10 melhores de 2015

18:38

O Blah Cultural, revista de cultura virtual em que escrevo algumas críticas de cinema, solicitou a mim e aos outros colaboradores uma lista dos nossos melhores filmes do ano. É um negócio bem complicado esse, porque são muitos os aspectos a considerar, além do gosto que, claro, é um grande motivador. Assim, a revista traçou a média dos colunistas e a matéria final está aqui, nesse link. Por outro lado, achei legal deixar minha listinha aqui, que considera apenas os filmes que vi – o que significa que podem haver filmes ainda melhores que estes da lista, eu só não tive o prazer de experimentá-los. 

FORÇA MAIOR, de Ruben Östlund

Escrevi a crítica. O filme é grandioso sob muitos aspectos: o apuro estético e uniforme, quase matemático do figurino contrastando com a fotografia e os enquadramentos. Estes valem por si só e seu sentido é explicitado através da montagem, com o crescimento de uma tensão silenciosa que nos acompanha e é potencializado a cada sequência. Um roteiro que nos brinda com a chegada de uma família aparentemente perfeita e feliz – como muitas o são quando vistas a uma certa distância – para uma semana de esqui em um grande resort. Em certo momento, uma catástrofe se anuncia e o resultado disso impactará gravemente em cada um. Ainda assim, o filme não sai hermético, mas consegue sustentar um humor refinado e brutal. Esse é um daqueles filmes que podem ser vistos várias vezes.

O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

É um dos que devo a crítica ainda. Vi já no final do ano e é um filme que surpreendeu pelo longo tempo que ficou em cartaz. Viviane Amsalem vive em Israel e solicita o divórcio a seu marido, que lhe nega incontáveis vezes. A batalha dessa mulher na corte para conseguir o seu direito esbarra num código que, mais uma vez, favorece o homem, quando apenas com o consentimento dele – e não uma decisão judicial imparcial – é possível conseguir a separação. O filme se passa quase todo numa mesma sala, a corte, com os mesmos personagens e praticamente o mesmo diálogo, deixando claro, mas não cansativo para o espectador, o absurdo da situação. Ronit Elkabetz é Viviane e também a diretora da obra, persistente e paciente até o limite da razão. Prometo que é o oposto do tédio.

ÓRFÃOS DO ELDORADO, de Guilherme Coelho

Com certeza o melhor filme brasileiro do ano. A crítica está aqui e ainda fiz uma entrevista com o diretor. Baseado no livro homônimo de Milton Hatoum e primeira ficção do diretor, com Dira Paes e Daniel de Oliveira em um drama rodado no Pará. Uma história em que amor, família, herança e mistério caminham juntos com uma fotografia que deixa qualquer um que já visitou a região morrendo de saudades. Se no início somos seduzidos pelo encontro dos dois protagonistas, até o final seremos sugados não só por eles, mas por uma busca insana que Arminto (Daniel de Oliveira) precisa fazer para conseguir viver. Não dá pra falar mais do que isso, sem tirar a graça.

SEGUNDA CHANCE, de Susanne Bier

O primeiro filme que vi da diretora foi Em um mundo melhor (2010). Filmado na África, conta a história de um médico que precisa decidir se salvará a vida de um terrorista local, cujo prazer consiste em estuprar e assassinar mulheres. O conflito ético resvala numa crise familiar de tal forma que sentimos a mesma dificuldade sobre que rumo tomar, caso estivéssemos naquela situação. Em Segunda Chance há outro conflito. Aqui um policial perde o filho ainda criança e precisa decidir se ficará com o bebê de um bandido, cuja família é incapaz de lhe oferecer uma vida melhor. Mais uma vez, a diretora nos deixa entregue à nossa moral. Tenso até o final e com atuações impecáveis, por favor, veja e vamos discutir! A crítica está aqui.

BLIND, de Eskil Vogt

Uma mulher cega em seu apartamento passa os dias ouvindo música sentada numa cadeira em frente a uma janela que tem vista para a rua. Assim conhecemos Eilin e sua condição é tanto ponto de partida quanto metáfora para si e demais personagens. O filme tem um roteiro intricado e original que nos prende nos dias sem fim da protagonista, nas experiências dos coadjuvantes e, mais importante, na forma de contar suas histórias. A marca mais forte é o aspecto sensorial, que nos faz chegar mais perto de Eilin, de sua condição, passamos a participar de seu tatear, de reconhecimento de espaços, de sua adaptação – ela não nasceu cega. Norueguês e primeiro longa do diretor, não temos a velocidade de um filme comum e nem precisamos. Merece ser visto.

