É pra ter fé...

21:00

Vou te falar, coração, é difícil.

Hoje tiveram as eleições no Brasil e ganhou Dilma, de esquerda. Quem perdeu foi Aécio, de direita. Mais uma vez criou-se uma dicotomia de que a esquerda é intelectual, pró-povo, assistencialista, corrupta, incompetente, ignorante. Do outro lado estava a elite, também corrupta, com intelectuais inexpressivos que se consideravam a força pensante da nação, a representação da inteligência e progresso, que arrastavam não sei quantos estados nas costas. Isso tudo são preconceitos e estupidezes, com seus ideais superficiais que eliminam qualquer verdade de qualquer lado. Ok. 

Não entrando no mérito dos partidos e representantes, o ‘povo’ fez pior. O povo das redes sociais, minhas não sei quantas centenas de amigos com suas outras centenas de amigos destilando ódio, preconceitos de todo o tipo, venenos a escorrer pelos lábios corroborados por outros venenosos. Dos dois lados. Há uns, como eu, que preferem não se envolver. Assisto em meu camarote particular e privilegiado os discursos, fico no conforto de evitar qualquer embate de qualquer tipo para qualquer lado, uso a linha “não voto, justifico”, e se fosse votar? Acho que seria Dilma, e não vou nem me explicar, discuto política não muito além do que sei, aprendo ainda mais e sou aberta o suficiente para ouvir os dois lados sem precisar agredir nenhum. Não fico em cima do muro, só não entendo de política como acho que entendo um pouco mais de outras coisas e evito julgamentos precipitados. 

E, na verdade, esse desabafo é sobre isso... sobre os velhos julgamentos e a intolerância nossa de cada dia. Moro no Rio de Janeiro há seis anos. Trabalho numa grande empresa. Sou baiana. Sou baiana e amo ser baiana com todos os orgulhos e vergonhas. Gosto do Rio de Janeiro e tolero também seus inúmeros defeitos porque, afinal de contas, escolhi e gosto de morar aqui. Faço bem o meu trabalho, estudo sempre, procuro me envolver com outras coisas, crescer, me tornar maior pra mim mesma. Gosto de axé, forró e rock, acarajé e feijoada, vivo a diversidade e a possibilidade de conhecer gente e culturas – o máximo e mais díspares, sempre que posso. 

Na minha rede social tem gente de tudo quanto é canto. Gosto de gente, de falar, de conviver, de entender porque somos diferentes e em que nos identificamos. Só que tem uns tipos específicos que se tornaram agressivos e perversos. Ainda não os eliminei desse convívio virtual porque eles servem como um alerta para o que está por aí, eu acho. Não são os amigos de fé ou os mais ou menos amigos, ou qualquer coisa nessa linha. São pessoas da contingência, de conhecer por contexto, momento de vida, história. E são pessoas que se dizem acima de outras pessoas. Infelizmente, pelo que pude acompanhar, a maior parte delas é a que reside por aqui, pelo Sudeste. 

A gente tenta relevar o tempo inteiro esse preconceito que temos, de que o sudeste se acha desenvolvido, melhor do que qualquer região do país, mais inteligente, mais rico – e é, sem dúvida, se pensarmos em dinheiro – e que tem essa certeza de que eles são a força motriz do país, que viveriam muito bem sem o restante e que acham que representamos o atraso e marasmo, a preguiça reinante, a ignorância e o descaso pelo país,que acreditamos ser o assistencialismo a tábua de salvação e enriquecimento da classe menos favorecida e de como somos acomodados e nunca trabalharemos, porque tem quem faça por nós. E você chega animada, vindo de um estado maravilhoso – pobre, lascado, com seca, mas com pessoas de coração aberto, trabalhadoras, batalhadoras, sobreviventes e que ainda estampam um sorriso no rosto e fazem graça da própria desgraça, porque é o que tem pra hoje – e você vira uma caricatura. Por você ser simpática e ter seu sotaque e defender o que acha certo e o que lhe moldou, se transforma num apelido, que vejo como carinho mesmo e adoro, mas que imediatamente lhe identifica como quem vem de fora e você até acha graça e ri, afinal ser baiano é realmente muito bom. 

Só que chegam as eleições e já no fim do primeiro turno começaram as verdades da rede social. As elucubrações que essas pessoas desenvolveram, seu alto índice de conhecimento e reflexão em ofensas e graves agressões que até saíram do seguro universo virtual e tomaram as ruas. Foram dias intensos e longos para esse pessoal. Horas gastas em discussões, declarações de votos e juras como se seus candidatos fossem, cada um, a salvação para um país agonizante, para o mundo, para sempre. Aconteceu um fanatismo como o futebol, uma loucura desenfreada que me lembrou a final da copa do mundo, quando um homem de meia idade, negro, com uma camisa do flamengo gritou perto de mim em alto e bom som, Heil Hitler, num bar, torcendo para a Alemanha. 

As pessoas se entregam às suas recentes convicções e carregam suas bandeiras sem perceber que o tecido atrapalha a visão e os mastros batem em quem está ao redor, machucando. Hoje, agora que as eleições acabaram, vi minha família mais calma – feliz e triste ao mesmo tempo – mas mais calma, aceitando o destino trágico e esperançoso (tem de tudo na minha casa) que vem pela frente. Vi, por outro lado, alguns sudestinos da minha rede se mostrando com indignação e raiva tão grandes que chegam a assustar. Escarrando seus preconceitos em notas vulgares, vomitando suas amarguras, frustrações e grosserias de tal forma que chegam a machucar esse pobre coração e minha vontade fica oscilando entre discutir e desistir. E tanto ódio pra quê, gente? Essa certeza ingênua de que são tão especiais e inteligentes é sim o que podemos chamar – ao contrário de nomear Estados inteiros – de ignorante. 

Vamos estudar mais, conhecer melhor o país, olhar para os lados e até abaixar um pouco a cabeça, sair do salto e dessa postura altiva, ver quem está ao redor, ser mais humildes, visitar o que se critica fora das festas, ir além das praias maravilhosas e de águas quentes das férias, das pessoas simpáticas e calorosas, das comidas que não se encontram em todos os lugares, das frutas, da natureza, de tudo que também significa esse país gigante. Eu achei que a grande piada do dia seria a do Acre, o último estado a fechar suas urnas. A ironia define a grandeza do país: por mais esquecido que sejamos em alguns pontos, somos fundamentais por nossa união. 

Mais amor, por favor.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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