Demon

07:04

Demon é um filme de expectativas. Toda a sua narrativa, seu ritmo é um crescente em suspense que nos prende minuto a minuto, com fotografia, enquadramentos, trilha e atores que juntos garantem nossa ansiedade, nossa vontade de entender o que está acontecendo com aquelas pessoas em uma festa de casamento. Até que algo dá errado.

A proposta de um filme de terror é, obviamente, nos causar medo. Pode ser aquele de momento, que vem em uma sequência de sustos e vemos o assassino ou, que me parece mais interessante, o que trata do sobrenatural. Cada religião é composta de não sei quantos milagres e mitos, lendas que pelo medo e pela fé nos mantêm firmes em tudo o que é inexplicável. Assim, nos prendemos a elas, por acreditar que há algo além de nossa compreensão e, mais simples e importante, há algo além.
Peter :: Itay Tiran
É do sobrenatural que trata a história, com Peter (Itay Tiran) e Zaneta (Agnieszka Zulewska), um casal que se conhecem há pouco tempo, ele inglês, ela polonesa. Apaixonados, decidem se casar e ele se muda para a Polônia, para a pequena cidade natal da amada. Nos preparativos do casamento se hospeda em sua futura casa, a fim de iniciar as obras para adaptá-la à nova vida e lá encontra uma ossada humana no quintal. Sem saber o que fazer, resolve tocar a vida e resolver esse detalhe depois da celebração. É quando tudo se complica para seu lado. 

Hitchcock já dizia que um bom filme de suspense – era seu gênero, mas se aplica também ao terror – deve fazer sofrer ao máximo sua audiência. E seu diretor, Marcin Wrona*, constrói uma grande base: um forasteiro que pouca gente conhece, um mito judaico de possessão, a transformação do protagonista, a reação de sua mulher, um estranho concorrente ao amor da noiva e um professor, que parecem ver uma história se repetir – e talvez deem alguma dica, eu diria que está tudo com estes dois últimos – um padre com medo. Em paralelo, o casamento em si, uma grande festa e a decadência que se promete numa falsa elegância à base vodca suficiente para causar amnésia alcoólica coletiva no dia seguinte, sob um humor obscuro e refinado que os grandes filmes têm. O objetivo é esse mesmo, fazer com que todos esqueçam o que viram ali, aquele espetáculo esquisito, um noivo se comportando como qualquer coisa, uma imagem de vaidade de uma família abastada frente uma ameaça do passado, incontrolável, incontornável.
Zaneta :: Agnieszka Zulewska
Há um ponto em toda a narrativa dramática de resolução da trama que sentimos quando se aproxima. Ele pode tanto ser clímax como aquele momento logo depois, que começamos a ensaiar mentalmente o que entendemos ser o final. A crise aqui é que essa é justamente sua fraqueza. Com a grave situação instaurada, não parece haver saída e o que esperamos dos atores, quase impondo a eles as falas que estão em nossas cabeças, não acontece. Ficamos como órfãos indefesos e angustiados ao perceber que dali não virá muito mais, que ficaremos sem um grand finale. E se em qualquer obra isso é extremamente importante, no terror é fundamental.

A base do terror e do suspense implica em não requerer grandes explicações a respeito de seus acontecimentos. Ao mesmo tempo, se se deixa tudo como está o filme termina aberto demais, de forma que o espectador não consegue encerrar a trama. Há algumas possibilidades aqui e o filme é lindamente construído, Turan e Zulewska são grandes atores que seguram as cenas, especialmente o primeiro, que traduz um personagem torturado em manifestações viscerais e inteligentes, mas todas as conclusões que pensamos são frágeis, com peças soltas no terceiro tempo da narrativa.
Ronaldo (Thomasz Zietek) e Jasny (Tomasz Schuchardt)
Com um início promissor e um desenvolvimento irretocável, o filme peca e desfaz seu novelo sem encontrar uma boa ponta, como acontece com as expectativas frustradas. Sua construção funciona como elaboramos nossas ideias sobre alguém, algum projeto, alguma viagem e não sabemos o que vai acontecer, se dará certo, não importa o tempo de planejamento e empenho. Sentimos-nos reconhecendo um terreno no tempo de sua duração, em um filme obscuro que desperta interesse e curiosidade e seguimos encantados com seus personagens, com uma fotografia linda e um grande trabalho de arte, do figurino aos cenários. É um filme de produção madura e de qualidade, que se garante em seus aspectos técnicos e equipe, mas há algo ali que não funciona. Em qualquer história há uma certeza clara – não de sucesso – mas de coerência, verossimilhança, estudo da trama que precisa garantir sua plausibilidade até o fim. E aqui falha de uma forma estranha de tão rasa, nos deixando sofrendo, imaginando que estava tudo indo muito bem, até esquecerem que havia um roteiro a terminar e amarraram tudo solto demais, quase à espera de alguma sequência que fatalmente diluiria o original e estragaria a boa ideia. Vale a pena ainda assim, desde que se assista com isso em mente.

++++

*A triste curiosidade reside em seu diretor, Marcin Wrona, que cometeu suicídio durante o planejamento de lançamento do filme ano passado, na Polônia. Jovem de 42 anos, sem motivo aparente, o diretor, roteirista, professor de cinema e PHD em estudos sobre cinema nos deixou seus filmes como herança e já uma falta reconhecida no cinema europeu. 

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