Barbara

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Terminei de ler Liberdade hoje. O livro de Jonathan Franzen tem 600 páginas e uma grande história sobre uma família americana. No começo ainda não tinha me encantado, mas investi e em 3 dias terminei o livro, concentrada e naquela agonia das boas histórias que precisamos perseguir. O problema, como eu previ parágrafos antes, está em um detalhe no final da história que me irritou por ser uma saída fácil para um de seus personagens. O que parecia original, com todos os seus dilemas, trama interessante e bem tecida, perdeu um pouco da glória que esbanjava, desatando um nó de forma óbvia. É um livro bom, mas o clichê me entristeceu. Vale a pena ler, mesmo com o movimento em falso.

Hoje um livro, ontem um filme. Fui ao cinema ver o novo alemão que desembarcou aqui. Barbara – título da produção e da protagonista – é uma pediatra de Berlim oriental que após a prisão é enviada para trabalhar num hospital de uma pequena cidade. Barbara tem ódio, não consegue se imaginar vivendo com tantas restrições e é permanentemente vigiada. Enquanto sua casa rotineiramente recebe visitas da Stasi que acompanha seus passos, vasculha sua casa e corpo em busca de evidências subversivas, ela aproveita pequenos momentos de liberdade para tramar sua fuga ao lado do namorado, que consegue circular pelo país e ocasionalmente a encontra. Ao mesmo tempo, conhece e se envolve com a vida local, as crianças que atende e seu chefe no hospital.
No livro vemos o conceito de liberdade tomar proporções pouco imaginadas e passamos a perceber a noção de responsabilidade que a palavra carrega. É uma família de classe média nos Estados Unidos – dos subúrbios de casas iguais com gramados na frente e cerca baixa – nos anos de Bush filho, da política imperialista e anti-terror pré e pós 11/09. As liberdades individuais entram em conflito, reforçando as fragilidades de cada um, a cada escolha que faz. O livro migra nossa atenção entre os personagens os deixando um por um, por alguns momentos, como protagonistas. Assim, pontos de vista diferentes são expostos, realidades individuais, o conceito amplo e pessoal do título se dilui e diversifica, sem perder o eixo narrativo principal. É a era da liberdade total nos Estados Unidos (pra quem é americano), onde o poder é tanto que se pode construir uma guerra sob falsos pretextos, inclusive libertários.
Na Alemanha de Barbara já não havia guerra escancarada. Era uma situação estabelecida, sob pressão de um país dividido. A liberdade existia até a página dois, quando parávamos de concordar com o sistema. As restrições de cultura e comportamento acabavam por moldar o pensamento, transformando alguns em indivíduos amedrontados e outros em vigias permanentes de um descuido alheio, como câmeras de segurança. Assim, mesmo não sabendo a história prévia de nossa heroína (Nina Hoss), nos afiliamos a ela que, com a frieza da resistência e de quem traça uma meta estampada no rosto, contrasta com o carinho que cede aos seus pacientes. Barbara é o oposto de seu chefe, Andre (Ronald Zehrfeld), um homem atencioso por natureza, que guarda a distância saudável de quem atende.
Segundo Setaro, o clichê é um movimento determinado que impulsiona a narrativa. Se usado com exagero se torna previsível e determina uma 'queda' no tecido dramatúrgico ou, mesmo, um 'enchimento' desnecessário. Se este é a pedra no caminho que me incomoda no livro, no filme funciona bem. A história de Bárbara se cruza com a de outros personagens, determinando o rumo da trama, alterando seu percurso planejado. Esses encontros a transformam também; aos poucos ela se permite oferecer migalhas de intimidade em pequenos sorrisos e trocas de olhares. É um filme tenso à medida que sabemos o que nossa heroína quer, vemos seu planejamento e ficamos aguardando, ansiosos, sua liberdade, com uma trilha sonora hitchcockiana. O suspense está ali, como um clichê moralista final, e que até nos deixa com alguma esperança de reviravolta que não acontece e não desagrada.
Filmado em ordem cronológica – surpresa indicada pelo imdb – é acertado o crescimento no tom agressivo e nervoso que carrega. Os personagens ficam mais à vontade uns com os outros à medida que nos aproximamos do desfecho, quase tapando os olhos diante de cada decisão de nossos protagonistas. A fotografia do filme colabora, se aproveita de paisagens lindas e bucólicas, traduzindo o espaço numa cidade em que aparentemente nada acontece. Planos fechados de Barbara e Andre traduzem uma aparente frieza dela e curiosidade dele, sempre contida. A mal entendida passividade de Andre evolui para pequenas imposições quase nunca atendidas pela independência de Barbara, mas ainda assim, com posicionamentos éticos reafirmados à sombra de qualquer dúvida.
O filme é mais um da leva de produções alemãs que tratam de sua história recente. Como no Brasil, Argentina e Chile, rever o passado é fortalecer o ideal de nunca repeti-lo. Adeus, Lênin! e A Vida dos Outros, sobre o período da Guerra Fria e A Queda, A Onda e Uma Mulher contra Hitler já mais próximos da Segunda Guerra são grandes exemplos, todos da última década. Talvez Barbara se destaque por trazer uma história de resistência focada numa personagem forte, desafiadora. Ainda assim, como costumam ser as grandes histórias, essa também cede ao apelo moral e a figura feminina se torna um tanto materna, mas nada que a reduza, apenas a naturaliza num ambiente estéril. Abrindo espaço onde não há liberdade e com poucas saídas satisfatórias, Barbara é um filme completo. Em seus clichês bem preenchidos, retrata uma história que poderia ser muito comum, se não verdadeira e saímos do cinema boquiabertos com Nina Hoss e o equilíbrio na direção de Christian Petzold. Vale as 14 indicações, os 7 prêmios nos festivais europeus e americanos em que competiu e a nossa ansiedade deixada pra trás ao fim da projeção.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. Ainda não vi esse, mas tá na fila. Estamos numa fase de vários filmes com a promessa de serem interessantes em cartaz (Amor, Além das Montanhas, O Mestre, etecetera). Parece até festival! E vamo que vamo...

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