Lincoln

16:13


As prévias do Oscar já começaram e os filmes mais cotados são lançados simultaneamente no país. São tantos que, para dar conta destes e dos outros que seguem em circuito, temos que aproveitar as sessões durante a semana. Entretanto, nem tudo são flores e fico pensando por que alguns filmes seguem como favoritos.

Lincoln, de Spielberg é um deles. O filme, apesar da presença de Daniel Day-Lewis, não faz jus às 12 categorias que concorre: é chato.

Não conheço a história do presidente americano em detalhes, mas sua fama vem da luta pela abolição da escravatura com a aprovação da 13ª emenda. Associado a isso, o fim da Guerra de Secessão. Num cenário com potencial dramático, Spielberg perde a mão e nos traz uma fábula exagerada, o herói mítico sem ritmo. Logo na primeira cena vemos dois militares negros conversando com o presidente. Enquanto um é subserviente e concorda com todo o pensamento do líder, o outro assume uma postura crítica diante dos objetivos da guerra e da igualdade de cor. Em paralelo, o presidente atencioso com o primeiro e reflexivo com o segundo e já tiramos daí nossas primeiras conclusões da apresentação do personagem: é, realmente, um cara legal. A primeira escorregada também está aí: outro soldado, agora branco, aparece, conversam e ele cita um trecho de seu discurso mais importante, mas não consegue encerrá-lo. Quando sai de cena, o soldado crítico negro encerra o discurso se provando tão bom e preocupado com a nação quanto seu colega. Por que?

Com uma fotografia escura, em tons sempre frios que sinaliza o momento delicado da História americana, a luz, entretanto, nunca chega. À esperança de um final feliz – conseguimos a 13ª emenda! – a tragédia (quase clichê se não fosse real) do assassinato do herói. A montagem se arrasta presa por um roteiro de eterno vai-e-vem de explicações e justificativas para o fim – agradecendo a boa participação de David Strathairn e Tommy Lee Jones – a continuação da guerra e a importância de abolir a escravidão para o país. Em raros momentos, personagens isolados insinuam críticas ao sistema de governo e às ideias liberais, mas o objetivo é reforçar o mito, sustentar à repetição e de forma superficial a questão racial – ainda assunto delicado nos Estados Unidos – e desumanizar, no sentido exato do termo, a figura central do filme. O que resulta disso é literalmente uma maquiagem excessiva no ator: a impressão é que Daniel Day-Lewis tem 500 anos e que se move lentamente. É fato que os grandes presidentes perdem parte de sua saúde e juventude exercendo o cargo e Lincoln não era um garoto, mas não o extremo que assistimos. Independente disso, é ele quem sustenta a obra, nos surpreendendo com sua atuação. É ele, a justificativa para irmos ao cinema.

Talvez esteja aí a raiz problemática da trama: um roteiro que concorre ao “maior prêmio de cinema” sequer apresenta uma estrutura coerente. Nos princípios básicos de construção de personagem – especialmente sendo ele o protagonista da obra – sabemos que deve ser apresentado, sofrer alguma transformação e crescer, de qualquer forma. São essas elevações e declives que moldam a estrutura fílmica, garantem os ápices e anticlímax que nos prendem a qualquer enredo. O mais próximo disso que assistimos é Lincoln e os seus comprando votos no Congresso para aprovar sua emenda ou o dilema entre protelar a guerra em prol da alteração da constituição. Se fosse no Brasil, um país historicamente corrupto e levando em consideração a nobre causa que o dignifica, comprar votos ou negociar um estratagema para resolver o conflito, seriam problemas pequenos. Talvez por isso não nos surpreenda tanto quanto as críticas sobre o filme feitas por lá. 
Ainda vemos Sally Field como a mãe de família participativa, primeira dama que sofre a perda de um filho e agora um menor risco de perder outro – que decide ir para a guerra. Histérica, como os surtos de sua personagem em Brothers and Sisters, apresenta uma das falhas históricas, em que aparece no Congresso para acompanhar os debates e a votação final da emenda. Imagino que se à época era inimaginável, uma piada, pensar na mulher enquanto eleitora, que dirá ocupando uma cadeira lá – ainda que de ouvinte. Joseph Gordon-Levitt faz um personagem tão de escanteio que não careceria tanto sua participação no filme. Ele é o filho mais velho do presidente, esquecido, isolado. Seu momento de glória é quando decide ir para a guerra, trazendo o drama familiar para o filme. Ainda assim, a supressão de seu personagem não faria tanta falta na história.

O fato é que Spielberg é um romântico ou, ao menos, patriota. A construção disso é clara e parte sobretudo de seu protagonista, da trilha sonora – que faz brilhar o letreiro de Hollywood, tamanha ênfase – e do final com o clímax e posterior conclusão. As derrapadas históricas, concordo com o diretor, fazem parte da construção artística de um fato e doem muito pouco no público. Encantados com Daniel Day-Lewis e seus movimentos limitados, olhar e voz transformados, vemos mais uma vez, um ator completo. Estive me questionando sobre o personagem e, partindo disso, há que se fazer uma retrospectiva de sua carreira para nos darmos conta de que ele não erraria. Olhando fotos no site do filme e o trailer, revivo algumas cenas, olhares do protagonista, ações, postura. Como Joaquin Phoenix em O Mestre, Daniel Day-Lewis justifica a indicação nesta categoria.
Levando em consideração seus concorrentes ao melhor filme, dificilmente ganharia por mérito próprio. A Academia não se baseia somente em qualidade artística e um filme pró-americano, de Spielberg se torna lugar comum. O austríaco-francês Amor e também americano O lado bom da vida são muito mais interessantes e ricos. O peso aqui está na representatividade do tema, no que agrega, na questão racial (olha, há um presidente negro por lá) e na grandiosidade da produção. Não é uma categoria para se levar tão a sério – melhor contar com Filme Estrangeiro, Animação e Documentário – aí sim, costumam fazer boas seleções - mas para entender porque e o que move a indústria cinematográfica americana atualmente e ajudar na escolha do que assistir por aqui. 

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1 comentários

  1. Tati - adorei sua critica ao filme. Assisti e, assim como voce, achei bem chato. Daniel Day-Lewis esta fantastico, sem duvida. A maquiagem esta incrivel. Mas o filme nao me comoveu. Lincoln eh adorado, idolatrado pelos americanos. O verdadeiro heroi. Mas o filme tb nao comoveu meu chefe tb, um texano de origens conservadoras. Comoveu muita gente, certamente. Quando eu sai do cinema vi pessoas falando coisas maravilhosas sobre o filme (uma mulher disse que nunca chora em filmes, mas que neste ela lacrimejou). Dai a concorrer a tantas estatuetas...bom, exagero. Keep writing, my beautiful friend! Beijo.
    Juliana

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