Spotlight

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Há determinados assuntos que se repetem em filmes tantas vezes me pergunto se as histórias originais não acabaram. Ao mesmo tempo, quando os filmes são bons, fica clara a necessidade daquela abordagem e que sim, ainda há o que dizer sobre o tema repetido, por incrível que pareça. É isso o que acontece em Spotlight.

O título remete a um núcleo dentro do Boston Globe, um grande jornal em Boston, responsável por reportagens longas, investigativas, aquelas que duram meses para ficarem prontas. Com a chegada do novo editor-chefe, recebem uma demanda difícil: denunciar a omissão da Igreja Católica e suas tentativas de sublimar a existência de padres pedófilos e suas vítimas. É aí que começa o filme.

No fim de semana anterior a este, consegui finalmente assistir Birdman – ou a inesperada virtude da ignorância (2014, Alejandro González Iñárritu). Eu sei, atrasado e depois de todo mundo, de toda a discussão sobre a ressurgência de Michael Keaton e a qualidade inquestionável do cinema de Iñárritu. De fato, Michael Keaton retorna aos cinemas em um papel que qualquer grande ator sonharia em fazer, em um filme que se tenta ser um plano-sequência como só os grandes mestres conseguem, com encenações frenéticas e únicas de Naomi Watts, Edward Norton – vai ser sempre pra mim um dos melhores atores de sua geração – e Emma Stone, que está chegando e fazendo nome. Fazer este roteiro não deve ter sido brincadeira e muito menos a cenografia. Um exercício de um cinema educado, extremamente calculado e bem preparado que traz críticas e estereótipos da própria indústria. E Michael Keaton, ainda que não considere um artista brilhante, aqui se sobressai.
É justamente ele o redator chefe de Spotlight, Robby. É quem defende a reportagem ao mesmo tempo em que é quem mais se relaciona com a cidade, com a alta classe, com políticos, com todo mundo. É um filme de muitos personagens fortes, mas talvez seja ele o protagonista, novamente. Mark Ruffalo, Stanley Tucci, John Slattery - matando as saudades desde Mad Men - Rachel McAdams, Liev Schreiber e Brian d’Arcy James reforçam o elenco. Ruffalo é o repórter que levará a reportagem, com uma relevância maior que os demais, ainda que toda a equipe – McAdams, Keaton e James – seja tão fundamental quanto. Angustiante, é uma escavação sobre os crimes dos padres e seu envolvimento com crianças, particularmente aquelas mais vulneráveis, nos deixando com cada vez mais raiva da instituição.

O filme também fala de paixão. A construção do roteiro em torno do desenvolvimento da investigação, dos confrontos dos jornalistas com o poder local, a relação deles com a Igreja e religião, o descobrimento que uma sociedade aparentemente tranquila e saudável que esconde sujeira debaixo do tapete evidencia uma persistência, uma busca pela verdade que ultrapassa esse bem viver e se relacionar. O entorno de sorrisos e cafés perde seu conforto – a imagem que eu tinha de Boston era um tanto diferente, maior e mais diversa do que ela se apresenta ali - ainda que se considere décadas atrás. Os jornalistas vão além, nos mostram sua função no mundo, a relevância de seu trabalho e o choque a cada nova descoberta. Ficamos com vontade de ir atrás junto com eles e de seguir com afinco e amor o que acreditamos, talvez seja isso.
Direto do Festival de Toronto, os jornalistas 'reais' e os atores que os interpretam.
Dirigido por Tom McCarthy e escrito por ele e Josh Singer, parece ter sido até mais pelo currículo do segundo a busca por uma produção com um tema polêmico e político. McCarthy é também produtor e ator de filmes de gêneros diversos, mas ainda assim, garantiu um trabalho bem executado. A fotografia e o figurino contextualizam a época, apesar de ser uma história, infelizmente, recorrente. Concorrendo nas maiores categorias do Oscar deste ano, acredito que poderia levar roteiro e edição – mas ainda não encerrei minha lista para elencar meus favoritos.

Assisti a este acompanhada de um amigo jornalista que ama seu trabalho. Conversamos um pouco sobre isso, tanto sobre esta paixão como sobre os tipos de reportagens e a vontade de se fazer um trabalho relevante. Mas, mais do que isso, o filme se constrói, e por isso acho que merece o prêmio de edição numa crescente, ampliando nossa ansiedade num nível quase insuportável, de roer as unhas mesmo – e olha que nem é suspense. Esse gradual, a complexidade da trama, o novelo que parece cada vez mais se enrolar enquanto tentamos puxar o fio é o que torna esse filme um dos grandes. E, para que se torne ainda mais relevante, caso persista alguma hesitação: é baseado em fatos reais. Vale gastar um dinheiro e ver no cinema em uma tela de respeito.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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