A Festa


Um fim de semana qualquer que termina em um domingo qualquer e você não está pronto para a segunda-feira. Um fim de semana em casa e com o mínimo contato com outros seres humanos não foi suficiente para relaxar, esquecer um pouco a rotina de escritório e ar condicionado congelante mesmo no inverno. É domingo e você não quer muita conversa, mas gostaria de fazer algo. Cinema é sempre a melhor resposta.

Entrei no metrô com o bilhete do filme na tela do celular. Tudo fedia a cerveja recém digerida, como o final de um grande jogo de futebol ou um dia de verão na praia. Talvez tenha feito um sol mentiroso, destes que te faz pôr o biquíni depois do meio dia, atravessar o calçadão e ficar na areia o tempo suficiente para passar frio. Enfim, deixemos as pessoas serem felizes.

Um pouco de sarcasmo faz bem ao fígado, diria alguém inteligente e talvez amargo. O filme se chama A Festa e trata da reunião de poucos amigos na casa de um casal para a comemoração da anfitriã, a mais nova Ministra da Saúde inglesa. Enquanto ela prepara os petiscos, leva garrafas de champanhe para a sala e recebe o seleto grupo, a conversa se desenrola ao desastre com personagens únicos em diálogos mordazes.


Patrícia Clarkson, Kristin Scott Thomas, Bruno Ganz, Timothy Spall, Emily Mortimer, Cillian Murphy e Cherry Jones são o que a gente precisa para encerrar a noite. 71 minutos de cinismo e crítica da boa e velha sociedade burguesa, entre a culpa intelectual e usufruto do dinheiro, as religiões e seus gurus, a política, a ética e os ideais que ninguém consegue sustentar por muito tempo. Esse jogo de cena em um mesmo espaço nos remete logo de cara O Deus da Carnificina (Polanski, 2011), como também O Anjo Exterminador (Buñuel, 1962). Ainda dá para puxar outros grandes filmes pela premissa do confinamento, como a trilogia de Polanski, Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968) e O inquilino (1976) e Festim Diabólico (1948), a experiência de Hitchcock em um filme de um plano-sequênciaTodos, filmes de cenário único, uma residência onde tudo acontece e se perde o controle da situação enquanto sociedade ali representada.

Sally Potter é diretora do também bom Rose & Ginger, um drama sobre duas amigas jovens que buscam solucionar suas vidas por caminhos tortuosos. Completamente diferente deste último, já que abusa de cenas em exteriores e constrói outra trajetória, mostra experiência e apuro narrativo. Em A Festa, o preto e branco acentua os contrastes dos diálogos em oposição a uma câmera que, por vezes parece perdida buscando uma forma, mas que se faz entender até o final e garante bons enquadramentos e grande uso do espaço. Sem grandes novidades estilísticas, o filme é todo interpretação e Kristin Scott Thomas e Patrícia Clarkson seguem arrebatadoras. São duas atrizes imensas  e está sendo um prazer sofrido – por seu personagem trágico e cruel – acompanhar a última em Sharp Objects, a nova série da HBO com Amy Adams como protagonista. Não apenas elas duas, mas o par Timothy Spall e Bruno Ganz é também impressionante, alimentando a comédia no tom hipócrita que todos precisamos apreciar de vez em quando.


O roteiro desse filme é uma aula à parte. Imagino a sagacidade da diretora que também o escreveu e se havia pensado nestes atores antecipadamente para os papeis. Em todo caso, vale cada linha ali dita e dá vontade de rever apenas para recortar alguns trechos. A empatia que o filme provoca garante a saudade dos personagens desenhados para o contraponto, cada um como um emblema de problema como ricos estereótipos sociais.

Saí do filme feliz como boa parte da sessão lotada. Compartilhamos risadas, o público foi educado ou talvez entrou naquela comunhão mágica do cinema, o transe e recepção cada vez mais raros, em que as pessoas não morrem quando ficam mais de sessenta minutos sem tocar em seus telefones. Saímos vingados, talvez, ao ouvir coisas que já pensamos e/ou queríamos escutar ou falar para alguém. Tomar uma atitude como algumas ali encenadas. Era a leveza em forma de ironia que eu precisava para este fim de festa e começar bem a semana.

Uma dica: vá sem assistir o trailer antes. Ou, no máximo, faça como eu: veja os 10 primeiros segundos.

Um comentário:

  1. Então né, como eu ia dizendo (antes dessa pegadinha do malandro do google de colocar os botões nos lugares errados e terminar com meu comentário), adorei o texto, inclusive/principalmente a pequena crônica dos eventos que precederam a ida ao cinema. Quero mais de sua escrita sempre!!!

    Cara, agora quero muito e ver esse filme (vi aqui, ta passando em SSA. OBA! E Ilha dos Cachorros tbm hahahahahaha). Parece bem interessante mesmo e tem vários atores ótimos - Kristen Scott Thomas sempre deusa, maravilhosa, sagrada da atuação... e também sempre adoro Emily Mortimer e Cillian Murphy... Sou meio descrente com Timothy Spall (tem dias que ele tá bem, tem dias que o maior canastrão... sempre acho que os papeis que ele faz ficariam melhor com Brendan Gleeson hahahaha).
    Torço que tenhamos mais textos de filmes no futuro próximo :)

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