes e uma trilha de fundo, nos indicando: é Paris, nada mais importa.

Com mais imagens deliciosas de uma cidade ainda desconhecida, a ansiedade me tomou o coração com um imperativo de ‘você precisa viver isso’. Este filme aparentemente simples – como todos os outros de Woody Allen aparentemente são – traz questionamentos de forma sutil sobre o tempo que vivemos, o tempo que queremos viver e se o que estamos fazendo agora é viver o que queremos ou se estamos sempre pensando no que queremos viver. As respostas suscitam outras questões e provavelmente não teremos uma solução que não signifique novas decisões e atitudes. E tudo pode se passar num domingo qualquer com uma boa companhia e que não se pense mais a respeito ou, como um bicho que nos morde, pode ficar uma marquinha, uma manifestação pequena e incômoda do que realmente precisamos fazer e que não conseguiremos esquecer.

Título original: Midnight in Paris
2011 / 94 min
Diretor: Woody Allen
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Sem assistir novos filmes num fim de semana atribulado, fechei o domingo com chave de ouro no show de Paul McCartney. Já tinha perdido o de São Paulo e não poderia deixar de ir, estando Paul no Rio de Janeiro.

Para chegar pegamos o metrô até a Central do Brasil e de lá um trem direto ao Engenhão. Foi minha primeira visita à Central, meu primeiro trem carioca. Uma fila incrível nos aguardava na entrada do estádio, mas tínhamos tempo. Fui com 3 amigos que encontro de vez em quando e foi como se o tempo não houvesse passado.

Foi incrível! Não sei se pela excitação do evento, se por ser um show grande, pelos fanáticos – como eu – que cantavam com toda a voz e pulmão todas as músicas do começo ao fim... mesmo sem conseguir ver o palco direito, valeu cada minuto. Fiquei pensando em como deve ser difícil montar um set list com tantos sucessos de carreira, mas ele escolheu bem e como nos filmes em que não leio sinopse, aqui também não sabia a rotina do show e cada música era uma grande surpresa. Cada primeiro acorde nos levava ao delírio, já reconhecíamos quase todas assim e os gritos, xingamentos, lágrimas e abraços celebravam aquela imensa comunhão musical.

Segunda teve um show extra. O amigo que foi domingo comigo havia comprado o ingresso de segunda e me disse que eu ia me arrepender se não fosse. Na verdade, quando ele me falou que já tinha o ingresso, eu comecei a sofrer. Imaginar que poderia ver o show novamente, de repente até de mais perto, ver Paul no palco junto com os músicos... reviver chorando the long and winding road... eu merecia isso. E fui.

Consegui ficar muito mais perto por um valor não tão absurdo graças ao desespero dos cambistas e não só me acabei em the long and winding road como fiz o mesmo em let it be. Não sei exatamente por que... acho que por estar sozinha naquele momento e sozinha por escolha, porque queria ficar na frente e outro amigo que foi comigo não era tão fanático assim... acho que acabei também ficando mais à vontade e me deixei levar nessas duas lindas músicas. Um rapaz me viu naquela alegria chorosa, me abraçou e me consolou, mas nem precisava... era um transbordamento feliz.

O Rio estava me entediando há um tempo e eu precisava de fortes emoções, fortes e boas que eu sabia que encontraria ali. As duas noites recarregaram minhas energias, eu estava tranqüila novamente e ainda reencontrei grandes amigos. São prazeres fundamentais. Era preciso viver. Foi importante.

Soube de uma lenda que Paul vem no último bimestre. Mesmo não sendo meu Beatle favorito, não posso encontrar com John, então... Eu tinha esquecido como é divertido ir a um show e encontrar tanta gente ali, feliz, vibrando com o mesmo motivo, na mesma energia, buscando o mesmo fim. Como nos entregamos naquelas 3 horas, esperando que elas nunca acabassem... Eu entendi porque Paul faz um show longo: é porque já conhecemos tanto as músicas que elas passam muito rápido... o tempo corre e nos perdemos. Quando olhava no relógio, me assustava como já estava perto do fim e todos ainda estavam gritando e vivendo, rindo, pulando. Valeu cada centavo. Agora é esperar.
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Se Tarkovski diz em certo sentido, o passado é muito mais real, ou de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação, é justamente deste peso e de como lidar com a recordação que trata Rabbit Hole ou ridiculamente em português Reencontrando a Felicidade.

Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) formam um casal que perdeu há oito meses o filho de poucos anos num acidente. Eles, ao contrário de estar reencontrando a felicidade – como assim definiu o título em português alguém que não entendeu o filme – buscam apenas conseguir conviver com a realidade, com o presente, lidando com um passado ao mesmo tempo feliz e triste.

Enquanto o pai tenta se apegar às recordações tentando reviver momentos com o filho em filmes gravados no celular, reclama da ausência de fotos na casa e vai à terapia de grupo na esperança de se reerguer, a mãe prefere transformar o presente, arrumando a casa, guardando e doando o que não vai mais ter uso, como as roupas e brinquedos do filho. O interessante é perceber que o tratamento da perda aqui é individual. Apesar de todos viverem uma dor compartilhada, as manifestações são particulares e é esse o ponto forte do filme.

Rabbit Hole refere-se aos buracos de coelho, parte de uma teoria sobre universos paralelos em que através deles conseguimos atravessar deste para outros universos onde seria possível viver versões de nós. Daí  vem a própria construção do poster, onde vemos frações de uma mesma pessoa. A explicação quem nos dá é um adolescente que está criando uma história em quadrinhos com esse tema. Becca o encontra e começa a ler um livro sobre o assunto. Para ela, é interessante pensar que em algum lugar, ainda que em outro universo, ela está se divertindo. Sem falar que a expressão rabbit hole nos remete a outras obras que se valem desta teoria, onde os mais óbvios são Alice no País das Maravilhas, Matrix e um pouco mais distante, A Origem. A teoria dos universos paralelos sempre esteve nos filmes, enriquecendo e tornando mais complexas as tramas. Especialmente em filmes de ficção científica. Mas aqui, funciona como um caminho para se pensar alternativas. Não tanto em relação à dor, mas como uma forma de olhar diferente o que se está vivendo, tornar suportável.

Com toda a carga trágica do filme, este não é um melodrama. A postura dos atores, a forma como foram dirigidos deixa claro que o objetivo é muito mais a sinceridade do que a pungência.  Este resultado é fruto da construção dos personagens e a de Nicole Kidman merece atenção. Ela nos prende com o menor dos movimentos, acreditamos nela apenas com o olhar, com uma frase, num personagem complexo e fantástico. Ao mesmo tempo, vemos um Aaron Eckhart crescendo. Ele ainda não tem a presença de um protagonista, mas seu desenvolvimento é notável, especialmente quando nos lembramos dele como o Duas Caras de Batman e agora nesse drama quase real. Há ainda personagens secundários, alguns descartáveis e outros marcantes como o de Dianne Wiest, que faz a mãe de Becca, uma mulher que também sofreu perdas e ajuda a filha dentro do limite que lhe foi imposto.

As construções de contexto também se tornam elementos chave. A fotografia mantém uma aura de passado, especialmente na residência do casal. Tons monocromáticos em gradações distintas, de figurino e iluminação, a fotografia em si, com um filtro de textura quase palpável e enquadramentos nos olhares, focos nas expressões e momentos de silêncio são a chave. Filmes silenciosos devem ser difíceis de fazer. Construir a cena na expressão e nos enquadramentos exige não só preparo, mas refinamento dos atores e do diretor. Talvez aqui tenha sido menos difícil ao se tratar de uma adaptação de uma peça e, já tendo sido montada, ficou mais fácil perceber os momentos onde – e aí vai um clichê – menos é mais.

Não é um filme leve. É um filme que fala sobre perda de alguém fundamental. Ao mesmo tempo, é um filme real, possível. O que vemos na tela é muito parecido com o que vivemos em algum momento e isso é doído, mas, ao mesmo tempo, conseguimos ultrapassar os apertos e perceber que não é só disso que trata o filme, mas de amor e de relacionamentos. Numa sessão cheia, conseguimos ainda gargalhar e se solidarizar, em conjunto, com o que víamos na tela.

