Psicose

00:33

 
Psicose é um filme maravilhoso. Eu sei, não dá pra aceitar a frase como síntese de crítica, mas poderia parar por aí e pedir pra verem o filme. Hitchcock conseguiu aqui fazer uma obra para pessoas do Cinema que analisam, vivem, trabalham no ramo e ainda conquistou o público, controlando suas emoções num crescente a cada sequência até o final, com uma última cena perversa e sedutora ao mesmo tempo.

Assisti novamente esta semana. Tinha visto algumas vezes e, apesar de gostar muito, não é meu preferido – fico entre Janela Indiscreta e Os Pássaros. Depois de reler Hitchcock/Truffaut, relembrei dos detalhes da produção e entendi o cuidado e a inteligência por trás de tudo. Rodado com 800 mil dólares e tendo retorno (dados de 1967), de 18 milhões (hoje: 50 milhões), é um dos mais rentáveis já feitos pelo diretor. Mas a questão não é sobre o dinheiro, mas sobre o sucesso de um filme cuja cena mais emblemática acontece aos 40 minutos e ainda assim, não se viu nenhum espectador sair da sala depois disso. E olha que a maioria já sabia o que ia acontecer – e Hitchcock ainda os proibiu de entrar nas sessões depois do filme iniciado.

O segredo está justamente em sua construção. Analisando a estrutura do roteiro, descobrimos a relevância da obra que parte de uma história simples, com personagens que à primeira vista, não nos conquistam. Não queremos que Marion seja pega, mas também não somos apaixonados por ela. Não queremos que o assassino seja descoberto – e olha que ele matou a heroína – mas também, até o final ficamos naquela dúvida, inclusive sobre a atuação de Anthony Perkins. Depois, vendo com calma, amaremos aquele sorriso para sempre. Independentemente da nossa pouca relação com os protagonistas e seus coadjuvantes, e, mesmo que todos os espectadores tenham ido ver o filme pela  cena do chuveiro, ela não é o principal ponto alto da trama. Para quem não viu, Psicose conta a história de Marion Crane (Janet Leigh), que rouba de seu chefe 40 mil dólares e foge. Para passar uma noite longe de suspeitas e descansar, se hospeda no Bates Motel, um hotel de beira de estrada quase abandonado. Lá conhece o proprietário Norman Bates (Anthony Perkins) e é assassinada. A partir disso, a história se desenvolve num ritmo tal, que outras cenas também ficarão em nossas mentes para toda a eternidade, consolidando o status de obra-prima. Mas não conto o clímax.
Com dois acordes de Bernard Herrmann – compositor das trilhas de Hitchcock – nunca mais conseguiremos tomar banho de chuveiro com a cortina fechada e ficar tranquilos. Sempre trancaremos a porta do banheiro e checaremos, como quem não quer nada. Esta sequência foi rodada em uma semana e fizeram setenta posições de câmera para seus 45 segundos finais. Hitchcock sempre fez uso de storyboards e era obcecado pelo controle do que fazia de tal forma que preferia recriar ambientes externos inteiros a fechar ruas, preocupado com os imprevistos. Da mesma forma, quase não permitia que os atores saíssem do roteiro ou improvisassem – era conhecido por ser linha dura, fazendo as atrizes sofrerem com seus detalhes minuciosos.

Como O Exorcista, que é assustador por sua invocação do mal e insistir na teoria do diabo no corpo em uma menina inocente, criando terror em nós por muitos anos, Psicose marca pela crueza do assassinato, contrastando com a natureza pacífica de quem o comete. Não há tanto sangue, mas uma estranheza na relação de Norman com a mãe, no hotel vazio, nas aves empalhadas com olhar inquisidor na sala da recepção. Enquanto isso, a montagem calculada com a trilha sonora, atingindo seu ápice nos crimes e premeditações (as trilhas dos filmes de Hitchcock por si só, já valem um estudo), as tentativas de defesa das vítimas e o assassino como uma sombra de um personagem que só ouvimos a voz sem conhecer o rosto, são de uma violência que nos atinge muito mais do que os filmes policiais de hoje. Talvez o segredo esteja aí: este filme nos faz imaginar, nos deixa no lugar de Marion e de Norman, nos deixa como possíveis vítimas de um atentado que nos toma de assalto e permanece em nós.

Truffaut amava Hitchcock. Como eu, considerava o diretor um mestre mas, por fazer filmes de suspense, não recebia o devido crédito da crítica, que tem uma predileção por filmes não comerciais. Assim, além de conhecer em detalhes o pensamento criativo daquele, Truffaut queria justificar sua relevância para a cultura cinematográfica, mostrando que o lucro pode estar relacionado com uma preocupação estética, de linguagem e forma. Segundo Antoine de Baecque em seu Cinefilia (outro livro maravilhoso, sobre a Cinefilia na França do pós-guerra), Truffaut buscava quase a fórceps, com argumentos e fotogramas quadro a quadro de algumas sequências, deixar claro para o leitor que vale a pena dedicar um tempo para entender a grandiosidade da filmografia desse inglês que gosta de aparecer (e aparece mesmo, em todos os seus filmes, olha ele aí).
O mestre não dobrou a crítica com Psicose, mas sente um orgulho imenso do resultado: em Psicose, o tema me importa pouco, o que me importa é que a montagem dos fragmentos do filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo o que é puramente técnico conseguiram arrancar berros do público. E agora, ele dá o golpe de misericórdia: creio que para nós é uma grande satisfação usar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa. (...) Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro.

Por conjugar uma técnica fascinante a um roteiro bem amarrado, os trabalhadores do cinema são também aficionados por ele, que insiste: é um filme que pertence a nós, cineastas, a você e a mim, mais do que todos os filmes que fiz (porque ali era possível falar tecnicamente, discutir abordagens, movimentos de câmera, ângulos e corte, era uma conversa entre diretores). Eu não conseguiria ter com ninguém uma verdadeira discussão sobre esse filme nos termos que estamos empregando neste momento. As pessoas dirão: “Não era uma coisa para se filmar, o tema era horroroso, os protagonistas pequenos, não havia personagens.” Claro, mas o modo de construir a história e de contá-la levou o público a reagir de um modo emocional. É como aprendemos na escola: o que importa é a forma.

O encantamento com o filme é tal – e nem tratamos da temática voyeur, perversão, doença mental, moral, mulher independente nos anos 60, a primeira sequência do filme, etc – que vimos uma refilmagem supostamente plano-a-plano – incipiente – de Gus Van Sant em 1998 e agora, lançado em 2012, uma ficção também fraca sobre os bastidores da produção do clássico, intitulada Hitchcock. O canal A&E lançou em 2013, Bates Motel, série sobre a adolescência de Norman e a relação com a mãe, hoje na terceira temporada (com mais 2 confirmadas). Esta é mais interessante do que os filmes, mas nenhum se compara ao clássico. O fato é que Psicose despertou tantos e diversos olhares que se tornou uma referência para o gênero, é homenageado em não sei quantos filmes, artigos, ensaios fotográficos e figura em qualquer lista de melhores do mundo (como Os Incompreendidos, de Truffaut).É, portanto, imperdível, e um grande programa para esta noite.
Passei um tempo lendo literatura e folheando livros de cinema. De uns meses pra cá, virei a chave novamente e vi que havia deixado algumas coisas pra trás. Precisava estudar. Assim, aproveitando a exposição de Truffaut e o aniversário de Hitchcock, comecei a reler as entrevistas, que são uma forma de prazer egoísta que me prende feliz em casa e faz querer copiar tudo aqui, para compartilhar a emoção de reencontrar velhos amigos. Dá vontade de estar ali, como uma mosquinha no canto, só para ouvir os detalhes das conversas, as discussões sobre técnica, teoria, brincadeiras e experiências de vida e cinema dos dois. Reler é relembrar as formas de fazer, reavaliar o que produzimos, rever os filmes, ampliar o olhar. Talvez agora os textos saiam um pouco mais compridos e preocupados não apenas com história – lembrando a provocação de Hitch – mas como técnica e argumentos teóricos mais embasados. Vou tentar deixá-los fluidos, gostosos e quentes como café, como de costume.

Para quem é curioso, tá fácil de achar:
·         Psicose (1960) - Netflix;
·         Psicose (remake 1998) – Popcorn Time;
·         Hitchcock (2012) – Popcorn Time;
·         Bates Motel (2013) – Netflix.
*Ainda no Popcorn Time há sequencias de Psicose, que devem ser assustadoras pela má qualidade, mas ambas levam Anthony Perkins como Norman Bates. Vá com cautela (eu não vi).

HISTÓRIAS SEMELHANTES

0 comentários

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *