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Café: extra-forte

Os primeiros cinco minutos de um filme costumam ser os mais importantes. São eles que prendem o espectador no cinema, selando o pacto da ilusão e, ainda que não garantam sua estadia até o fim da história, conseguem intrigar quem a assiste. Assim faz o diretor Denis Villeneuve em Incêndios.
Ao contrário do que costumo escrever aqui, a história não é simples. A primeira seqüência nos deixa em alerta: uma música pesada, forte e alta do Radiohead acontece enquanto vemos longos planos – agora não me recordo se é um plano-seqüência ou tem alguns cortes, mas a cena é lenta – de um garoto tendo sua cabeça raspada numa espécie de reformatório. A criança olha para a câmera e percebemos que, no mínimo, tem alguma coisa errada com ela. Mas não, esse não é um típico filme de terror.
A secretária de um tabelião morre e deixa de herança para o casal de filhos gêmeos duas cartas. O tabelião é responsável por ler o testamento da mãe, que inaugura uma aventura no melhor estilo Joseph Campbell: a menina vai à busca do pai que acreditava estar morto enquanto seu irmão deve encontrar um terceiro filho de sua mãe, que eles desconheciam a existência. O objetivo de cada jornada é entregar uma carta e assim ela descansará em paz, com um enterro digno e terá cumprido suas promessas.
Logo de cara percebemos que os gêmeos Simon e Jeanne Marwan não tinham uma relação muito feliz com a mãe, Narwan. Simon admite que agora terá paz e não procurará ninguém; quer enterrar a mãe da forma correta, enquanto Jeanne, professora assistente de matemática pura numa universidade, para resolver esta equação complexa e querendo satisfazer este último desejo, investe na busca por seu pai. Assim, encontra o passaporte da mãe, uma foto com dizeres árabes numa parede e um crucifixo. Embarca para o Líbano.
Aqui quase nada sabemos. Em algum momento durante o filme há a referência ao Líbano, mas é muito sutil, dando a impressão de que para o diretor não importava identificar um país no Oriente Médio já que os conflitos ali são disseminados. Essa situação embaralhada me deu agonia e senti falta de um embasamento mais forte do que a escola me ensinou sobre Oriente Médio, religiões e conflitos. Não entendia, por exemplo porque Narwan sendo católica em alguns momentos tinha que esconder seu crucifixo, mas em outro, exibí-lo foi suficiente para salvá-la. Não compreendia a frente de luta católica num país mulçumano que, pelo que vemos na TV, tem embates rotineiros com os judeus. Resolvi acabar com a ignorância e parti pra outra aventura, após o filme: o livro de Ali Kamel – Sobre o Islã – e não só não consigo largá-lo um minuto, como descobri uma parte imensa da história que eu desconhecia. 
Investigando também na internet, consegui entender as referências que corroboram ser o Líbano, pano de fundo do filme. Quando Jeanne visita o país em busca do passado da mãe, lhe dizem que para conhecer a região, há que visitar o sul. Foi justamente lá que eclodiu a guerra nos anos 80 onde mulçumanos, judeus e cristãos se envolveram em conflitos sangrentos que deixaram de saldo vítimas nas três religiões. É aqui que justifica como a religião poderia proteger e boicotar as defesas de nossa protagonista.
Incêndios é título e referência óbvia para o que se passa no filme. Durante os flashbacks que contam a história, vemos massacres dos conflitos em cenários destruídos por uma guerra que não acabou. Essa idéia chega ao presente com as ruínas que Jeanne visita; ela busca redescobrir a mãe a partir do encontro de um pai que nunca soube ter.  Em um determinado ponto do filme, depois de ver os desdobramentos de Narwan numa tragédia clássica, fiquei me perguntando se aquela cronologia era possível; se era possível  viver tanto, tanto sofrimento, em uma vida só. Destrinchando: uma mulher grávida vê o namorado ser assassinado por seu irmão, tem o filho, é obrigada a abandoná-lo, se muda para a capital. Quando a guerra explode, foge da família e vai a busca do filho, se envolve na luta para assassinar um opositor importante do governo, é presa por 15 anos, torturada, estuprada e consegue, de alguma forma, parar no Canadá.
Os gêmeos, que nada sabiam deste passado e vão descobrindo com a mesma distância que o espectador – por isso o melodrama não acontece – percebem que a mãe fria que eles conheciam era só uma fração da mulher que ela foi; um resquício de passado resumido numa vida pacata no Canadá. Simon, a pedido da irmã a encontra e passa a fazer parte da história, vendo também ele, como e o que tornou sua mãe a que ele conheceu. A relação destes irmãos agora perdidos, numa jornada que os confunde no coração onde também fica difícil se reconhecer, é um pouco a sensação que o espectador tem até o clímax, quando as soluções são encontradas e o final se torna mais impactante do que os incêndios na tela.
O filme segue cheio de detalhes que enriquecem a trama. É longo e isso também é notado a cada desdobramento. Ficamos nos perguntando, ali sentados o quanto conseguimos agüentar assistir, com tanta tensão; funciona como aqueles jogos de estratégia em que, vencendo uma etapa outro desafio mais complicado se abre para nós. Ainda na referência da matemática: o professor titular com quem trabalha Jeanne dá a dica, dizendo que não adianta; vocês vão se cansar, ficar frustrados, sozinhos e a equação vai trazer uma resposta ainda mais complexa. No caso deste filme, outro nó para os personagens, uma nova tragédia na tela.
Bresson diz em uma de suas Notas*: sua imaginação vai mirar menos os eventos que os sentimentos querendo esses últimos os mais documentais possíveis. Essa relação de importância com o sentimento é o que move o filme; a transformação dos personagens; o crescimento do irmão oculto, os gêmeos frente à descobertas, o final. O foco nunca esteve nos eventos por trás da história, nos incêndios literais, mas naqueles que ocorriam internamente em cada envolvido. Talvez por isso não conquistou o Oscar de filme estrangeiro, por não ser um filme de vencedores e vencidos; dentro um contexto real em que os EUA estão presentes e sequer aparecem de relance na tela dentro de uma história que poderia ser explicitamente política e buscou o foco numa dinâmica familiar.  
Há tanto para se dizer deste filme, que terminar por aqui incomoda. Ao mesmo tempo, seria preciso falar do contexto e não da trama, dos atores incríveis, do personagem ambíguo do tabelião – Remy, de Invasões Bárbaras – do terceiro filho e de como sua história cresce; da trilha sonora que pontua momentos com músicas atuais e que colaboram para o desenvolvimento do filme no presente; de como a montagem segue lenta, mas nunca entediante; fazendo com que nós descubramos a história a partir dos relatos dados aos gêmeos – e enriquecidos com as cenas em paralelo da mãe naquele presente já antigo.
Encontrar uma realidade como Ali Kamel cita, parecida com a que vivem as pessoas nas favelas controladas pelo tráfico, só que no Líbano com o Hezbollah, o morador não concorda com os traficantes, odeia o que eles fazem, mas se submete, com medo de ser morto. Por fim, fica a curiosidade de saber o que quase passou despercebido; como foi sua ida ao Canadá? Como vive a comunidade mulçumana lá e como funciona essa rede de comunicação e esses poderes extraterritoriais e além-governo? Talvez esta resposta esteja no olhar enigmático do tabelião, que guarda o mistério e espera que ele se descortine, ao invés de nos mostrá-lo de graça, o que transformaria essa história num conto previsível.

*BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Ed. Iluminuras, São Paulo. 2005.
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Outro dia, saindo mais cedo do trabalho, entrei no ônibus do metrô. Algumas paradas depois, e eu sentada na penúltima fileira, seguia distraída lendo um livro sobre o universo dos surdos, quando o senhor que estava do meu lado se levanta bruscamente e cede lugar a outro, cego. O toco com a mão e ofereço o braço para que se apoie enquanto senta. 

Este senhor é um pai de uma família de cegos: mulher e dois filhos. Não me lembro se ele me contou como conheceu sua mulher e nem como chegamos a esse ponto da conversa, recordo que ele frisou que a família era como ele. Acho que tudo começou com um ‘que horas são’. 

Em uma cena de O Fabuloso destino de Amélie Poulain, a protagonista decide se tornar a heroína de sua própria história e livrar o mundo de forma divertida dos injustos. Uma das coisas que fez, é ajudar um senhor cego a atravessar a rua, lhe narrando tudo o que acontece à sua volta. De forma rápida, imagino eu, as imagens iam se construindo no pensamento daquele homem, dando um ar de novo aos sons que ele ouvia por hábito. Com o meu vizinho de ônibus, tive que abandonar a história de quem não ouve para aprender a de quem não vê.

Eu só havia conhecido um cego em toda a minha vida. Era um massagista, colega de trabalho de minha mãe, fisioterapeuta. Eles trabalharam juntos por anos quando eu era adolescente e sempre que eu ia à clínica de meus pais ele estava ocupado. Tinha lista de espera. 

O cego que conheci também é massagista. Também tem fila de espera. Imagino que a privação de um dos sentidos intensifica os demais; principalmente a audição e o tato, que agora são estes de que depende mais primordialmente para viver. Percebi que ele tem consciência do que o cerca, falou de brincadeira sobre o ponto final do ônibus do metrô, que insistentemente os motoristas sempre param de forma que a porta de saída fique de frente para uma árvore. Ele dizia que era de propósito, para testar sua atenção. 

Uma parte de mim se sentiu como uma criança ao ver alguém diferente pela primeira vez. Mesmo tendo conhecido o amigo de minha mãe, nunca estive tão perto fisicamente com alguém que me parecia tão à vontade. Ele não se portava como uma vítima, pelo contrário, me contou numa conversa tranquila e gostosa como vivia numa casa com um terreno grande, que plantava e cuidava do quintal com a mulher, e minhas perguntas insistentes eu guardei pra mim. Minha vontade era de descobrir como ele imagina, como cria imagens, se compreende o conceito de cor. Ele frisou, quando soube que eu trabalhava numa TV, que ouvia muito rádio; claro, pensei, muito mais eficaz do que a televisão.

Não consegui perguntar quase nada, tive vergonha. Não sei como são as reações das pessoas e não queria que minha curiosidade se transformasse num abuso, numa invasão, num desconforto. Tinha perguntas de criança, perguntas simples, diretas e sem ternura, de quem quer saber como o mundo funciona com restrições. Talvez também por isso esteja lendo sobre os surdos. Entender a forma do pensamento sem termos todos os veículos que permitem a compreensão é um desafio e é algo que me motiva profundamente.

