Quanto tempo o tempo tem?

15:01

O que mais escutamos hoje em qualquer roda de amigos, em qualquer conversa é uma queixa constante de nossa falta de tempo. Tudo passa muito rápido, não damos conta das notícias, dos e-mails, de atender aos amigos, amores e familiares em todos os meios de comunicação possíveis e ainda precisamos dar conta da vida, essa particular, individual e única que requer justamente duração, espaço e silêncio para absorver. Levando isso em conta, Adriana L. Dutra e Walter Carvalho nos mostram em seu Quanto tempo o tempo tem uma pesquisa ampla e filosófica sobre o assunto que tanto nos tira o sono.

O filme vale por seus convidados. Um elenco de peso: o sociólogo italiano Domenico de Masi, o físico Marcelo Gleiser, a monja Coen Sensei, os filósofos franceses Thierry Paquot e André Comte-Sponville, a escritora Nélida Piñon, o rabino Nilton Bonder, o cineasta Arnaldo Jabor e outras personalidades se unem aqui para nos dar um panorama que trata da unicidade do presente – quando entendemos que não existe passado ou futuro, mas apenas o agora (um conceito que eu acredito e tento viver, mas que não exclui a ideia de projeção e planejamento), da evolução tecnológica cuja própria velocidade não nos permite muita divagação, da nossa relação com o tempo que finda quando morrermos, da possibilidade oposta, de não morrermos e nos transformarmos em transumanos ou superhumanos, dos significados de tempo através das Idades históricas e outros grandes conceitos.
Monja Coen Sensei
Adriana e Walter tentam dar conta destes assuntos em 76 minutos e o fazem bem, mas é um fato que este filme poderia se desdobrar em um seriado, onde cada subtema seria abordado em profundidade. Como em Fumando espero com a dependência do cigarro, este novo também parte de uma inquietação da diretora, sendo o segundo filme de sua Trilogia da Catarse, cujo próximo ainda é um projeto em fase de captação de recursos. Walter Carvalho, diretor experiente e fotógrafo por excelência, assina a co-direção e a direção de fotografia também, junto com Bacco Andrade. Com relação à linguagem, é um filme de depoimentos e talvez o grande número de entrevistados incomode um pouco – como em Fumando – por vermos um caleidoscópio de vozes. Desta vez, entretanto, se percebe uma evolução quando o conteúdo é destrinchado por pensadores em número menor que o filme anterior, depoimentos relevantes e a condução das entrevistas intercaladas na montagem, que nos guia através de conceitos interessantes.

Outro ponto de dissonância é a narração. Aqui há algo que incomoda e talvez seja a própria forma do texto condutor que se propõe íntimo, mas que busca falar do todo. É uma questão que não desmerece o filme, mas o torna um tanto cansativo, em um ritmo que oscila grandes questões com estes intervalos de voz off sob imagens de velocidade em planos abertos de metrópoles. O tempo é um conceito abstrato, sendo difícil se tornar imagético sem cair nos clichês que o significam, mas ainda assim, talvez e ironicamente com mais tempo para seu desenvolvimento se encontrassem alternativas mais ricas.
André Comte-Sponville
Com o perdão do trocadilho, esse documentário vale o tempo perdido, ultrapassando seus tropeços da forma. Estimula nossa reflexão sobre a vida que levamos, como e onde gastamos nossas horas e aí, tanto as ideias de trabalho, lucro e escravidão quanto do uso de redes sociais, da autopromoção de conteúdo sobre nós mesmos, do prolongamento da expectativa de vida, do que o futuro da tecnologia reserva para o desenvolvimento humano – biologicamente falando – nos fazem respirar fundo de alívio e nos prepara para um desafio intelectual na melhor interpretação da expressão. É um filme que nos deixa pensando não como uma grande descoberta, mas como certa iluminação a partir de ideias para nosso desenvolvimento e percepção do uso que fazemos do tempo, que muitas vezes não paramos para pensar sobre e somos atropelados por uma rotina que parece não caber em nossas horas. Que venham estas rodas de amigos e conversas com o filme visto; causará um tempo de silêncio e alguma mea culpa antes das queixas de sempre.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

0 comentários

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *