Bebês

23:22



Todo bebê é um mistério. Acho que até para os pais. Por não falarem, tudo o que sabemos deles vêm de suas expressões, choros, trejeitos. Como um filhote de animal ou como os animais de forma geral. Mesmo tendo sido bebês, é impossível recordar o período, o que nos deixa enternecidos, curiosos e cautelosos com os que fazem parte de nossa vida.

Bebês é um documentário de 2012 que acompanha o primeiro ano da vida de 4 bebês espalhados no mundo. Mongólia, Japão, Estados Unidos e Namíbia são os extremos escolhidos por Thomas Balmès a partir de uma ideia do ator Alain Chabat. O objetivo fica claro com o dispositivo: encontrar famílias com histórias completamente diferentes umas das outras e criar um paralelo entre as culturas através desses pequenos personagens.

O cartaz diz everybody loves babies. Mesmo não gostando da propaganda estranha, é difícil encontrar alguém que os deteste. As imagens do pôster já nos mostram como é impossível não amá-los: crianças lindas com aquele olhar penetrante e fofo. Essa atração irresistível que eles exercem em nós nos transporta para fora do mundo duro e real das notícias de jornais, nos deixa esperançosos e bobos, com vozes estranhas e jeito infantil. A docilidade, ternura e inocência são cativantes e aqui intensificadas pela ausência de diálogo. O diretor disse estar fazendo um filme animalista, mas talvez seja mais correto entender como uma etnografia mesmo, daqueles filmes de antropólogos do audiovisual.

A construção do filme os acompanha do nascimento até o primeiro ano, passando pelo primeiro ‘mamãe’, engatinhar, ficar de pé e finalmente, andar. Comemoramos cada vitória nos sorrisos, choros, banhos e xixis das crianças, junto ao carinho que emana de seus pais. Por não haver palavra – linguagem limitadora numa produção multinacional – vemos todos como iguais e as diferenças culturais nos aproximam, aumentando nossa curiosidade e nos fazendo tender a gostar dos mais distantes. Assim, Ponijao é uma delícia de bebê da Namíbia que vive basicamente com sua mãe, outras mulheres e um rebanho de crianças, mama de outros peitos que não os seus e vive a natureza com uma intensidade só comparada a Bayar, seu respectivo na Mongólia. Este, um bebê explorador é o mais encantador de todos. Acostumado a ficar sozinho em casa, amarrado a um tecido para sua proteção – seus pais precisam trabalhar fora ou ausentar-se constantemente – emana uma tranquilidade ao conviver com diversos animais e uma curiosidade que nos gruda um sorriso na cara, como apaixonados pela primeira vez. Esse acompanhar da câmera e sua equipe não desperta tanto a curiosidade das crianças, lhes permitindo agir naturalmente, reforçando mais uma característica de filmes etnográficos, quando a equipe se torna invisível para seus protagonistas.

Hattie, nos Estados Unidos e Mari no Japão não ficam atrás. O detalhe é que por viverem em grandes capitais, com hospitais, tecnologias e urbanidade pulsante, se tornam mais comuns para nós. Continuamos vibrando com suas fofuras, mas as novidades são poucas. É até mais gostosa a identificação pela diferença que temos por Bayar e Ponijao, por perceber formas de viver alternativas, cujo nosso sanitarismo e senso de perigo jamais seriam permitidos aceitar, mas que não deixamos de concordar com eles ainda assim. A força da cultura, imponência do ambiente e da simplicidade, a rotina nessas comunidades ermas – porque são residências isoladas, com muito pouco de tudo ao redor, exceto a natureza – garante uma liberdade, a construção da independência e a vida com pouco se torna muito mais rica aos nossos olhos romantizados.

Com uma fotografia que equilibra grandes paisagens distintas e seus personagens em planos aproximados, temos os bebês e suas famílias de todas as formas possíveis. Em ângulos fechados, acompanhando suas intimidades com um olhar não invasivo, participando da vida de todos sem necessariamente alterá-las. Tudo isso sempre com aspas, já que a mera presença de uma câmera transforma a percepção que temos da realidade filtrada por ela.

O filme foi feito com muito carinho e isso é sentido em toda a sua construção, confirmado no making of, com as famílias se vendo e vendo as demais na tela do computador. A montagem acompanha os quatro em igual medida, nos dando prazer em assistir, querendo sempre mais. Ao mesmo tempo, mais não é possível. Pensar numa série que os acompanhe seria ótimo se não fosse tão voyeurista e invasivo. No fim, vivemos mais ou menos da mesma forma, especialmente quando somos muito pequenos. O filme me apareceu num momento especial; com tantos bebês de amigos perto de mim, é uma delícia ver seu crescimento entre as viagens para Salvador. Quando chego lá, em média a cada 3 meses, é notável a evolução, como se desenvolvem rápido e como encontro nesses Bebês de Balmès e Chabat os meus sobrinhos. Continuam um mistério para mim e à medida que crescem, as linguagens se desenvolvem e participamos mais da vida um do outro, mas o desvendar, o entendimento através do olhar e o sorriso puro, gostaríamos que ficassem para sempre.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

0 comentários

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *