Juventude

09:52

Paolo Sorrentino faz filme de arte. Partindo desta premissa, não dá para ir ao cinema esperando encontrar uma comédia romântica ou um drama de narrativa simples e fácil apreensão. Para tanto, precisamos entrar no clima dos filmes especiais, aqueles que exigem de nós calma, atenção e vontade, o que pode ser visto como um programa intrigante ou seu extremo oposto e quase sempre a primeira opção é a verdadeira.

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Juventude tem duas horas e quatro minutos de duração e confesso, parece ter mais. Em um determinado ponto, você acha que está no fim, mas ainda aguarda outros 20 minutos de uma história que aparentemente se volta para o mesmo ponto, como um percurso narrativo que se fechou mas pediu um adendo. Ao mesmo tempo, é um filme que não sai da cabeça. Depois de visto, permanece em nós sendo digerido aos poucos, no decorrer de um ou mais dias. Os enquadramentos e a fotografia de Luca Bigazzi favorecem mais uma vez – como em A Grande Beleza – esta sedução. Somos vítimas impotentes, atraídas por uma teia de grandes imagens plásticas e com contrastes, não apenas pelas locações de um spa de luxo na Suíça, como por seus enquadramentos, posições de câmera e, principalmente, personagens com seus figurinos construídos para causar máximo impacto a partir de pouco, na sutileza de um ambiente quase surrealista.

Michael Caine é Fred Ballinger, um maestro aposentado um tanto pessimista que recebe a proposta da rainha Elisabeth II para apresentar suas composições no aniversário do príncipe Phillip. Seu personagem, sozinho, vale o filme inteiro. A construção complexa de um homem doído e consciente, amargo e dotado de um humor extraordinário, mas não canastrão nos toma em diálogos tranquilos e precisos. Michael Caine é um dos grandes atores de seu cinema e aqui nos mostra, mais uma vez, sua grandiosidade. Na verdade, o trabalho de atores neste filme é, novamente, a confirmação da qualidade de Sorrentino, basta lembrar de  Aqui é o meu lugar (2011), com um Sean Penn transformado e no próprio e consagrado A Grande Beleza (2013), cujo paralelo com este Juventude é ainda mais forte. Seus protagonistas se parecem e quase poderíamos pensar que Toni Sevillo (Jep Gambardella de Beleza) seria o nome para este novo, mas talvez sua persona não combinasse tanto com esta apatia refinada, mas um humor mais cínico e ácido daquele filme.
Michael Caine e Harvey Keitel
Mick Boyle (Harvey Keitel) é amigo de Fred e diretor de cinema em declínio cujo financiamento de seu grande filme depende da participação de Brenda Morel (Jane Fonda, extraordinária, remetendo a uma Marisa Paredes em decadência). Os dois passam dias juntos, enquanto Fred frequenta as atividades do spa e se divide entre as visitas do emissário da rainha – em cenas cínicas e muito divertidas – visitas ao médico para exames de rotina, as crises da filha Lena (Rachel Weisz) e conversas com o outro, Mick, que escreve junto com uma equipe, o roteiro cuja última cena sobre o final de um amor vencido pela morte e descaso nunca parece satisfatório. Paul Dano é Jimmy Tree, um ator que acompanha a vida no spa enquanto se prepara para um grande papel em uma nova produção, observa os hóspedes e participa do cinismo e discussões com Mick e Fred. Jimmy é a antítese da juventude à exceção de sua vaidade, se colocando em igual momento com os outros dois, enxerga a vida como esta sucessão de acontecimentos que culmina sempre numa apatia, até sua transformação.

Se em A Grande Beleza vemos uma Roma clássica, luxuosa e decadente em passeios de câmera com Jep Gambardella (Toni Servillo), um escritor de um livro só que vive uma terceira idade de tédio camuflado entre festas luxuosas e amigos vazios, aqui a mesma sensação ressurge com força, mas em contraste com a juventude e seus dilemas, as neuroses e o cansaço, a desesperança de uma velhice confortável. Michael Caine forma este personagem complexo e cínico, menos pelo escárnio e mais em aceitar a vida que vive hoje, sem grandes surpresas. Suas visitas ao médico implicam numa morte nunca anunciada e isso faz parte de uma frustração, como se só lhe faltasse isso. Ao mesmo tempo, a Miss Universo chega ao spa e cruza o caminho de nossos personagens rompendo o conceito clássico da mulher bonita e estúpida, em uma discussão que surpreende a todos e, além das lágrimas de Lena, é o máximo de emoção que encontraremos, para além do vislumbre de um corpo perfeito, como o do poster.  
Jane Fonda
Para além de contar a história de um grupo particular onde pouca ação aconteceria em um drama, há um subtexto muito mais interessante e simbólico, este que digerimos ao longo dos dias. A transformação dos personagens, a aceitação pelo que são e para onde se destinam – em qualquer idade – é a força e ruptura com esta juventude, de certezas, objetivos e sonhos. Aqui não há tanto mais para se realizar do que o limite de cada um e é esta a dura e difícil apreensão de todos, mais clara e literalmente expressada por Jimmy Tree, em seu discurso de ruptura. Mais interessante é perceber que o dilema que independe da idade e em cada personagem se manifesta de uma forma diferente, com um resultado igualmente distinto e que vale tanto para protagonistas quanto figurantes. É um filme para ser revisto, pois passa a impressão de que suas camadas precisam de outro olhar, mais calmo e reflexivo além daquele primeiro, que costuma ser o da curiosidade, que tenta abraçar o todo. Uma segunda mirada é como ler um mesmo livro novamente e então pegamos suas nuances e grandes tiradas.

Circulam algumas frases e cenas em minha cabeça, como grandes, genialmente conduzidas e neste caso também escritas como apenas um experiente, inteligente e sensível diretor/roteirista conseguiria. Com referências e claras homenagens a Fellini – e continuo achando Michael Caine/Fred Ballinger e Toni Servillo/Jep Gambardella um tanto como o flaneur Mastroianni dos filmes do mestre italiano – relevamos seus exageros do luxo e até uma cena ou outra que se perde em um olhar distraído. Há um cuidado estético brutal, que diferencia produções como estas das de outros países. Os filmes italianos mais conhecidos retomam esta questão invariavelmente e, por pouco aparecerem por aqui, nos tomam de golpe com suas cores fortes e personagens intensos, com alguma característica sempre gritante, nem que esta seja a apatia. Falado em inglês, com atores não italianos e filmado na Suíça, o autor persiste em suas claras e clássicas referências à sua origem e faz muito bem. Retomo os vinte minutos de adendo para garanti-los como fundamentais, contradizendo uma primeira percepção ao remontar mentalmente as sequências do que encarava como suficiente para um fim. Se o impacto visual de A Grande Beleza surpreende e nos prende a cada plano, neste Juventude somos pegos desprevenidos, parece que estamos no controle do que vemos e então o filme nos domina de súbito, fantasmas das cenas que acabamos de ver percorrem nossa mente, com seus diálogos e silêncios, acima de tudo, e por horas a fio. A equipe de protagonistas  e seus figurantes insólitos merece inteira, seus prêmios e louros. Não será fácil, mas será intrigante.
Rachel Weisz e Harvey Keitel

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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