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Café: extra-forte

Acabo de voltar do cinema. Vi com uma amiga uma comédia romântica gostosa que nos deixou comentários divertidos e comparações com a vida real. Não é o melhor filme do mundo, mas também não é uma sessão da tarde, como ouvi na saída. O que me chamou a atenção foi como compreendemos tão rapidamente essa ‘sessão da tarde’ e com base nela conseguimos julgar a qualidade de um filme.

Sem levar tão a fundo a discussão, definir a qualidade de um filme no cinema como ‘sessão da tarde’ pode ser mais complicado do que aparenta. Para quem chegou ao Brasil hoje, Sessão da Tarde é uma faixa semanal da Globo de exibição de filmes. É naquele meio de tarde de segunda a sexta, onde estão em casa as crianças, os aposentados, pessoas enfermas ou de folga – meio sem ter o que fazer – e que assistem a um filme qualquer que esteja passando. Mas que filmes são esses?

Hoje eu realmente não sei. Tive uma ampla cota da programação durante minha infância e adolescência e vi alguns filmes incríveis que hoje tento encontrar. Curtindo a vida adoidado, Clube dos 5, Gatinhas e Gatões, Esqueceram de Mim, História sem Fim, Labirinto, A Lagoa Azul, Meu Primeiro Amor, Conta Comigo, Os Goonies, Gremlins, Ghostbusters, Os Garotos Perdidos são os que lembrei agora e  por quais quase todos da minha geração são aficionados. Garanto que alguns, inclusive, são melhores do que o que vi hoje. É meio nebuloso identificar os outros filmes incríveis, não me lembro agora se estavam enquadrados nesta Sessão, mas acho que sim, como Te pego lá fora, Três Solteirões e uma pequena dama, Querida, encolhi as crianças, Olha quem está falando, Quero ser grande, Harry e Sally. São também deliciosos.

Os filmes que me moldaram e me fizeram ser esse aglomerado de pensamentos, sentimentos e o que mais possa existir para definir uma pessoa, tinham uma comédia ingênua, boba. A adolescência era o primeiro beijo aos 14, o primeiro amasso, as amigas-irmãs, os grupinhos de escola, as brigas bobas, as piadas bobas, o rock’n roll não tão pesado, o primeiro porre. Tudo bem que minha adolescência foi um retardo da infância em grande parte, mas ainda assim tinha relação com o que acontecia nas sessões da tarde e nessa época ninguém se importava com dublagens.

Acontece que nem só de bons filmes vivíamos. A Sessão da Tarde conseguia ser muito trash algumas vezes, com filmes repetidos até a exaustão e que só copiavam fórmulas de sucesso anteriores. Seqüências de alguns filmes acima é o exemplo. Esqueceram de mim foi até o 4 e tivemos também o impossível De Volta a Lagoa Azul, só pra sentir o drama. Não dá pra aturar essas coisas e é daí talvez que venha a expressão da mocinha que saiu do meu filme hoje. Mas este também não era ruim de todo...

Estamos falando de Sexo sem Compromisso, com Aston Kutcher e Natalie Portman. De cara, você já sabe que é uma comédia romântica. Não precisa nem ver o trailer, basta ver o cartaz. De cara, você já sabe que tudo acabará bem e que é um filme alto astral, não importa o enredo. É a mesma coisa de sempre: mocinho conhece mocinha. Os dois se separam.

Tudo acaba bem. Saímos felizes e com inveja daquela ilusão toda. É sempre assim. São comédias românticas, feitas especialmente e sob medida para nos causar esse efeito. E não adianta teimar com isso: o mocinho e a mocinha são lindos. Sempre. Partindo desse princípio, podemos deixar de lado o excesso de crítica e nos entregar, como quem não quer nada, a alguma distração boba.

Não é o melhor filme dos dois atores, na verdade passa longe disso, mas também nos ocupa com bobagens positivas, ilusões desnecessárias – como diria o mocinho de outra comédia romântica (essa sim, muito boa) 500 dias com ela – e risadas cúmplices. A verdade é: normalmente os rapazes não gostariam deste filme, as moças o acham bobo e é, de fato. Mas eu sou boba e me diverti bastante. Se fosse enquadrar na Sessão da Tarde, colocaria um tanto abaixo de Harry e Sally, mas ainda distante de De Volta a Lagoa Azul ou, pra quem não os viu, entre a clássica comédia romântica super legal e o cúmulo da inocência num filme que perdeu a diversão e deixou apenas o tédio.
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Quando estava na faculdade de cinema anos atrás, estudei um pouco sobre linguagem. Numa matéria que não me lembro agora – se oficina de comunicação escrita ou semiótica – tratamos da origem da linguagem, do fim da oralidade para a escrita e me surgiu uma questão que ficou sem resposta: como é pensar sem palavras? Porque, toda vez que pensamos, frases, verbos, construções lingüísticas são feitas em nossa mente. Como Oliver Sacks diz em Vendo Vozes, a fala faz parte do pensamento.

vendo-vozes

Estava no sebo aqui na frente de casa – que por sinal vai fechar as portas e me deixar tristíssima mês que vem – vendo se achava alguma coisa que me despertasse a curiosidade e meio sem querer, o cara que trabalha lá me mostrou esse Vendo Vozes. Resolvi levar e, entre a dúvida e o arrependimento por ter dito isso, fui pra casa com o livro na mão. Achei que esse poderia ser daqueles que compramos no impulso e ficam empoeirados em casa como uma proposta para um futuro improvável. No fim das contas, comecei a ler o livro e não consigo largar dele.