Então, enquanto ele falava no trânsito – que dessa vez pedi mil engarrafamentos para que demorasse um pouquinho mais – eu olhava pra fora, através da janela fechada aquele mundo todo de paisagens banais que vemos todos os dias quase do mesmo jeito e não imaginamos como elas são importantes.
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Apenas pelo cartaz, já temos uma idéia de como será o filme. Dois âncoras televisivos: Harrison Ford sério, Diane Keaton sorrindo jocosamente para ele. No meio, uma garota entre telefones e papéis com uma expressão atrapalhada no rosto. Sem nem olhar os grafismos, já dá pra ter uma noção do que vem pela frente: comédia romântica.
Não tão romântica se partirmos para a definição do ‘gênero’ (menino conhece menina etc, etc.. são felizes para sempre), já que a história não trata disso. Aqui uma produtora de TV perde o emprego em New Jersey e é contratada para trabalhar na mesma função em NY, ganhando menos, num programa fraco. Ela é a produtora executiva do Daybreak, um programa de entretenimento matutino parecido com os que temos na televisão brasileira. Notícias, futilidades, frivolidades e, por que não, imbecilidades.
O conflito se instaura quando nossa heroína, no primeiro dia de trabalho demite o âncora galã-estúpido e precisa encontrar outro em pouquíssimo tempo. A solução está no personagem de Harrison Ford, um jornalista premiado anos atrás que, claro e como qualquer pessoa faria, recusa a oferta. Nesse embate, contratualmente ele é obrigado a fazer o programa e os problemas só aumentam.
O filme tem boas idéias que explora pouco: é estranho como a roteirista de O Diabo Veste Prada não investiu tanto em pequenas e ótimas seqüências – a mocinha vai a NY procurar trabalho, vai procurar lugar pra morar, as cenas dela com o mocinho tinham fôlego, poderiam ser continuadas e mais embasadas... e ficamos presos nesses embates Harrison Ford x Diane Keaton, Harrison Ford x Rachel McAdams, Rachel McAdams x mundo... o roteiro enfraquece e até com todos os problemas na cabeça, você percebe que está no cinema e a ilusão vai embora. A atuação de todos é extremamente caricata – entendo que é o estilo do filme – mas ultrapassa em muito essa idéia e esvazia os personagens.
Esta não é uma comédia escrachada, não é Mike Meyers ou Jim Carey, não segue por aí – mas tem cenas que até os envergonhariam porque ficam entre o escracho e o plausível e não funcionam. A própria postura de nossa protagonista, como li em uma crítica, beira o despreparo profissional; uma produtora executiva tem que ser atenta, firme, prática, objetiva. Não deveria ser a garota perdida que derruba coisas o tempo inteiro e tem uma primeira atitude firme para amolecer no que sobrou da história. Houve alguma transformação no personagem, é visível, como nos outros dois de que falamos, no final todos vão em busca do mesmo objetivo. Agora, depois disso tudo, me diga uma coisa: se você recebesse a oferta dos sonhos, diria não? 
Acho que este filme está perto de uma versão pobre de Bridget Jones em seus momentos de ridículo na televisão. Eles tiveram muito e fizeram pouco, baseando-se na credibilidade da equipe: diretor de Notting Hill, roteirista de Diabo Veste Prada, o próprio elenco... e juntando tudo, ainda não funcionou bem. Em todo caso, para mim, há momentos de identificação com a transformação do personagem, a pressão do trabalho – apesar de nossas ‘produções’ serem diferentes, a mudança de endereço, mas acabam aí. O perfil é realmente diferente.
É óbvio que é um filme bobo. Pelo cartaz, pelo trailer, não tem pra onde correr. Não espere demais, faça como eu: esteja estressada e cansada - porque qualquer coisa leve, boba vai ser ótima e pensar demais nesses momentos não vale mesmo a pena. Se fôssemos voltar aquela história do Sessão da Tarde, esse certamente não ficaria entre os melhores.