Trailer aqui.
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Vejo agora o que eu teria que me tornar para deter homens como ele.
Batman

No fim de semana passado, Osama morreu. Talvez por ter perdido algumas noites numa gripe sem fim, quando soube da notícia na segunda de manhã, acho que não reagi da forma adequada. As notícias sobre o Casamento Real finalmente haviam saído da mídia e agora festejos como o Ano Novo apareciam na TV. Os americanos foram às ruas na noite de domingo festejar histéricos o fim de uma era. Passou. Agora as notícias que correm são radiais. Elas partem deste foco Obama matou Osama para porque, o que, quando, como, onde, cadê.

O Coringa do último Batman é o melhor vilão já criado no cinema. Ele representa loucura, com uma insanidade quase lógica. O Coringa não tem planos, desorganiza o crime dos outros com um ideal: matar Batman. Ele não tem medo, não tem religião, não tem amigos. Durante o filme, ele procura justificar para cada vítima a razão para aquele sorriso de cicatriz; a marca indelével de seu caráter estampada na face: mesmo morto, ele estará rindo.

Não há ninguém mais assustador do que esse vilão, simplesmente por conta do riso. Não há nada mais assustador do que a perversidade, a loucura consentida, o escárnio consciente, a ausência de medo. O sorriso de que derivam gargalhadas pode se transformar no terror mais brutal. 

Entendendo que o objetivo de Batman não é matar o Coringa, mas livrar Gotham City dos criminosos, começamos a nos perguntar, como os cidadãos de Gotham, por que isso estava demorando tanto. Batman havia perdido a credibilidade e já queriam bani-lo, estava causando muitos estragos na cidade, deixando inocentes morrerem. Enquanto isso, o Coringa atacava, espalhando medo, informando a todos seu objetivo e esperando um retorno da sociedade. Os vilões são sempre simples, porque são leais aos seus objetivos e não medem esforços para cumpri-los.

Após os ataques terroristas do Coringa, Batman não pôde mais ficar quieto. Ele nem queria se meter nessa briga, ia deixar para o procurador da justiça, mas o estrago já estava feito: ele estava no meio do tiroteio e tinha que contra atacar. Como todo terrorista – porque hoje em dia sabemos absolutamente tudo sobre eles – seus ataques inesperados eram o toque de gênio. Gotham estava em pânico.

Em uma cena, Batman, já em desespero encontra um dos bandidos que contratou o Coringa e pergunta onde aquele está e a resposta é: Ninguém vai lhe dizer nada. Eles sabem qual é a sua. Você segue as regras. O Coringa não segue regra alguma. Ninguém vai traí-lo por você. Se quer pegá-lo, só tem uma saída. Mas você já sabe qual. É só tirar a máscara que ele irá até você. Ou deixe mais pessoas morrerem enquanto se decide. Sabemos o que foi necessário aqui, governos que entraram e saíram, pedidos de apoio negados, rios de dinheiro, invasões, assassinatos. Todas as regras foram quebradas paulatinamente, com uma sobrancelha levantada em ar de desafio esperando um impedimento que nunca chegou.

O filme segue e um ou dois minutos depois, Harvey Dent, o procurador da justiça (e do bem, aparentemente) encontra-se com Batman. Ambos atrás do Coringa. E Batman diz: Você é o símbolo de esperança que eu nunca poderei ser. Sua luta contra o crime organizado é o primeiro raio de luz legítimo em Gotham há décadas. E numa discussão, Batman entrega Gotham a Harvey.

As analogias de um filme de super-herói com a vida real são tão gritantes, que só a descrição das cenas já revela mais do que qualquer discurso presidencial. Fica meio confuso definir quem é mocinho e bandido e isso também é legal no filme, porque Batman é o Cavaleiro das Trevas, um herói sombrio, politicamente incorreto, não um raio de sol e proteção, como o Super Homem. Aliás, falando em Super Homem, a última notícia é de que abandonaria os Estados Unidos, porque lá o pessoal estava acreditando que ele era de domínio norte-americano, quando o objetivo primeiro do Super Homem é salvar toda a humanidade.

Além disso, outras questões nos deixam de orelha em pé. O artigo do Economist que trata da ética no assassinato de Osama, de como isso foi aceito ou não mal recebido por países que antes condenavam esse tipo de operação é um deles. Ainda no livro de Ali Kamel, Bush havia solicitado apoio a estes países e todos se mantiveram incólumes numa política de não estão me incomodando, então deixa quieto. O artigo é bem feliz quando traz uma dúvida sincera: o que era de fato fundamental? Era fundamental matar Osama? Se fosse capturado vivo, seria melhor ou pior? A morte de terroristas – assumindo que quem os classifica são os EUA – é a solução final?

E, como toda a indústria do entretenimento, já temos livros e filmes em produção sobre a morte do Osama, a tropa de elite que o matou, provavelmente um perfil de cada presidente envolvido e o que mais possa corroborar a situação de forma que todos possam aceitar sem engasgos.

Se o irmão mais velho domina a quadra da escola, quem vai brigar com ele quando ele não quiser ninguém lá dentro? Num mundo de tanta diversidade e apatia política, não temos pais para dizer o que é certo e errado, se nem órgãos internacionais se manifestam. Acabaremos todos cedendo aos caprichos do mais forte para não apanharmos ou sermos colocados de castigo. É esta a democracia de que tanto se fala por aí?

Todos se esconderam sob a capa da hipocrisia. Como o Comissário Gordon permitiria o Batman matar o Coringa, aqui ninguém manifestou repúdio ou, pelo menos, alguma estranheza nos festejos em torno de um assassinato. Há, inclusive, justificativas cordiais para tanta alegria, outro fato assustador do momento. Nem se ouve falar em direitos humanos, ONU ou qualquer coisa do gênero. Que fique claro: o objetivo não é defender, proteger, salvaguardar a honra do terrorista, mas se fazer entender que matá-lo não transforma ninguém em herói. Ainda que acabem por transformar o bandido em mártir.

