Através da Sombra*

16:45

fotos: Guilherme Larrosa
Quando saía da sala de cinema, ouvi atrás de mim um casal mais velho falando: Que qualidade! Nem parece filme brasileiro! O que pode soar positivo levanta outras questões que quem faz cinema no Brasil espera um dia não precisar mais respondê-las.

Através da Sombra conta a história de Laura (Virginia Cavendish), uma jovem solteira contratada para ser tutora de uma pré-adolescente numa fazenda de café e lá percebe algo de estranho na casa e em quem a habita. Assumidamente filme de gênero, é o suspense e terror que nos levam juntos com a protagonista para um ambiente sinistro.

É um desafio fazer filmes de gênero no Brasil. À bem da verdade, desafio no Brasil é fazer filmes de forma geral: da ideia à distribuição, cada etapa passa por inúmeros processos burocráticos – sem mencionar a busca por financiamento – que cada produção é como uma gincana, se a palavra não eliminasse um profissionalismo imprescindível. Afora esta questão, o terror nacional remete à piada, ao humor negro. Algumas vezes pelas vias do bizarro, como os filmes de Zé do Caixão, que chocam e garantem risadas diante dos roteiros que se encaminham para uma estética do tosco, outras, enveredando pelo suspense ou obscuridade do enredo e aí lembramos tudo o que foi feito com base em Nelson Rodrigues. Mas um filme com terror ou suspense puro, não consigo lembrar o último que vi.
O que Walter Lima Jr. consegue é exatamente isso: um filme com os elementos clássicos que configuram o gênero. A começar pela ideia original: o roteiro é baseado no conto de Henry James, A outra volta do parafuso. Laura é entrevistada pelo tio dos órfãos para ser sua tutora. Aí temos o primeiro traço da personagem: uma mulher que veste roupas escuras que cobrem todo o corpo até o último botão do pescoço, não importando o quão quente esteja lá fora. É alguém que não sabe reagir à presença masculina, por falta de experiência associada a uma educação religiosa que reprime ao gargalo qualquer impulso sexual. Seduzida, aceita a oferta e segue para a fazenda que fica não se sabe onde e isso pouco importa, já que a ação do filme é enfatizada pelo isolamento dos personagens. Seu trabalho é educar a garota, mas um imprevisto traz o irmão que estava na escola de volta. A partir disso, estranhos eventos tomarão tanto a casa quanto Laura, nos presenteando com o que o diretor chama de trama diabólica.

Se a adaptação de Henry James já garante o interesse dos espectadores, há outros aspectos que rumam para sua qualidade. O tratamento do som, cujo destaque e uso devem ser calculados milimetricamente para potencializar os efeitos de suspense é realizado respeitando nossa inteligência. A fotografia de Pedro Farkas garante o apelo necessário, unindo dias de sol e noites brilhantes a uma aura sombria de um ambiente idílico e isolado. Quase nos vemos em Os Outros (Amenábar, 2001) pelo figurino de época e só o sabemos brasileiro por contexto – fazenda de café, negros como funcionários remetendo a um passado colonial, idioma. Pode ser esse mais um dos indícios que levaram meus vizinhos espectadores a essa ideia de filme internacional. Um detalhe que incomoda um pouco é a maquiagem de alguns personagens, mas claramente é uma escolha da direção que reforça as características do gênero.

Uma das célebres frases de Hitchcock é sobre a diferença entre suspense e surpresa. O suspense é quando é permitido ao espectador saber que há um corpo dentro de um baú que pode ser aberto a qualquer instante, como em Cortina Rasgada (Hitchcock, 1948). A surpresa é quando não esperamos aquela cena de impacto e tomamos um susto, como quando descobrimos o rosto verdadeiro da mãe de Norman Bates, em Psicose (Hitchcock, 1960). Um bom filme de terror deve conter estes dois ingredientes e isso vemos aqui, em um trabalho de montagem que dá ênfase a sequências brilhantes onde ora somos tomados de assalto e até rimos, quase pulando da cadeira, ora ficamos apreensivos aguardando os pequenos desfechos da narrativa, como a cena inesquecível do corredor e suas sombras.
Walter Lima Jr., retorna à ficção sete anos depois de Os Desafinados e dá um novo fôlego à sua cinematografia. Virginia Cavendish, que também é produtora do filme, reage bem ao seu entorno, fazendo de Laura uma vítima em uma estranha situação. As crianças do filme merecem atenção, em particular Xande Valois, que dá o tom certo de como a infância pode esconder segredos. Ator desde 2012 e hoje trabalhando em novela, foi uma escolha feliz no elenco que conta ainda com Mel Maia como sua irmã e Ana Lúcia Torres como a antiga governanta.

Se ainda há preconceito quanto à qualidade de nosso cinema ou o velho estigma da pornochanchada aposentada, marca indelével de nossa história cultural, as produções dos últimos anos estão revertendo o quadro com avidez, tanto pelo apuro estético quanto narrativo. Talvez Através da Sombra não precisasse de 100 minutos para contar sua história, mas o faz bem e encerra nos dando a certeza de que vale o ingresso e a polêmica.

*Esta crítica e a cobertura do Festival do Rio e da Mostra de São Paulo estão no Blah Cultural! :)

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