Intocáveis

11:51


Há sempre uma dúvida ao descobrir um novo filme cujo protagonista é uma pessoa doente ou deficiente. Depois de inúmeros dramas sobre pessoas de bom coração, que após acidentes terríveis ficam incapacitados e decidem se matar ou que têm um grande amor impossível de concretizar ou ainda, aqueles filmes sobre pacientes terminais com alguma doença brutal, pensamos duas vezes em ir ao cinema. Neste caso, o sucesso de bilheteria (que não indica muita coisa, mas sendo francês dá alguma esperança) e o trailer, nos encorajam. E Intocáveis vale o desafio.

O filme inspirado em fatos reais conta a história de Philippe, um homem tetraplégico bilionário que contrata um negro que descobre ser imigrante senegalês para ser seu cuidador. O imigrante, Driss, não tem nenhuma experiência, mas também nenhuma compaixão pela situação de seu chefe, e é isso que o faz ser escolhido para o trabalho e cria a amizade entre eles. Não é difícil imaginar o número de candidatos interessados na vaga que o tratariam com a pena de lidar com um deficiente, vide os processos seletivos que assistimos no filme.

Esse é um filme pra todo o público. Quando se diz que um filme é francês ou estrangeiro (considerando a classificação das videolocadoras – americano não entra nisso e nacional é outro gênero), normalmente o público é mais restrito. O ‘estrangeiro’ se confunde com o ‘cult’, outra titulação arbitrária definida por um grupo de pessoas que mais se limita a certa filmografia do que os seleciona por alguma qualidade estético/narrativa. Um filme é bom e ponto, independente de onde venha, de que “gênero” seja. Este tem uma narrativa simples, com grandes diálogos e interpretações que se traduzem num equilíbrio delicado entre a comédia inteligente e a seriedade das situações ali vividas.

Alguns textos publicados sobre o filme falam sobre o limite do “politicamente incorreto”, de “fazer piada” com a situação, de um filme “polêmico”. Fico pensando se um tetraplégico se sente bem tendo ao seu redor pessoas que se compadecem dele, como se, ao se mostrarem sentindo e entendendo aquela situação, as tornassem mais próximas, mais compreensivas da dor do outro. Claro que não posso me colocar no lugar deste outro, mas não seria interessante receber esse sentimento, o olhar condescendente sobre mim. Ainda que exista uma desvantagem física - que se traduz na pena - o pensamento se mantém, a inteligência e é o que acaba se entendendo como perdido também, como se a deficiência fosse completa. É disso que o filme trata. O olhar humano aqui é daquele que enxerga Philippe como um homem qualquer, cuja diferença é um cuidado a mais. E Omar Sy o faz com precisão, levando pra casa o César ("Oscar" francês) de melhor ator em 2011. Esse homem que vem de outra classe, que vive na lei do mais esperto, achou que conseguiria assinar o documento que lhe garantiria a manutenção do seguro desemprego, mas acaba realmente com um trabalho e a partir disso, evolui na trama, se transforma e então nos apaixonamos por ele para sempre.

A história está centrada nesta relação e a polêmica de que tratam os outros textos se refere claro, à situação colonizador / colonizado, entretanto, ninguém aqui está promovendo uma discussão socioeconômica do que os levou a este presente, mas a uma situação dada que condiz com um dia-a-dia possível. François Cluzet (Philippe) exibe com sua imobilidade uma atuação brilhante. O personagem que imaginamos cuja vida é a sequência de dias iguais ganha outras cores e para o espectador que não tem nenhuma vivência do tipo, é mais uma novidade - talvez seja essa a preocupação de um filme francês, que passaria despercebido num americano padrão (além da qualidade fotográfica). Aprendemos sobre a situação do paciente, vemos uma vida de fato acontecer, como se fosse a nossa. Relações familiares, relacionamentos, trabalho, tudo ali acontece. São as mesmas dificuldades. O filme nos traz um viés cotidiano e com as duas vertentes, equiparando as histórias e trazendo dois protagonistas, duas vidas.

O fato de ser uma produção baseada em fatos reais é outro chamariz. Ainda que muitos não considerem a não-ficção como cinema tal qual a ficção, dão uma maior importância a histórias reais do que à pura invenção. Até porque, se esta fosse uma história totalmente criada, outras críticas surgiriam desmerecendo a obra, indicando-a como inverossímil, se enganando ao pressupor que as histórias mais absurdas – de forma geral – não acontecem. Intocáveis teve 9 indicações ao César, concorreu em outros festivais, levando 7 prêmios e abriu as salas de cinema do mundo para Olivier Nakache e Eric Toledano, diretores e roteiristas, cujas filmografias eu desconhecia. É a popularização do cinema francês – assim espero – e o início do desespero dos cults de plantão.

Título Original: Intouchables
Diretores: Eric Toledano e Olivier Nakache
2011, França, 112min

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. Grande filme, excelente análise. Quanto ao politicamente incorreto, que se dane rsrsrs. E quem não gargalhou na cena do bigode, que atire a primeira pedra (de preferência na própria cabeça rs). Beijos. Marta

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