Os Miseráveis

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Os Miseráveis entrou em cartaz. Sábado de sol, sala lotada, o filme de quase três horas ganhou aplausos no final da sessão. Mesmo sem entender muito o porquê – normalmente fazemos isso em festivais, quando alguém da equipe está presente – se notava o contentamento geral. Presos puxam longas cordas de um navio para o porto. Lá do alto, um inspetor de polícia, Javert, fiscaliza o trabalho. Em condições sub-humanas, os miseráveis cantam em coro a força e resistência que os mantém vivos em tempos de guerra e peste, no século XIX. A câmera se aproxima de um deles, Jean Valjean, que olha com ódio para Javert. Imundo e fino, quase não reconhecemos o Wolverine, Hugh Jackman. Essa música forte, ritmada, já ganha o público: trancados, imundos e sem expectativas, guardam apenas rancor, a raiva que os sustenta a cada dia. Foi quando eu entendi que precisava ler o livro.


Os Miseráveis desse ano é uma adaptação do musical de 1980 ainda em cartaz e, claro, do livro de Victor Hugo, de 1862. Como toda versão, subtrai alguns personagens – o livro tem 5 volumes e inúmeras figuras menores em histórias que orbitam  Jean Valjean e Javert – a fim de manter o ritmo da narrativa fílmica. Ainda assim, poderia ter-se cortado um pouco mais.

Uma sequência me prende até hoje, dias depois do filme: cotada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante, Anne Hathaway é Fantine, uma mulher que trabalha na fábrica de Jean Valjean – quando já é prefeito sob outro nome – para sustentar sua filha, que vive sob cuidados de uma família oportunista, os Thénardier. Fantine é despedida e sua tragédia se anuncia: se prostitui, perde sua beleza ao vender parte de si – cabelos e dentes – e só lhe resta a desgraça. Aqui, sofremos até seu fim, no primeiro terço do filme, com pena de perder a personagem tão bem construída. Em pouco mais de 3 minutos nos apaixonamos por sua voz, no ápice de seu sofrimento. Fantine espreme nosso coração com a música que transformou uma senhora comum da Inglaterra em uma das vozes mais emocionantes do planeta, I dreamed a dream, então por Susan Boyle. Extremamente afinada e impecável em cena, Anne Hathaway, nos faz sofrer em sua miséria sem saída. Com uma voz forte e inesperada, conjuga interpretação e desespero. Continuo achando que é um dos melhores momentos do filme. A câmera se aproxima de seu rosto delicadamente em poucos cortes, exibindo sua magreza, mostrando sua transformação. Em pouco tempo, sai a mulher de rosa, limpa e de cabelos compridos, entra o nada, escória e lixo parisiense. O Oscar lhe é devido.


Jean Valjean e Javert (Russel Crowe) se atraem e repelem todo o filme, e esse cabo de guerra cansa; da mesma forma que Lincoln se arrasta por quase três horas em busca do clímax, aqui, mesmo com uma montagem mais dinâmica – o ritmo de um musical se dá como uma correnteza de canções que nos embala até o fim – a repetição beira a monotonia. Somos salvos pela fluidez das tramas paralelas, dos outros personagens que completam a história. Assim, temos o romance da juventude – a esperança em um amor puro; a insurreição estudantil que transformará a nação e salvará os miseráveis do fim – como uma utopia e a redenção, que encerra a trama.

Tom Hooper equilibrou o exagero patético dos musicais e a atuação marcada do teatro com a linguagem cinematográfica. O diretor de O Discurso do Rei retorna com Helena Bonham-Carter como par de Sacha Baron Cohen, o caricato Borat de outro tempo, como os Thénardier. Aqui eles são a comédia da maquiagem e trejeitos exagerados para a proximidade da câmera, que nos remetem ao circo, com uma edição rápida como a farsa que precisam montar para surrupiar moedas e bens de seus clientes do bar e ainda explorar a então criança, Cosette. Levada pelas grandes emoções que os musicais procuram explicitar na tela, não são meus momentos preferidos, apesar de terem seu público cativo. Ao mesmo tempo, o par Cosette adolescente–Marius, do amor romântico fica com pouco tempero. Cosette é Amanda Seyfried e sua atuação não diz muito, mas os momentos se salvam por Eddie Redmayne. Fazendo mais um papel de mocinha, a atriz parece presa à forma de seu personagem, não dominando-o, mas cerceada, como se a direção tendesse a formatá-la. Já Marius sustenta o olhar doce, aquele mesmo que encontramos em Marilyn, do apaixonado perdido.


As músicas são – claro – a melhor parte. De início estranhamos Russel Crowe – me parecia sempre muito truculento para um musical – e nos apaixonamos, como dito, por Anne Hathaway. As músicas de revolução; na prisão e nas barricadas, nos carregam e nos fazem, tímidos, cantar o refrão para dentro. Assim, somos carregados, como crianças ao dormir, para um sono de aventura, drama, romance, tragédia e alguma vitória. O filme traz de volta os musicais grandiosos que surgem de tempos em tempos com o propósito  de nos enternecer.

O gênero é específico quando quase não há diálogo, mas as trocas são todas de sentimento em voz. Por isso, não há como produzir tantos musicais em sequência: o mundo real das brutalidades não permite e a inocência não se sustenta por muito tempo. Nos permitimos poucas doses de grande ilusão de cada vez, como as pequenas e raras gentilezas que nos surpreendem em um dia qualquer. Saímos contaminados com a força de um filme que fala de povo, de infelizes, de alguma preocupação política que devemos ter. Mas saímos também como se tivéssemos visto um blockbuster de Hollywood (esse aqui é inglês), embasbacados pela grandiosidade da produção, entregues à imensidão de uma multidão que trabalhou em conjunto para expor essa tragédia mundo afora. Victor Hugo retornou às livrarias reeditado, impulsionado pelo sucesso do filme. Se a história reduzida já satisfaz, complementá-la com nossa imaginação do que foi omitido pode ser um prazer ainda maior. Com mais de vinte adaptações de apenas um texto, algo precioso nos aguarda.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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