Se Batman usa a mesma moeda que o Coringa – que consegue até transformar o correto procurador no Duas Caras – quem vai nos salvar ou, mais importante: de quem seremos salvos? E se outro dia aparecer um Coringa mais louco? Os países que se oporiam continuarão na política de vendar os olhos? Ou será que tudo vai terminar como os filmes de Jason em que nos preocupamos em saber onde está a cabeça do serial killer para provar que ele morreu? Enquanto todos se ocupam com perguntas de esquiva, perde-se o motivo do crime, ou melhor, da legítima defesa, justiça, paz e igualdade porque tanto prezam os super-heróis.
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Os primeiros cinco minutos de um filme costumam ser os mais importantes. São eles que prendem o espectador no cinema, selando o pacto da ilusão e, ainda que não garantam sua estadia até o fim da história, conseguem intrigar quem a assiste. Assim faz o diretor Denis Villeneuve em Incêndios.
Ao contrário do que costumo escrever aqui, a história não é simples. A primeira seqüência nos deixa em alerta: uma música pesada, forte e alta do Radiohead acontece enquanto vemos longos planos – agora não me recordo se é um plano-seqüência ou tem alguns cortes, mas a cena é lenta – de um garoto tendo sua cabeça raspada numa espécie de reformatório. A criança olha para a câmera e percebemos que, no mínimo, tem alguma coisa errada com ela. Mas não, esse não é um típico filme de terror.
A secretária de um tabelião morre e deixa de herança para o casal de filhos gêmeos duas cartas. O tabelião é responsável por ler o testamento da mãe, que inaugura uma aventura no melhor estilo Joseph Campbell: a menina vai à busca do pai que acreditava estar morto enquanto seu irmão deve encontrar um terceiro filho de sua mãe, que eles desconheciam a existência. O objetivo de cada jornada é entregar uma carta e assim ela descansará em paz, com um enterro digno e terá cumprido suas promessas.
Logo de cara percebemos que os gêmeos Simon e Jeanne Marwan não tinham uma relação muito feliz com a mãe, Narwan. Simon admite que agora terá paz e não procurará ninguém; quer enterrar a mãe da forma correta, enquanto Jeanne, professora assistente de matemática pura numa universidade, para resolver esta equação complexa e querendo satisfazer este último desejo, investe na busca por seu pai. Assim, encontra o passaporte da mãe, uma foto com dizeres árabes numa parede e um crucifixo. Embarca para o Líbano.
Aqui quase nada sabemos. Em algum momento durante o filme há a referência ao Líbano, mas é muito sutil, dando a impressão de que para o diretor não importava identificar um país no Oriente Médio já que os conflitos ali são disseminados. Essa situação embaralhada me deu agonia e senti falta de um embasamento mais forte do que a escola me ensinou sobre Oriente Médio, religiões e conflitos. Não entendia, por exemplo porque Narwan sendo católica em alguns momentos tinha que esconder seu crucifixo, mas em outro, exibí-lo foi suficiente para salvá-la. Não compreendia a frente de luta católica num país mulçumano que, pelo que vemos na TV, tem embates rotineiros com os judeus. Resolvi acabar com a ignorância e parti pra outra aventura, após o filme: o livro de Ali Kamel – Sobre o Islã – e não só não consigo largá-lo um minuto, como descobri uma parte imensa da história que eu desconhecia. 
Investigando também na internet, consegui entender as referências que corroboram ser o Líbano, pano de fundo do filme. Quando Jeanne visita o país em busca do passado da mãe, lhe dizem que para conhecer a região, há que visitar o sul. Foi justamente lá que eclodiu a guerra nos anos 80 onde mulçumanos, judeus e cristãos se envolveram em conflitos sangrentos que deixaram de saldo vítimas nas três religiões. É aqui que justifica como a religião poderia proteger e boicotar as defesas de nossa protagonista.
Incêndios é título e referência óbvia para o que se passa no filme. Durante os flashbacks que contam a história, vemos massacres dos conflitos em cenários destruídos por uma guerra que não acabou. Essa idéia chega ao presente com as ruínas que Jeanne visita; ela busca redescobrir a mãe a partir do encontro de um pai que nunca soube ter.  Em um determinado ponto do filme, depois de ver os desdobramentos de Narwan numa tragédia clássica, fiquei me perguntando se aquela cronologia era possível; se era possível  viver tanto, tanto sofrimento, em uma vida só. Destrinchando: uma mulher grávida vê o namorado ser assassinado por seu irmão, tem o filho, é obrigada a abandoná-lo, se muda para a capital. Quando a guerra explode, foge da família e vai a busca do filho, se envolve na luta para assassinar um opositor importante do governo, é presa por 15 anos, torturada, estuprada e consegue, de alguma forma, parar no Canadá.
Os gêmeos, que nada sabiam deste passado e vão descobrindo com a mesma distância que o espectador – por isso o melodrama não acontece – percebem que a mãe fria que eles conheciam era só uma fração da mulher que ela foi; um resquício de passado resumido numa vida pacata no Canadá. Simon, a pedido da irmã a encontra e passa a fazer parte da história, vendo também ele, como e o que tornou sua mãe a que ele conheceu. A relação destes irmãos agora perdidos, numa jornada que os confunde no coração onde também fica difícil se reconhecer, é um pouco a sensação que o espectador tem até o clímax, quando as soluções são encontradas e o final se torna mais impactante do que os incêndios na tela.
O filme segue cheio de detalhes que enriquecem a trama. É longo e isso também é notado a cada desdobramento. Ficamos nos perguntando, ali sentados o quanto conseguimos agüentar assistir, com tanta tensão; funciona como aqueles jogos de estratégia em que, vencendo uma etapa outro desafio mais complicado se abre para nós. Ainda na referência da matemática: o professor titular com quem trabalha Jeanne dá a dica, dizendo que não adianta; vocês vão se cansar, ficar frustrados, sozinhos e a equação vai trazer uma resposta ainda mais complexa. No caso deste filme, outro nó para os personagens, uma nova tragédia na tela.
Bresson diz em uma de suas Notas*: sua imaginação vai mirar menos os eventos que os sentimentos querendo esses últimos os mais documentais possíveis. Essa relação de importância com o sentimento é o que move o filme; a transformação dos personagens; o crescimento do irmão oculto, os gêmeos frente à descobertas, o final. O foco nunca esteve nos eventos por trás da história, nos incêndios literais, mas naqueles que ocorriam internamente em cada envolvido. Talvez por isso não conquistou o Oscar de filme estrangeiro, por não ser um filme de vencedores e vencidos; dentro um contexto real em que os EUA estão presentes e sequer aparecem de relance na tela dentro de uma história que poderia ser explicitamente política e buscou o foco numa dinâmica familiar.  
Há tanto para se dizer deste filme, que terminar por aqui incomoda. Ao mesmo tempo, seria preciso falar do contexto e não da trama, dos atores incríveis, do personagem ambíguo do tabelião – Remy, de Invasões Bárbaras – do terceiro filho e de como sua história cresce; da trilha sonora que pontua momentos com músicas atuais e que colaboram para o desenvolvimento do filme no presente; de como a montagem segue lenta, mas nunca entediante; fazendo com que nós descubramos a história a partir dos relatos dados aos gêmeos – e enriquecidos com as cenas em paralelo da mãe naquele presente já antigo.
Encontrar uma realidade como Ali Kamel cita, parecida com a que vivem as pessoas nas favelas controladas pelo tráfico, só que no Líbano com o Hezbollah, o morador não concorda com os traficantes, odeia o que eles fazem, mas se submete, com medo de ser morto. Por fim, fica a curiosidade de saber o que quase passou despercebido; como foi sua ida ao Canadá? Como vive a comunidade mulçumana lá e como funciona essa rede de comunicação e esses poderes extraterritoriais e além-governo? Talvez esta resposta esteja no olhar enigmático do tabelião, que guarda o mistério e espera que ele se descortine, ao invés de nos mostrá-lo de graça, o que transformaria essa história num conto previsível.

*BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Ed. Iluminuras, São Paulo. 2005.
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Outro dia, saindo mais cedo do trabalho, entrei no ônibus do metrô. Algumas paradas depois, e eu sentada na penúltima fileira, seguia distraída lendo um livro sobre o universo dos surdos, quando o senhor que estava do meu lado se levanta bruscamente e cede lugar a outro, cego. O toco com a mão e ofereço o braço para que se apoie enquanto senta. 

Este senhor é um pai de uma família de cegos: mulher e dois filhos. Não me lembro se ele me contou como conheceu sua mulher e nem como chegamos a esse ponto da conversa, recordo que ele frisou que a família era como ele. Acho que tudo começou com um ‘que horas são’. 

Em uma cena de O Fabuloso destino de Amélie Poulain, a protagonista decide se tornar a heroína de sua própria história e livrar o mundo de forma divertida dos injustos. Uma das coisas que fez, é ajudar um senhor cego a atravessar a rua, lhe narrando tudo o que acontece à sua volta. De forma rápida, imagino eu, as imagens iam se construindo no pensamento daquele homem, dando um ar de novo aos sons que ele ouvia por hábito. Com o meu vizinho de ônibus, tive que abandonar a história de quem não ouve para aprender a de quem não vê.

Eu só havia conhecido um cego em toda a minha vida. Era um massagista, colega de trabalho de minha mãe, fisioterapeuta. Eles trabalharam juntos por anos quando eu era adolescente e sempre que eu ia à clínica de meus pais ele estava ocupado. Tinha lista de espera. 

O cego que conheci também é massagista. Também tem fila de espera. Imagino que a privação de um dos sentidos intensifica os demais; principalmente a audição e o tato, que agora são estes de que depende mais primordialmente para viver. Percebi que ele tem consciência do que o cerca, falou de brincadeira sobre o ponto final do ônibus do metrô, que insistentemente os motoristas sempre param de forma que a porta de saída fique de frente para uma árvore. Ele dizia que era de propósito, para testar sua atenção. 

