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Café: extra-forte

Primeira Posição é um documentário sobre ballet. No primeiro dia do Festival, com as outras salas cheias em Botafogo, assisti ao filme com mais 8 pessoas na sala. É natural, se pensarmos na especificidade do tema, mas garanto que se as pessoas tivessem visto o trailer antes, lotariam a sessão.
Eu não fiz balé quando era criança. Aliás, fiz acho que umas duas semanas e vi que não era pra mim. A repetição dos movimentos, aquela rigidez e disciplina que devemos assumir quando pequenos não me servia e rapidinho descobri isso. Lembro a professora me mandando fazer o plié 300 vezes e de como eu ficava com cara de pra quê repetir tanto. Hoje, acho o ballet lindo, vou a espetáculos e sempre me dá uma vontade imensa de estudar dança.

Neste filme, acompanhamos seis jovens entre nove (isso, NOVE) e dezenove anos que participam do Youth American Grand Prix de ballet, a mais prestigiada competição de dança que vai premiar com medalhas, troféus e bolsas de estudos das melhores escolas do planeta. Nessa competição são cinco mil jovens de todo o mundo, cerca de 300 vão à final em NY e algumas dezenas são premiados. E o que nos marca mais é a determinação, a persistência com o objetivo e a perseverança que essa turma tem desde muito cedo.

Procurando saber mais do diretor, vi que ela, Bess Kargman é uma ex-bailarina e este, seu primeiro filme. Isso foi fundamental, porque permitiu um conhecimento inato do assunto, garantindo as cenas incríveis, as entrevistas fluidas e o acompanhamento íntimo do grupo. O filme tem um ritmo incrível, conseguindo manter o foco em todos os personagens em igual medida, nos deixando apaixonados por eles, por seu balé e suas histórias de vida, entendendo seus desejos, suas necessidades. O balé é a vida pra eles e eles têm conhecimento disso de forma muito clara e tranquila.

Quando você sabe o que quer da vida – e isso não é tão nítido de perceber quanto parece – é mais fácil encontrar um foco para atingir seus objetivos. Não que a trajetória seja simples e direta, mas parece ser mais difícil se deixar vencer. Temos a história de Joan Sebastian, um bailarino de família pobre na Colômbia que saiu de lá para os Estados Unidos para realizar o sonho. Lá, vive com certa dificuldade, sem luxos e festas, concentrado apenas em garantir a subsistência para pagar as aulas. Não há como não se apaixonar por ele, a vontade que temos é de nós mesmos lhe darmos uma bolsa de estudos. Com ela, ele ainda ajudaria a família. Michaela, uma jovem de Serra Leoa que viu os pais serem assassinados na guerra civil do país, foi adotada por uma família americana que também custeia seu treino. A força do olhar dessa menina, a doçura que ela conseguiu manter e sua superação, nos faz pensar em como a nossa vida é muito mais fácil e como não nos esforçamos o suficiente. Aqui, vamos além da dança.

As transições das histórias, as mudanças da competição e os personagens se intercalam orgânica e plasticamente. Saímos das aulas de dança e entramos nas apresentações, vivemos o dia a dia desses jovens e suas famílias, viajamos com eles e ainda notamos como a pressão do teste acontece em cada participante. Tudo isso, o filme nos dá uma perspectiva que parece ser de 360 graus sem cansar. A câmera tem uma liberdade de movimento que foi conseguida com uma produção competente, pois fica claro que aquele espaço é restrito aos dançarinos. Com uma equipe enxuta e experiente, First Position é premiado em todos os festivais que participa.

Saímos do filme encantados com aquelas histórias, nos emocionando como num filme de ficção, mas com o adicional de serem pessoas de verdade, em histórias reais. Saímos do filme pensando em nossas vidas, no que fazemos de nossos ideais e em como corremos atrás de nossos objetivos, se estamos acomodados, se fazemos realmente o que queremos, se estamos buscando e investindo em nossos sonhos. E tudo isso com apenas um documentário sobre balé.

O site lindo do filme lindo está aqui.
E o site do Festival do Rio com a programação está aqui!
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Há sempre uma dúvida ao descobrir um novo filme cujo protagonista é uma pessoa doente ou deficiente. Depois de inúmeros dramas sobre pessoas de bom coração, que após acidentes terríveis ficam incapacitados e decidem se matar ou que têm um grande amor impossível de concretizar ou ainda, aqueles filmes sobre pacientes terminais com alguma doença brutal, pensamos duas vezes em ir ao cinema. Neste caso, o sucesso de bilheteria (que não indica muita coisa, mas sendo francês dá alguma esperança) e o trailer, nos encorajam. E Intocáveis vale o desafio.

