Pega Varetas


1.

Com catapora em casa, Pedrinho não sabia mais o que fazer. Já tinha visto todos os filmes da locadora, a mãe tinha passado lá dois dias atrás e pediu pelo amor de deus que lhe fizessem um pacote especial criança em casa, para que ela tivesse algum sossego enquanto o menino se ocupava. Pedro já viu tudo, cinéfilo desde sempre, com seus longos 11 anos de experiência de vida. Em plena semana de aulas, não conseguia estudar de agonia e como era contagioso, ficava em casa fazendo tudo repetido. Falava com João pelo telefone.
— Velho, não aguento maaais, já zerei Super Mario, já brinquei de Tangram, até as revistas da turma da Monica li 3 vezes cada uma. Vi todos os lançamentos da locadora, mandei minha mãe ir lá de novo pra pegar alguma coisa velha e chata.
— Rapaz, para de reclamar, que cê tá em casa na vida boa e eu tenho que ir pras aulas e ainda copiar tudo pra você. Só reclama.
— Ah tá, porque não é você que tá todo se coçando sem poder se coçar, tudo arde, uma agonia danada. Cê nunca teve isso não?
— Catapora?
— Sim.
— Não, só tive sarampo, nem vem com esse negócio.
— Oxe, mas você deveria vir logo pegar isso, diz que tem que ficar doente, criança mesmo, pra criar defesa, aquele negócio, como é que chama…
— Anticorpos.
— Lá vai ele com a medicina de ouvir falar, mas é isso mesmo, anticorpos! Vou falar pra minha mãe ligar pra sua e mandar ce vir me visitar.
— Oxe e eu lá quero doença? Que praga de amigo ruim é você?
— Oxe, sou o melhor que você já viu, estou, na verdade, salvando sua vida, meio de volta para o futuro.
— Ah tá, tá sim, salvando minha vida me deixando doente. Aonde, vou aí é nunca.
— Oxente, velho, venha ajudar seu amigo aqui, deixe de ser ruim.
— Vou nada.
Mais uma tarde e a conversa se repetia: Pedro entediado até o último cascão que teimava em tirar com a unha, tentando convencer João a passar lá, pelo menos pra dar um oi, saber da vida, do futebol. João, que não contava nada em casa, vai que a mãe tem mesmo a ideia de levá-lo para se contaminar de graça, ia pra escola e sempre voltava com mais papeis, as apostilas dele e de Pedro que, em algum momento, entregaria. Na tarde seguinte, a mãe desconfiou:
— João, que tanto papel é esse que você vive carregando agora?
— Nada não mãe, dever só.
— Mas esse tanto? Desde quando a escola exige isso tudo em uma semana?
A mãe, que sempre acompanhava as tarefas do filho, logo viu as apostilas duplicadas com o nome de Pedro em cima, anotado de caneta. Era a letra da professora de português.
— E por que tem o nome de Pedro aqui? Ele não tá indo?
Cabisbaixo e já com medo, quase num sussurro, o pequeno responde:
— Está em casa, com catapora, tenho que levar pra ele os deveres.
— Catapora, é?
Em desespero, João percebeu o olhar intrigado da mãe, como se lembrasse da própria infância naqueles milésimos de segundos, a catapora coletiva, os primos e a irmã em casa, no mesmo quarto, uma quarentena até engraçada, não fosse tanta coceira. Na certeza de que o filho só tivera sarampo, sentenciou:
— Vamos passar lá mais tarde para visitar o pobre. Vou ligar para Júlia.


2.