Uma parte de mim se sentiu como uma criança ao ver alguém diferente pela primeira vez. Mesmo tendo conhecido o amigo de minha mãe, nunca estive tão perto fisicamente com alguém que me parecia tão à vontade. Ele não se portava como uma vítima, pelo contrário, me contou numa conversa tranquila e gostosa como vivia numa casa com um terreno grande, que plantava e cuidava do quintal com a mulher, e minhas perguntas insistentes eu guardei pra mim. Minha vontade era de descobrir como ele imagina, como cria imagens, se compreende o conceito de cor. Ele frisou, quando soube que eu trabalhava numa TV, que ouvia muito rádio; claro, pensei, muito mais eficaz do que a televisão.

Não consegui perguntar quase nada, tive vergonha. Não sei como são as reações das pessoas e não queria que minha curiosidade se transformasse num abuso, numa invasão, num desconforto. Tinha perguntas de criança, perguntas simples, diretas e sem ternura, de quem quer saber como o mundo funciona com restrições. Talvez também por isso esteja lendo sobre os surdos. Entender a forma do pensamento sem termos todos os veículos que permitem a compreensão é um desafio e é algo que me motiva profundamente.

Então, enquanto ele falava no trânsito – que dessa vez pedi mil engarrafamentos para que demorasse um pouquinho mais – eu olhava pra fora, através da janela fechada aquele mundo todo de paisagens banais que vemos todos os dias quase do mesmo jeito e não imaginamos como elas são importantes.
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Apenas pelo cartaz, já temos uma idéia de como será o filme. Dois âncoras televisivos: Harrison Ford sério, Diane Keaton sorrindo jocosamente para ele. No meio, uma garota entre telefones e papéis com uma expressão atrapalhada no rosto. Sem nem olhar os grafismos, já dá pra ter uma noção do que vem pela frente: comédia romântica.
Não tão romântica se partirmos para a definição do ‘gênero’ (menino conhece menina etc, etc.. são felizes para sempre), já que a história não trata disso. Aqui uma produtora de TV perde o emprego em New Jersey e é contratada para trabalhar na mesma função em NY, ganhando menos, num programa fraco. Ela é a produtora executiva do Daybreak, um programa de entretenimento matutino parecido com os que temos na televisão brasileira. Notícias, futilidades, frivolidades e, por que não, imbecilidades.
O conflito se instaura quando nossa heroína, no primeiro dia de trabalho demite o âncora galã-estúpido e precisa encontrar outro em pouquíssimo tempo. A solução está no personagem de Harrison Ford, um jornalista premiado anos atrás que, claro e como qualquer pessoa faria, recusa a oferta. Nesse embate, contratualmente ele é obrigado a fazer o programa e os problemas só aumentam.
O filme tem boas idéias que explora pouco: é estranho como a roteirista de O Diabo Veste Prada não investiu tanto em pequenas e ótimas seqüências – a mocinha vai a NY procurar trabalho, vai procurar lugar pra morar, as cenas dela com o mocinho tinham fôlego, poderiam ser continuadas e mais embasadas... e ficamos presos nesses embates Harrison Ford x Diane Keaton, Harrison Ford x Rachel McAdams, Rachel McAdams x mundo... o roteiro enfraquece e até com todos os problemas na cabeça, você percebe que está no cinema e a ilusão vai embora. A atuação de todos é extremamente caricata – entendo que é o estilo do filme – mas ultrapassa em muito essa idéia e esvazia os personagens.
Esta não é uma comédia escrachada, não é Mike Meyers ou Jim Carey, não segue por aí – mas tem cenas que até os envergonhariam porque ficam entre o escracho e o plausível e não funcionam. A própria postura de nossa protagonista, como li em uma crítica, beira o despreparo profissional; uma produtora executiva tem que ser atenta, firme, prática, objetiva. Não deveria ser a garota perdida que derruba coisas o tempo inteiro e tem uma primeira atitude firme para amolecer no que sobrou da história. Houve alguma transformação no personagem, é visível, como nos outros dois de que falamos, no final todos vão em busca do mesmo objetivo. Agora, depois disso tudo, me diga uma coisa: se você recebesse a oferta dos sonhos, diria não? 
Acho que este filme está perto de uma versão pobre de Bridget Jones em seus momentos de ridículo na televisão. Eles tiveram muito e fizeram pouco, baseando-se na credibilidade da equipe: diretor de Notting Hill, roteirista de Diabo Veste Prada, o próprio elenco... e juntando tudo, ainda não funcionou bem. Em todo caso, para mim, há momentos de identificação com a transformação do personagem, a pressão do trabalho – apesar de nossas ‘produções’ serem diferentes, a mudança de endereço, mas acabam aí. O perfil é realmente diferente.
É óbvio que é um filme bobo. Pelo cartaz, pelo trailer, não tem pra onde correr. Não espere demais, faça como eu: esteja estressada e cansada - porque qualquer coisa leve, boba vai ser ótima e pensar demais nesses momentos não vale mesmo a pena. Se fôssemos voltar aquela história do Sessão da Tarde, esse certamente não ficaria entre os melhores.
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Aparentemente, além de mim, há muita gente buscando em suas raízes, temas para filmes. Ou que fazem da busca um próprio filme. Como eu, essa diretora foi em busca de seus avôs, redescobrí-los, reconhecê-los e partir deles para contemplar o todo.
Abuelos conta a história de Reno e Juan, um médico autodidata equatoriano e um ativista político chileno engajado no tempo em que isso custava a vida. Carla Valencia D’Avila é o elo; a neta destes latino-americanos com histórias incomuns e pouca convivência com eles. Mas a pergunta que alguns se fazem é: mas o que eu tenho a ver com isso? Ou: por que me interesso por isso, já que não é minha a história?
Os documentários nasceram pessoais. Os Lumiére ligavam suas câmeras e registravam momentos em família, os filhos pequenos, passeios nos parques. Claro que não só isso, porque foi deles também o trem que apavorou todos no cinema e a clássica saída da fábrica. Mas desde muito cedo se registrava em filme momentos íntimos, familiares, histórias que partem de um interesse e com enfoque pessoal abrangendo muito mais.  Um professor de Cinema já me dizia que para falar sobre o correio, parta da carta.
Não apenas nós, mas Sandra Kogut, João Moreira Salles, Kiko Goiffman buscaram dentro de casa, histórias para nos contar. Esse é um mote comum; sem falar dos cineastas que partem das histórias pessoais de outros para construir seus filmes e aí Eduardo Coutinho por si só me resume todo o parágrafo. As questões aqui são: todas as histórias bem contadas, ainda que pessoais, extrapolam o doméstico e é muito fácil se identificar a partir da história do outro; ainda mais se ela trata de assuntos de família.
Aqui acontece o mesmo. O avô Juan foi um militante em prol do desenvolvimento do Chile, país que tanto amava. O Chile estava no período da ilusão – como vários outros países da América Latina – quando se desenvolvimento social e político prometia uma ascensão econômica, mas seu engajamento o levou a um campo de concentração quando Salvador Allende foi assassinado e a ditadura militar assumiu. Carla, nossa diretora, nunca o conheceu. Sua investida parte de histórias da vida de seu pai e tios, encontrando aquela situação política que ultrapassava fronteiras. E numa dessas, precisamente em Moscou, seu pai conheceu sua mãe, uma equatoriana um tanto diferente. Este seria, portanto, o único meio possível destas duas famílias, tão díspares se unirem.
Carla conheceu Reno e só assim, pudemos perceber que seu avô seria perfeitamente um personagem de Gabriel García Márquez. Repleto de histórias fantásticas – agora reais – esse médico autodidata salvou vidas com curas milagrosas a partir de suas fórmulas de imortalidade em comprimidos. Por mais surpreendente que seja a ponto de parecer ficção, é tudo verdade. E é essa a verdade que transcende o filme; aqui já falamos de curas alternativas, de fé, de política, de ditadura. Onde mais haveria identificação? São temas para todos partindo de um.
O filme é muito feliz em sua construção. Como aconteceu comigo, a própria diretora conta sua história, é sua a voz que ouvimos. Não havia outra maneira, acredito eu, já que a investigação também parte dela. As conexões que ela faz com as duas famílias, mantendo ainda uma separação para que não se confundam equatorianos com chilenos é importante para o espectador e chega num determinado ponto do filme que já estamos íntimos daquela história, mais uma vez, como nos livros de Gabriel García Márquez. Não só isso, há ainda a montagem que segue paralela, numa analogia entre o abundante verde da região amazônica, com suas matas densas e rios caudalosos e a secura do deserto chileno; um mar de areia para ressaltar o vazio daquele que ela não conheceu. Também, a violência de um fim com a suavidade daquele que se dizia imortal.

