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Café: extra-forte


Cozinhei beringelas. Nunca tive muita proximidade com elas, sempre comi meio sem saber direito... entendia a berinjela como pedacinhos de coisas e via no mercado a bicha lá, inteira, roxa e verde. Estranha, mas bonita.

Decidi que faria beringelas recheadas, não porque as comi em algum lugar, mas porque inventei que deveria ser gostoso... como pimentões recheados. Fui no mercado, comprei a danada e coloquei na geladeira. Uma semana se passou. Todas as manhãs, abria a geladeira e lá estava ela, roxa e verde, bonita, mas estranha. Tive medo. Já pensou se a berinjela não é gostosa? Ela nem decide se prefere j ou g.

Hoje acordei mais pra tarde que manhã e lá estava ela novamente, me encarando. Resolvi tentar, afinal de contas o Girassol começou a esmorecer e precisava fazer alguma coisa. Recheei beringelas. Destruí a cozinha mais uma vez, nessa onda de programa de tv culinário para você mesma.

Abri as janelas, troquei a água do Girassol e cada dia que passa descubro que gosto mais e mais dele. Ele é muitíssimo amarelo, suas pétalas ficam resistindo e todos os dias aparecem as mini-abelhas. É a parte boa de morar no térreo. As mini-abelhas.

Terminei meu programa culinário, limpei a cozinha - parte que nunca aparece nos programas - e fui comer as beringelas com recheio de carne moída e todas as coisas que encontrei pela geladeira. O recheio, como sempre, ficou muito bom. As beringelas...

Murchar não é uma palavra legal para o Girassol. Porque ele não murcha, exatamente. Seu caule vai descendo devagarzinho, como se estivesse dizendo para o sol: seja feita a sua vontade, frente o peso da enorme flor. E a flor... ela tem um cheiro adocicado, mas fresco... parece que acabou de sair do banho.

Não agüentei comer as beringelas. A casca tem um sabor mais forte que não topei e um cheiro muito forte de planta. Não consigo comer vegetais com cheiro muito forte ou gosto expressivo de que saiu do mato. Gosto daquelas que disfarçam mesmo... por isso, não me chame para: casca de berinjela, açaí, beterraba e similares.

Quando eu era pequena, meu pai plantou um girassol no jardim. Eu passava um tempo enorme vendo ele se mover de acordo com o sol. Meu Girassol não faz isso. Ele foi presente e, assim, sacado da terra para minhas mãos, perdendo o super poder. Ao mesmo tempo, trouxe uma energia incrível, transformando dias como o de hoje.
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Estou lendo um livro divertido sobre cinema. Acho até que ele é mais divertido para quem não tem formação e doença pela sétima arte, que encontrará várias curiosidades bacanas e ótimas indicações de filmes: O caderno de Cinema de Marina W. A autora já escreveu outros livros e está anos-luz em popularidade em seu blog em relação ao meu pobrezinho aqui, mas não é isso que importa agora.

Uma das indicações é o obrigatório Acossado (1960, Jean Luc Godard). Godard é um dos homens mais importantes do cinema, um dos fundadores da Cahiers du Cinema (revista francesa sobre cinema nascida nos anos 60), junto com François Truffaut (dirigiu Jules e Jim e A noite Americana e outros tantos), e mais alguns importantes cineastas que não citarei, já que isso não é uma aula. Eles são os criadores da Nouvelle Vague, uma vanguarda artística francesa que mudou os hábitos e a linguagem de fazer filmes. A Nouvelle faz parte daquele turbilhão de novidades desta geração (Neo-realismo Italiano, Cinema Novo, Cinema Direto, o ano de 68 em todos os lugares do mundo... mas vamos parar por aí).

Acossado conta a história de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo), um ladrão de carros que acaba matando um policial e tem que sair da França. No meio da história, encontra Patricia Franchini, uma namorada americana que vende jornais pelos Champs Elysèes. Ao tempo que Michel tenta resolver seu impasse e quer levar Patricia para a Itália, ela fica na dúvida, pois pretende ascender à carreira de jornalista e ainda há outras complicações que deixarei em aberto, bem como o sensacional final da trama.

Se lemos simplesmene a sinopse, não entendemos a dimensão do filme que transformou a história do cinema. Há que assistí-lo e entender o momento em que ele surgiu, como o filme foi feito e sentir a estranheza, pois ainda hoje é um filme marcante.

Jean Seberg é Patrícia essa garota que apenas de olhar para seu rosto, já sentimos vontade de conhecê-la. Há um mistério naquele olhar meigo, ela não é simplesmente doce, ela tem algo mais, ela parece observar a todo instante, é uma mulher de opinião... No meio das opiniões de Marina W., fiquei sabendo mais da vida da atriz e fui investigar .