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Aparentemente, além de mim, há muita gente buscando em suas raízes, temas para filmes. Ou que fazem da busca um próprio filme. Como eu, essa diretora foi em busca de seus avôs, redescobrí-los, reconhecê-los e partir deles para contemplar o todo.
Abuelos conta a história de Reno e Juan, um médico autodidata equatoriano e um ativista político chileno engajado no tempo em que isso custava a vida. Carla Valencia D’Avila é o elo; a neta destes latino-americanos com histórias incomuns e pouca convivência com eles. Mas a pergunta que alguns se fazem é: mas o que eu tenho a ver com isso? Ou: por que me interesso por isso, já que não é minha a história?
Os documentários nasceram pessoais. Os Lumiére ligavam suas câmeras e registravam momentos em família, os filhos pequenos, passeios nos parques. Claro que não só isso, porque foi deles também o trem que apavorou todos no cinema e a clássica saída da fábrica. Mas desde muito cedo se registrava em filme momentos íntimos, familiares, histórias que partem de um interesse e com enfoque pessoal abrangendo muito mais.  Um professor de Cinema já me dizia que para falar sobre o correio, parta da carta.
Não apenas nós, mas Sandra Kogut, João Moreira Salles, Kiko Goiffman buscaram dentro de casa, histórias para nos contar. Esse é um mote comum; sem falar dos cineastas que partem das histórias pessoais de outros para construir seus filmes e aí Eduardo Coutinho por si só me resume todo o parágrafo. As questões aqui são: todas as histórias bem contadas, ainda que pessoais, extrapolam o doméstico e é muito fácil se identificar a partir da história do outro; ainda mais se ela trata de assuntos de família.
Aqui acontece o mesmo. O avô Juan foi um militante em prol do desenvolvimento do Chile, país que tanto amava. O Chile estava no período da ilusão – como vários outros países da América Latina – quando se desenvolvimento social e político prometia uma ascensão econômica, mas seu engajamento o levou a um campo de concentração quando Salvador Allende foi assassinado e a ditadura militar assumiu. Carla, nossa diretora, nunca o conheceu. Sua investida parte de histórias da vida de seu pai e tios, encontrando aquela situação política que ultrapassava fronteiras. E numa dessas, precisamente em Moscou, seu pai conheceu sua mãe, uma equatoriana um tanto diferente. Este seria, portanto, o único meio possível destas duas famílias, tão díspares se unirem.
Carla conheceu Reno e só assim, pudemos perceber que seu avô seria perfeitamente um personagem de Gabriel García Márquez. Repleto de histórias fantásticas – agora reais – esse médico autodidata salvou vidas com curas milagrosas a partir de suas fórmulas de imortalidade em comprimidos. Por mais surpreendente que seja a ponto de parecer ficção, é tudo verdade. E é essa a verdade que transcende o filme; aqui já falamos de curas alternativas, de fé, de política, de ditadura. Onde mais haveria identificação? São temas para todos partindo de um.
O filme é muito feliz em sua construção. Como aconteceu comigo, a própria diretora conta sua história, é sua a voz que ouvimos. Não havia outra maneira, acredito eu, já que a investigação também parte dela. As conexões que ela faz com as duas famílias, mantendo ainda uma separação para que não se confundam equatorianos com chilenos é importante para o espectador e chega num determinado ponto do filme que já estamos íntimos daquela história, mais uma vez, como nos livros de Gabriel García Márquez. Não só isso, há ainda a montagem que segue paralela, numa analogia entre o abundante verde da região amazônica, com suas matas densas e rios caudalosos e a secura do deserto chileno; um mar de areia para ressaltar o vazio daquele que ela não conheceu. Também, a violência de um fim com a suavidade daquele que se dizia imortal.

