Um senhor estagiário*

15:43

Enquanto assistia Um senhor estagiário – título em português que poderia ser “o estagiário” e entregaria menos a ideia para quem não viu o trailer – me perguntei onde está o ator de Taxi Driver, Touro Indomável e O Poderoso Chefão. Robert De Niro é imenso e do alto de seus 72 anos, a qualidade do seu trabalho não vale discussão. Aqui também está bem, aqueles filmes têm mais de 35 anos e muita água já passou por debaixo desta ponte. Anne Hathaway, outra atriz inquestionável, nos seus 32 anos, também parece ser maior do que Jules Ostin, chefe de Ben Whitaker (De Niro). Então, com grandes atores e uma diretora experiente, o que houve?

O filme não é ruim, deixando claro. É uma comédia leve, com alguns bons diálogos e é sempre um prazer rever De Niro e Hathaway, que todos adoram. O problema está no excesso de leveza, na ampla gama de clichês de uma comédia de verão que não vai muito além. Tenho uma predileção pelo gênero, então assisto a maioria dos filmes que aparecem pela frente – o que me dá algum senso de loucura, mas bastante base, por outro lado.  Jules é diretora de uma startup, que está fazendo um sucesso estrondoso. Como a maioria das marcas nascidas na internet, seu crescimento foi vertiginoso e o que era um blog, virou uma loja de roupas virtual com 200 funcionários. Como parte de um projeto comunitário, criam um programa de estágio para idosos, para que unam sua experiência de vida à ocupação do tempo livre – além de não se importarem com a renda, já que são aposentados. Com isso, De Niro surge e a primeira cena já nos passa o teor do que veremos: a apresentação de seu personagem indica um senhor agradável, otimista e pragmático.
O filme mostra a rotina da empresa e as relações de trabalho que os estagiários – idosos e jovens – têm com o restante da equipe, focando na relação de Jules com Ben. A crise se deflagra quando um assistente de Jules sugere a contratação de um CEO, alguém com maior experiência de gestão que comandaria a empresa e traria mais segurança aos investidores. Essa estratégia entregaria o poder de Jules a um candidato homem – todos os entrevistados eram homens – por uma sugestão de outro homem. Onde está o erro? Com problemas em casa e no trabalho, sem tempo para comer ou dormir – a velha imagem do workaholic de salto  – decide pelo processo seletivo. Neste meio tempo, Ben está sempre ao seu lado, pronto para atendê-la nas atividades mais diversas e sempre com a frase certa no momento preciso – benesses da experiência que a idade traz e alguma noção de timming.

O filme corre sem grandes solavancos e ganha força em algumas cenas, como na parceria com os outros estagiários e aí o elenco brilha, com Adam DeVine, Zack Pearlman e Jason Orley no hilário choque de gerações. Ao mesmo tempo, não há nada muito extraordinário e os protagonistas carecem de profundidade, ainda que estejam sustentados por grandes atores. É uma falha de roteiro que acaba atravessando a história toda num clima morno, com algumas tiradas inteligentes, mas os estereótipos acabam mais fortes do que a ideia que está pro trás da história.

Nancy Meyers é diretora deste e de, entre outros, Simplesmente Complicado, O Amor não tira férias e Alguém tem que ceder. Os três filmes são deliciosos, trazem temas e papeis onde a mulher tem destaque e as histórias são centradas nos pares que estão perdidos, tentando encontrar uma saída para suas relações, sejam com o passado, com as diferenças entre as gerações e sempre em relacionamentos amorosos. Neste último, ao menos, o foco está no trabalho, na carreira de uma mulher que almeja o sucesso e vida pessoal – e não há nada de errado nisso (estamos em 2015, vale lembrar) – mas, ainda tomamos susto ao descobrirmos que Jules é mãe de família. Talvez o que falta neste estagiário seja algo que ultrapasse o bom moço. Não há sarcasmo, quase não há ironia e a construção de alguém sempre centrado e correto parece irreal. Não esperamos grandes aventuras de um senhor de setenta anos que resolve voltar ao trabalho, mas a submissão condescendente também incomoda. Ainda assim, vale para uma tarde de domingo, sem esperar que este seja um dos melhores filmes deste grande elenco e equipe – mas por tê-los, vale como passatempo.

*Uma versão deste texto está no Blah Cultural. :)

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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