EU SOU INGRID BERGMAN, de Stig Björkman

Primeiro documentário da lista, Ingrid Bergman é a atriz de Casablanca (1942, Michael Curtiz), para quem não se recorda. Essa mulher sueca e linda é vista aqui em seus filme de família, com depoimentos sobre sua trajetória fílmica e pessoal, suas correspondências, seus amores e filhos. A riqueza está tanto nas imagens de arquivo como em um reconhecimento ainda maior que daremos a essa atriz após saber mais dela. Não é um filme biográfico de fã que ressalta apenas as qualidades e sucessos do objeto de estudo, mas tenta dar um apuro humano, relegando a nós os julgamentos, questionamentos e qualificações. É um filme lindo, íntimo e pessoal sobre uma das maiores atrizes de todos os tempos. A crítica tá aqui!

ROGER WATERS – THE WALL, de Sean Evans e Roger Waters

Esse pode ser o Segundo documentário da lista, se não restringirmos muito o significado do gênero. The Wall foi a última turnê feita por Roger Waters – ex-Pink Floyd até agora e ele o transformou num filme grandioso – em todos os sentidos. Mistura de documentário, show, biografia, espetáculo, ficção, poesia e manifestação, merece ser visto na maior tela que você dispor, porque é um deleite para os olhos. O show em si, que está integral aqui, nos deixa morrendo por dentro por não termos ido, mas a captação foi tão bem arquitetada para áudio e imagem, que é a definição ideal de prazer para os olhos. Há que gostar do disco The Wall, mas imagino que não seja problema para a maioria das pessoas de lucidez. :) A crítica!

QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert

Outro nacional, Que horas ela volta? conta uma história sem novidades. Uma doméstica (Regina Casé surreal, porque não parece a do Esquenta!) pernambucana vive numa casa de classe média alta em São Paulo e recebe a notícia de que sua filha virá à cidade para prestar vestibular. Com o aval da família para quem trabalha, recebe sua filha que passará um tempo ali, no quartinho dos fundos que a mãe habita. Só que essa moça recebeu educação e senso crítico que lhe permitem questionar um sistema a partir de dentro, de seu funcionamento orgânico e esbarrará nas estruturas de poder e preconceitos vigentes. Vale cada centavo e, mesmo não sendo novidade, foi surpreendente. Conto mais aqui, mas não deixe de ver.

JIA ZHANG-KE – O HOMEM DE FENYANG, de Walter Salles

O Blah me encaminhou para assistir esse documentário sobre um diretor de cinema chinês de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pensei: lascou, não tenho tempo para ver os filmes e gosto de estudar, saber de quem e o que estou falando. Mas fui em frente, por conhecer Walter Salles, estudar documentário e gostar de desafios. O filme é maravilhoso porque ultrapassa a superfície da cinematografia do diretor e expande para o pequeno universo das relações humanas, do progresso e futuro, do cotidiano em uma sociedade fechada, para os conceitos de família e vida, de escolhas. O filme consegue ser tanto pequeno, quando trata do dia-a-dia e da feitura dos primeiros filmes do diretor sem orçamento, para um olhar macro, que revela aos poucos a grandiosidade desse diretor jovem e extremamente sensível e inteligente. Pode ver sem medo, provo aqui. Vai ser bom.

ACIMA DAS NUVENS, de Olivier Assayas

Sim, é aquele filme com a menina de Crepúsculo. E sim, é possível que ela esteja atuando bem. Neste drama, Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz que recebe uma proposta para fazer uma personagem mais velha de uma obra em que havia trabalhado décadas antes como a personagem mais nova. Valentine (Kirsten Stewart) é sua assistente pessoal que estará ao lado dela para o funcionamento de sua agenda e carreira e será um dos pontos de conflito, quando a relação entre elas ganha outras cores. É uma história dentro da história com tantas nuances que só não ficamos perdidos porque a direção e o roteiro são extremamente bem executados. É um thriller, drama, romance e algo de comédia ao mesmo tempo. E tem Juliette Binoche, precisa dizer mais?

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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