10.000km

14:06


A primeira sequência do filme vem sem cortes, introduzindo a intimidade de um apartamento de um casal jovem, uma luz de manhã entre janelas, um ambiente de cotidiano e familiaridade. Parece que estamos diante de uma história real, de um casal real. Poderia ser, poderia ser a história de qualquer um que tenha vivido um relacionamento a distância.

Quando vi o trailer na internet, o filme não havia sido – e não foi – lançado nos cinemas. Encontrei no Netflix e me tomou um tempo para assistir, já que é um reencontro com as semelhanças de uma história pessoal, passada. Namoro a distância é um desafio difícil, um jogo em que todas as regras parecem existir para dificultar a permanência, testando persistentemente o amor que há ali.

Então, neste primeiro plano-sequencia vemos de uma cena de sexo buscando uma gestação, ao motivo do drama: Álex (Natalia Tena) recebeu um e-mail com uma proposta de ser fotógrafa bolsista em Los Angeles. Álex e Sergi (David Verdaguer) vivem juntos em Barcelona. Eles se amam e depois de alguma discussão, decidem o óbvio – a proposta era boa demais para ser negada e é apenas um ano, eles são fortes, sobreviverão a esses 10.000km de distância e empurrarão pra frente o filho prometido.

Como a marcação da passagem do tempo em 500 dias com ela, com a literal contagem e exibição de alguns dias, aqui acontece o mesmo, mas linearmente. Assim, vemos a transformação dos dois personagens tal qual da relação, o que era saudade vira cobrança e carência, de um lado fica a memória física, os itens do apartamento, os amigos em comum, Barcelona cheia de lembranças de Álex para Sergi, cuja vida parece ter parado no tempo, enquanto a primeira segue reinicializando tudo do outro lado do Atlântico, decidindo quem quer ser, o que quer fazer. O filme todo se cerca dos apartamentos dos dois protagonistas em diálogos mediados por celular, whatsapp, skype, e-mail e ali também estão todas as etapas da distância, o sexo por vídeo, o desejo interrompido. A ausência de contato físico se converte no excesso de verbalização, tudo é motivo de conversa, mas sempre sobre eles mesmos e aí, o esgotamento é inevitável. As vidas compartilhadas em ligações não são, claramente, as vividas em separado e é essa distinção o grande teste para o casal e o trunfo do filme. Para os atores, grande desafio, visto que só há eles na trama - a proposta do diretor de focar no casal é acertada e as sutilezas dos diálogos e olhares e situações entre dois apartamentos nos deixa quase claustrofóbicos em alguns momentos, sufocados como os personagens daquele confinamento voluntário. Estamos falando de Barcelona e Los Angeles, cidades óbvias de interesse e turismo, com suas belezas e culturas extremamente distintas e que os influencia até na tomada de decisões, mas que não vemos, não fazem parte do argumento do filme, apenas suas localizações. E aí, nossa concentração se volta toda para suas trocas e a riqueza com que tratam em detalhes íntimos e sinceros sua história. As exceções de cenas fora do apartamento são as fotos tiradas por Álex, fazem parte de seu projeto de fotografar espaços urbanos vazios, estranhos – causando ainda mais estranhamento e vazio falar do que está fora, distante do outro, de quem não pode participar – as fotos aparecem para Sergi e para nós, como uma cidade fantasma, quase sem vida, cujos rostos de Google Earth - únicas imagens de outras pessoas, estão esfumaçadas para preservar seu anonimato e insignificância na narrativa. 
Enquanto Álex parece ser uma espécie de ‘culpada’ por tudo aquilo, na verdade a situação imposta é apenas um catalisador para um incômodo velado – ela não sabe mais sobre seu futuro com Sergi, o que quer pra si. A gravidez que nunca vinha e agora adiada é um ponto importante e definidor para a mulher. Ela está num momento de clímax profissional, fazendo exatamente o que sempre quis – e também é o momento de decidir se esse filho virá e adiará seus objetivos. O filme que parece simples e envolto na sobrevivência do relacionamento, se complexifica e enriquece, com um dilema da mulher de hoje, sem julgamentos, mas impondo decisões. Há, da mesma forma, como o homem se relaciona com essa postura e Sergi não é machista, mas ele precisa se reconhecer e entender seu papel ali, entender se ele também se adequa aos interesses da amada e se vale a pena continuar com esta Álex em transformação.

Enquanto mulher que saiu de casa para morar em outro estado – numa distância muito menor que 10.000km – e deixou alguém ‘a esperar e ver o que acontece’ para seguir sua carreira, a identificação foi imediata. Há uma sinceridade e não me esquivo de pensar se o diretor e roteirista Carlos Marques-Marcet também não teve essa vivência – ou, no mínimo, a pesquisa foi muito bem feita. A construção da intimidade destes dois atores, a verdade que eles passam e que já é a abertura do filme, nos levam por um mesmo caminho de reflexões e escolhas. Intenso, com atuações impressionantes, este é um filme de dois atores que não cansa, é honesto e lindo em sua construção, com uma trilha sonora que dói e é magnífica e me fez reviver algumas situações até o final  - e aqui eu gostaria de usar 'mais sincero e coeso impossível', que fez a obra levar 17 prêmios e 22 indicações em diversos festivais.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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