Conhecendo as famílias por seus nomes e relatos, nos confundimos pouco o quase nada e com o final triste – já que sabemos que os dois estão mortos – relembramos nossa própria trajetória, nossas história e famílias, como se uniram, que laços também mágicos estão presentes e quem são nossos heróis. Carla, contando sua história e buscando um passado, trouxe um pouco de cada país, um pouco de culturas mescladas, tudo de América Latina e também nos fez encontrar nossa própria família, que nos esperava em pensamento, do lado de fora da sala do cinema.

Aqui, o site do filme.
E o trailer.
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Investindo no É Tudo Verdade mais uma vez, consegui assistir ao debate sobre o mercado internacional de cinema documentário. O interessante foi, além de saber um pouco do financiamento para co-produções Brasil-França, ouvir sobre Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. Este foi o filme do Festival do Rio 2010 que ganhou meu coração, minha alma e tudo mais que podia existir em mim naquela tarde no Odeon.

Viajo é um filme de estrada, de saudade, de nordeste. É uma fotografia do Brasil de dentro. Você sente a película vibrando com os batimentos dos corações de quem a produziu e toda a beleza do filme está na simplicidade, numa história linda que tem tudo de real e fantasia.

A produtora do filme, Daniela Capelatto, estava na mesa. Ela nos contou que Viajo, foi o filme brasileiro que mais percorreu o mundo ano passado. Ele foi pra diversos festivais e concorreu como Ficção e Documentário, ganhando prêmios nas duas categorias. Como pode isso? A questão não está na categoria que assinalamos nas fichas de inscrição, mas no que diz o filme. A câmera de Viajo adentra o Brasil verdadeiro, encontra não-atores, realidades, rotinas, vidas reais ou, pelo menos, vidas possíveis. Ainda que o fio da meada seja uma história inventada, o entorno é muito mais documental do que fantasioso.

A categorização livre ou abrangente insere possibilidades infinitas de criação. Nada disso é novidade nas entrelinhas, se pensarmos em muitos outros docs que se valem da reconstituição ou até os mocumentários*, sobre assuntos criados, realidades inventadas. Recordo imediatamente do filme de Renato Gaiarsa, do último post. O filme que fiz para não esquecer é uma história real, que parece sempre se dar no presente, porque trata de uma ausência, da separação de um casal quando nitidamente os percebemos e sentimos na tela. A forma poética que o autor escolheu o permite se desvencilhar também de rótulos; ele pode sugerir uma ficção tanto quanto um documentário. O mesmo vale para meu avô, se investirmos no assunto. Eu poderia ter criado um avô e, ainda que não seja este o caso, utilizei imagens reais de outros grandes personagens da História para o representarem, também aqui, ilusão.

Os Cavalos de Goethe não passam despercebidos. Artur Omar abriu a sessão, apresentou seu filme e nos deixou à distensão do tempo. Seus cavalos e homens se tornaram pinturas, retratos vivos do presente que se descortina na tela. O que vemos é uma produção sem definição – ou joguemos o quase finado termo ‘videoarte’ – onde, a partir de um evento real faz se a desconstrução e nos permite outro olhar; força-nos a enxergar diferente, sentir diferente.

Ao tempo que é incômoda a lentidão das imagens, não conseguimos fechar os olhos. Eu já vi alguns trabalhos deste artista e já o estudei um pouco na faculdade, então fui preparada. Imagino que a primeira vez com esse filme pode ser impactante. Alguns saíram da sala. Cavalos e homens montados num jogo no Afeganistão. Uma platéia assiste. Nós assistimos a platéia que assiste e ao espetáculo dentro do filme. Os efeitos visuais nos atraem quase com morbidez. Não conseguimos não ver. Também lembrei de Eadweard Muybridge lá no século XIX – antes do cinema ter nascido oficialmente – que usou o cinematógrafo para registrar justamente o movimento dos cavalos, das articulações, dos músculos num hipódromo. Esse registro era puramente científico. Com Artur Omar, estávamos quase frame a frame. Lembra um pouco as pinturas de Caravaggio, com a profundidade da fotografia, seus tons, os contrastes de luz e sombra agora num ambiente com luz natural. E as interrupções de ritmo com frases encadeadas para associarmos, a música irregular, solavancos de áudio e visual, sempre um exercício de apreensão e vislumbre.

Também aqui não podemos rotular. O que é isso, uma instalação? Talvez ficasse melhor numa sala escura sem cadeiras, numa exposição. Mas aí ninguém veria o trabalho completo, mas frações. Uma ficção? Ele certamente manipulou e subverteu a imagem. Um documentário? Estamos tratando de fatos reais com pessoas reais e tema real.

Diante de tantas questões, o que menos importa é a resposta. A grande chave dos filmes está na verdade que imprimem em nós. E todos os filmes citados são felizes nisso.  Conseguimos adentrar em seu universo, nos deixar levar pelo que vemos, ainda que as sensações sejam diferentes em cada obra. Estes filmes estão bem alicerçados em seus sistemas de coerência e são híbridos, ultrapassam as barreiras da taxonomia e podem seguir livres, cativando e se deixando consumir por quem os aprecie.

* Mocumentary ou pseudocumentário é o 'gênero' de filmes com estética documental, mas que tratam de temas fictícios.
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Em 2008 participei de uma oficina de Cinema de Arquivo que fazia parte do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Neste projeto nasceu No tempo de meu avô, que rendeu a nós dois o prêmio de melhor roteiro. Acho que ele não chega nem a três minutos.

A duração de um filme não diz muito sobre ele. Bom é aquele que perdura em nossa mente e nos faz revivê-lo, reconstruí-lo, criar uma seqüência para uma história que acabou ali, assim que os créditos passaram e as luzes foram acesas. Ontem, antes do filme dinamarquês, vi uma sessão de curta-metragens brasileiros da mostra competitiva. Entre eles estava O Filme que fiz para não Esquecer.

Terminado há pouco tempo, esse foi até agora o mais bonito e sensível que vi no Festival. Durante a mesma sessão encontrei com Coutinho Reporter, um filme que não recordo o nome sobre um poeta – um pouco repetitivo – e São Silvestre. Dos quatro três são bem bacanas, mas devo meu coração ao filme deste baiano radicado em São Paulo. São Silvestre é um filme muito bonito sobre a corrida anual em São Paulo, quando a Avenida Paulista recebe corredores do mundo inteiro para lhe cruzar o caminho. É um filme em que o coração aperta, dá vontade de ser corredor para fazer parte daquele grupo de pessoas que lutam o ano inteiro para estar ali, driblando os problemas e mantendo a disciplina. São 15km, não é brincadeira. O diretor foi fundo e conseguiu fazer um filme coração.

Para Coutinho teremos um capítulo à parte, é muita história para um parágrafo só. E voltamos ao filme de Renato. Conheci Renato Gaiarsa nos corredores da minha faculdade de cinema, o reencontrei numa videolocadora no século passado e hoje nossos caminhos se cruzam assim, em festivais. Estivemos juntos em Gramado e agora, de surpresa e sem contato, abro o catálogo do festival e lá está ele, com um filme surpreendente.

Renato tinha uma namorada e durante uma viagem ao Uruguai descobrem que o presente muito em breve se tornará passado. O filme é sobre o fim do relacionamento, quando não havia mais como, porque, quando continuar. E de uma forma suave, com a voz da moça baixinha como uma gravação perdida no tempo e a direção do rapaz, o que era amor se transforma em saudade, um sentimento comum, conhecido de todos, ainda sentido por muitos.