Conhecendo as famílias por seus nomes e relatos, nos confundimos pouco o quase nada e com o final triste – já que sabemos que os dois estão mortos – relembramos nossa própria trajetória, nossas história e famílias, como se uniram, que laços também mágicos estão presentes e quem são nossos heróis. Carla, contando sua história e buscando um passado, trouxe um pouco de cada país, um pouco de culturas mescladas, tudo de América Latina e também nos fez encontrar nossa própria família, que nos esperava em pensamento, do lado de fora da sala do cinema.

Aqui, o site do filme.
E o trailer.
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Investindo no É Tudo Verdade mais uma vez, consegui assistir ao debate sobre o mercado internacional de cinema documentário. O interessante foi, além de saber um pouco do financiamento para co-produções Brasil-França, ouvir sobre Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. Este foi o filme do Festival do Rio 2010 que ganhou meu coração, minha alma e tudo mais que podia existir em mim naquela tarde no Odeon.

Viajo é um filme de estrada, de saudade, de nordeste. É uma fotografia do Brasil de dentro. Você sente a película vibrando com os batimentos dos corações de quem a produziu e toda a beleza do filme está na simplicidade, numa história linda que tem tudo de real e fantasia.

A produtora do filme, Daniela Capelatto, estava na mesa. Ela nos contou que Viajo, foi o filme brasileiro que mais percorreu o mundo ano passado. Ele foi pra diversos festivais e concorreu como Ficção e Documentário, ganhando prêmios nas duas categorias. Como pode isso? A questão não está na categoria que assinalamos nas fichas de inscrição, mas no que diz o filme. A câmera de Viajo adentra o Brasil verdadeiro, encontra não-atores, realidades, rotinas, vidas reais ou, pelo menos, vidas possíveis. Ainda que o fio da meada seja uma história inventada, o entorno é muito mais documental do que fantasioso.

A categorização livre ou abrangente insere possibilidades infinitas de criação. Nada disso é novidade nas entrelinhas, se pensarmos em muitos outros docs que se valem da reconstituição ou até os mocumentários*, sobre assuntos criados, realidades inventadas. Recordo imediatamente do filme de Renato Gaiarsa, do último post. O filme que fiz para não esquecer é uma história real, que parece sempre se dar no presente, porque trata de uma ausência, da separação de um casal quando nitidamente os percebemos e sentimos na tela. A forma poética que o autor escolheu o permite se desvencilhar também de rótulos; ele pode sugerir uma ficção tanto quanto um documentário. O mesmo vale para meu avô, se investirmos no assunto. Eu poderia ter criado um avô e, ainda que não seja este o caso, utilizei imagens reais de outros grandes personagens da História para o representarem, também aqui, ilusão.

