She-Ra

09:45

Biluca e She-Ra
She-Ra morreu e eu não estava lá. Não estive ao seu lado nos minutos finais, não estive durante muitos outros minutos em oito anos morando longe. She-Ra foi minha cachorra, minha heroína do início da faculdade até hoje. A dálmata mais linda, com as pintinhas mais bem posicionadas que já vi, as orelhas pretas, o melhor sorriso.
She-Ra veio morar em nossa família por minha causa. Fiquei muito triste depois que Duque, o pastor alemão mais lindo e corajoso da minha vida precisou ir embora, estava ficando muito violento. Ele apanhava na minha casa quando não estávamos lá, pela empregada doméstica e não sabíamos de nada. Quando soubemos, já era tarde e o cachorro só respeitava a mim. Meu pai disse que ia entregá-lo para a polícia e é nisso que eu tento acreditar até hoje. Duque era incrível, e era bom.
bom dia na janela do quarto
Chegou de noitinha, eu ainda estava triste e quase não quis encostar nela. Era um filhote bem pequeno de poucos meses e fiquei olhando, até que me apaixonei em questão de segundos. Lá em casa os cachorros dormiam na varanda ou na garagem, mas ela chorava muito e eu ficava acordada até todo mundo dormir para levá-la pra dentro, escondida em um abraço. Dormíamos juntas e eu não ligava quando reclamavam comigo todas as manhãs.
Foi mãe de quatro: Gorpo, Esqueleto, He-man e Tila, que depois ganhou o apelido Biluca. Biluca mora lá em casa e hoje está mais triste do que qualquer outro dia de sua vida, hoje ela dormirá sozinha e há dias não come muito. Biluca nasceu com o céu da boca aberto, com uma fenda interna e toda vez que tentava mamar, engasgava e os irmãos tomavam seu lugar. O veterinário disse que sua única chance seria se a alimentássemos com mamadeira, mas ela era muito pequena e não cabia o bico em sua boca. Eu e minha irmã nos revezávamos com seringas com leite até ela se desenvolver e conseguir beber na tigela, com todo o desconforto do líquido entrando no nariz. Ela é menor do que os outros desde sempre e um pouco maluca, mas tem o mesmo coração de ouro e sorriso engraçado da mãe. Sim, dálmatas sorriem.
três meninas felizes
Eu sinto muita falta de minhas meninas, mesmo tendo sido essa a minha escolha. Seria crueldade mantê-las em um apartamento, com tão pouco tempo para dar atenção. Então, sempre que vou a Salvador passo um tempo com elas, brincamos, passeamos, matamos a saudade e quando vou embora elas não se despedem, me dizendo que tudo tem limite nessa vida. É uma saudade provisória e perene, assim, simultaneamente. She-Ra significa casa no sentido completo de aconchego, família, carinho, tranquilidade, preguiça. Ela inteira era feita de amor e isso se via em seus olhos, no jeito como encostava pedindo um afago, em como sempre me acompanhava na varanda, na rede, na grama, em como brincava com todo mundo e jamais rosnou para alguém.
Hoje está difícil, mais do que achei que seria. Histórias, imagens felizes, brincadeiras dessa moça tentam aquecer meu coração e minha memória, e me prendo em seu olhar e sorriso. Está tudo certo. Chegamos naquele momento em que o que resta de físico é sofrimento e ninguém precisa disso por muito tempo. Minha velhinha se foi e se correm hoje algumas lágrimas, são de gratidão, não essa superficial, new-new age gratuita, mas por 14 anos de amor incondicional, recíproco e de saudade, muita.
Um beijo, minha pequena. Foi uma alegria e uma honra viver com a senhorita.

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