A construção do filme sugere um fluxo de imagens ligada pelo verbo e por nossa protagonista. Sofia passeia, atravessa os caminhos do diretor como as mocinhas dos filmes de Wong Kar-Wai. Deste, lembrei diretamente de Amor à Flor da Pele, por mais díspare que soe assim, cru. Em Amor à Flor da Pele, percebemos a densidade da fotografia, quase podemos tocá-la com os dedos e atravessar a tela, indo de encontro a outro casal repleto de expectativas e anseios. Aqui, a câmera íntima, participativa, sendo convocada a todo instante para um encontro que, por fim, é o último, traz a mesma percepção. E a voz doce da heroína nos mostra a saudade, o fim, um espaço compartilhado em outra cidade que agora estará vazio. Como se separar? Como se afastar dos objetos, fotos, lembranças? Como mandar embora as histórias?

Este filme traz um fim tão doce e sincero que, mesmo sabendo que não deu certo como o filme conta, dá muita vontade de dizer: voltem! Por que terminar...? Como se fizessem parte de nossa história. E na mesma sessão, o filme se tornou mais poético do que aquele sobre um poeta. Com apenas três minutos e meio.
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À primeira vista, logo na apresentação da sessão, Amir Labaki nos introduz a Jorgen Leth, o diretor dinamarquês. Simpático, falante, assume o filme como extremamente pessoal e desinteressado da crítica e público, mas um tanto curioso para responder às futuras perguntas. Não falou muito sobre o filme, apresentou seu filho musicista e autor da trilha e vamos lá.


Corpos nus. Corpos femininos nus de mulheres jovens do Brasil, Venezuela, Haiti, Filipinas, Laos... não vemos América do Norte nem Europa, um pouco de Paris, sutilmente... por mais que eu tentasse ver o filme sem a ótica clichê da exploração sexual nos países ‘subdesenvolvidos pelo colonizador’, foi quase impossível fugir disso. O filme é sensual, mas não erótico.

O que entendo como erotismo é uma definição que se completa com o mistério. O erotismo pode estar num olhar, num sorriso e mais do que tudo, no que não se vê. É justamente o que perdemos aqui. Todo o exibicionismo dos corpos nos deixa com uma sensação de vazio ao tempo que o objetivo do erótico se constrói apenas com as questões do protagonista-diretor, mas jamais com respostas. É como uma adolescência tardia, desvendar o erotismo com poses e nus. O objetivo não seria o contrário?

Assisti com um grupo de 4 rapazes latino americanos. Saímos do filme e comentando com o venezuelano, chegamos à conclusão de ser sobre um senhor de meia idade que resolve viajar para se divertir com jovens e lindas mulheres. A forma como a câmera as invade nos quartos de hotel torna tudo ainda mais estranho. É um filme de exploração. Na seleção do elenco, ele as informa de que é um filme para reviver momentos do passado, romances antigos e que, com isso, elas irão sempre a um quarto de hotel se despir e ele vai filmar. Não teremos cenas de sexo. Durante o casting, vemos uma personagem que se diz atriz e ‘engole cobras’. Por mais inusitado que seja o fato na vida real, carregá-lo dentro de um filme com uma temática bacana, mas numa forma estranha, deixa tudo um pouco pior - grotesco e gratuito.

Fui ao filme achando que encontraria algo diferente. Vi um filme do diretor ano passado e me chamou atenção sua desenvoltura com a linguagem, como surpreendia a cada nova investida do produtor. The 5 Obstructions é um filme incrível. Lars Von Trier impõe cada vez mais regras para fazer a mesma seqüência e Jorgen Leth consegue vencê-las com maestria. Entendi que novamente veria algo interessante.

Ainda nos testes de elenco, ele faz questão de informá-las que não haverá cenas de sexo. Uma mulher nua num quarto de hotel já não imprime sexo na tela? Os closes justamente nas partes 'sensuais’ do corpo não são um indício? Será essa provocação o objetivo final? Mais feliz seria o filme que vi há milênios, Uma Relação Pornográfica. Aqui, uma mulher e um homem se encontram após responderem a um anúncio de jornal com o objetivo de realizar suas fantasias sexuais num quarto de hotel. É um filme belíssimo, inteligente, divertido e que mostra tudo o que precisamos ver.

As cenas de Erotic Man realmente causam impacto e ele nos informa, enquanto ator e autor em sua obra, que pretende descobrir o homem erótico e tentar transpor o erotismo na tela, mas o que vemos são corpos em camas, com um texto poético que se repete talvez tentando imprimir algum sentido de conjunto, que termina no vazio. É a expressão do que parece ser o sonho, desejo, capricho ou fantasia do diretor, num filme feito para si, como nos alertou e de fato não passa disso. Em todas as cenas em que se apresenta, apenas questiona, mas nada responde. Melhor seria deixá-lo em sua casa, para deleite próprio.

Da mesma forma como a estrutura do filme é de repetição da ação, tento não trazer isso para o texto e recordo a fotografia que remete ao passado, com uma névoa, uma imagem não tão limpa como nos acostumamos a ver – aí sim, um ponto positivo – e não muito mais.

Duas cenas chamam atenção por motivos diferentes: uma rememora Acossado, quando uma negra – vestida – senta-se numa cadeira e se vê observada por um homem com um palito na boca. A troca de olhares, os óculos Ray ban do homem, os closes e seu palito; a expressão final o transforma no grande personagem de Godard, Michel Poiccard. A cena número dois é mais impactante, polêmica e ainda tento entender sua razão no filme. Vemos uma cerimônia religiosa – candomblé, umbanda ou alguma parecida – em que uma de nossas protagonistas está incorporando alguma entidade e se manifestando. A cena se desenvolve, vemos o protagonista-diretor distante e vendo tudo do alto numa varanda, acompanhando o transe crescente, ela dançando, se transformando, se movimentando numa forma cada vez mais insinuante, claramente ‘fora de si’, exibindo seu corpo numa provocação, mais uma vez, sensual. Por que esta cena? O que se buscava com isso? Não seria um desrespeito a uma cultura que não pertence ao diretor? Não é um olhar colonizador se impondo sobre o colonizado mais uma vez?

Saí desconfiada, com um ‘sei não’ estampado no rosto. Uma parte de mim se sentia perdendo tempo com essa exibição e a outra, mais condescendente dizia que serviu para pensar, ainda que a estrutura do filme não se sustente e que s epercebam questões difíceis de aturar. Vemos imagens, criamos conceitos com o filme, levantamos questões, saímos com ‘mulheres bonitas’, ‘países exóticos', ‘dinamarquês’, ‘belíssima fotografia’, na cabeça. Não digo que falta justificativa – porque esse não é a finalidade dos filmes – mas também não encontrei objetivo. Por fim, acho que a vaidade, o machismo e o narcisismo foram além e os patrocinadores acreditaram em seu perfil de obstruções para confiar nesse novo 'sucesso' de filme de homem branco europeu. 

*Trailer aqui.
*Esse e outros realmente bons no É Tudo Verdade 2011.
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Acabo de voltar do cinema. Vi com uma amiga uma comédia romântica gostosa que nos deixou comentários divertidos e comparações com a vida real. Não é o melhor filme do mundo, mas também não é uma sessão da tarde, como ouvi na saída. O que me chamou a atenção foi como compreendemos tão rapidamente essa ‘sessão da tarde’ e com base nela conseguimos julgar a qualidade de um filme.

Sem levar tão a fundo a discussão, definir a qualidade de um filme no cinema como ‘sessão da tarde’ pode ser mais complicado do que aparenta. Para quem chegou ao Brasil hoje, Sessão da Tarde é uma faixa semanal da Globo de exibição de filmes. É naquele meio de tarde de segunda a sexta, onde estão em casa as crianças, os aposentados, pessoas enfermas ou de folga – meio sem ter o que fazer – e que assistem a um filme qualquer que esteja passando. Mas que filmes são esses?

Hoje eu realmente não sei. Tive uma ampla cota da programação durante minha infância e adolescência e vi alguns filmes incríveis que hoje tento encontrar. Curtindo a vida adoidado, Clube dos 5, Gatinhas e Gatões, Esqueceram de Mim, História sem Fim, Labirinto, A Lagoa Azul, Meu Primeiro Amor, Conta Comigo, Os Goonies, Gremlins, Ghostbusters, Os Garotos Perdidos são os que lembrei agora e  por quais quase todos da minha geração são aficionados. Garanto que alguns, inclusive, são melhores do que o que vi hoje. É meio nebuloso identificar os outros filmes incríveis, não me lembro agora se estavam enquadrados nesta Sessão, mas acho que sim, como Te pego lá fora, Três Solteirões e uma pequena dama, Querida, encolhi as crianças, Olha quem está falando, Quero ser grande, Harry e Sally. São também deliciosos.