Antecipando o martírio, João inventou toda e qualquer desculpa para não ir. Dor de barriga, de cabeça, até fez exercícios escondido pra simular um suor de febre, mas nada aconteceu. Enfermeira, Marta conhecia todas as artimanhas das crianças para fingir doença. A ideia, no caso, era justamente essa: levar o filho pra uma contaminação e passar logo pela fase — essas doenças são sempre piores na fase adulta.
Às 15h, o carro para na porta de Pedro. Campainha, muito feliz, Júlia abre a porta e recebe a dupla: uma mãe entre a preocupação e a adrenalina e uma criança com cara de quem estava indo para a forca. As duas eram cúmplices no crime: para Júlia era um alento tê-los ali, João distrairia Pedro nos próximos dias, poderiam ficar os dois no mesmo quarto, se divertindo e, com sorte estudando, enquanto ela tentava terminar o doutorado. Para Marta, o mesmo, além de se livrar temporariamente do filho, se livraria também dessa fase de doenças da infância, já passara pelos terríveis e intermináveis piolhos, o sofrimento do sarampo e a catapora era até mais controlável. Acordo firmado em silêncio, vamos ver o garoto.
— Gente, vamos fazer uma surpresa pra Pedro, que ele não sabe que vocês viriam.
Júlia abre a porta devagar e encontra o filho abrindo a embalagem do pega varetas. Era o brinquedo que faltava, ele nunca tinha jogado e a mãe pensou no tempo que levava para se jogar sozinho e na concentração necessária: vale o teste.
— João?
Quase chorando e grudado na porta, Pedro murmura:
— Oi, Pedro.
— Eta! Mudou de ideia, foi? — ainda tentando se livrar do saco plástico que envolvia as varetas agora fora do tubo.
— Não exatamente…
— Oi Pedro! Tá melhor, meu bem? Trouxe uns lanchinhos pra vocês e João trouxe as apostilas das aulas, de repente vocês conseguem adiantar alguma coisa, né?
Meio sem graça, porque a última coisa que ele queria era fazer dever, concordou num aceno enquanto soltava as varetas em cima da cama.
— Entra, meu filho, que nem parece ser nada sério, olhe como João já está se recuperando!
— Pois é, mulher, até trouxe pra ele um pega varetas, para passar o tempo nessa reta final aí.
— Então ótimo, hoje vocês ganham folga dos deveres e ficam brincando.
Em polos opostos de emoção, a excitação em ter do companheiro de volta e a presença ameaçadora do outro, as mães os deixaram ali, cobaias e vítimas das tradições da infância brasileira. Passaram a tarde juntos.



3.

Dois dias depois, dito e certo: João sucumbira à catapora. Conforme combinado, passara umas tardes na casa de Pedro que ainda se recuperava e juntos criaram campeonatos de todos os jogos. Entre tosses e coceiras, se distraíam e as duas semanas iam passando em menor sofrimento.
Agora acontecia o Campeonato Internacional de Pega Varetas, com o Brasil x China — porque era o fabricante do brinquedo — Pedro e João, respectivamente, se preparavam para o novo embate. Será que a suposta democracia tupiniquim venceria o regime comunista? Há muito em jogo e eles seguiam criando rivalidades e brincadeiras entre os dois países de um habitante.
O jogo sempre corria em silêncio e agora que estavam melhorando, João ainda fraco e Pedro já indo pra aula no dia seguinte, era quase a final do campeonato. A concentração era tanta, que nem a coceira era permitida, criando uma tensão dupla, do desafio físico das intempéries do corpo e o do oponente, secando cada movimento e fiscalizando milimetricamente qualquer derrapagem.
— Já disse que não pode deixar mexer a outra. É UMA de cada vez, João!
— Eu sei que é, e não to mexendo, pode ver, mas às vezes é maldade, porque eu ainda to me coçando e você tá aí todo bom. E tudo culpa sua!
— Minha nada, sua mãe te trouxe porque quis, reclame com ela!
— Reclamo sim, mas é sua também, quero saber não. Vou jogar.
Tudo era motivo pra aumentarem as vozes e de vez em quando Marta subia para ver como estavam e se precisavam de algo.
— João, tá tudo bem? Tá se sentindo melhor? Qualquer coisa, fique com vergonha não, me chame, viu.
— Para mãe, sai daqui que é a semi-final! Tchau, fecha a porta, beijo.
Rindo, Marta fechava a porta, não sem antes trocar um olhar de concordância com a visita-mártir. Na hora seguinte ela subiria de novo para levar os lanches.


4.