Os Cavalos de Goethe não passam despercebidos. Artur Omar abriu a sessão, apresentou seu filme e nos deixou à distensão do tempo. Seus cavalos e homens se tornaram pinturas, retratos vivos do presente que se descortina na tela. O que vemos é uma produção sem definição – ou joguemos o quase finado termo ‘videoarte’ – onde, a partir de um evento real faz se a desconstrução e nos permite outro olhar; força-nos a enxergar diferente, sentir diferente.

Ao tempo que é incômoda a lentidão das imagens, não conseguimos fechar os olhos. Eu já vi alguns trabalhos deste artista e já o estudei um pouco na faculdade, então fui preparada. Imagino que a primeira vez com esse filme pode ser impactante. Alguns saíram da sala. Cavalos e homens montados num jogo no Afeganistão. Uma platéia assiste. Nós assistimos a platéia que assiste e ao espetáculo dentro do filme. Os efeitos visuais nos atraem quase com morbidez. Não conseguimos não ver. Também lembrei de Eadweard Muybridge lá no século XIX – antes do cinema ter nascido oficialmente – que usou o cinematógrafo para registrar justamente o movimento dos cavalos, das articulações, dos músculos num hipódromo. Esse registro era puramente científico. Com Artur Omar, estávamos quase frame a frame. Lembra um pouco as pinturas de Caravaggio, com a profundidade da fotografia, seus tons, os contrastes de luz e sombra agora num ambiente com luz natural. E as interrupções de ritmo com frases encadeadas para associarmos, a música irregular, solavancos de áudio e visual, sempre um exercício de apreensão e vislumbre.

Também aqui não podemos rotular. O que é isso, uma instalação? Talvez ficasse melhor numa sala escura sem cadeiras, numa exposição. Mas aí ninguém veria o trabalho completo, mas frações. Uma ficção? Ele certamente manipulou e subverteu a imagem. Um documentário? Estamos tratando de fatos reais com pessoas reais e tema real.

Diante de tantas questões, o que menos importa é a resposta. A grande chave dos filmes está na verdade que imprimem em nós. E todos os filmes citados são felizes nisso.  Conseguimos adentrar em seu universo, nos deixar levar pelo que vemos, ainda que as sensações sejam diferentes em cada obra. Estes filmes estão bem alicerçados em seus sistemas de coerência e são híbridos, ultrapassam as barreiras da taxonomia e podem seguir livres, cativando e se deixando consumir por quem os aprecie.

* Mocumentary ou pseudocumentário é o 'gênero' de filmes com estética documental, mas que tratam de temas fictícios.
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Em 2008 participei de uma oficina de Cinema de Arquivo que fazia parte do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Neste projeto nasceu No tempo de meu avô, que rendeu a nós dois o prêmio de melhor roteiro. Acho que ele não chega nem a três minutos.

A duração de um filme não diz muito sobre ele. Bom é aquele que perdura em nossa mente e nos faz revivê-lo, reconstruí-lo, criar uma seqüência para uma história que acabou ali, assim que os créditos passaram e as luzes foram acesas. Ontem, antes do filme dinamarquês, vi uma sessão de curta-metragens brasileiros da mostra competitiva. Entre eles estava O Filme que fiz para não Esquecer.

Terminado há pouco tempo, esse foi até agora o mais bonito e sensível que vi no Festival. Durante a mesma sessão encontrei com Coutinho Reporter, um filme que não recordo o nome sobre um poeta – um pouco repetitivo – e São Silvestre. Dos quatro três são bem bacanas, mas devo meu coração ao filme deste baiano radicado em São Paulo. São Silvestre é um filme muito bonito sobre a corrida anual em São Paulo, quando a Avenida Paulista recebe corredores do mundo inteiro para lhe cruzar o caminho. É um filme em que o coração aperta, dá vontade de ser corredor para fazer parte daquele grupo de pessoas que lutam o ano inteiro para estar ali, driblando os problemas e mantendo a disciplina. São 15km, não é brincadeira. O diretor foi fundo e conseguiu fazer um filme coração.

