Amor

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O que esperar de um filme que se chama Amor? Malmente se consegue definir a palavra por sentimento e aí está uma sequência de imagens e sons com o título. O que há no filme para ganhar algo tão almejado por todos? Em tantas músicas, filmes, peças de teatro e poesias, esse AMOR nos mostra mais do que emoção.

Truffaut diz que precisamos trair a realidade para fazer um filme. Essa traição é uma busca pela ilusão necessária do cinema. É preciso comprar o espectador, manipulá-lo, lhe garantir os minutos de alguma fantasia. E diz mais, que os diretores precisam sempre dizer não a alguma coisa para que, a partir desta recusa – ou do estabelecimento de seu dispositivo – buscar a forma de construir uma história. A forma porque cada um tem a sua, pessoal, intransferível – o olhar, nunca o tema (que pode se repetir). Neste filme, o dispositivo que temos é o apartamento. Quase toda a história se passa lá, a não ser por poucos momentos em que o casal indica uma vida social ativa, indo a um concerto. A reclusão é fundamental: a mulher (Anne) sofre um ataque e fica doente. Paralisada um lado do corpo, torna-se dependente de seu marido (Georges) à menor das necessidades enquanto definha. Tendo lhe prometido nunca mais levá-la a um hospital, sua vida se resume a fornecer o conforto para a mulher que ama, a vendo desaparecer diante de seus olhos.

Michael Haneke tem uma forma de fazer cinema. Seu olhar inquisidor parece sempre exigir mais de nós. Violência Gratuita, Caché, Violência Gratuita (remake) e A Fita Branca encarnam temas polêmicos em estruturas que nos obrigam a pensar, nos tirando do lugar comum. Haneke nos engravida de ilusão, por mais realista que seja a obra. E quando as luzes se acendem - sempre se acendem bruscamente em seus filmes - ficamos lá, deslocados com a realidade, ressaltando força e inteligência o que acabamos de ver. Nunca saímos como antes. Amor não é diferente. Confinados no apartamento durante quase toda a duração, não vemos nada além de Georges cuidando e acompanhando o fim de Anne. Ao mesmo tempo, a reclusão os esvazia de realidade, o tempo se perde numa rotina de dias parecidos, numa família que não vê televisão. O contato com o mundo está nas compras que o porteiro faz, nas visitas esporádicas da filha Eva (Isabelle Huppert), sempre culpada por sua ausência e (des)compromisso familiar. É esse isolamento que impõe àquele cotidiano uma gravidade maior, nos preparando para o futuro.

Amor fala do envelhecimento europeu. Com a alta perspectiva de vida, além da previdência social, há a questão de o que fazer com os mais velhos. Uma casa de repouso é a resposta de Eva. Morando em Londres, ela não vê alternativa e não acredita na força do pai. À recusa deste em atender, a solução foi contratar enfermeiras. É esse realismo que a história imprime, a espera diante de um final infeliz firmado num dia-a-dia longo e exaustivo que o afasta do melodrama. Sofremos por conceito, pelo que vemos, mas com uma distância imposta pela ausência de trilha sonora e diálogos firmes. A fotografia de Darius Khondji reforça a frieza do ambiente. Planos fixos, ausência de câmara na mão e aparência natural procuram não enfatizar qualquer caráter emotivo à história já trágica. Ela parece nos dizer 'veja, é assim que se passa a história, preste atenção em como a vida acontece'. Em um filme em que todos os personagens são ligados à música, só a ouvimos quando ela participa enquanto objeto de cena, em momentos específicos. Não há a trilha sonora vinda do espaço, o tema que arrasa corações e nos deixa em lágrimas.

Emmanuelle Riva (Hiroshima, mon amour, Alain Resnais) se despe de qualquer vaidade e enfrenta uma doença da velhice a reduzindo numa senhora frágil e senil, cujo corpo não reage ou se sustenta e o pensamento regride. Assistindo ao filme, fiquei pensando em como uma atriz nos seus oitenta anos se sentiria interpretando uma senhora que está morrendo nos seus oitenta anos. A relativização entre a vida real e seu personagem, ao tempo que não a imuniza de situação semelhante, lhe prepara para um talvez futuro não tão longínquo. Jean-Louis Trintignant (Z, Costa Gavras), por outro lado, segue como se seu personagem dependesse disso, prepará-la para o fim. É dele a prova de amor, o mais profundo, de vida inteira. O carinho no olhar, as confissões inéditas que lhe faz só confirmam que havia ainda muito o que viver e trocar. Mas, ao tempo que Annie deixa de ser, o sentimento se transforma. Agora Georges é também pai. Seu desespero inicial toma o lugar de uma ternura que perde terreno para a paciência e a estafa. Todos os bons sentimentos estão ali, mas até quando, até quanto se pode suportar, até onde é amor?
Deixando o espectador abandonado no cinema, Haneke mais uma vez nos impõe a reflexão. Uma sala grande e lotada saiu calada, cada um pensando em seu futuro ou no presente de alguém próximo. Pensando nesse amor, em Anne e Georges como gente que conhecemos – guardados os excessos ficcionais – em Anne e seu fim, em George e seu fim. Não é um filme tranquilo, é uma representação honesta de um sentimento difícil, sem romantismos ou melodrama e por isso não choramos, não entramos numa catarse, não expiamos nossas dores. Saímos com uma história que não nos pertence, mas nos atinge de forma profunda, como as ações de Georges, como Anne, nas primeiras e importantes sequências do filme. E aí entendemos todas as premiações e, de novo, a força e inteligência do cinema de autor.

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