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Café: extra-forte

Não é só vontade de sair... é vontade de sair, de gritar, de fugir de tudo, de sumir na vida, com uma praia azul e vazia na frente pra ficar lá dentro do mar, fingindo que sou peixe. É esta droga de sentimento de que tem alguma coisa errada ou que vai acontecer e que me aperta e de que estou fazendo as coisas erradas muitas vezes... e no fim, nem sei se são erradas ou se eu que estou achando tudo errado.

Não é só a mudança do trabalho, é o que insisto com meus próximos e preocupados, é algo mais... são as vontades de outras coisas, também não tão grandes e difícieis; até alcanáveis elas são. E, enquanto eu tenho a certeza de que o que planejo e almejo vai me amadurecer e me tornar outra, existe uma pontinha de dúvida, lá dentro, quase escondida, que insiste no "é disso que você realmente precisa agora?" Mas continuo fingindo que não ouço isso, porque sei que é estupidez e que eu realmente preciso disso por muitos motivos.

Tem umas coisas na Bíblia, que não sei direito porque não li a Bíblia, que são chamadas de Grandes Revelações. O que importa é só o título. Acho que na vida passamos por momentos de Grandes Revelações e que antes destes momentos chegarem, uma crise deve acontecer. Porque as Revelações não surgem como uma surpresa, não são um susto. As grandes descobertas são fruto de estudos e na vida acontece o mesmo. Daí acho que estou num momento pré-Grandes Revelações.

Hoje acordei cedo e fui ver tv. Descobri que não ia fazer a prova de espanhol porque havia perdido aulas e não sabia pra onde iam as coisas por lá e fui pro sofá. Estava passando nada na tv e assisti assim mesmo, mais pra que as imagens passassem por mim e me dessem tempo de pensar na vida e me distrair ao mesmo tempo: a tv tem a capacidade de fazer refletir sobre tudo o que não passa lá e, ao mesmo tempo, te fazer ignorar sobre esses assuntos quando seus pensamentos se encontram com a vida real e se tornam resoluções e responsabilidades, aí é o momento em que você se desconecta dos pensamentos e vai se distrair com as imagens. Entre uma coisa e outra fiquei me perguntando porque eu me divertia mais antes. Não é depresão nem nada disso, acho que é essa coisa de novas perspectivas e o que elas trazem mesmo e vejo isso porque me tornei mais crítica com tanta besteira que estou num momento de deixar de ser chata de uma vez por todas e permitir que todas as coisas horríveis, chatas, burras, estúpidas e grotescas existam sem a minha percepção tão clara disso. Como uma pessoa reticente costuma me dizer, seja mais leve... estou tentando...

Enfim, vai passar quando tudo se resolver, apesar da imagem do mar azul estar sempre me rodeando como uma vontade entranhada em mim. Vontade eu sei, que nunca vai se esgotar e vou estar sempre buscando... buscando...
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Foi a frase que o ator Paulo José falou para o Matheus Nachtergaele outro dia aí. Tô lendo a Bravo! nova e ela diz isso em uma reportagem sobre o ator de Baixio das Bestas, filme que ainda não entrou em cartaz em Salvador, do Cláudio Assis.

Conheci esse menino Cláudio no último Festival de Gramado, junto com a companhia divertidíssima e especialíssima dos queridos Renato Gaiarsa, Rodrigo Luna, Edgar Navarro, Wladimir Carvalho e José Araripe. A viagem foi estranha, parecia que eu estava no universo paralelo do Brasil. Lugar frio demais, bonito demais, branco demais, parecia um cenário... e eu no meio daquilo tudo, até as pessoas eram estranhas, parece que faziam parte de um roteiro... Sabe o A noite americana, do François Truffaut, que a primeira seqüência é a filmagem de uma cena numa praça e quando ele grita corta! você toma um susto? Pois é... fiquei esperando alguém gritar o corta!, mas nunca aconteceu. Ao invés disso, tivemos almoços gratuitos e divertidos, dançamos com o pessoal do restaurante que parecia aquele do Solar do Unhão (chamamos ele de Solar do Unhão de Gramado), assistimos filmes bacanas, concorremos a premiações, conhecemos algumas pessoas legais, comemos muito, bebemos mais ainda.

Tudo é muito bom de lembrar nesta viagem: Marcela morrendo de frio e quase chorando no quarto do hotel, dizendo que não ia sair de lá e no fim das contas estávamos as duas passeando no meio das nuvens; a carona que pegamos de um homem que ficou com pena de nos ver no ponto de ônibus; a enorme quantidade de chocolate que comi e café que bebi de graça; as pessoas que conheci e as coisas que aprendi.

3 noites maravilhosas:
1. A que encontramos as meninas. Depois de passar muita raiva diante da frieza das pessoas do sul que nunca conversavam com a gente, topamos com duas meninas que estudavam em Caxias do Sul. A primeira coisa que nos perguntaram foi se éramos de lá e quando dissemos que não, elas deram graças a deus e saímos para beber. Foi ótimo! No fim das contas, elas não tinham onde dormir e foram dormir escondido lá no nosso quarto. Depois tomamos pagação do mercenário dono...

2. Não lembro como começou, só sei que estávamos com os troféus do Gramado Cine Vídeo, eu com os de Xanxa e Rosalvo, e Luna e Wrewre com os que lhe cabiam e saímos para ver a estréia do Wood & Stock. Quando passamos pelo tapete vermelho todo mundo achou que a gente era global ou sei lá o quê e o pessoal do Tocantins que conhecemos num passeio ficou nos gritando e tiramos fotos. Quase um Oscar, imagine! A diversão mesmo foi que eu tinha bebido e comecei a ver o filme...e dormi. Mas o filme é massa!!!

3. A última noite do Festival de Cinema. Arara, Cláudio, Edgar, Chela, euzinha, Luna e Wrewre bebendo um monte de vinho na varanda de um restaurante qualquer do lado do Palácio dos Festivais. Bebi e ri demais nesse dia. Me diverti muito e saí feliz e cantante para o hotel, já sem frio, claro: eu pra um lado, Chela pro outro, sempre me gritando para segui-la. Descobri que não fui a única a estranhar os costumes frios da região. O Cláudio não curtiu muito e o Araripe teve que sair para apresentar algum prêmio no Festival.

Enfim, o que eu sei é que ainda espero o filme do Cláudio aparecer por aqui, com muita ansiedade. Mas a frase. É muito boa. Melhor ainda é que o Matheus a considera irretocável. Essa matéria da Bravo! tem uns tópicos sobre o ator, como um retrato falado. Este fala sobre o fascínio da morte, a do suicídio. Não sou exatamente fascinada por isso, mas ele é, talvez por não ter conhecido a mãe que morreu assim... o mais legal é pensar que o Paulo José falou isso, provavelmente num de seus dias de bom humor. Ele é um ator que parece sempre estar de bom humor. Mesmo com seu problema de saúde, está sempre bem, querendo viver da melhor forma possível. Provavelmente ele falou essa frase numa conversa amena, com um tom de voz tranquilo de quem sabe o que é a vida porque já viveu muito mais que muita gente deste país e soube aproveitá-la.

Nesse fim de semana fui ver um filme francês no cinema com Renato. Passou o trailer do documentário sobre o Niemeyer e eu lhe disse: Renato, sou fã desse cara. Eu acho que o Niemeyer, o Chico Buarque e o Tom Jobm é que são brasileiros de verdade. Vou acrescentar à lista o Paulo José. Na verdade, eu só lembrei dos três naquele momento, mas dia desses faço a lista quase completa.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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