Teatro

01:13


Comecei a ler The War of Art, de Steven Pressfield. Esse livro foi uma forte indicação de Robert McKee, a quem fui assistir o workshop em NY. Ele é o consultor de roteiros mais bem sucedido dos Estados Unidos e também tem um livro interessante pra quem quer escrever, se interessa etc, Story. O livro de Pressfield fala sobre os obstáculos à criação, de forma geral e como atravessar as armadilhas e seguir em frente em seu processo. 

O caso é que estava aqui lendo o prefácio – do próprio McKee – e lembrei umas coisas do seminário, em que falava que devemos ter garra e paciência, que uma boa história não surge do nada, mas de muito esforço, tempo para errar e acertar, para desenvolver, amadurecer as ideias. Ele fala que a primeira ideia normalmente nem é essa coisa incrível que pensamos quando vamos desenvolvê-la. Aí vemos que realmente, outros caminhos se formam e surge um produto muito mais bonito, bem acabado, interessante. Que talento, eu diria agora, é a arte de seguir em frente após a suposta grande ideia e encontrar um resultado bom, depois de uma longa jornada.

Pois bem.

Essa noite fui ao teatro, ver um musical sobre Frank Sinatra. Há muitas semanas sem ver nada, surgiu o convite e fui lá. Confesso que sou resistente com teatro, não é a minha arte, meu negócio é com cinema e literatura, no máximo com TV. O teatro me quebra um pouco a ilusão que o cinema traz quase gratuitamente, e normalmente as peças razoáveis me parecem muito ruins. Mais ruins do que filmes ruins. Não sou estúpida também: as peças boas que já assisti me marcaram profundamente e seguem comigo como referências de arte para a vida.

Em todo caso, era uma estreia e era Sinatra e eu tinha voltado da NY de Sinatra, achei que valeria lembrar os momentos do passeio. O que importa disso tudo é que no final, o diretor nos informou que a peça foi montada em 28 dias. Isso é menos que um mês. É Fevereiro, que nem é um mês de verdade, mas um carnaval, véspera de ano novo. Eu não sei o tempo de desenvolvimento de um espetáculo, mas 28 dias para consolidar uma história, com um ‘roteiro’ bem escrito, diálogos interessantes, afinação entre os atores e o texto, atores e atores, atores e músicos, atores e música... é muito pouco, não?

É óbvio que a resposta é sim. E isso fica claro no primeiro diálogo, sem exagero, em que somos obrigados a saber que ali Sinatra tinha 45 anos e que não tinha se casado com ninguém, de forma gratuita, como uma resposta a uma pergunta que ninguém fez. Um texto introdutório, forçando sua biografia e depois uma sequência sem fim de músicas mal interpretadas, como um cover preguiçoso. Pior do que tudo isso: não havia história. Era como ouvir um cd ruim, daquelas versões piratas distorcidas de um cantor bom. As quatro bailarinas atrizes que acompanhavam o Sinatra da vez, coitadas, sobrou quase nada para elas, além de uns passos de sapateado e meia dúzia de falas. Do meio pro final nem isso tem, um Sinatra caído pelos cantos, invadindo a plateia com uma pronúncia esquisita – e mais uma vez lembro McKee contando algo sobre o cantor e sua dicção perfeita (vale prestar atenção) – emendando um hit atrás do outro.

Orgulhosos de seu rebento, o diretor, elenco e equipe estavam felizes. Natural, faz parte do show, é justo. Mas se vangloriar de uma peça montada nas coxas, não tem condição. Se ao menos houvesse uma história legal... as mulheres de Sinatra, interpretadas de relance pelas meninas bailarinas, se perdem no meio do caminho... e logo elas, que foram mulheres esplêndidas! Deveriam ter feito uma introdução ao público com um folheto, informando que não esperem muito, justificando essa ausência de estrutura - não por opção estética, mas quase como uma desculpa. Mas, de novo, sem tempo. E mais: a peça não foi escrita em 28 dias - imagino eu. O texto deveria ser a única coisa pronta - já que ele é o ponto de partida para qualquer obra - e ninguém notou que estava faltando algo? Pelo menos a banda de jazz, ao fundo, era boa.

Eu percebi que McKee me deixou ainda mais inconveniente. Mas convenhamos: fazer arte assim, não é fazer por amor. Fazer com amor toma tempo, cuidado, carinho. Não é só correria, calor e agonia. Foi a primeira vez que fui ao teatro e não tinha nada pra contar depois. De repente esse livro de Pressfield me tira a procrastinação e me leva de volta a meus filmes de boas histórias, às peças com texto, a roteiros por vir, textos a escrever. Esse sinatra pobre me serviu para fazer ouvir o verdadeiro e maiúsculo, além de me incomodar o suficiente para me fazer escrever essas anotações - não pretendo ser crítica teatral - e isso, por si só, já vale agradecer.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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