É apenas o fim do mundo

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Os filmes de Xavier Dolan não passam despercebidos. Para o espectador de primeira viagem, qualquer tipo de choque é esperado em pelo menos quatro, dos seis longas que vi. O que mais havia me impressionado até poucos dias atrás foi Mommy (2014), lançado ano passado no Brasil e que causou impacto com a qualidade técnica e narrativa. O filme centrado na relação entre um filho e mãe problemáticos nos leva a uma paixão crescente pelo que estamos vendo, até seu desfecho. Com este É apenas o fim do mundo, o jovem diretor reafirma sua qualidade e maturidade estilísticas, agora com elenco estelar.

Louis (Gaspard Ulliel), um escritor entre seus trinta anos tem uma doença terminal e viaja à casa da família para contar a trágica novidade. Ele parece bem, apesar de deprimido, e pretende passar por aquele dia o mais rápido possível. Na casa, encontrará o irmão Antoine (Vincent Cassel) e a esposa Catherine (Marion Cotillard), a mãe (Nathalie Baye) e a irmã mais nova Suzanne (Léa Seydoux) que o esperam para um almoço feliz. Tendo morado fora e dado poucas notícias por doze anos, imagina um retorno triste e com sorte, calmo.


Adaptação da peça homônima de Jean-Luc Lagarce, o filme se centra em poucas locações e atores, trabalhando a intensidade dos diálogos e interpretações, como Polanski fez em Deus da Carnificina. Enquanto no último, altas doses de humor negro e sarcasmo permeiam a trama, aqui é o drama, a tragédia iminente que se abaterá naquela casa, é o que nos prenderá até o fim. Hitchcock uma vez disse algo como – e é uma das melhores explicações para o suspense – que ele acontece quando é dito ao espectador ‘há um assassino atrás da cortina’ e os personagens não sabem, então ficamos atentos, ansiosos e quase angustiados, com a iminência do crime. Assim acontece aqui e a cada minuto que Louis posterga sua confissão, subimos pelas paredes da sala do cinema, em agonia.

Este sentimento é o cerne de todo o drama familiar. Os doze anos fora de casa criaram uma expectativa em seus familiares, talvez à exceção da cunhada Catherine, que nota algo de errado nessa visita aparentemente inócua. As trocas de olhares entre Louis e ela indicam uma postura de apreensão submissa da última, que comprovará mais de uma vez baixar a cabeça para o marido emocional, Antoine. Vincent Cassel explora seu personagem ao âmago de uma dor contida há tempos e explode ali, na mesa do almoço. A mãe remete às outras mães dos filmes do diretor – as relações entre suas mães e filhos são frequentes e provavelmente autobiográficas em certa medida – um tanto controlada em sua própria loucura evidenciada no figurino e maquiagem, parecendo sempre alheia e, neste caso, menos caricata e mais humana. Suzanne é a caçula que sofre sozinha, insatisfeita com a vida que leva e aguardando a atenção do irmão do meio, o pródigo, com quem sempre se identificou.


Todos os personagens carregam seus dramas pessoais, histórias fragmentadas que percebemos aos poucos e aquela visita parece despertar lembranças e expectativas em cada um. Fica evidente – e é uma das muitas qualidades do filme – que cada um explora uma questão com Louis, específica e individual. É óbvio tratar assim, se falamos sobre relacionamentos, mas é justamente essa troca que permite as manifestações diferentes de cada um, que parecem nervosos, ansiosos por saber o que traz aquele querido e também estranho parente de volta. Em cada ator há um desdobramento e por serem todos experientes e inquestionavelmente bons, representam os grandes temas da personalidade, da vida de qualquer pessoa: solidão, frustração, amadurecimento, afeto, medo, sexualidade, etc.

É nó apertado, emaranhado em si mesmo que o diretor nos mantém como reféns, sem sabermos quando será desatado. A câmera posicionada próxima aos atores, quase entrando em seus rostos, amplia uma cumplicidade, agonia e quase claustrofobia. Queremos sair daquela situação o quanto antes e é assim que parece se sentir Louis. Ele não faz parte daquela rotina, seu comportamento busca o melhor momento, mas sempre o adia, enquanto tenta se aproximar de cada um cautelosamente, retomando alguma intimidade perdida anos atrás. Seu comportamento é o oposto de sua família e não é difícil compreender porque resolveu sair dali, quando todos parecem sempre ter os nervos à flor da pele. A casa, um reduto de aconchego, se transforma em prisão e mais de uma vez ele se vê obrigado a tomar um ar, fumar, sair daquele ambiente.


O filme passa rápido e seu final nos dirá muito mais algum tempo depois dos créditos, nos nossos questionamentos e digestão do que acabamos de ver. As críticas que enfatizam uma expectativa maior do que o que vimos, parecem não apreender a intensidade que aquele cerco – é essa a impressão, de que o protagonista tanto não consegue ficar ali muito tempo, como não consegue sair enquanto não atingir seu objetivo – provoca na trama e em nós. Há uma tensão crescente e conhecida em quem tem familiares intensos. O retorno para a casa da família, ainda que de visita, é sempre carregado de apreensão dos dois lados: o que se muda espera um período tranquilo – ainda que saiba não ser plenamente possível – e o que fica, aguarda o retorno do carinho, da saudade, daquela intensidade de atenção potencializada, guardada por um tempo, o tempo da volta. É dessa equação que parte Xavier Dolan, com o ápice da tragédia deixado à espreita – e o título não poderia ser melhor. 

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