O filme inspirado em fatos reais conta a história de Philippe, um homem tetraplégico bilionário que contrata um negro que descobre ser imigrante senegalês para ser seu cuidador. O imigrante, Driss, não tem nenhuma experiência, mas também nenhuma compaixão pela situação de seu chefe, e é isso que o faz ser escolhido para o trabalho e cria a amizade entre eles. Não é difícil imaginar o número de candidatos interessados na vaga que o tratariam com a pena de lidar com um deficiente, vide os processos seletivos que assistimos no filme.

Esse é um filme pra todo o público. Quando se diz que um filme é francês ou estrangeiro (considerando a classificação das videolocadoras – americano não entra nisso e nacional é outro gênero), normalmente o público é mais restrito. O ‘estrangeiro’ se confunde com o ‘cult’, outra titulação arbitrária definida por um grupo de pessoas que mais se limita a certa filmografia do que os seleciona por alguma qualidade estético/narrativa. Um filme é bom e ponto, independente de onde venha, de que “gênero” seja. Este tem uma narrativa simples, com grandes diálogos e interpretações que se traduzem num equilíbrio delicado entre a comédia inteligente e a seriedade das situações ali vividas.

Alguns textos publicados sobre o filme falam sobre o limite do “politicamente incorreto”, de “fazer piada” com a situação, de um filme “polêmico”. Fico pensando se um tetraplégico se sente bem tendo ao seu redor pessoas que se compadecem dele, como se, ao se mostrarem sentindo e entendendo aquela situação, as tornassem mais próximas, mais compreensivas da dor do outro. Claro que não posso me colocar no lugar deste outro, mas não seria interessante receber esse sentimento, o olhar condescendente sobre mim. Ainda que exista uma desvantagem física - que se traduz na pena - o pensamento se mantém, a inteligência e é o que acaba se entendendo como perdido também, como se a deficiência fosse completa. É disso que o filme trata. O olhar humano aqui é daquele que enxerga Philippe como um homem qualquer, cuja diferença é um cuidado a mais. E Omar Sy o faz com precisão, levando pra casa o César ("Oscar" francês) de melhor ator em 2011. Esse homem que vem de outra classe, que vive na lei do mais esperto, achou que conseguiria assinar o documento que lhe garantiria a manutenção do seguro desemprego, mas acaba realmente com um trabalho e a partir disso, evolui na trama, se transforma e então nos apaixonamos por ele para sempre.

A história está centrada nesta relação e a polêmica de que tratam os outros textos se refere claro, à situação colonizador / colonizado, entretanto, ninguém aqui está promovendo uma discussão socioeconômica do que os levou a este presente, mas a uma situação dada que condiz com um dia-a-dia possível. François Cluzet (Philippe) exibe com sua imobilidade uma atuação brilhante. O personagem que imaginamos cuja vida é a sequência de dias iguais ganha outras cores e para o espectador que não tem nenhuma vivência do tipo, é mais uma novidade - talvez seja essa a preocupação de um filme francês, que passaria despercebido num americano padrão (além da qualidade fotográfica). Aprendemos sobre a situação do paciente, vemos uma vida de fato acontecer, como se fosse a nossa. Relações familiares, relacionamentos, trabalho, tudo ali acontece. São as mesmas dificuldades. O filme nos traz um viés cotidiano e com as duas vertentes, equiparando as histórias e trazendo dois protagonistas, duas vidas.

O fato de ser uma produção baseada em fatos reais é outro chamariz. Ainda que muitos não considerem a não-ficção como cinema tal qual a ficção, dão uma maior importância a histórias reais do que à pura invenção. Até porque, se esta fosse uma história totalmente criada, outras críticas surgiriam desmerecendo a obra, indicando-a como inverossímil, se enganando ao pressupor que as histórias mais absurdas – de forma geral – não acontecem. Intocáveis teve 9 indicações ao César, concorreu em outros festivais, levando 7 prêmios e abriu as salas de cinema do mundo para Olivier Nakache e Eric Toledano, diretores e roteiristas, cujas filmografias eu desconhecia. É a popularização do cinema francês – assim espero – e o início do desespero dos cults de plantão.

Título Original: Intouchables
Diretores: Eric Toledano e Olivier Nakache
2011, França, 112min
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Em Bruxelas, uma médica aluga um apartamento e leva pra lá, um por dia, homens que seleciona no ambulatório do hospital em que trabalha. Faz sexo e dorme com eles, e depois volta pra casa, pra seu marido e filho. No dia em que visita o marido no trabalho, se depara com um desses homens, desmaia e sua história é descoberta, sua licença cassada e a crise se instaura.

