Freelance (Heart Attack)

19:56

Assistir Freelance causa uma dupla emoção em nós: a alegria de ver um filme inteligente, com uma história que dá guinadas inesperadas e a certeza de que conhecemos muito pouco do cinema oriental. Quanto à primeira nenhum problema, mas concluir a segunda provoca grande agonia em quem vive a cinefilia, porque é muito maior do que não conhecer os filmes de Nawapol Thamrongrattanarit e seu país, é perceber que há boas produções sendo feitas e que muito provavelmente não chegam em nosso hemisfério.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) é designer gráfico freelancer. Como consegue trabalhos por demanda, precisa estar sempre disponível e garantindo a entrega do que produz, não importando o prazo. Para quem trabalha na área, é fácil perceber o desespero das agências de publicidade no cumprimento de metas para garantir a receita. Como freelancer, a qualidade de vida e o sono são menosprezados com frequência, mas a conta sempre chega. Yoon começa a ter seus problemas, alergias na pele que se transformam em pequenas feridas que coçam provocando mais irritação e ele segue para o hospital. Lá conhece a doutora Im (Davika Hoorne), uma residente em dermatologia que consegue fazer com que Yoon entenda a necessidade do tratamento como uma forma de sobreviver aos alertas de limite que seu corpo ativou. Na verdade, Yoon aceita o tratamento por ser uma garantia de encontros mensais com Im, por quem se apaixonou.
Dra. Im (Davida Hoorne): a salvação para as alergias de Yoon.
Se o trailer indica uma comédia romântica incomum, o filme sobe outro degrau e atiça nossa curiosidade e interesse com interpretações interessantes e narração subjetiva, pontuada por uma contagem de marcas no corpo do protagonista. Com texto e montagem ágeis, poucos personagens e locações que se repetem, o diretor cria um ciclo, uma rotina que a cada decisão do herói transforma toda a história com diálogos simples. Agora Yoon não pode comer frutos do mar e precisa decidir o que fazer. Agora Yoon precisa dormir, fazer atividade física e tentar equilibrar isso em sua rotina, reduzindo a carga horária de trabalho. Agora Yoon precisa cumprir seus compromissos profissionais e o problema se instaura, já que acostumou o mercado com prazos quase inalcançáveis e postergá-los implica em perder projetos ambiciosos para quem está buscando seu lugar ao sol. Os dilemas do personagem não apresentam soluções simples e nos colocamos em seu lugar, tentando decidir o que faríamos. Essa participação do espectador na obra é o ganho do filme, já que todo mundo um dia vivenciou algum tipo de pressão na vida que envolvia sacrifícios de sua própria saúde em detrimento de alguma coisa ‘urgente’ e ´fundamental´.

Aguardamos seu colapso sem querer acreditar nele, esperando que não aconteça com base na evolução da trama e atitudes do protagonista. Queremos que ele encontre a doutora, uma tímida e inteligente mulher jovem que nos aparece como um enigma, carregando o sorriso de Monalisa em olhares e gestos que pontuam uma dúvida. Mas, este não é um romance, o diretor deixa claro com o desenvolvimento da trama e seu clímax, a cena que não se pode descrever é o que faz este cinema ganhar em ousadia e coragem. Não é nada novo em termos de estética e efeitos, mas seu posicionamento na história, a forma como foi dirigida sim, nos faz pular da cadeira e prender a respiração sem tomar sustos: é uma comédia romântica com fortes pinceladas de humor negro.

Yoon (Sunny Suwanmethanon) entre pílulas para dormir e deadlines.
Quando pesquisamos sobre o filme no IMDB, quase não há informações e essa é uma marca forte do quão pouco se sabe sobre esse cinema. Há um universo infinito de filmes ocidentais, escolas de cinema, teorias e estéticas mais do que conhecidas, adoradas e estabelecidas, mas há outro universo em expansão, o oriente e suas escolas, seus diretores contemporâneos e sua estética. O fato de não haver muita informação sobre Freelance e quase nada descrito no perfil da equipe técnica é a prova cabal da pouca informação e acesso que o lado de cá do globo percebe. O filme conta uma história que poderia acontecer em qualquer cidade, mas reforça as características locais de forma não turística e estereotipada, nos fazendo pesquisar a filmografia do diretor e aí sim, as conexões desta rede virtual começam a funcionar, nos permitindo um passeio breve – a ponta de um imenso e interessante iceberg – sobre o cinema tailandês.

Os filmes não estão prontos, eles partem para dentro de seus espectadores e ali garantem uma transmissão de informações que se completa com o repertório cultural de quem o assiste. Freelance se relaciona bem neste processo, primeiro fechamos a história linearmente e depois digerimos suas melhores cenas, sequências de imagens que permanecem em um processo de aceitação e apreciação estéticas. Já foi dito que a obra de arte se define quando provoca emoção e não que esta seja a obra prima do diretor, mas se firma como importante, sem dúvida. É um filme que não requer experiências prévias deste cinema, que tem um ritmo rápido que configura a própria temática da falta de tempo, da velocidade de um workaholic e cuja catarse reverte sua própria duração em um plano fixo e longo de reflexão, em um close up agoniante e narrado lentamente, logo após um movimento de choque. Choque e ruptura para a pausa. É como o silêncio e a paz que sucede uma tragédia, ao contrário da alegria de um grande sucesso, que sempre deixa uma ponta de desconfiança.

Je (Violette Wautier) e uma proposta irrecusável para Yoon.
É para rir e se surpreender, para sentir a (in)sensibilidade da publicitária Je (Violette Wautier), melhor amiga e quem consegue os trabalhos para o protaqognista, decifrar e ultrapassar o profissionalismo e a timidez de Im e tentar salvar Yoon, representação da nossa correria profissional e dos conflitos entre vida e carreira. É para nos deixar inquietos na poltrona no cinema e investigar mais o cinema tailandês e oriental de forma geral, para conhecer novos nomes e se desesperar com a graça de perceber um mundo que é similar ao nosso e, ainda assim, extremamente diferente e original. Em breve, nos cinemas.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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