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Café: extra-forte

Ontem assisti A um passo da eternidade. Por mais clássico que seja, o amor do protagonista pelo exército não me tomou e o filme passou por mim sem fortes emoções, à exceção da cena da chegada dos aviões japoneses metralhando soldados americanos e de quando o protagonista chora a morte do amigo. E também passou por mim mais uma sexta-feira à noite em que os solteiros têm por obrigação (?) estar nas ruas se divertindo.

No meu trabalho há uma menina muito engraçada, que se sentia extremamente culpada quando não saía nos fins de semana ou até durante a semana. Ela tinha a impressão de que a vida está passando por nós enquanto trabalhamos, como se a rotina nos esmagasse paulatinamente. Especialmente quando somos solteiros. Acho que todos têm um pouco disso, mas era engraçado ver uma preocupação sincera nela, como se não houvesse amanhã.

Medianeras é um filme que mistura esses sentimentos. São dois jovens, Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala), vizinhos que vivem suas vidas em apartamentos para um em Buenos Aires, como pessoas normais com frustrações, alegrias, tristezas, sucessos e fracassos. O cotidiano deles é o que nos aproxima do filme, nos tornando aqueles personagens e fazendo com que seus sentimentos nos habitem; em alguns ou vários momentos, somos exatamente daquele jeito.

Ela terminou um namoro e voltou a morar em seu apartamento. Ele, algum tempo só, construiu uma forma de viver em que necessitando muito pouco do ‘mundo lá fora’, seu analista lhe propõe que saia para fotografar; seu dispositivo de interação com o mundo é a câmera. As estações passam por eles e em um ano vemos suas transformações agora em nós, nos apaixonamos e acompanhamos as trajetórias na certeza infeliz da duração de 95 minutos. Dali a muito pouco seremos só nós, novamente.

O filme, de um diretor e atores desconhecidos pra mim e de orçamento baixo consegue logo no início nos prender com a voz de Deus, aquele recurso que Woody Allen usa muito para introduzir a trama e os personagens do filme. Aqui, de forma bastante parecida e com texto rápido e curioso, nos primeiros cinco minutos já sabemos que algo muito bom acontecerá. A nostalgia dos personagens nos invade sutilmente, como uma tristeza terna que se perde entre o que fomos e o que somos. Aqui o futuro não existe, estamos nas medianeras, os espaços intermediários dos prédios, naquelas paredes inteiras, fachadas laterais “inúteis” sem janelas ou saídas para o mundo. A voz de Deus nos informa, logo no início: a vida é como estar de passagem em Buenos Aires, uma cidade em que os fios se entrelaçam construindo teias para cobrir o céu, os prédios – como no Rio de Janeiro (acho as duas cidades bastante parecidas) – se fundem em uma arquitetura caleidoscópica com estruturas belíssimas e construções horrorosas espelhadas, uma cidade que deu as costas para seu rio... um espaço sempre entre o caos e uma tentativa de ordenamento.

A construção narrativa nos prende à medida que a voz off some. Somos introduzidos naquele tempo-espaço e deixados com eles, como uma apresentação a novos amigos quando crianças. Aqui são pessoas cujas vidas não têm apenas clímax, como nas comédias românticas americanas. Os tempos mortos existem, a mocinha está em casa olhando para seus manequins, buscando um Wally (sim, de Onde Está Wally?) no livro ou enlouquecendo com um vizinho que toca um triste piano sem fim. E a partir daí, como este tédio pode ser diluído na internet, universo fundamental ao mocinho, encontramos relacionamentos raramente felizes mas um pouco engraçados, os virtuais. Também é importante – e aí está a riqueza do filme – perceber o reflexo dos nossos relacionamentos, como os protagonistas se envolvem com outros personagens na certeza de que são encontros vazios, mas tão necessários como um teste, uma experiência com resquício de esperança, para se sentirem partilhando a si e conhecendo o outro – tentando driblar as carências que se reforçam ironicamente em mais alguns fracassos.

