Orestes*

22:15

Quando o cinema se volta à História, precisa dialogar em duas frentes: da memória e do fato. O segundo é mais fácil, parte de documentos, registros precisos do que aconteceu sem adjetivos, como as orações simples que definem lugar, hora, método, personagens. A memória, por outro lado, traduz os sentimentos, pois se vale da subjetividade, do que é individual, do que traz cores e nuances, personaliza e, paradoxalmente, torna o relato de registro mais real. Orestes traz o enfoque dos sujeitos – vítimas ou não – de violência no país, unindo as duas histórias, a do Brasil com a dos brasileiros. 

Rodrigo Siqueira (Terra Deu, Terra Come, 2010) traz mais uma abordagem original, agora com Orestes. Se a tragédia grega é de um o protagonista como o assassino da mãe Clitemnestra em vingança pelo assassinato do pai Agamenon, morto por ela e seu amante, aqui há um júri simulado de um novo Orestes que estrangula seu pai, assassino e delator de sua mãe, militante na ditadura. As duas tragédias fictícias se unem aos relatos verídicos do drama de Soledad e Cabo Anselmo, personagens reais da História do país e da vida de Ñasaindy, filha daquela e, com azar, talvez filha do mais famoso delator do Brasil. Cabo Anselmo foi um agente infiltrado da ditadura militar e suas ações culminaram na morte não apenas de Soledad, como de 6 outros militantes no que ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento, em 1973. Quando foi morta, Soledad já tinha Ñasaindy e estava grávida. Anselmo era seu namorado. 
Por si só, a história de Ñasaindy e a busca por sua origem – bem como o pânico da dúvida sobre sua paternidade – associada à tragédia grega já seria material suficiente para um filme, mas o diretor vai além. Experiente, amplia a violência histórica e traz José Roberto Michelazzo, torturado no ambiente em que visitam no filme, um prédio onde funcionou o Doi-Codi em São Paulo e mais: uma mulher cujo filho foi assassinado pela polícia, outro casal que perdeu o filho da mesma forma – sendo este um cara comum e o anterior, um dependente químico – Sandra Domingues, representante de uma organização que busca a justiça de um massacre infantil em Realengo, no Rio de Janeiro, uma enfermeira de hospital público, todos juntos em sessões de psicodrama, coordenadas por Marisa Greeb. Vemos um panorama da violência histórica e contemporânea no país, em encenações no júri e nestas sessões, além dos relatos da história de Ñasaindy, vítima desde o nascimento. 

O júri popular deu aos presentes o poder de decidir sobre a sorte do Orestes nacional. Os advogados de defesa e acusação – em oratórias brilhantes – deixam qualquer um na berlinda, entre a moral, a justiça – e todo o seu conceito subjetivo e objetivo ao mesmo tempo – e a lei. O mote traz de volta a Lei da Anistia e sua necessidade de revisão, já rechaçada pelo Supremo Tribunal Federal. Hoje, o que se mantém é o perdão indiscriminado de vítimas e algozes da ditadura, quase transformando todos em ‘farinha do mesmo saco’ – no que se refere a castigo e absolvição. Ao mesmo tempo, cada personagem no psicodrama é um representante da tragédia cotidiana. As discussões tomam fôlego, apertam o coração e nos posicionam como participantes, às vezes saindo do filme por não encontrar atores reais – e aí a dramaturgia da cena interrompida por observações de Marisa Greeb perde em narrativa cinematográfica – às vezes, nos remetendo a tudo o que vemos e ouvimos nas ruas e noticiários, como o posicionamento de Sandra, favorável à pena de morte, mas se dizendo contra a lei do talião, do olho por olho, dente por dente. Não há como não lembrar dos linchamentos frequentemente noticiados na mídia – a violência não é apenas policial. 
A edição acompanha os dois alicerces do filme e, em alguns momentos, as sessões parecem tomar muito tempo, mas é uma extensão necessária – é o reflexo das reações, dos sentimentos e para que ocorram, não há como cortar ou interromper. No júri o tempo é outro, da ordem da ficção e a montagem segue sem percalços, nos deixando divididos entre os olhares do público e os discursos dos advogados. Assim, no júri há planos fixos, para que a ação se concentre no espetáculo e oratória e, nas sessões de psicodrama, as câmeras precisam estar à mão, para que sejam fluidas e invisíveis. Ainda que a fotografia – lembrando o cinema direto, não usa luzes que não dos ambientes – saia um pouco escura e acinzentada, talvez o próprio tema favoreça a coloração em simbologia.   

O ritmo do filme funciona como um pêndulo variando entre emoção e razão, sempre caro à narrativa documental. A proposta parece ter sido esta: fazer pensar sobre os fatos, tanto sob a ótica da grande justiça, a que o Orestes deve ser submetido, quanto de sua relativização, da nossa posição como indivíduos, cujos sentimentos e ideias são levados em consideração. Nisso o filme brilha e realça sua importância, especialmente nos depoimentos de Ñasaindy, José Roberto Michelazzo e Sandra Domingues, cuja coragem e posicionamento – ainda que contraditório e até por sê-lo – representa grande parte da opinião pública. São as diversas verdades das histórias individuais e nossas tristes heranças da História nacional que moldam nossas leis e comportamentos, fazendo com que este filme seja um dos mais relevantes ao tratar da violência e mereça destaque e debates por onde passe – justamente por ser, também, ficção. 

*Essa crítica está no Blah Cultural! :)

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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