Julieta

19:29


Julieta parecia uma certeza, antes de ver o filme. O pôster, os atores e atrizes, literalmente a imagem que o filme passava era de algo melhor do que o último Almodóvar, Amantes Passageiros. Da melhor forma possível, em um feriado olímpico em meados de agosto, frio, chuva, cachecol e café.
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Julieta é inspirado em três contos de Alice Munro, de seu A Fugitiva e uma ansiedade surge quando se sabe disso apenas após a projeção, quando se começa a pensar e pesquisar o filme. Alice Munro é Nobel, mas isso não importa muito – apenas atesta uma qualidade já sabida anteriormente. Ela escreve sensivelmente, deliciosamente sobre ser mulher, sobre as mulheres que passaram e passam por sua vida e da forma como a vida se apresenta, em contos que nos deixam com vontade de saber mais. Você começa um livro despretensiosamente, sem nem saber nada direito da autora e quando se dá conta, já comprou dois, três, quatro. Dói acabar de ler e se despedir daquelas personagens todas. Imagino que Almodóvar se apegou tanto a elas, que lhes dedicou um filme inteiro.


Então, o livro é A Fugitiva, os contos são Ocasião, Daqui a pouco e Silêncio. A história de Almodóvar é a de uma mulher sofrida que se apega à ausência da filha como um vício, na esperança de um reencontro após uma tragédia. Julieta é professora de literatura clássica e ensina justamente as tragédias, epopeias e grandes clássicos. Interpretada por Adriana Ugarte e Emma Suárez nos dois tempos da trama, as duas atrizes são imensas no que lhes competem. Adriana Ugarte se transforma de uma jovem e moderna professora a uma mãe que então entra em uma depressão absurda e ela nos faz participar de sua dor. Emma é a Julieta que se reconstrói, que aceita o passado e precisa viver sozinha. Ao mesmo, a recaída, como a volta de um vício ruim a transforma e a depressão a alcança novamente. Mas nossa protagonista não é a única mulher de que precisamos falar.

Almodóvar já foi estudado em não sei quantos artigos, muito se fala sobre suas mulheres, sobre sexualidade e não é à toa. Todos os seus filmes abordam os dois temas que fazem parte da própria vida do diretor, como os protagonistas neuróticos de Woody Allen, os perversos de Kubrick ou os intensos de Bergman. As mulheres em Almodóvar são quase em todos os seus filmes, protagonistas fortes e humanas, personagens complexas e apaixonantes em todas as cores – os famosos e vivos vermelhos, verdes, laranjas e azuis – e sempre ultrapassam barreiras, há sempre um risco iminente e elas se sobressaem, porque precisam viver acima do que as atormenta. São mulheres que atropelam o machismo com um caminhão, passam por cima e às vezes, nem reconhecemos o tema como algo que as abale tamanha sua força perante o que se apresenta. Seus homens - principalmente os heterossexuais - são acompanhantes, à exceção do que vemos em A Pele que habito e Má Educação, talvez - são relegados ao plano de complemento, participando das histórias delas.


Julieta se apega à Ava (Inma Cuesta), ex-amante e amiga de seu marido Xoan, precisava de suporte e sozinha não conseguiria dar conta do que se lhe apresentaria. Sua família era em si uma tragédia repetida de uma mãe em declínio físico e mental e um homem que a substituía quase por não haver alternativa. É um daqueles momentos em que a moral é vencida por uma realidade que a põe em xeque. Ava era uma amiga de todos e a amizade das duas mulheres superava crises de um passado de culpa e remorso. 

O diretor nos impõe questões caras e frequentes, cotidianas que escapam aos filmes bobos, a separação da filha Antia, a escolha dela de se afastar da mãe e escolher em um culto, uma saída para sua liberdade se prendendo de outra forma. Talvez não tenha sido apenas o encontro com a fé, mas a culpa que também a acompanhava, de um relacionamento intenso e não assumido com sua amiga de infância Bea, mas o destino lhe reservará surpresas de uma história que se repetirá.


Almodóvar retoma sua forma anterior a Amantes Passageiros, que instaura uma dúvida, uma coceira ardida como quando uma formiga nos morde. Amantes foi uma comédia de escracho que tentava retomar algum exagero do inicio de carreira, mas faz mal, como uma pornô-chanchada brasileira. Foi um susto, como um pesadelo que assistimos e Julieta vem como um sonho bom, retomando o vigor narrativo de grandes histórias e personagens, rediscutindo suas questões de gênero, sempre entrelaçadas com sexualidade, posicionamento e liberdade de expressão. A fotografia, o estudo de cena e arte reforçam o que o diretor faz melhor junto a sua equipe, em planos que são literalmente gostosos de ver, atiçando o nosso paladar, tornando o filme sensível a mais sentidos do que precisaria.

Se no anúncio de fim, ficamos quase tristes em uma sala lotada em plena noite de segunda-feira fria e chuvosa é porque ele conseguiu novamente. O diretor nos prendeu em sua trama com menos comédia do que alguns de seus filmes anteriores, mas sustentando em poucos atores uma grande tragédia em cores fortes e lindas.

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