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Café: extra-forte

Sabe aqueles filmes que nos cativam a cada novo e instantâneo, natural pensamento que aflora sobre ele? Sem querer, após sermos apresentados, vão ressurgindo na memória durante o dia, ou a semana e queremos manter aquela satisfação da boa surpresa e o deleite de uma grande e sensível produção que participamos. Nordestina e visceral, esta Suely me tomou de corpo inteiro.

Parece que há um destino a ser cumprido, uma missão para determinadas mulheres e indo de encontro à correnteza que tenta lhe arrastar, ela se sustenta e rema, nada na direção contrária da tradição. E assim, toma outros rumos e vive sua própria jornada. Suely/Hermila é essa mulher; é a representação de tantas outras que querem ser apenas uma de cada vez e não parte de um conjunto.

Hermila é uma mãe que retorna à sua cidade natal vindo de São Paulo à espera do marido para aí viverem com o filho que carrega no colo. Como manda o destino trágico das mulheres, o marido não retorna e daí nasce Suely, um corpo novo na então Hermila que se rifa a troco de dinheiro para viver como nova em um outro mundo.

Atualmente, da safra do cinema nacional, a que mais me interessa é a nordestina. Muito por ser de onde eu vim, mas principalmente por ser o cinema puro, o cinema menos misturado à linguagem televisiva, o cinema mais distante das grandes emissoras. Talvez também o cinema mais pobre e por isso, mais rústico, mas isso é um engano estético, na verdade, porque a riqueza dele está na sutileza e no retrato do nosso coração em sua forma mais sincera. São filmes que nos tocam a alma, que nos lembram quem são e o que são as pessoas, a diversidade da vida neste país, os lugares menosprezados, as vidas nas pequenas cidades, quase documentários de tão reais situações encenadas.

Há poesia e beleza nas cenas deste filme, há a elegância da atriz e personagem Hermila que nos faz compreender suas estranhas ações, seu desespero controlado em movimentos calculados para atingir seus objetivos. Há uma doçura de jovem mulher e uma coragem pouco vista nas meninas de nossa idade preocupadas com pequenos problemas. E há uma tradição familiar quebrada em pequenos fragmentos com um roteiro muito bem amarrado em personagens-chave.

O Céu de Suely é um filme para mulheres que buscam seu próprio caminho, para mulheres que estão satisfeitas com a correnteza que as impulsiona e para os homens, muito bem retratados numa história que finalmente não os privilegia. Acima de tudo, é um filme sobre pessoas e sentimentos incompletos, que se totalizam na confusão da vida, nas conseqüências das decisões que tomamos com o coração e enfrentamos com a rotina. É um filme que lembra a mim mesma, às minhas comadres espalhadas pelo mundo, às nossas travessuras de novas adultas ainda meninas e à força que nos impulsionas para sermos apenas uma de cada vez e não todas de uma vez só. E essa sensibilidade veio de Karim Ainouz, um homem que surpreende, nordestino e fantástico, também retirante e vivente sensível de uma grande cidade que não a sua. O céu de Suely pode não ser o paraíso, mas vive de pôr-do-sol como nenhum outro poderia.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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