Pedrinho finalmente volta às aulas e é recebido com carinho por uns e medo por outros, mas os professores informam a todos que ele já está curado. Agora é dele a função de levar as apostilas para João que, mais uma vez, estará em sua casa à tarde para a grande final de todos os tempos do primeiro Campeonato Internacional de Pega Varetas. Pedro mal consegue se concentrar, o que quer mesmo é aproveitar este restinho de ‘férias’, de ter o amigo todo o tempo do lado, brincando e falando besteira.
João já está quase bom, mas vão esperar até o fim da semana por garantia, já não tem coceiras e se sente melhor. Ansioso mais do que nunca, está disposto a vencer Pedro no Campeonato e deixar o Comunismo tomar conta do planeta.
Nem bem escuta a campainha tocar, Pedro já está na porta de casa:
— Bora, sobe logo! Vamos começar o maior desafio de todos os tempos.
— Oi João, está melhor? — Júlia assoma à porta enquanto acena para Marta que segue para o carro.
— Oi tia, estou sim, minha mãe disse que semana que vem já vou para aula.
— Ah que ótimo! Também, amanhã já é sexta, não faz sentido ir um diazinho só agora, não é?
— Booora, Joããão… tchau mãe!
Pedro agoniado, puxa o amigo pelo braço enquanto se despede da mãe, que sorri e volta para o escritório.
Sentados um de frente pro outro no chão do quarto, os dois de pernas abertas formam um círculo que se fecha com os pés. Ali é o espaço do campeonato e os dois seguem à caráter: Pedro com a camisa da seleção tetracampeã e João com uma camisa vermelha que achou em casa e colou um adesivo com estrelas douradas. No par ou ímpar, João começa.
Concentrados e sem dar um pio, os dois vão colecionando as varetas, com as punições devidas — devoluções de acordo com os pontos — quando mexem outras varetas que não aquela que deverá sair. O jogo fica acirrado e agora João segue um pouco à frente de Pedro, tabelinha nas mãos e é o momento da virada. Pedro derrapa e precisa devolver 10 pontos. Pelas contas, João não precisa jogar mais e é o vencedor.
— De jeito nenhum, eu perdi o ponto sim, mas você precisa continuar jogando, porque também pode perder ponto se errar.
— Oxe, mas eu não preciso não, porque de qualquer jeito, já tenho ponto suficiente. Se você pegar todas as varetas agora, eu ainda ganho.
— Mas não interessa, o negócio é que você ainda corre risco.
— Não corro nada.
— Jogue!
Os meninos agora estavam exaltados, até que João, na gritaria, esbarra com o pé no campo do jogo e desarruma as varetas. Pedro, na fúria de achar que foi proposital enquanto João já gritava China Vencedora, os Vermelhos Virão!, parte pra cima dele com uma vareta vermelha, se desequilibra e fura a mão de João, que no susto, dá um grito. Júlia sobe correndo e abre a porta, Pedro tá sério quase chorando e João da mesma forma, com um círculo vermelho vivo no meio do punho, umas gotinhas de sangue.
— O que aconteceu aqui?
— Pedro me furou com a vareta, tia!
— Foi sem querer, mãe, ele não queria mais jogar!
— Eu ganhei o jogo, tia e ele não aceitou e me furou!
— Foi sem querer, Pedro, eu caí em cima de você!
— Chega, gente! Calma! Pedro, pega o merthiolate, algodão e band aid, na cômoda do meu quarto, por favor. João, calma, não tem nada demais aqui, foi superficial, como um arranhãozinho. A catapora bem deve ter sido pior do que isso. — Julia tentava acalmar os ânimos, entre um filho cheio de remorso e o colega sofrendo do susto, mais do que da dor.
— Precisa de merthiolate não tia, que arde.
— Ô meu bem, precisa sim, já já sara e nem vai doer, vou soprar pra você.
Júlia faz o curativo em João que quase não sofre. Quando termina, Pedro está sentado na ponta da cama, olhos fixos no chão.
— Meu amor, você sabe que isso é só um jogo e que faz parte da brincadeira perder.
— Mas mãe, ele não queria mais…
— Mas eu já tinha ganhado!
— Calma, meninos, que eu estou falando. Não importa quem ganhou ou perdeu, no fim, olhem o que aconteceu. Os dois estão aí, melhores amigos, emburrados. Já tá na hora de levar João pra casa mesmo, meu bem, pegue suas coisas, vai se arrumando. Pedro, arrume o quarto e esse jogo, por favor. E leve o pega varetas lá para baixo quando estiverem prontos. Estarei esperando.
Os meninos se preparam calados, Pedro coloca as varetas de volta no tubo, João fecha a mochila com as apostilas novas da aula. Os dois descem as escadas da sala lado a lado.
— Prontos? Vamos pro carro, Pedro, me dá o jogo.
— Mas mãe, por quê? Deixa eu deixar ele aqui, pra quê você quer ele?
— Pedro, o jogo. Pronto, vai ficar comigo por enquanto.
Pedro entrega o jogo, como se deixasse o coração com a mãe. Havia sido o melhor brinquedo de todos os tempos, dava pra brincar sozinho, em dupla, com outras pessoas, até o pai tinha brincado com ele depois do trabalho junto com a mãe, que explicara as regras.
Entram no carro, os dois no banco de trás.


