Jia Zhangke - Um homem de Fenyang

21:52

“A filmagem me permite voltar a sentir a dignidade da existência de cada um, inclusive a minha. O cinema é uma maneira de preservar a memória das coisas. O documentário nos ajuda a conservar os traços daquilo que se passou. É um meio de resistir ao esquecimento."
Jia Zhangke

Quando um cineasta resolve fazer um filme sobre outro, é sempre um misto de cinefilia – esta adoração pelos filmes e o mundo que os cerca – e a relevância daquele, não apenas para o cinema enquanto arte, como também enquanto veículo de informação e reflexão, como o clichê da janela que se abre para o mundo ou, neste caso, para um mundo bastante específico.

O Mundo (2004) é título de um dos filmes de Jia Zhangke, diretor chinês de 45 anos, com mais de 20 filmes no currículo (entre ficção e documentário) e protagonista do último filme de Walter Salles, Jia Zhangke – um homem de Fenyang. Na obra de 2004, a história se passa em um parque temático de Pequim, que retrata cenograficamente os pontos turísticos e maravilhas dos cinco continentes. É também neste cenário que acontece uma das diversas entrevistas de Walter Salles com o diretor e então, em uma conversa de grandes observações, percebemos a relação e os contrastes da cultura chinesa com a ocidental. Se o slogan do parque diz que se pode viajar o mundo sem sair de Pequim (ou de casa), o mesmo vale para a internet. Jia ainda faz uma analogia entre aquela cidade de fantasia e as semelhanças de onde vivemos, imersos em redes sociais virtuais – outro simulacro que só acentua, com a velocidade e a chegada do capitalismo no país, o individualismo e a solidão.
À primeira vista, parece que estamos numa sessão de cinema para deleite da crítica e seu público ‘alternativo’. Da mesma forma, me perguntei onde haveria interesse do grande público neste documentário de quase duas horas sobre um diretor alheio ao circuito comercial. Não demora a se encontrar a resposta. Ao percorrer a trajetória do diretor em trechos de seus filmes, discussões sobre eles, conversas com os protagonistas e equipe técnica, ultrapassamos o espaço da produção para adentrar o pensamento artístico, a subjetividade e identidade chinesas para além da Revolução Cultural e sua organização coercitiva. Alguns filmes do diretor seguem censurados no país.

A grande questão deste documentário – e Walter Salles assume no livro que nasceu em conjunto, O mundo de Jia Zhangke (Cosac Naify, Jean-Michel Frondon, com textos de Walter Salles, Cecília Melo e do próprio Jia Zhangke) é sobre a representação cinematográfica da vida na China vista pelo cineasta e como ela se contrapõe ao que é propagado oficialmente. Claro, isso acontece em qualquer nação e naquelas totalitárias é ainda mais forte, mas o diretor consegue traduzir o cotidiano de forma honesta, a vida como é vivida e com senso crítico, posto que seja natural e humano discordar ou apenas questionar. Ainda assim, o caso é que, junto ao contraponto que faz ao regime apenas exibindo o que seria ‘comum’ em seus filmes, percebemos também o reflexo do progresso e sua velocidade atropelando a todos, como acontece deste lado do planeta e na China contemporânea.
Assistindo Plataforma (2000), vemos um filme sobre jovens entre a fase adulta e a adolescência nos anos 70, quando o mundo se abria culturalmente e se insistia em mudar o que era absurdo. Na China, o que se via era um tanto diferente, com traços fortes da Revolução Cultural no pensamento dos pais, enquanto os jovens tentavam se encontrar e entender o porquê de tanto cerceamento. Esta censura que é transmitida para a nova geração é exatamente o que aconteceu com o diretor – o filme inclusive é rodado em seu vilarejo – e a necessidade de enxergar a vida de outra forma é iminente e necessária. A mise-en-scène é tão realista que os diálogos parecem mais de improviso, bem como o entorno, que se vale de objetos de cena e cenário reais. Essa forma de tratar do tema, com não-atores e atores jovens com pouca experiência nos deixa em cima da tênue linha que divide o documentário da ficção e isso também permeia toda a obra do diretor.

O filme de Walter Salles responde algumas destas questões sem que o diretor brasileiro apareça. Aqui a ideia é de uma série de entrevistas em locações, cidades onde vive e viveu o protagonista e seus familiares. Um ponto curioso dentre tantos outros é sobre a forma de fazer seus filmes. Jia nos diz que quando filma sem grandes problemas, aí é que se preocupa. Ele acredita mais em sua produção quando nascem dela os conflitos e dúvidas, pois daí vem a certeza de um trabalho bem estruturado e pensado. Em outro livro que trata do documentário por quem os faz (A verdade de cada um, Org. Amir Labaki, Ed. Cosac Naify), um dos autores, o diretor russo Viktor Kossakovski afirma algo parecido: “não filme se já souber de antemão o que quer dizer.” A ideia de Salles não é de um documentário de observação, mas sobre as respostas que Jia Zhangke e quem está em seu entorno transmitem a nós, produzindo um encantamento, curiosidade sobre sua obra e o entendimento definitivo de porque para nosso diretor – e para quem quer que assista aos filmes do chinês – este é um dos mestres do cinema contemporâneo.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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