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Café: extra-forte


Não sei desde quando eu gosto de Woody Allen. Não sei se foi no primeiro filme, mas é bem possível. Como é possível que minha mãe tenha me apresentado a ele – ela também é fã. Lembro bem de uma deliciosa tarde de cinema, em que fomos ver Desconstruindo Harry. Já falei bastante de Woody em outros textos, mas além de sua constante produção cinematográfica, o homem ainda tem livros publicados por ele e sobre ele e, não suficiente, aparece nos filmes dos outros.

Paris Manhattan é uma deliciosa comédia romântica francesa. Adepta desses filmes de carteirinha – também culpo minha mãe – fica cada vez mais difícil encontrar um filme inédito que preste, num amontoado de água-com-açúcar e outros muito fraquinhos com atores mais ou menos. Há também aqueles com roteiro sem noção que forçam a barra, mas esses não são comentáveis. Paris Manhattan ganha meu coração logo de cara quando encontramos a mocinha (a linda Alice Taglioni), aos 15 anos numa sala de cinema, sozinha. Ela não só é doente por Woody Allen, como já viu todos os filmes e tem um pôster gigante do cara em seu quarto. Não suficiente, ainda conversa com Woody Allen, que lhe orienta nos momentos complicados da vida, usando os diálogos de Manhattan, um de seus melhores filmes!

Ontem assisti Manhattan. Não foi minha primeira vez, mas queria rever, porque minha dúvida era se os diálogos de Paris Manhattan eram homenagem a um ou vários filmes. Estou acreditando que Sophie Lellouche focou só nesse, o que já é grande coisa. Manhattan é uma obra prima. Em preto e branco, é uma ode à cidade que Woody Allen mais ama, a número um em seus filmes, onde ele construiu sua carreira e uma nova cinematografia. Para quem não sabe, Woddy Allen faz um filme por ano e está numa fase europeia, mas o grosso de sua produção se concentra em histórias em torno da cidade. São pessoas comuns, quase sempre intelectuais (ou pseudo...) tratando da vida, dos problemas de gente comum, traição, neuroses, com graça e inteligência que fazem tudo parecer simples, sem soltar um palavrão ou ter uma cena de sexo que mostre demais. Manhattan é esse filme de encontros amorosos e frustrações, amizades e descobertas, revisão de preconceitos e de quebra, uma questão moral, com uma fotografia inacreditável.

Portanto, este francês já teria que ser bom só pela presença do diretor. Imagino que a esta altura de sua carreira – posso estar enganada e ele pode surtar também – dificilmente ele perderia tempo com alguma produção que não fosse, no mínimo, criativa. Aqui, Alice é uma jovem meio confusa, daquele tipo raro das moças bonitas e inteligentes que não conseguem se envolver com as pessoas certas e saem testando um monte de gente errada, depois se cansam, desistem por um tempo, respiram fundo e recomeçam. Ela está naquele momento em que todo mundo está muito bem, quem tinha que casar casou e ela ficou por ali, entre uma diversão e outra, um coração partido aqui outro ali e muito cinema na cabeça. Seus pais já não sabem o que fazer, além de tentar arrumar alguém pra filha.

Alice é farmacêutica e herdou o negócio do pai, que resolve instalar um alarme na loja quando se aposenta. É quando Victor (Patrick Bruel), o rapaz que cria e instala os alarmes entra na história. O ator me lembrou um pouco o argentino Ricardo Darín nos filmes de comédia, sendo este um pouco mais sarcástico e o francês um pouco mais leve, como manda o figurino. Depois de alguma resistência, a amizade entre os protagonistas acontece e se aprofunda. É ele quem acaba participando das histórias familiares e descobrimos que aquela família ridiculamente feliz e equilibrada tem algumas rachaduras. Para piorar, Victor nunca viu nenhum filme de Woody. O resto é estória e contar estraga.

Este é um filme de roteiro. A diretora surpreende em seu primeiro longa e também assina o texto. A trama é bem construída e nos tornamos amigos dos personagens, torcemos por eles. Por ter o peso do convidado especial, carrega uma responsabilidade, mas consegue manter o ritmo até o fim, isso porque nem falei da trilha de Cole Porter e outros clássicos. É um filme que lhe tira da sala do cinema e – como toda história bem contada – faz esquecer os problemas, sair do dia a dia. Não precisa ser fã do diretor/ator pra entrar na história, mas é mais gostoso quando se conhece alguma coisa. É um filme pra se ver acompanhado: com amigos, namorado, família. É despretensioso e guarda surpresas tão incríveis quanto às fórmulas de cura de Alice para os males de quem lhe visita na farmácia.

Músicas deliciosas, Paris se mostrando pra nós quase como uma provocação com tanta beleza e charme, diálogos incríveis. O filme me ganhou tão fácil, que fica até difícil escrever mais e melhor. Este é o único problema de ir ao cinema sozinha, a agonia de querer compartilhar, dividir as opiniões, conversar horas e prometer mais filmes. Mas se não tiver com quem ir, vá mesmo assim.

Título Original: Paris – Manhattan
Diretor: Sophie Lellouche
2012, França, 77min (curtinho!)
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Quando contamos histórias, temos que ter uma certeza ou, pelo menos, ideia mínima de que são interessantes. Precisamos de nossos espectadores ali até o fim, criando uma novidade a cada virada de esquina, com um deslumbramento constante, um suspense, algum mistério que os mantenha esperando o que há para ver. Todas as histórias são assim, ou não são histórias.
Borges tem um texto já clássico chamado O Jardim dos caminhos que se bifurcam, que trata do encontro de seu protagonista com um livro-labirinto, cujas decisões podem gerar resultados infinitos. As múltiplas possibilidades de futuros a partir de uma ou algumas decisões é que torna especial a obra. As histórias do novo filme de Fernando Meirelles giram em torno de caminhos que se bifurcam, de escolhas. Decisões pequenas, como as do nosso dia-a-dia, que nem sempre nos pegam preparados. São estórias que se cruzam, cujas reações às escolhas também não serão nada como destruição ou construção do mundo, mas a manutenção ou transformação de um presente que impactará diretamente na vida dos demais, um pouco mais rico do que aquela história de graus de separação, em que todos se conectam em alguma instância. São os possíveis futuros múltiplos, a partir de decisões isoladas.
Fernando Meirelles já disse há muito a que veio. Com uma filmografia irreparável e agora internacional, o diretor brasileiro e sua equipe colaboram com esse novo capítulo do cinema de fazer calar a boca dos preconceituosos e superficiais que reclamam por aí. Daniel Rezende segue como montador, dando uma pincelada mais sutil nos efeitos, amarrando o sofisticado roteiro: os jogos com a tela dividida, eliminando o foco de um só personagem, a relativização das histórias e seus significados para cada um, a inserção da trilha, a montagem do quebra-cabeças, marca registrada do diretor. A fotografia reforça tanto os tons dos figurinos que caracterizam os personagens, quanto a distinção das cidades. Distorções de luz em túneis, tons pastéis para uma vida pastel, vermelho onde se quer mudar radicalmente. O branco da neve que confunde a paisagem e as ideias, como o álcool quando começa a fazer efeito, a maquiagem forte, os espaços que delimitam os personagens. Todos os elementos da construção fílmica mais uma vez são harmônicos e não estão ali de graça, nem o Anna Karenina que aparece de tempos em tempos.
O filme é baseado na peça La Ronde, de Arthur Schnitzler, que trata das relações sociais travadas entre encontros românticos de indivíduos de classes distintas ainda no século dezenove. Nestes 360 graus encontramos, resumidamente: uma publicitária de classe média-alta (Rachel Weisz) que tem um caso extraconjugal com um fotógrafo brasileiro que busca reconhecimento, seu marido (Jude Law), que tenta encontrar uma prostituta do leste europeu (Lucia Siposová) numa viagem de trabalho. A irmã desta mesma prostituta (Gabriela Macinkova que surpreende pelo talento e beleza) que escolhe não se envolver, mas que a acompanha, para dar suporte e conhece o motorista russo de um bandido classe A, casado com uma russa que se apaixona por seu chefe, um dentista argelino (Jamel Debbouze, de Amélie Poulain). O casal brasileiro (Maria Flor e Juliano Cazarré) que mora em Londres e entra em crise; o ex-detento americano (Ben Foster) em seu primeiro dia de liberdade; um senhor inglês (Anthony Hopkins) que busca o paradeiro da filha e cruza com a brasileira no avião. Com tantas ideias mais para uma série televisiva do que um só filme, o desafio foi amarrar tudo de forma contundente, concisa e que não deixasse nada escapar, mantendo todos os seus ápices e entrelaçando os finais.

No emaranhado de situações, as relações se dão com diferentes tipos sociais de culturas também distintas, sempre. Dos executivos ingleses e russos a iniciantes prostitutas de luxo do leste europeu, imigrantes brasileiros tentando a vida lá fora, presidiários, pobres, ricos. O filme busca participar desta teia de encontros não casuais e nos faz perguntar se aconteceriam numa outra circunstância, que não emocional, sexual. Os resultados das histórias reforçam as distinções de classe e sua manutenção, como um pano de fundo, uma idéia sutil por trás de uma trama que surpreende pela sofisticação da estrutura. Vemos desde relações de poder que coisificam, como o olhar cuidadoso que humaniza, mas não salva, num ciclo sem fim ou começo, como um círculo mesmo. A sinopse de um jornal diria: histórias que se cruzam a partir das escolhas de seus protagonistas. Suspense, drama e romance são ingredientes de um filme que surge sem gênero definido, mas completo em complexidade e maturidade de direção.
Sair deste filme é um tormento. Queremos continuar sentados, acompanhando aquelas trajetórias e embalados pela trilha sonora de músicas que eu não conhecia e que são lindas, tentando decidir pelos personagens ou entender suas decisões, ainda que não concordemos. Queremos nos aprofundar, tudo ali é interessante, as cidades espalhadas pelo mundo, o que conseguimos ver de suas ruas, como se vestem, os sotaques – lembrou Cegueira no mesmo estilo cosmopolita – idiomas e comportamentos diversos e como dialogam com a moral e conceitos de classe e sociedade. As histórias estão grávidas de futuros e nos deixam ansiosos, mesmo passando pouco tempo com cada uma delas, nos despertam um querer saber mais, uma afeição, uma aflição, um carinho. Porque a construção de cada personagem foi complexa o suficiente para que não houvesse a dualidade barata, mas camadas de personalidades distintas e que precisam ser descobertas.
Um trecho dos Jardins de Borges diz assim: Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam. Quase de imediato compreendi: o jardim de caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários futuros (não a todos) sugeriu-me a imagem da bifurcação no tempo, não no espaço. A releitura geral da obra confirmou essa teoria. Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts'sui Pen, opta - simultaneamente - por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam. Como o filme nos deixa o presente dos personagens em histórias concluídas mas não terminadas, vivemos junto com eles à espera de um cruzamento na pista, para decidir um novo rumo.
***
Agora, buscando o pôster, encontrei o blog da produção do filme. Aqui!
Título Original: 360
Diretor: Fernando Meirelles
Reino Unido, Áustria, França e Brasil.
2012, 110min.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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