A atriz teve uma vida que ninguém imaginaria ao vê-la nesse filme. Ela casou-se quatro vezes, se envolveu com os Panteras Negras, teve dois filhos e um deles, uma garota, morreu em decorrência de uma overdose da mãe, dois dias depois de nascida em 1970. A mãe, a cada dia de aniversário de nascimento da filha, tentava se matar, até que conseguiu, em 1979. Uma vida turbulenta, envolvida em lutas sociais e que acaba em tragédia, com uma mulher cheia de potencial e um dos marcos do cinema mundial.

A história de Jean Seberg, ao tempo que nos entristece, nos faz pensar em quão complexa foi sua geração, em como deveria ser ao mesmo tempo interessante e crítico viver tantas tranformações em pouco tempo, quebrar tantas regras sociais, viver esse romper de situações com tanto preconceito, se envolver em movimentos que necessariamente mudariam o mundo, estar neste mesmo mundo que muda a todo instante e como uma ação em uma ponta deste espaço conversa com outra, no outro extremo.

Por fim, Jean escreveu dois livros: Como escapar de si mesmo (ao que a pesquina informa, um manual para suicídio) e Blue Jean - um ensaio sobre a esquizofrenia. Em uma das frases que pesquei da atriz, ela diz que o filme que mais gostou de fazer foi Lilith (Robert rossen, 1964), que vou procurar para assistir. E a última coisa: pra quem viu O bebê de Rosemary (Roman Polanski, 1968), lembrará totalmente da referência ao corte de cabelo de Jean em Mia Farrow.


Filmes:

Acossado (À bout de souffle)
Diretor: Jean-Luc Godard
1960, 90 min.
País: França

Jules e Jim (Jules et Jim)
Diretor: François Truffaut
1962, 105 min.
País: França

A Noite Americana (La Nuit américaine)
Diretor: François Truffaut
1973, 115 min.
País: França, Itália

Lilith
Diretor: Robert Rossen
1964, 114 min.
País: Estados Unidos

O bebê de Rosemary (Rosemary's baby)
Diretor: Roman Polanski
1968, 136 min.
País: Estados Unidos
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Depois de muito sofrer e desistir de pensar no infame vaso sanitário, cheguei a conclusão de que ele não poderia me vencer. A soda cáustica é uma desilusão só: não faz fumacinha, não explode e se tem cheiro, eu não senti. Ela finge que resolve seu problema. Acabou que usei o pote todo da soda seguindo as trezentas indicações à perfeição e exaustão e nada aconteceu... a água desceu um tiquinho mais rápido, mas mesmo assim, o vaso ficava inutilizado.

Depois do almoço, fui com uma comadre na rua: precisava comprar um livro e ela tinha que ir pra casa. Passei mais uma vez em uma das duas lojinhas de coisas baratas para casa; estava procurando lixeiras (duas pros banheiros e uma pra cozinha), achei todas feias e as que eu queria só encontrava pela metade: ou só a tampa, ou só o 'receptor'. No meio dessa história e com a loja entupida, confessei a uma das donas de casa que estavam por lá: a senhora sabe como é um desentupidor de vaso sanitário? Porque o meu vaso está impossível e olha que já tentei soda cáustica!! (a soda sempre assusta as pessoas). Falei com minha mãe e ela me disse que era para eu comprar um desentupidor, e me descreveu o aparato, mas só me lembro de 'cabo de vassoura'. Ela, à luz de sua sabedoria: ''você pode até comprar, mas tenho uma dica infalível, você vai precisar:

1 panela razoável com água ultra super quente destruidora
1 vassoura piaçava
1 saco plástico (ou 4 se você for neurótica/o como eu)
10 folhas de jornal

Faça uma casinha para a ponta da vassoura que varre dentro de um saco plástico. Enfie a vassoura dentro e dê um nó no cabo.'' Como eu sou mais preocupada, fui colocando sacos por cima para não molhar a vassoura por dentro. A brincadeira é jogar a água fervente na privada e meter a vassoura dentro, fazendo o velho movimento entra-e-sai e pronto. Seu vaso estará milagrosamente desentupido.

Eu juro que queria encontrar a dona moça da loja e agradecê-la profundamente. ela foi muito gênia e esse é o tipo de sabedoria que só o tempo resolve... não tem jeito. Eu fico pensando... as pessoas realmente usam mecanismos criativos para solucionar problemas. Elas sim, deveriam ser produtoras de cinema. Mas isso é outra história.

Me sinto muito feliz nesse momento e aprendi na prática porque não devemos jogar papel no vaso sanitário (ainda que eu não acredite que o papel tenha sido responsável e sim algum material de construção surreal deixado como resto...). A crise agora é me livrar os sacos plásticos da vassoura... mas isso é café pequeno!
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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