A solução talvez esteja, como no título do filme, num intervalo entre uma parede sempre fechada e uma nova janela que se força abrir exatamente ali, contra a lei (nem que seja a da engenharia), mas como um imperativo, como aquela luz inevitável do fim do túnel. Este filme, que nos lembra a nós mesmos com bom e inteligente humor, ao tempo que nos faz rir cúmplices, nos lembra que não precisamos viver uma eterna busca, entendendo que tão importante quanto novos encontros é se permitir ficar em casa assistindo um filme qualquer em uma sexta à noite.

Título Original: Medianeras
2011, Buenos Aires, 95 min.
Diretor: Gustavo Taretto
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Agora são 3:33 de Sete de Setembro e um acidente de carro acaba de acontecer na esquina. Eu moro num cruzamento de Copacabana bastante movimentado, numa avenida que liga Copa a Ipanema. Há vinte minutos estava dormindo, quando um barulho de uma violência tremenda me assustou e achei que todos haviam morrido em um capotamento.

Passei dois minutos na cama, trêmula, coração na boca. Levantei ainda assim, um homem desesperado gritava olha o que você fez com a minha mulher e tudo era um diálogo de terror. Fui à janela e o homem ainda gritava, ainda desesperado, o carona do causador do acidente tentava acalmá-lo em vão. O motorista culpado não podia e nem saía do carro, certamente apanharia e estava muito bêbado. O homem seguia desesperado, o carona do outro carro já estava chorando e a mulher, invisível. Liguei para o 190, 192 e 193. No 193, a moça que me atendeu muito bem, me informou que eu deveria descer e ver o estado da vítima. Estava apreensiva de entrar na situação, a moça me deu coragem e eu me vestia, quando liguei para o porteiro que disse ter chamado a polícia e a Samu e alguns taxistas chegavam.

Agora que a Samu já levou a moça e seu marido – me tranqüilizei porque a vi andando e sendo atendida, depois levada de maca para dentro da ambulância – voltei para a cama. Espero, de coração, que tudo dê certo para este casal que queria apenas voltar pra casa e, em tempos de Lei Seca, se viu num acidente com um motorista imbecil e bêbado.

Muitas pessoas são contra a Lei Seca. Aqui no Rio – como na maior parte do país – já aconteceram tantos acidentes horrorosos com muitas vítimas inocentes por conta do álcool, que esta frase parece desnecessária, de tão clichê. A medida punitiva é tão óbvia quanto seu objetivo preventivo. Os que reclamam são os que bebem e se dizem senhores de si, independente da gradação alcoólica, sem pensar, tão imbecis quanto o motorista de hoje, que merdas realmente acontecem e que sim, podemos provocá-las.

Antes disso tudo, estava com alguns amigos num bar. Havia um grupo de mulheres em uma despedida de solteiro e a noiva, que estava dirigindo, confirmou a intenção de beber. Quando sua amiga sugeriu que conversasse com a irmã para que não bebesse, a resposta foi: e você acha que ela não vai beber? Nada que o twitter da Lei Seca não resolva. Esse twitter pode ter sido o que o motorista de hoje usou e a fiscalização da lei não deu conta do recado, se é que está acontecendo.

Tive meus momentos, como grande parte das pessoas dos vinte e muitos, de beber e dirigir. Também dei muita sorte como carona e nunca me envolvi em nenhum acidente do tipo. A responsabilidade do motorista é o que o deve manter abstêmio toda a noite - outro clichê. Até hoje não encontrei um argumento válido que justifique o fim da aplicação da lei ou da fiscalização. Acidentes como este, que me tiram o sono, me fazem querer ser médica e útil, rezar para qualquer crença e eventualmente chorar, reforçam a idéia. Somos incapazes de controlar a imbecilidade alheia e podemos simplesmente estar no carro ao lado, como essa moça machucada e seu marido. Temos, pelo menos, que tentar reduzir este índice de acidentes e vítimas por e para nós mesmos. Sejamos egoístas.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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