A bruta flor do querer

11:44

É no calor do momento e com o benefício de elaborar críticas que posso escrever sobre o A Bruta Flor do Querer antes de seu lançamento e, em oposição a outros que tenho assistido e me permitido um tempo para digerir, venho para o texto logo após a sessão, com um aperto no peito de qualquer coisa nova que não conseguimos definir (e precisamos?) de imediato.

O filme conta a história de Diego (Dida Andrade), um cara arrogante como quase todo recém-formado em cinema, que ganha a vida filmando casamentos e se apaixona por Diana (Diana Motta), a garota charmosa e misteriosa que trabalha em um sebo. Com um melhor amigo (Andradina Azevedo) colado em todos os momentos, vive a crise dos vinte e poucos, daqueles que saem da faculdade com curtametragens na mão, nenhum dinheiro e uma necessidade de viver um sonho de qualquer coisa se confrontando com a realidade da falta de trabalho e do pagar as contas do cidadão comum. Essa é a vida de muitos recém-formados de quase qualquer profissão, a queda para a realidade do mercado de trabalho e a saída do conforto universitário, a ruptura daquele cordão umbilical que nos mantém estudantes por um mínimo de quatro anos. Dida e seu amigo não são personagens por quem nos apaixonamos, não há margem para isso, mas sim, alguma empatia em suas crises e na transformação por que passa o protagonista.
Dida Andrade: Diego
Feito sem edital, com o apoio e financiamento de amigos e baixo orçamento, é no mínimo maravilhoso ver uma produção realmente independente de qualidade. O filme é simples, com poucas locações e personagens e não carece de muito mais. Merten evoca Truffaut, como um possível admirador destes diretores-protagonistas e não é à toa: a proposta não difere muito do conceito da nouvelle vague francesa, com outros jovens reunidos cheios de ideias para aplicar com pouca grana. Além disso, o viés romântico, a realização de um amor platônico, a saída para o que decorre disso. Aqui há uma sujeira urbana, um viés que não é marginal, mas se tenta algo parecido em fotografia e diálogo, reclamando da caretice dos outros, da aparente normalidade do mundo e de uma manutenção forçada de um padrão de viver e seus conceitos de sucesso. Nos enquadramentos, há uma distinção  nítida entre as cenas de romance, do encantamento pela garota, dos problemas em que se mete Dida, e no final, da conclusão em plano fixo, após uma noite reveladora, de catarse e clareza - como se tivéssemos que passar por uma grande prova para entendermos aquele momento e o significado daquela jornada.

Essas referências de transformação do personagem são também de ato e não só de discurso e luz, então drogas, brigas, festas e sexo representam fielmente este estado de coisas, bem como a independência da família, que inexiste no filme por não representar naquele instante nenhum fator preponderante na vida do jovem. É claro que as discussões são repertório da crise da idade, do acúmulo de frustrações e da não tão longínqua adolescência rompida a fórceps no pós-faculdade. Faz parte, da mesma forma que a trilha sonora, cujas músicas não pertencem à idade desta geração - mas sim a de seus pais e tios - e, ao mesmo tempo, são ícones de qualquer juventude mais 'alternativa' de nossos centros urbanos. A trilha é bem escalada aqui, como um personagem ou artifício de ênfase e, após um determinado momento, ficamos ansiosos pela próxima inserção, aguardando outro clássico moderno brasileiro entrar em consonância com o estado de espírito dos personagens.
Diana Motta: Diana
Bruta flor do querer é trecho de Quereres, de Caetano Veloso. A música já traduz em grande parte o clima do filme, ainda que o ritmo animado do cantor não encontre reverberação neste visceral e doído. Não é um drama de chorar, mas de apertar o peito, já que muito do que está ali é vivido por muitos em um determinado momento da vida. As tragédias pessoais e a própria objetificação da mulher não são irreais – não entrando no mérito do certo e errado, porque é muito óbvio e não é o foco da discussão aqui – já que tanto os mocinhos-bandidos quanto as mocinhas-não-inocentes se posicionam assim enquanto personagens plausíveis e nesta história são tudo, menos vítimas ingênuas. Quereres mostra o que somos e o que almejamos; esse paradoxo é parte (senão essência) da vida, e ali me parece honesto. Talvez seja essa a qualidade do filme, por fim.

A desconstrução da quarta parede é um artifício sempre arriscado que pode funcionar como uma grande surpresa e ser um ganho aos espectadores ou, se mal usada, frustrará a todos e sairá como amadorismo, ruptura desnecessária, quebra da ilusão narrativa. Aqui ela é desmontada progressivamente, de forma que temos tempo para perceber seu objetivo e não se torna um estorvo. Em um momento me perguntei se não seria uma saída de um roteiro com um final frágil, mas não faz diferença agora, já que o filme conclui bem. Lançado em 2013 em Gramado, parece só ter conseguido distribuidora agora (O2 Play) e por isso entra em cartaz esta semana. Vale o investimento, nem que seja para se surpreender com lindas cenas de um conturbado cara apaixonado e uma trilha sonora impecável. 

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