Para Coutinho teremos um capítulo à parte, é muita história para um parágrafo só. E voltamos ao filme de Renato. Conheci Renato Gaiarsa nos corredores da minha faculdade de cinema, o reencontrei numa videolocadora no século passado e hoje nossos caminhos se cruzam assim, em festivais. Estivemos juntos em Gramado e agora, de surpresa e sem contato, abro o catálogo do festival e lá está ele, com um filme surpreendente.

Renato tinha uma namorada e durante uma viagem ao Uruguai descobrem que o presente muito em breve se tornará passado. O filme é sobre o fim do relacionamento, quando não havia mais como, porque, quando continuar. E de uma forma suave, com a voz da moça baixinha como uma gravação perdida no tempo e a direção do rapaz, o que era amor se transforma em saudade, um sentimento comum, conhecido de todos, ainda sentido por muitos.

A construção do filme sugere um fluxo de imagens ligada pelo verbo e por nossa protagonista. Sofia passeia, atravessa os caminhos do diretor como as mocinhas dos filmes de Wong Kar-Wai. Deste, lembrei diretamente de Amor à Flor da Pele, por mais díspare que soe assim, cru. Em Amor à Flor da Pele, percebemos a densidade da fotografia, quase podemos tocá-la com os dedos e atravessar a tela, indo de encontro a outro casal repleto de expectativas e anseios. Aqui, a câmera íntima, participativa, sendo convocada a todo instante para um encontro que, por fim, é o último, traz a mesma percepção. E a voz doce da heroína nos mostra a saudade, o fim, um espaço compartilhado em outra cidade que agora estará vazio. Como se separar? Como se afastar dos objetos, fotos, lembranças? Como mandar embora as histórias?

Este filme traz um fim tão doce e sincero que, mesmo sabendo que não deu certo como o filme conta, dá muita vontade de dizer: voltem! Por que terminar...? Como se fizessem parte de nossa história. E na mesma sessão, o filme se tornou mais poético do que aquele sobre um poeta. Com apenas três minutos e meio.
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À primeira vista, logo na apresentação da sessão, Amir Labaki nos introduz a Jorgen Leth, o diretor dinamarquês. Simpático, falante, assume o filme como extremamente pessoal e desinteressado da crítica e público, mas um tanto curioso para responder às futuras perguntas. Não falou muito sobre o filme, apresentou seu filho musicista e autor da trilha e vamos lá.


Corpos nus. Corpos femininos nus de mulheres jovens do Brasil, Venezuela, Haiti, Filipinas, Laos... não vemos América do Norte nem Europa, um pouco de Paris, sutilmente... por mais que eu tentasse ver o filme sem a ótica clichê da exploração sexual nos países ‘subdesenvolvidos pelo colonizador’, foi quase impossível fugir disso. O filme é sensual, mas não erótico.

O que entendo como erotismo é uma definição que se completa com o mistério. O erotismo pode estar num olhar, num sorriso e mais do que tudo, no que não se vê. É justamente o que perdemos aqui. Todo o exibicionismo dos corpos nos deixa com uma sensação de vazio ao tempo que o objetivo do erótico se constrói apenas com as questões do protagonista-diretor, mas jamais com respostas. É como uma adolescência tardia, desvendar o erotismo com poses e nus. O objetivo não seria o contrário?

Assisti com um grupo de 4 rapazes latino americanos. Saímos do filme e comentando com o venezuelano, chegamos à conclusão de ser sobre um senhor de meia idade que resolve viajar para se divertir com jovens e lindas mulheres. A forma como a câmera as invade nos quartos de hotel torna tudo ainda mais estranho. É um filme de exploração. Na seleção do elenco, ele as informa de que é um filme para reviver momentos do passado, romances antigos e que, com isso, elas irão sempre a um quarto de hotel se despir e ele vai filmar. Não teremos cenas de sexo. Durante o casting, vemos uma personagem que se diz atriz e ‘engole cobras’. Por mais inusitado que seja o fato na vida real, carregá-lo dentro de um filme com uma temática bacana, mas numa forma estranha, deixa tudo um pouco pior - grotesco e gratuito.

Fui ao filme achando que encontraria algo diferente. Vi um filme do diretor ano passado e me chamou atenção sua desenvoltura com a linguagem, como surpreendia a cada nova investida do produtor. The 5 Obstructions é um filme incrível. Lars Von Trier impõe cada vez mais regras para fazer a mesma seqüência e Jorgen Leth consegue vencê-las com maestria. Entendi que novamente veria algo interessante.

Ainda nos testes de elenco, ele faz questão de informá-las que não haverá cenas de sexo. Uma mulher nua num quarto de hotel já não imprime sexo na tela? Os closes justamente nas partes 'sensuais’ do corpo não são um indício? Será essa provocação o objetivo final? Mais feliz seria o filme que vi há milênios, Uma Relação Pornográfica. Aqui, uma mulher e um homem se encontram após responderem a um anúncio de jornal com o objetivo de realizar suas fantasias sexuais num quarto de hotel. É um filme belíssimo, inteligente, divertido e que mostra tudo o que precisamos ver.

As cenas de Erotic Man realmente causam impacto e ele nos informa, enquanto ator e autor em sua obra, que pretende descobrir o homem erótico e tentar transpor o erotismo na tela, mas o que vemos são corpos em camas, com um texto poético que se repete talvez tentando imprimir algum sentido de conjunto, que termina no vazio. É a expressão do que parece ser o sonho, desejo, capricho ou fantasia do diretor, num filme feito para si, como nos alertou e de fato não passa disso. Em todas as cenas em que se apresenta, apenas questiona, mas nada responde. Melhor seria deixá-lo em sua casa, para deleite próprio.

Da mesma forma como a estrutura do filme é de repetição da ação, tento não trazer isso para o texto e recordo a fotografia que remete ao passado, com uma névoa, uma imagem não tão limpa como nos acostumamos a ver – aí sim, um ponto positivo – e não muito mais.

Duas cenas chamam atenção por motivos diferentes: uma rememora Acossado, quando uma negra – vestida – senta-se numa cadeira e se vê observada por um homem com um palito na boca. A troca de olhares, os óculos Ray ban do homem, os closes e seu palito; a expressão final o transforma no grande personagem de Godard, Michel Poiccard. A cena número dois é mais impactante, polêmica e ainda tento entender sua razão no filme. Vemos uma cerimônia religiosa – candomblé, umbanda ou alguma parecida – em que uma de nossas protagonistas está incorporando alguma entidade e se manifestando. A cena se desenvolve, vemos o protagonista-diretor distante e vendo tudo do alto numa varanda, acompanhando o transe crescente, ela dançando, se transformando, se movimentando numa forma cada vez mais insinuante, claramente ‘fora de si’, exibindo seu corpo numa provocação, mais uma vez, sensual. Por que esta cena? O que se buscava com isso? Não seria um desrespeito a uma cultura que não pertence ao diretor? Não é um olhar colonizador se impondo sobre o colonizado mais uma vez?

Saí desconfiada, com um ‘sei não’ estampado no rosto. Uma parte de mim se sentia perdendo tempo com essa exibição e a outra, mais condescendente dizia que serviu para pensar, ainda que a estrutura do filme não se sustente e que s epercebam questões difíceis de aturar. Vemos imagens, criamos conceitos com o filme, levantamos questões, saímos com ‘mulheres bonitas’, ‘países exóticos', ‘dinamarquês’, ‘belíssima fotografia’, na cabeça. Não digo que falta justificativa – porque esse não é a finalidade dos filmes – mas também não encontrei objetivo. Por fim, acho que a vaidade, o machismo e o narcisismo foram além e os patrocinadores acreditaram em seu perfil de obstruções para confiar nesse novo 'sucesso' de filme de homem branco europeu. 

*Trailer aqui.
*Esse e outros realmente bons no É Tudo Verdade 2011.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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