Paris - Manhattan

23:09


Não sei desde quando eu gosto de Woody Allen. Não sei se foi no primeiro filme, mas é bem possível. Como é possível que minha mãe tenha me apresentado a ele – ela também é fã. Lembro bem de uma deliciosa tarde de cinema, em que fomos ver Desconstruindo Harry. Já falei bastante de Woody em outros textos, mas além de sua constante produção cinematográfica, o homem ainda tem livros publicados por ele e sobre ele e, não suficiente, aparece nos filmes dos outros.

Paris Manhattan é uma deliciosa comédia romântica francesa. Adepta desses filmes de carteirinha – também culpo minha mãe – fica cada vez mais difícil encontrar um filme inédito que preste, num amontoado de água-com-açúcar e outros muito fraquinhos com atores mais ou menos. Há também aqueles com roteiro sem noção que forçam a barra, mas esses não são comentáveis. Paris Manhattan ganha meu coração logo de cara quando encontramos a mocinha (a linda Alice Taglioni), aos 15 anos numa sala de cinema, sozinha. Ela não só é doente por Woody Allen, como já viu todos os filmes e tem um pôster gigante do cara em seu quarto. Não suficiente, ainda conversa com Woody Allen, que lhe orienta nos momentos complicados da vida, usando os diálogos de Manhattan, um de seus melhores filmes!

Ontem assisti Manhattan. Não foi minha primeira vez, mas queria rever, porque minha dúvida era se os diálogos de Paris Manhattan eram homenagem a um ou vários filmes. Estou acreditando que Sophie Lellouche focou só nesse, o que já é grande coisa. Manhattan é uma obra prima. Em preto e branco, é uma ode à cidade que Woody Allen mais ama, a número um em seus filmes, onde ele construiu sua carreira e uma nova cinematografia. Para quem não sabe, Woddy Allen faz um filme por ano e está numa fase europeia, mas o grosso de sua produção se concentra em histórias em torno da cidade. São pessoas comuns, quase sempre intelectuais (ou pseudo...) tratando da vida, dos problemas de gente comum, traição, neuroses, com graça e inteligência que fazem tudo parecer simples, sem soltar um palavrão ou ter uma cena de sexo que mostre demais. Manhattan é esse filme de encontros amorosos e frustrações, amizades e descobertas, revisão de preconceitos e de quebra, uma questão moral, com uma fotografia inacreditável.

Portanto, este francês já teria que ser bom só pela presença do diretor. Imagino que a esta altura de sua carreira – posso estar enganada e ele pode surtar também – dificilmente ele perderia tempo com alguma produção que não fosse, no mínimo, criativa. Aqui, Alice é uma jovem meio confusa, daquele tipo raro das moças bonitas e inteligentes que não conseguem se envolver com as pessoas certas e saem testando um monte de gente errada, depois se cansam, desistem por um tempo, respiram fundo e recomeçam. Ela está naquele momento em que todo mundo está muito bem, quem tinha que casar casou e ela ficou por ali, entre uma diversão e outra, um coração partido aqui outro ali e muito cinema na cabeça. Seus pais já não sabem o que fazer, além de tentar arrumar alguém pra filha.

Alice é farmacêutica e herdou o negócio do pai, que resolve instalar um alarme na loja quando se aposenta. É quando Victor (Patrick Bruel), o rapaz que cria e instala os alarmes entra na história. O ator me lembrou um pouco o argentino Ricardo Darín nos filmes de comédia, sendo este um pouco mais sarcástico e o francês um pouco mais leve, como manda o figurino. Depois de alguma resistência, a amizade entre os protagonistas acontece e se aprofunda. É ele quem acaba participando das histórias familiares e descobrimos que aquela família ridiculamente feliz e equilibrada tem algumas rachaduras. Para piorar, Victor nunca viu nenhum filme de Woody. O resto é estória e contar estraga.

Este é um filme de roteiro. A diretora surpreende em seu primeiro longa e também assina o texto. A trama é bem construída e nos tornamos amigos dos personagens, torcemos por eles. Por ter o peso do convidado especial, carrega uma responsabilidade, mas consegue manter o ritmo até o fim, isso porque nem falei da trilha de Cole Porter e outros clássicos. É um filme que lhe tira da sala do cinema e – como toda história bem contada – faz esquecer os problemas, sair do dia a dia. Não precisa ser fã do diretor/ator pra entrar na história, mas é mais gostoso quando se conhece alguma coisa. É um filme pra se ver acompanhado: com amigos, namorado, família. É despretensioso e guarda surpresas tão incríveis quanto às fórmulas de cura de Alice para os males de quem lhe visita na farmácia.

Músicas deliciosas, Paris se mostrando pra nós quase como uma provocação com tanta beleza e charme, diálogos incríveis. O filme me ganhou tão fácil, que fica até difícil escrever mais e melhor. Este é o único problema de ir ao cinema sozinha, a agonia de querer compartilhar, dividir as opiniões, conversar horas e prometer mais filmes. Mas se não tiver com quem ir, vá mesmo assim.

Título Original: Paris – Manhattan
Diretor: Sophie Lellouche
2012, França, 77min (curtinho!)
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