Movimento Browniano não é um nome comum. Descobri na internet uma aula de física que o explica: se jogarmos um grão de pólen na água, ele não vai se dissipar homogeneamente, mas de forma caótica, porque as partículas de água, ao se chocarem com o pólen, alteram seu curso. É como se o pólen fosse grande o suficiente para ser percebido num microscópio, mas pequeno e leve para ter sua rota alterada por qualquer choque de uma partícula menor do que ele.

Inicialmente, achei que o browniano se referia ao processo de seleção dos homens. Quando ela começou as sessões com a psiquiatra para entender por que alugou o apartamento, disse que só lembrava detalhes de cada um, o olhar, os pelos do braço, uma mancha nas costas, um corpo gordo. Mas a aleatoriedade de sua trajetória foi mais profunda, foi a sequência de transformações a partir da primeira ação – os encontros – que alteraram sua rota indefinidamente. Há uma ruptura do mundo perfeito, a quebra do padrão que era sua rotina. Um casal bonito, com dinheiro, que vivia em espaços organizados. O desejo que ela tem pelo outro, nada mais é do que o desejo pelo que é estranho, e nesse momento lembrei de Diane Arbus. No livro de Susan Sontag, Sobre a Fotografia, ela nos conta um pouco sobre essa fotógrafa judia, filha de uma família rica e cercada de beleza e exatidão. O interesse de Diane estava justamente em seu oposto; seus retratos nos mostram pessoas incríveis com olhares firmes, mas pessoas deficientes, defeituosas, pessoas de circo. Seu olhar para o feio ganhou uma importância tal, que mesmo fotografando pessoas normais, notamos uma estranheza nelas. Em Movimento, num ambiente controlado por Charlotte, num apartamento extremamente organizado e limpo (e sempre em planos fixos para reforçar a sensação de experiência), é que ela se permite transgredir.

Além da questão ética – os homens eram seus pacientes – há uma relação entre fetiche, doença e moral que se misturam e torna a interpretação do que vemos um pouco turva. É nesse limbo que está seu marido, Max (Dragan Bakema). Eles se amam, são felizes sexualmente, a relação é estável e não é por algo estar errado que ela vai ao apartamento. É, talvez, por uma necessidade de ter um momento seu, que a isole do contexto familiar, da função que exerce. O fato deste momento significar sexo com outros homens não a faz se sentir culpada, mesmo ela tendo esta consciência, mas é o que a define como indivíduo e não como parte de algo. O que torna isso um problema é simplesmente a descoberta do segredo.

O filme tem caracteríscitas que me lembraram aquela ideia que se tem de cinema europeu. Os planos são longos, os cortes matemáticos. O filme é dividido em partes, lembrando Lars Von Trier e numa duração diferente da habitual. Há um tempo criou-se um preconceito com esse cinema justamente pelos filmes seguirem em outra velocidade, mais lenta que o cinema americano. Essa diferença se encaixa nos sentimentos do filme, já bastante silencioso: a permanência da câmera nas expressões da protagonista e no olhar perplexo do marido ajudam a criar uma atmosfera que nos deixa intrigados, queremos entender o que acontece com essa moça bonita, arrumada e de olhar misterioso, quase inocente e longínquo.

A aparente apatia da protagonista inquieta. O filme está centrado em seu olhar e nisso reside a força da atriz, Sandra Hüller. Conversando com um amigo, chegamos em Melancolia (Lars Von Trier, 2011), porque era esse o espírito. Nada com o fim do mundo, mas com uma inquietação que é transmitida por aquele olhar de ausência. Queremos dar essa liberdade à atriz e paz ao marido. É como se a diretora nos dissesse: o que importa agora é ouvi-la, mas ela não vai dizer tudo. Quando eles se mudam para a Índia, a mulher já não trabalha e teve dois filhos, mas ainda persiste o espaço entre eles. Por isso, não há como considerar os encontros a realização de um fetiche, mas uma válvula de escape – tanto que os lapsos de memória não são à toa, mas frutos de uma defesa inconsciente que a protege da lembrança do ato sexual, portanto da culpa.

Movimento Browniano incomoda. Não estamos mais acostumados ao silêncio – são tantos veículos para a comunicação que hoje o que está em extinção é o assunto – então a ausência de palavras intriga. Os cortes no limite da duração da cena, os planos fixos marcando o controle, e a câmera na mão a suscetibilidade dos ambientes externos não são à toa. Sem conhecer outros filmes, Nanouk Leopold chamou minha atenção. É um filme para ser visto sem pressa, entendendo que há – ainda bem – outro ritmo, nos deslocando da cadeira, deixando questões no ar. É um filme de grandes atores e com o equilíbrio perfeito entre silêncio e som. É daquele tipo do bom cinema europeu (não chato) que tanta gente tem medo e que, por isso mesmo, merece atenção.

Título Original: Brownian Movement
Diretora: Nanouk Leopold
Holanda, 2010, 97 min.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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