O livro trata um pouco da história da surdez pré-lingüística e o surgimento da língua dos sinais e de sua importância. Surdez pré-lingüística foi o termo que deram para aquelas pessoas que nascem surdas, que não tiveram acesso até onde se recordam de ouvir qualquer palavra. Claro que para isso, consideramos a palavra como forma de linguagem primordial e essa é uma questão também levantada e bem lembrada de sua importância quando o autor cita a Bíblia, como um dos grandes exemplos: no princípio era o Verbo. 

O que passa é durante a história da evolução da linguagem dos sinais, viu-se que o desenvolvimento humano dos surdos nesta condição era muito mais rápido do que se eles aprendessem de imediato a ler lábios, falar como fosse possível – já que não tinham parâmetro para como falar, se nunca ouviram – ou até escrever.  Mas isso ainda não respondia a minha pergunta, apenas a tornava mais densa. Eu tinha pensado nos surdos, sabia como eles se comunicavam, mas nunca havia me passado pela cabeça a possibilidade deles não pensarem como os que ouvem ou já ouviram pensam. E aí a pergunta segue viva.

A leitura é extremamente acessível, como vários outros livros de Oliver Sacks, esse neurologista que trouxe aos pobres mortais conceitos, questões interessantes e normalmente restritas aos ambientes acadêmicos e profissionais. Uma das pistas que me ajudam a chegar perto da resposta que procuro é:


“A linguagem [de sinais] que usamos entre nós, sendo uma imagem fiel do objeto expresso, é singularmente apropriada para tornar nossas idéias acuradas e para ampliar nossa compreensão, obrigando-nos a adquirir o hábito da observação e análise constantes.”

Ou ainda


“Com base na linguagem da ação, De l’Epée criou uma arte metódica, simples e fácil com a qual dá a seus pupilos idéias de todo tipo e, ouso dizer, idéias mais precisas do que as que em geral se adquirem com a ajuda da audição. Quando, na infância, somos reduzidos a julgar o significado das palavras a partir das circunstâncias nas quais as ouvimos, ocorre com freqüência que apreendemos o significado apenas aproximadamente e nos satisfazemos com essa aproximação durante toda a nossa vida. É diferente no caso dos surdos ensinados por De l’Epée. Este só tem um meio de dar a eles idéias sensoriais: é analisar e fazer com que o pupilo analise junto. Assim, ele os conduz de idéias sensoriais a idéias abstratas; podemos avaliar o quanto a linguagem da ação de De l’Epée é mais vantajosa do que os sons falados por nossas governantas e preceptores.”

Esses são trechos tirados do livro de outros autores - sendo o primeiro um surdo 'pós-linguístico' e do século XIX, quando a surdez já era vista não como um impasse, mas um desafio a superar, que era descobrir uma forma de desenvolver, de dar valor e condição a estas pessoas. 

Entretanto, minha questão primeira não foi resolvida e ainda há outras no caminho, quando leio o livro. Acabo de falar com um amigo que teve a experiência de ensinar a surdos com um intérprete para LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Ele me disse que não havia um ‘gesto’ específico para FÍSICA, e que assim, a intérprete tinha que soletrar. Tudo bem, é uma saída, mas ela destoa um pouco das noções (ok, séc. XIX) acima, quando entendiam ser a linguagem dos sinais completa. E, pensando adiante, como se definem algumas abstrações? Como se define paz, saudade... será que há um gestual ou serão soletrados também, o que acaba se tornando necessário retornar à palavra... e voltamos à questão do ensino da mesma e o pensamento ‘sem palavra’ passa a se tornar mais difícil.

Acredito que não encontrarei as respostas neste livro - nem ele se presta diretamente a esse tema, mas já traz alguns desenvolvimentos e eu ainda não passei de um terço da leitura. A partir dos surdos talvez se chegue mais perto, ou se imaginássemos aqueles idiomas de símbolos, como o Chinês, Japonês... apesar eles também escreverem conforme o alfabeto, há os símbolos que formam diretamente conceitos e não letras. Mas ainda não é o caso, já que é apenas uma convenção de conceituar através dos símbolos as palavras que entendemos. É só um ‘alfabeto’ distinto.

Isso parece mais uma história sem fim, mas até o fim do livro, alguma noção deve surgir ou pelo menos, ainda mais questões.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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