Os filmes que me moldaram e me fizeram ser esse aglomerado de pensamentos, sentimentos e o que mais possa existir para definir uma pessoa, tinham uma comédia ingênua, boba. A adolescência era o primeiro beijo aos 14, o primeiro amasso, as amigas-irmãs, os grupinhos de escola, as brigas bobas, as piadas bobas, o rock’n roll não tão pesado, o primeiro porre. Tudo bem que minha adolescência foi um retardo da infância em grande parte, mas ainda assim tinha relação com o que acontecia nas sessões da tarde e nessa época ninguém se importava com dublagens.

Acontece que nem só de bons filmes vivíamos. A Sessão da Tarde conseguia ser muito trash algumas vezes, com filmes repetidos até a exaustão e que só copiavam fórmulas de sucesso anteriores. Seqüências de alguns filmes acima é o exemplo. Esqueceram de mim foi até o 4 e tivemos também o impossível De Volta a Lagoa Azul, só pra sentir o drama. Não dá pra aturar essas coisas e é daí talvez que venha a expressão da mocinha que saiu do meu filme hoje. Mas este também não era ruim de todo...

Estamos falando de Sexo sem Compromisso, com Aston Kutcher e Natalie Portman. De cara, você já sabe que é uma comédia romântica. Não precisa nem ver o trailer, basta ver o cartaz. De cara, você já sabe que tudo acabará bem e que é um filme alto astral, não importa o enredo. É a mesma coisa de sempre: mocinho conhece mocinha. Os dois se separam.

Tudo acaba bem. Saímos felizes e com inveja daquela ilusão toda. É sempre assim. São comédias românticas, feitas especialmente e sob medida para nos causar esse efeito. E não adianta teimar com isso: o mocinho e a mocinha são lindos. Sempre. Partindo desse princípio, podemos deixar de lado o excesso de crítica e nos entregar, como quem não quer nada, a alguma distração boba.

Não é o melhor filme dos dois atores, na verdade passa longe disso, mas também nos ocupa com bobagens positivas, ilusões desnecessárias – como diria o mocinho de outra comédia romântica (essa sim, muito boa) 500 dias com ela – e risadas cúmplices. A verdade é: normalmente os rapazes não gostariam deste filme, as moças o acham bobo e é, de fato. Mas eu sou boba e me diverti bastante. Se fosse enquadrar na Sessão da Tarde, colocaria um tanto abaixo de Harry e Sally, mas ainda distante de De Volta a Lagoa Azul ou, pra quem não os viu, entre a clássica comédia romântica super legal e o cúmulo da inocência num filme que perdeu a diversão e deixou apenas o tédio.
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Quando estava na faculdade de cinema anos atrás, estudei um pouco sobre linguagem. Numa matéria que não me lembro agora – se oficina de comunicação escrita ou semiótica – tratamos da origem da linguagem, do fim da oralidade para a escrita e me surgiu uma questão que ficou sem resposta: como é pensar sem palavras? Porque, toda vez que pensamos, frases, verbos, construções lingüísticas são feitas em nossa mente. Como Oliver Sacks diz em Vendo Vozes, a fala faz parte do pensamento.

vendo-vozes

Estava no sebo aqui na frente de casa – que por sinal vai fechar as portas e me deixar tristíssima mês que vem – vendo se achava alguma coisa que me despertasse a curiosidade e meio sem querer, o cara que trabalha lá me mostrou esse Vendo Vozes. Resolvi levar e, entre a dúvida e o arrependimento por ter dito isso, fui pra casa com o livro na mão. Achei que esse poderia ser daqueles que compramos no impulso e ficam empoeirados em casa como uma proposta para um futuro improvável. No fim das contas, comecei a ler o livro e não consigo largar dele.

O livro trata um pouco da história da surdez pré-lingüística e o surgimento da língua dos sinais e de sua importância. Surdez pré-lingüística foi o termo que deram para aquelas pessoas que nascem surdas, que não tiveram acesso até onde se recordam de ouvir qualquer palavra. Claro que para isso, consideramos a palavra como forma de linguagem primordial e essa é uma questão também levantada e bem lembrada de sua importância quando o autor cita a Bíblia, como um dos grandes exemplos: no princípio era o Verbo. 

O que passa é durante a história da evolução da linguagem dos sinais, viu-se que o desenvolvimento humano dos surdos nesta condição era muito mais rápido do que se eles aprendessem de imediato a ler lábios, falar como fosse possível – já que não tinham parâmetro para como falar, se nunca ouviram – ou até escrever.  Mas isso ainda não respondia a minha pergunta, apenas a tornava mais densa. Eu tinha pensado nos surdos, sabia como eles se comunicavam, mas nunca havia me passado pela cabeça a possibilidade deles não pensarem como os que ouvem ou já ouviram pensam. E aí a pergunta segue viva.

A leitura é extremamente acessível, como vários outros livros de Oliver Sacks, esse neurologista que trouxe aos pobres mortais conceitos, questões interessantes e normalmente restritas aos ambientes acadêmicos e profissionais. Uma das pistas que me ajudam a chegar perto da resposta que procuro é:


“A linguagem [de sinais] que usamos entre nós, sendo uma imagem fiel do objeto expresso, é singularmente apropriada para tornar nossas idéias acuradas e para ampliar nossa compreensão, obrigando-nos a adquirir o hábito da observação e análise constantes.”

Ou ainda


“Com base na linguagem da ação, De l’Epée criou uma arte metódica, simples e fácil com a qual dá a seus pupilos idéias de todo tipo e, ouso dizer, idéias mais precisas do que as que em geral se adquirem com a ajuda da audição. Quando, na infância, somos reduzidos a julgar o significado das palavras a partir das circunstâncias nas quais as ouvimos, ocorre com freqüência que apreendemos o significado apenas aproximadamente e nos satisfazemos com essa aproximação durante toda a nossa vida. É diferente no caso dos surdos ensinados por De l’Epée. Este só tem um meio de dar a eles idéias sensoriais: é analisar e fazer com que o pupilo analise junto. Assim, ele os conduz de idéias sensoriais a idéias abstratas; podemos avaliar o quanto a linguagem da ação de De l’Epée é mais vantajosa do que os sons falados por nossas governantas e preceptores.”

Esses são trechos tirados do livro de outros autores - sendo o primeiro um surdo 'pós-linguístico' e do século XIX, quando a surdez já era vista não como um impasse, mas um desafio a superar, que era descobrir uma forma de desenvolver, de dar valor e condição a estas pessoas. 

Entretanto, minha questão primeira não foi resolvida e ainda há outras no caminho, quando leio o livro. Acabo de falar com um amigo que teve a experiência de ensinar a surdos com um intérprete para LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Ele me disse que não havia um ‘gesto’ específico para FÍSICA, e que assim, a intérprete tinha que soletrar. Tudo bem, é uma saída, mas ela destoa um pouco das noções (ok, séc. XIX) acima, quando entendiam ser a linguagem dos sinais completa. E, pensando adiante, como se definem algumas abstrações? Como se define paz, saudade... será que há um gestual ou serão soletrados também, o que acaba se tornando necessário retornar à palavra... e voltamos à questão do ensino da mesma e o pensamento ‘sem palavra’ passa a se tornar mais difícil.

Acredito que não encontrarei as respostas neste livro - nem ele se presta diretamente a esse tema, mas já traz alguns desenvolvimentos e eu ainda não passei de um terço da leitura. A partir dos surdos talvez se chegue mais perto, ou se imaginássemos aqueles idiomas de símbolos, como o Chinês, Japonês... apesar eles também escreverem conforme o alfabeto, há os símbolos que formam diretamente conceitos e não letras. Mas ainda não é o caso, já que é apenas uma convenção de conceituar através dos símbolos as palavras que entendemos. É só um ‘alfabeto’ distinto.

