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Café: extra-forte

Estou lendo De cuba, com carinho, de Yoani Sanchez. O livro contém uma seleção dos posts dessa autora no Generación Y, sobre as situações que vive e conhece na Cuba de hoje, esmigalhada por seu próprio governo. Textos curtos, muito bem escritos levaram essa filóloga ao topo do mundo, ainda que não consiga sair de sua própria ilha.

Enquanto Cuba se consome, penso no que acontece ao meu redor. O Rio de Janeiro, ridiculamente futura sede olímpica, mantém os mesmos problemas de sempre e não parece medir esforços suficientes para aplacar a situação, apesar das propagandas políticas. Aqui o tráfico de drogas é a rotina, bem como as trocas de tiros, as balas perdidas. É claro que nem todos os acontecimentos são noticiados, mas este tipo de evento não assusta mais ninguém.

Como nosso Rio está o Irã e seus vizinhos; ninguém se abala mais com tantos atentados, vítimas, mortes à toa. Fico pensando em quantos blogueiros seriam necessários para tratar dos temas de cada país, de forma a impactar seu próprio sistema. Para que não pareça exagero: a cubana Yoani, ao lançar seu livro com sucesso mundo afora sem conseguir ir aos lançamentos, foi seqüestrada e espancada. Sem mencionar a luta diária para usar a internet ilegalmente.

Quando pensamos que aqui como Cuba, sofre de problemas crônicos, não vemos novidade nenhuma nas notícias dos jornais. A corrupção nacional, os viciados, seus traficantes e policiais, balas perdidas e assassinatos são notícias passadas e preenchem lacunas nos impressos na falta de coisa melhor a dizer. Agora, com algumas tragédias dignas de 2012, os tiroteios cariocas e atentados no Oriente Médio cederam lugar a Angra, Ilha Grande e Haiti. Não se preocupem, em um mês ou dois, as velhas novidades retornam às primeiras páginas.
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Enquanto eu olho os postais dos Médicos Sem Fronteiras, fico pensando no que fazemos por aí para nós e para os outros. Nada dessa megalomania de vamos salvar o mundo ou 2012 chegará, mas as pequenas ações mesmo. E é claro que essa reflexão vem por conta do novo ano.

Não me venham com o altruísmo não existe, que ele em si carrega o que há de mais egoísta que é o sentimento de bem estar por ter feito algo por alguém em condição pior. Nada dessa energia carregada de amargura. Vamos pensar sim, no que podemos fazer por quem precisa, independente de qualquer sentimento ou benefício próprio. Talvez seja por isso que a medicina me ronda a cabeça como uma possibilidade.

Cenas de destruição no início do ano, réveillon devastado por diversas tragédias pelo globo e isso acontece sempre. Talvez por estar mais próximo de mim, no mesmo estado em que resido, me afetam de forma diferenciada. Ou talvez não, a situação em si, a dor coletiva de uma tragédia 'natural' é o que mais nos abala, as perdas de vidas que desconhecemos, as perdas em si.

Há muita tensão comigo e minha família nesse fim e início de anos. Problemas íntimos nos tomam o coração e o máximo que conseguimos é empurrar um sorriso de batalha e pensar para o bem, para um futuro promissor, para uma saúde coletiva, um bem maior, uma vida resolvida. Enquanto as coisas se encaminham para isso com obstáculos superados dia-a-dia como uma formiguinha carregando seu alimento maior que ela própria, o coração segue apertado, interrompido por momentos de distração no trabalho, com os amigos. De tanta oração, para tantos deuses e religiões, pedidos à natureza, esperamos sempre o melhor. O melhor para o ano, para nós, para todos.

E chega dessa ladainha positivista. A vida segue. Que nesse ano sejamos mais honestos, diretos, reflexivos, lutadores, pensantes, ativistas. Que novos ideais surjam, que a coletividade aumente, cada indivíduo se destaque como uno, se compreenda e então conviva.

E pode parecer difícil, complicado, distante e a preguiça nos ronda. Somos tomados de leve pelo conforto, pelo marasmo e pela paciência, mas no chega e basta é que corremos atrás e vemos de que substâncias somos feitos. É esse o sangue que tem que ferver. Que os orixás, deuses de todos os cantos e naturezas nos guiem e conosco, nos tranformem no que acreditamos que podemos ser e, por fim, sejamos.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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