Eu, Daniel Blake

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Entre 1964 e 1975, a BBC exibiu a série The Wednesday Play, dando vez e voz a diversos diretores, roteiristas e atores ingleses. Neste período, Ken Loach dirigiu 10 episódios, sendo o de maior repercussão, Cathy Come Home, de 1966. Cathy era uma jovem que casou cedo e com seu marido, logo tiveram filhos. Com sorte e sonhos grandes, financiaram a compra de um apartamento, mas, o marido precisou ficar sem trabalhar por um tempo e acabou demitido. Assim perderam a moradia e com uma sequência de infelicidades, Cathy e sua família sofrem as consequências da crise de habitação inglesa na época, sem dinheiro, sem trabalho fixo e contando com o parco auxílio do governo que os mantinha na linha da miséria, cada ano perdendo um tanto mais.

Estamos em 2017 e ano passado Ken Loach ganhou a Palma de Ouro em Cannes por seu novo filme, Eu, Daniel Blake, que estreia essa semana nos cinemas brasileiros. Daniel Blake (Dave Johns) é um senhor que se recupera de um infarto e precisa ficar sem trabalhar enquanto se recupera, contando com o auxílio do governo. Entretanto, através de uma sequência kafkiana de burocracias, a solicitação de um direito se torna uma via crucis não só para ele, o diretor nos diz, mas para qualquer um que o necessite. Em um dos escritórios previdenciários, Daniel conhece Katie (Hayley Squires), uma jovem mãe solteira com dois filhos que também busca um benefício e juntos, apoiam um ao outro nas carências cada vez mais agudas.


O que Ken Loach quer, retomando o assunto cinco décadas depois? Possivelmente muito pouca coisa mudou desde Cathy, ele nos informa neste angustiante drama. Não é apenas a crise de moradia em Londres e arredores, mas uma burocracia que une Kafka a Dostoievski no que pode ser mais trágico em suas narrativas, nos aprisionando como vítimas em círculos cada vez mais profundos de ineficiência e perversidade em qualquer esfera de assistência social, esta mesma que alimentamos através de impostos.

Daniel Blake é um aperto no peito, porque nos apaixonamos por esse homem que tenta não criar Um dia de fúria, mas que, paulatinamente vai sendo tomado por emoções que não pode se dar ao luxo de ter, já que seu coração é frágil a tal ponto de não poder trabalhar por orientação médica. O governo teimosamente insiste que ele deve procurar trabalho, já que lhe negaram o seguro médico, como única saída para manter o seguro desemprego e assim ter uma renda mínima para viver. É uma série de situações ilógicas que soariam surreais se vivêssemos em um país digno, mas por aqui não é difícil imaginar algo parecido.


Se Daniel precisa de um auxílio por conta de sua saúde e não consegue trabalho por tantos fatores, Katie está quase na mesma situação de Cathy, precisa sustentar seus filhos e, sendo de Londres e não havendo residência por lá, onde estaria próxima de sua família e assim com algum suporte – foi obrigada a se mudar para uma cidade em que ninguém a conhece e ela não tem formação e experiência suficientes para conseguir trabalho. Seu requerimento também é negado e agora os dois rumam inexoravelmente para a marginalidade e humilhação. É como uma funcionária do governo diz para nosso herói; tome cuidado, porque já vi muita gente honesta e boa ir morar na rua. A angústia reside em, se não conhecermos alguém que vive essa rotina de dependência do estado, nos imaginarmos carecendo dela e acabarmos desabrigados e desamparados, sendo descartados como seres humanos. Isso aterroriza ainda mais quando deduzimos ser fruto de uma infelicidade que poderia acometer qualquer um – que não fosse abastado – e uma vida se converte em desgraça gradualmente por um sistema cruel, destinado a favorecer quem consegue preencher os requisitos quase inaceitáveis dos formulários e aceita docilmente as interpretações dos funcionários embriagados de pequenos poderes.
 
As interpretações de Dave e Hayley não só corroboram todo o cinema naturalista de Ken Loach como o enfatiza; são situações tão cotidianas e plausíveis que poderíamos estar diante de um documentário. Dave Johns é um comediante que conhecemos pouco por aqui e seu personagem dramático, por vezes é aliviado nas discussões surreais em que se vê obrigado a participar, garantindo gargalhadas. É um humor sutil e sarcástico, incrementado pela intolerância à estupidez e descaso. Hayley, por outro lado, sustenta o drama e a força de uma mulher jovem que precisa ser pai e mãe, referência de educação e moral e pôr comida na mesa, da forma que der. Em Cathy, as interpretações e o impacto do filme foram tão grandes que as pessoas paravam a atriz Carol White na rua para lhe dar suporte afetivo e financeiro. Em entrevista comemorativa sobre o filme ano passado, o produtor Tony Garnett nos informa que a situação dos moradores de rua só piorou de lá pra cá, tendo mais do que dobrado o número de desabrigados em Londres. Por isso a pertinência em tratar do tema.


Filmado em ordem cronológica, tendo o roteiro sido entregue aos poucos aos atores, Ken Loach constrói em nós a tensão e angústia e nos deixa quase sem aguentar ou querer ver o final. Brilhante, urgente, imprescindível, emocionante e magistralmente construído, assim mesmo, cheio de elogios, é esse filme que foi ovacionado por 15 minutos após a sessão em Cannes. Vale cada segundo.

***

Dica da vida: diversos episódios de The Wednesday Play, inclusive Cathy Come Home estão no Youtube com legendas em inglês. Vale muito a pena.

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