Movimento Browniano

22:32

Em Bruxelas, uma médica aluga um apartamento e leva pra lá, um por dia, homens que seleciona no ambulatório do hospital em que trabalha. Faz sexo e dorme com eles, e depois volta pra casa, pra seu marido e filho. No dia em que visita o marido no trabalho, se depara com um desses homens, desmaia e sua história é descoberta, sua licença cassada e a crise se instaura.

Movimento Browniano não é um nome comum. Descobri na internet uma aula de física que o explica: se jogarmos um grão de pólen na água, ele não vai se dissipar homogeneamente, mas de forma caótica, porque as partículas de água, ao se chocarem com o pólen, alteram seu curso. É como se o pólen fosse grande o suficiente para ser percebido num microscópio, mas pequeno e leve para ter sua rota alterada por qualquer choque de uma partícula menor do que ele.

Inicialmente, achei que o browniano se referia ao processo de seleção dos homens. Quando ela começou as sessões com a psiquiatra para entender por que alugou o apartamento, disse que só lembrava detalhes de cada um, o olhar, os pelos do braço, uma mancha nas costas, um corpo gordo. Mas a aleatoriedade de sua trajetória foi mais profunda, foi a sequência de transformações a partir da primeira ação – os encontros – que alteraram sua rota indefinidamente. Há uma ruptura do mundo perfeito, a quebra do padrão que era sua rotina. Um casal bonito, com dinheiro, que vivia em espaços organizados. O desejo que ela tem pelo outro, nada mais é do que o desejo pelo que é estranho, e nesse momento lembrei de Diane Arbus. No livro de Susan Sontag, Sobre a Fotografia, ela nos conta um pouco sobre essa fotógrafa judia, filha de uma família rica e cercada de beleza e exatidão. O interesse de Diane estava justamente em seu oposto; seus retratos nos mostram pessoas incríveis com olhares firmes, mas pessoas deficientes, defeituosas, pessoas de circo. Seu olhar para o feio ganhou uma importância tal, que mesmo fotografando pessoas normais, notamos uma estranheza nelas. Em Movimento, num ambiente controlado por Charlotte, num apartamento extremamente organizado e limpo (e sempre em planos fixos para reforçar a sensação de experiência), é que ela se permite transgredir.

Além da questão ética – os homens eram seus pacientes – há uma relação entre fetiche, doença e moral que se misturam e torna a interpretação do que vemos um pouco turva. É nesse limbo que está seu marido, Max (Dragan Bakema). Eles se amam, são felizes sexualmente, a relação é estável e não é por algo estar errado que ela vai ao apartamento. É, talvez, por uma necessidade de ter um momento seu, que a isole do contexto familiar, da função que exerce. O fato deste momento significar sexo com outros homens não a faz se sentir culpada, mesmo ela tendo esta consciência, mas é o que a define como indivíduo e não como parte de algo. O que torna isso um problema é simplesmente a descoberta do segredo.

O filme tem caracteríscitas que me lembraram aquela ideia que se tem de cinema europeu. Os planos são longos, os cortes matemáticos. O filme é dividido em partes, lembrando Lars Von Trier e numa duração diferente da habitual. Há um tempo criou-se um preconceito com esse cinema justamente pelos filmes seguirem em outra velocidade, mais lenta que o cinema americano. Essa diferença se encaixa nos sentimentos do filme, já bastante silencioso: a permanência da câmera nas expressões da protagonista e no olhar perplexo do marido ajudam a criar uma atmosfera que nos deixa intrigados, queremos entender o que acontece com essa moça bonita, arrumada e de olhar misterioso, quase inocente e longínquo.

A aparente apatia da protagonista inquieta. O filme está centrado em seu olhar e nisso reside a força da atriz, Sandra Hüller. Conversando com um amigo, chegamos em Melancolia (Lars Von Trier, 2011), porque era esse o espírito. Nada com o fim do mundo, mas com uma inquietação que é transmitida por aquele olhar de ausência. Queremos dar essa liberdade à atriz e paz ao marido. É como se a diretora nos dissesse: o que importa agora é ouvi-la, mas ela não vai dizer tudo. Quando eles se mudam para a Índia, a mulher já não trabalha e teve dois filhos, mas ainda persiste o espaço entre eles. Por isso, não há como considerar os encontros a realização de um fetiche, mas uma válvula de escape – tanto que os lapsos de memória não são à toa, mas frutos de uma defesa inconsciente que a protege da lembrança do ato sexual, portanto da culpa.

Movimento Browniano incomoda. Não estamos mais acostumados ao silêncio – são tantos veículos para a comunicação que hoje o que está em extinção é o assunto – então a ausência de palavras intriga. Os cortes no limite da duração da cena, os planos fixos marcando o controle, e a câmera na mão a suscetibilidade dos ambientes externos não são à toa. Sem conhecer outros filmes, Nanouk Leopold chamou minha atenção. É um filme para ser visto sem pressa, entendendo que há – ainda bem – outro ritmo, nos deslocando da cadeira, deixando questões no ar. É um filme de grandes atores e com o equilíbrio perfeito entre silêncio e som. É daquele tipo do bom cinema europeu (não chato) que tanta gente tem medo e que, por isso mesmo, merece atenção.

Título Original: Brownian Movement
Diretora: Nanouk Leopold
Holanda, 2010, 97 min.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. Também escrevi sobre o filme. Hehehehe... Me deu até vontade de comer brownie agora!

    Bjo

    ResponderExcluir

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *