Coragem

17:59


Não é sobre música. Coragem, primeiro documentário de Sebastião Braga traz a história de Felipe de Luna e Diana Ligeti, aluno e professora de violoncelo na capital paulista. Ele, bolsista da EMESP – Escola de Música do Estado de São Paulo – vindo de um bairro de periferia e família humilde, ela musicista romena que se divide entre Paris e São Paulo – a partir do projeto da EMESP junto com o Conservatório de Paris – dando aulas e se apresentando em concertos. Com tanto em comum, vamos descobrindo aos poucos essa parceria e as vidas de nossos heróis.

Embora o filme seja permeado por concertos e um ótimo tratamento de captação de som, além da reprodução de composições clássicas e conhecidas que criam uma atmosfera interessante, a música é apenas o contexto, pano de fundo para o tema do filme. Como o título indica, é preciso ter Coragem para viver de música ou – ainda melhor – para fazer uma escolha difícil e persistir nela, por acreditar ser a única viável para a vida. Coragem também é a forma com que Diana sempre se despede de seus alunos, um acalento, força vital para enfrentar um ramo difícil sendo tão jovem.


Felipe fez sua mãe acreditar, aprender a gostar de sua vocação que considerava irritante pela repetição nos ensaios, sempre os mesmos trechos das músicas até a perfeição. Vivendo sozinha e criando dois filhos, fez o que pôde para sustenta-los mesmo quando lhes faltava o básico. O violoncelista em formação insistiu e, agora que enxerga uma saída profissional se desenhando em um futuro próximo, enfrenta a ansiedade, as expectativas e aquele medo guardado em nós, da grande mudança de vida. Esse vislumbre de sucesso não significa certeza – ainda que seja quase previsível devido à dedicação e talento – e a dúvida ele vence com os ensaios.

Diana já esteve em situação similar. Escolhida para ser bolsista em Paris na derrocada da União Soviética – antes a Romênia era parte da grande nação socialista sem abertura para o ocidente em qualquer aspecto, especialmente no cultural – lá fez sua vida, com a promessa de gerar oportunidades para jovens da mesma forma que conseguiu a sua. Um encontro não casual formou a nova dupla e juntos, traçam seus caminhos de diferentes aprendizados em reciprocidade.


Documentário de estreia de Sebastião Braga, o filme se sustenta bem, acompanhando as rotinas dos protagonistas em separado e quando se juntam, em um paralelo com quem já alcançou um patamar e um conforto com a música e aquele que está trilhando seu caminho, ainda que não seja iniciante. Cresce em quem assiste um orgulho ao ver Felipe galgar patamares através do próprio esforço e dedicação, como um aluno focado e persistente, que sabe o que quer e nos dá uma certeza de que alcançará. Vemos em sua família esse mesmo olhar que brilha ao ver uma saída positiva em um bairro carente e perigoso do subúrbio paulistano. Ao mesmo tempo, é interessante ver que o filme amplia a perspectiva histórica e de formação de Diana, que segue aprendendo e praticando, mesmo quando ensina a seus alunos. É um filme que trata da troca de ensinos, perseverança e um pouquinho de talento, item necessário, mas não fundamental ao aprimoramento de qualquer um que se queira artista.  

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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