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Café: extra-forte

É... como toda baiana que se preze, a praia anda me fazendo muito bem. O verão começou no dia da primavera e o calor só faz aumentar. Dias lindos e, pra mim que moro pertinho do mar, é um sufoco e suplício sair todos os dias de manhã para vir à sucursal do inferno na terra: Lauro de Freitas.

Não tenho exatamente nada específico contra esta cidade, à exceção do fato de ter que vir aqui das segundas às sextas. Lauro de Freitas cresceu sob a sombra de Salvador, fazendo parte de sua região metropolitana. A ousadia é tanta que vivem reclamando o Aeroporto Internacional de SALVADOR para si. Lauro de Freitas é um município onde o desafio é a busca por lugares razoáveis para se alimentar; as opções são escassas e Villas do Atlântico, que corresponde à metade de Lauro, oferece mais opções... em Lauro é possível encontrar muito mais calor do que em Salvador, sem falar na total ausência de beleza natural. A feiúra reina e o máximo que a prefeitura conseguiu até hoje, foi construir uma fonte em frente à entrada do aeroporto, com um formato de barco + berimbau. O senso estético surpreende. Falar em policiamento e segurança ou coerência no trânsito é piada; como toda cidade pequena, as duas opções são quase inexistentes.

Evitando pensar nisso tudo, vivo pelos dias de sol nos fins de semana soteropolitanos. O feriado passou com chuva nesta terra e minha fuga ao litoral norte foi providencial. Retorno à terra natal, agora linda e brilhante, com o sol estampado onde o biquíni não cobre. Praias limpas e tranqüilas, surfistas, ondas e piscininhas. Onde eu fui tinha isso tudo e mais uma pousadinha com gente muito tranqüila. Nessa brincadeira toda, pedi dois altos pra relaxar e mudar as estratégias do jogo.

Com um domingo agitadíssimo e já estressante, fico pensando nas estratégias do descanso e de que forma posso virar este barco para mares mais tranqüilos, onde as ondas batam com força, mas sem perder o controle do leme. Sem problemas novos à vista, vou contornando os obstáculos do dia-a-dia com o retorno de um passatempo que deve construir algo de diferente em mim: o quebra-cabeças. Melhor remédio para concentração e aliviar o estresse, este jogo que acaba com a paciência de muitos, me faz refletir, através do colar das três mil peças, como construo meu mundo. Pessoas importantes e não importantes e o que deve se encaixar ao redor. É incrível como um passatempo pode solucionar nossas questões e criar significado diante das coisas sérias. Ou pode ser tudo invenção, daquelas que dizem que para tudo existe um significado. O que eu penso mesmo é que podemos inventar interpretação que nos apeteça para qualquer coisa e as metáforas e simbologias estão aí para provar. Enquanto tudo acontece ao mesmo tempo, meu olho crava no calendário em busca de um futuro próximo e muito diferente deste presente ensolarado.
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Os dias de fúria estão chegando. Um misto de carência, irritabilidade e dores percorrerão meu corpo e, mais uma vez, me transformarei num monstro apocalíptico. Ainda que isso aconteça invariavelmente todo mês, parece sempre ser insuportável a condição e a briga com algum ente querido. Essa situação catastrófica, como as profecias que se realizam, faz parte de um ciclo feminino que todos compreendem e aceitam.

Quando eu era mais nova, achava que nunca iria ter TPM, como achava também que jamais beberia cerveja. A TPM surgiu em mim quando me dei conta de que realmente tinha problemas a resolver e crises existenciais e outras questões apenas ridículas começaram a fazer parte da lista de tormentos que por vezes percorre meu cérebro e acaba com meu sono.

Agora existem as pílulas. Elas não servem para nada em relação a tudo o que foi citado, mas, ao tempo que reduzem meu prazo de expiração à tortura mensal, definem a data de chegada do armagedon. Quando faltam duas ou três para acabar a cartela, o nervoso e o mau humor viram minha rotina e só me resta conversar com minhas comparsas neste sistema.

Acho que só estou escrevendo isso porque não tenho o que fazer agora e aproveito para justificar meus atos bárbaros da próxima semana. Pode não acontecer nada disso também e o máximo que farei é chorar. Não que eu esteja sofrendo ou que alguém morreu, mas acontece o problema da sensibilidade. É duro ser mulher e instável. Mas sempre desconfie daquelas que não têm TPM. Estas sim, são muito mais macabras. Ou doidas, daquelas que fazem yoga há decênios, não comem nada animal, não fumam e sequer bebem. Desconfie.

Nesse meio tempo, vou beber. Já que, como a TPM, a cerveja é inevitável.
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Não sei se fará efeito, levando em conta que ninguém provavelmente acessa mais esse blog instável. Em todo caso, vale perguntar: qual foi o último romance que valeu a pena ter lido?

Da minha parte, estou me esforçando mais uma vez para ler Shalimar, o equilibrista, do Salman Rushdie. Apesar de todo o sucesso que o autor faz no meio intelectual, não estou realmente me divertindo com esse livro. Tenho uma mania de buscar autores novos pra ler e é a segunda vez que me estrepo. Não digo com isso que ele é ruim, mas já li coisas melhores. O autor enrola no texto, na esperança de trazer encantamento ao que conta, mas cansa o leitor com tantas palavras bonitas. Melhor faz García Márquez, que usa as palavras de forma tal que traz a fantasia perfeita com a combinação dos termos simples sem muitos adjetivos. Ainda assim, estou me esforçando: a história trata de amores em tempos diversos envolvendo as relações entre a Índia, Caxemira, Estados Unidos. Existem momentos realmente bonitos, a tradição da Caxemira, as diferenças sociais, um assassinato, personagens interessantes, mas das 78 páginas do momento, se enxugarmos a enrolação, dá pra tirar umas vinte... sou uma pessoa esforçada, posso mudar de idéia ainda.

Enfim, não sou crítica de livros ou li o suficiente para ter toda a propriedade no falar, mas tratando de gosto, não há erros. Minha segunda escorregada foi com “A menina que roubava livros”, que é mais um livro com histórias do tempo hitlerista.Ainda há nesse alguma graça, já que é a morte quem narra a epopéia da menina, mas o autor inventa uma interlocução com o leitor, opinando sobre a história em muitos intervalos e perde mais tempo na narrativa.

Estou em busca de um livro que me prenda, que me faça ler rápido não importando o número de páginas que eu tenha pena de terminar, como Cem anos de Solidão, O Evangelho segundo Jesus Cristo, A Paixão segundo GH e, por que não, as besteiras femininas de Bridget Jones e similaress. Quero uma indicação de um livro divertido, que me faça ficar ansiosa pra ler quando não puder e tenha pena de terminar enquanto estiver lendo.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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