Isso parece mais uma história sem fim, mas até o fim do livro, alguma noção deve surgir ou pelo menos, ainda mais questões.
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Quase quatro horas. Precisamente, três horas e cinqüenta e oito minutos. E durante todo esse tempo assistimos numa boa a saga de Scarlett O’Hara, uma das personagens mais lembradas da história do cinema.


...E o Vento Levou é um filme que todo mundo já viu um pedaço. Na minha adolescência via trechos, porque passava na tv tarde da noite e sempre caía no sono. Um dia cismei que ia ver todo. Achei cansativo e não dei importância a um filme interminável com forte teor racista e uma história ‘nada demais’. Grande erro.

Hoje, domingo de sol e calor aqui no Rio, não tive coragem de enfrentar o mar congelante com a areia escaldante e lotada. Fiquei em casa e coloquei o filme. Essa menina se tornando mulher na tela, se reerguendo sobre seu próprio orgulho, enfrentando tudo com a moral da necessidade e vaidade estampadas em suas ações. Era o sul dos Estados Unidos com os brancos ricos de grandes terras, famílias tradicionais, escravidão e racismo. Chegou a Guerra da Secessão e os ianques invadiram o sul, unificando o país, transformando em passado e devastação o que era a vida cotidiana dos que moravam ali. Scarlett descobriu a fome, a pobreza, a família destruída pela guerra e com isso, nos diz: Jamais passarei fome novamente.

Mas, além de toda a trama épica, este é um filme de amor. Scarlett, amava além de sua terra, sua casa Tara, amava o homem que não poderia ter, que havia noivado a benevolente Melanie. Estas duas mulheres passam a maior parte da vida juntas por necessidade e tornam-se amigas. Scarlett então conhece Rhett - interpretado pelo galã Clark Gable - e, ao contrário do esperado, sente por ele um incômodo pela semelhança na falha de caráter dos dois. Enquanto Scarlett faz o que estiver a seu alcance para conquistar seus objetivos - casa-se duas vezes, manipula os que estão a seu redor - Rhett é um aventureiro galanteador que participa de qualquer negócio que lhe renda algum lucro. 

Os anos se passam e Scarlett, agora uma mulher poderosa, casa-se com o ‘mocinho’ da história. A moral do casal os une como as duras palavras que trocam durante todo o filme. Se Rhett é um homem apaixonado, é também capaz de dizer a Scarlett que não adianta querer o homem dos outros, que nunca será dela, senão um peso no coração.

A trama segue sempre num crescente e para mim, que não lembrava da história em detalhes, foi quase como a primeira vez. Revemos cenas emblemáticas que hoje fazem parte do imaginário coletivo cinematográfico. É aqui que está o pôr-do-sol da frase que já citei ou aquela em que ouvimos de Scarlett se reerguendo mais uma vez, afinal, amanhã será um outro dia. Há sempre uma obstinação, uma certeza de que como o sol tornará a brilhar, nossa protagonista vencerá mais uma batalha. E Vivien Leigh, que era uma atriz inglesa em ascensão, com esse filme tornou-se uma das mais importantes de seu tempo. Ela vive sua personagem de tal forma que acreditamos sem pestanejar e não há um só momento de hesitação em seus atos, em sua fala, no olhar.


O filme ainda dá margem para outras questões. É uma adaptação do livro homônimo, escrito por Margaret Mitchell que ganhou o Pulitzer em 1937. O que significa que é uma obra escrita por uma mulher sobre uma mulher no sul dos Estados Unidos extremamente machista, onde a opinião feminina pouco importa e o que lhes confere valor é o marido que têm e a forma como se comportam. Aqui temos uma protagonista feminina que casa 3 vezes, rompe com as boas maneiras da mesma forma que investe no que acha importante para viver e ainda sustenta a própria família custe o que custar. É a emancipação da mulher em tempos de guerra, quando a população masculina sofria baixas consideráveis e as mulheres, sozinhas, precisavam criar seus filhos e não passar fome numa terra devastada.

Além de toda a grandiosidade da obra, há uma imensa estrutura de produção por trás. Era a época dos grandes estúdios, das grandes estrelas, que fundaram o star system da Hollywood que conhecemos hoje. Este é um filme de produtor, que contratou vários diretores, roteiristas e foi criando uma equipe diversa, imensa, desde que cumprisse com suas exigências para o que ele imaginava que deveria ser o filme, além de ser mais uma experiência com o recente cinema colorido, o technicolor. Foi o produtor, David O. Selznick, que acompanhou toda a montagem sem a interferência dos diretores. Tanto trabalho sob mão de ferro rendeu 8 dos 12 Oscars a que o filme foi indicado.

...E o vento levou não deve ser visto antes de dormir. É de fato um filme longo, mas que merece atenção; são histórias dentro de uma grande história, com muitas nuances e cujos detalhes, personagens, diálogos e tramas são enriquecidos com uma trilha sonora inesquecível. É um filme grandioso e complexo, que tem que ser visto como um filme épico e de uma época e que se sustenta como só os clássicos conseguem, sem mofar com o tempo ou perder a majestade.
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Fui pra Disney quando tinha 15 ou 14 anos. Fui com as melhores amigas num pacote turístico padrão e foi nossa primeira viagem juntas. E na Disney vimos aquele desfile com os fogos de artifício no céu. Confesso que não me disse muita coisa, porque o desfile era muito longo e chato, então o encanto foi quebrado ali mesmo.


Todo São João que consigo passar em família envolve fogos. Desde muito pequena essa é a nossa maior festa, com uma tradição gostosa de muita comida, música boa e estouros coloridos. Meu pai já sofreu acidente com fogos, mas segue feliz nessa teimosia e acabamos nos juntando a ele e somos aí, crianças novamente.

Este Ano Novo passei no Rio com outros amigos. Fizemos um esquema tranqüilo, comemos bem, bebemos e quando estava pertinho de meia noite, fomos ao Aterro do Flamengo ver os fogos. Não gosto de Ano Novo. Não me sinto muito animada, rola uma nostalgia não sei de quê e é sempre um aperto no peito. Normalmente passo em família, que ameniza um pouco a situação já que nos entendemos no olhar e conhecemos nossos comportamentos e necessidades, mas morando longe tem sido cada vez mais raro.

Na festa desse ano, tudo seguiu nos conformes e lá no Aterro, no meio de um monte de gente desconhecida, com chuviscos de água e confetes coloridos, os fogos finalmente fizeram seu espetáculo e o tempo passou sem que eu percebesse tanto.

No meio daquela multidão de roupas brancas, esperanças difusas e muita bebida, quando as maiores luzes pareciam chover sobre nós todos, como crianças nos encantávamos, nos apaixonávamos e víamos naquela pintura estridente o brilho das cores tocando nosso coração pelo olhar. Ontem eu consegui entender sentindo, o porquê dos fogos, das luzes e cores, a importância de queimar dinheiro desta forma, tão repetida no mundo inteiro em qualquer grande celebração.

É que é justamente naquele momento que todos param o que estão fazendo, param de pensar e ficam bestas mesmo, olhando, admirando, se aquecendo por dentro numa celebração contínua e conjunta, ainda que sentida diferentemente por cada um. E a multidão se entusiasma a cada novo estrondo, como uma surpresa sabida e bem vinda, festejada como um nascimento, o renascimento da juventude, da esperança, da ingeuidade, da inocência. O ano que vem nos permite isso tudo, afinal de contas. É bem ali, naquela meia noite que somos capazes de sonhar sinceramente, sem a auto-crítica apontando na esquina. E nesse meio tempo, ainda descobrimos na outra margem da baía de Guanabara que podíamos ver ainda mais luzes e cores, em Niterói. Esse espetáculo duplo nos manteve por 25 minutos em pé, elegendo quais eram os mais bonitos, ouvindo suspiros e, ainda que algum aperto no peito me soprasse, respirava manso dentro de mim, distraído, sereno.

Voltamos para casa também no meio de toda a turma da praia, num clima abafado, mas ouviam-se felizes e altos Feliz Ano Novo!, com saudações, palmas e abraços. Como uma celebração branca e baiana de Yemanjá, seguíamos todos em paz, esperando de coração, um ano melhor.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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