5.

Porta da casa de João, Júlia toca a campainha. Marta abre, os dois meninos seguem calados.
— Oi Júlia, tudo bem? Já estão de volta? Que caras são essas?
— Oi Marta, tudo certo — diz entrando — uma briga aí Brasil e China se desentenderam, parece que o Brasil está mal acostumado depois do tetra e acha que pode ganhar todas na base do grito.
As mães sorriem.
— Fica um pouquinho, que estou passando um café.
Marta vai à cozinha, Júlia segue para a sala com os meninos.
— Mãe, me dá o pega varetas.
— Pedro, fique calmo, meu bem, sente aí com seu amigo.
João segue calado, a mãe volta com o café, chocolate quente e bolo para todos.
— Mas Marta, para que isso tudo, mulher?
— Júlia, cê me ajudou tanto esses dias, que nem imagina. Cuidando de João, aguentando essa jogatina aí, adiantei aquelas coisas todas, organizei os plantões, agora pode deixar eles comigo para todo o sempre, quase. — diz rindo.
Aproveitando que os meninos se distraíam com o lanche, as mães conversavam animadamente e, após uns instantes, pareciam concordar com o olhar sobre algo.
— Agora que estamos todos aqui, vamos terminar essa questão do pega varetas. Vocês são melhores amigos e não podem se matar por conta de um jogo. Meu filho, você precisa entender que nem tudo na vida é competição e que vale mais a partida do que a medalha. Assim, aproveitando que João ainda está se recuperando…
Pedro tomava ar de horror, imaginando o pior. João, que ainda se distraía com o bolo, ao ouvir seu nome, começou a prestar atenção e esboçava um sorriso de vitória. Os dois sentados no chão, João se esticava enquanto Pedro se encolhia com a ideia de um futuro tenebroso.
— …vamos fazer o seguinte: vou dividir as varetas em duas partes iguais…
— Mas mãe! Não tem como ser em partes iguais, só tem uma preta! — Pedro se manifestava.
— Pedro, por favor. Em duas partes iguais sim, com preta ou sem preta, não importa. E deixarei uma parte pra cada…
— Mas assim ninguém joga direito, mãe.
Com um olhar, Pedro entendeu que a mãe ainda estava falando e se calou. A outra dupla observava, ela séria, para dar o peso das coisas e ele tenso, segurando o sorriso.
— E cada um ficará com um pouco. Assim, vocês entendem que não precisa guerra, que diplomacia é encontrar a concordância para o que é melhor aos dois países.
— Só assim teremos desenvolvimento justo, mantendo as diferenças. — Completou Marta.
— Vou separar as varetas agora, misturá-las aqui e, sem ver, alguém ficará com a preta. Isso não significa vantagem, porque terão apenas metade dos pontos, da mesma forma. Ninguém ganha, ninguém perde.
Pedro e João se olharam e cada um torceu como pôde. Para eles, a preta era a vitória da batalha, mas não da guerra.
— Assim — Júlia continuava agora sentada de lado no sofá, enquanto separava as varetas em montinhos aleatórios e prendia com elásticos — vocês praticam durante a semana no intervalo dos deveres e se encontram no fim de semana, se quiserem.
Júlia entregou os montes e os dois se olharam a ver de quem era a vantagem. Não era suficiente encontrar a preta, era preciso ter as varetas de maior pontuação, conta complicada para se fazer no calor do momento. Guardando as varetas de um lado, selaram o acordo de não-violência em um aperto de mãos, muito sérios.
— Até sábado. — disse um.
— Até sábado. — disse o outro.
As mães já estavam de pé, sorrindo. Se despediram, cada um com seu monte. Nas contas, a diferença era pouca ou nada entre as varetas coloridas e quem tinha o bastião da diferença. O outro teria que se virar para fazer um coringa — artifício de criatividade em meio ao caos. Depois de amanhã, o campeonato recomeçaria, selando o pacto de jogarem quando estivessem juntos, como um ímã que se completa com seu oposto. Ao fim de cada partida, um voltaria para casa e deixaria o outro, duas metades, esperando ansiosos, o próximo fim de semana. O campeonato agora anual garantia um prêmio: a guarda da vareta preta — com a perda de uma vermelha, a mais valiosa.

***

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