Sobre ontem, 13/06/2013

12:23




Não estive nas manifestações. Não vi o bicho pegar, não corri da polícia, não tomei bala de borracha.

Pego ônibus todos os dias, uns mais caros que outros a depender da hora que vou ao trabalho. Moro no Rio, onde várias pessoas sofreram acidentes por falta de treinamento de seus motoristas, minha mãe inclusive, há muito tempo. Ontem, quando tudo aconteceu, estava no trabalho.

Acompanhei pela tv e pelo facebook que, com tanta gente diferente falando da mesma coisa, temos um panorama menos oficial e talvez por isso, mais honesto.

Tenho amigos jornalistas e mesmo que não fosse o caso, sofri pela repórter que tomou bala de borracha no olho. Fiquei pensando, entretanto, que se ela virou notícia por ser da notícia, quantas outras pessoas não se tornaram vítimas dessa ação desmedida da polícia e de quem a comanda, e não ficamos sabendo. Hoje ex-coronéis avaliam a operação e não mencionam o excesso de força, como se não fosse significativo, como se os outros não fossem importantes.

Porque o problema não está simplesmente na instituição policial, mas em alguns bandidos que fazem parte dela. Eles talvez estivessem aguardando a carta verde que receberam de alguém para botar pra fora toda a sua raiva contida, sua monstruosidade, sua brutalidade diária que já esparramam aonde a notícia não chega.

É óbvio dizer que não é mais o preço da passagem. Acho que a Turquia ajudou a lembrar de que é importante ter opinião, que se não falarmos, a democracia perde sua razão de ser. A Turquia viu sua praça se tornar o início, o que levou a outros problemas talvez muito maiores do que mais um shopping. Como aqui, a ira policial nos fez ver além, nos trouxe tudo o que evitamos pensar todos os dias, em prol do trabalho, das contas, os direitos assegurados e não exercidos.

Acho que é o momento fundamental para a imprensa se posicionar como vem fazendo, apoiando quem lhe parece mais justo. Nos cabe ler os dois lados, entendendo seus relatos, sem necessariamente aceitá-los. Soa moderado demais nessa semana absurda falar assim, mas é ingênuo crucificar o jornal pela opinião que emite.

Os jornalistas que estiveram ontem em São Paulo e no Rio viram o que aconteceu. Eles têm alguma ideia de quem fez o quê e isso é preciso que seja dito, espalhado como uma epidemia, se não nos jornais que são oficiais, corporativos e políticos demais, nos blogs, nessas redes sociais todas, para que se conheça a indignação, os porquês diversos e acumulados por tanto tempo.

As notícias de hoje contam que os policiais prenderam manifestantes por formação de quadrilha. Imagino que tinham uns baderneiros nessas cidades, como tem o pessoal que vai ao Carnaval só pra procurar briga. Nas aglomerações as distorções são possíveis, mas não representam o todo e não devem ser tomadas como referência, mas como ponto de atenção. As manifestações de ontem já não serão as únicas e chamarão, espero, mais gente ainda. São reuniões de protesto, não de combate. Ninguém quer bater ou apanhar ali, só querem ser ouvidos por quem eles decidiram que deveriam ocupar seus governos.

É um sentimento estranho esse. É triste ver as imagens de ontem, da sandice da Ordem. O descontrole assusta, ainda mais quando é dele o poder de fogo. É esquisito não ter feito parte, ter acompanhado no conforto de uma sala fria de ar-condicionado. É também incômodo eu acho, talvez essa seja a palavra mais próxima, ver isso tudo e ver gente que consegue sublimar esse presente e viver da rotina alienada da opinião formada, da alegria sincera até, do alívio de encerrar uma semana de trabalho, de hoje ser mais uma sexta-feira. Mas é corajoso, não encontrei a palavra que represente o sentimento, ver que há mais por vir, que é importante se colocar agora, especialmente nesse ano que todos miram o Brasil, esse país jovem, menos bobo do que eu pensava e de futuro complicado.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

3 comentários

  1. era difícil e curiosa essa em que vivemos.. difícil saber quem protege e quem coloca em perigo; difícil saber em quem confiar e quem temer; difícil relaxar e difícil enfrentar. sorte para nosso país.
    beijos!

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  2. O povo brasileiro desperta! E num momento extremamente propício. R$2 billhões de reais para reformar o Maracanã enquanto os hospitais públicos não possuem sequer equipamentos para realizar exames. A indignação não está mais contida às paredes, ganhou as ruas e quer ser ouvida e vista para o mundo.

    Bjos!

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  3. Muito bom o texto. Gostei daqui.
    Acordemos. Acordamos.
    Estou seguindo. Voltarei mais vezes. :)
    Beijo

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