360

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Quando contamos histórias, temos que ter uma certeza ou, pelo menos, ideia mínima de que são interessantes. Precisamos de nossos espectadores ali até o fim, criando uma novidade a cada virada de esquina, com um deslumbramento constante, um suspense, algum mistério que os mantenha esperando o que há para ver. Todas as histórias são assim, ou não são histórias.
Borges tem um texto já clássico chamado O Jardim dos caminhos que se bifurcam, que trata do encontro de seu protagonista com um livro-labirinto, cujas decisões podem gerar resultados infinitos. As múltiplas possibilidades de futuros a partir de uma ou algumas decisões é que torna especial a obra. As histórias do novo filme de Fernando Meirelles giram em torno de caminhos que se bifurcam, de escolhas. Decisões pequenas, como as do nosso dia-a-dia, que nem sempre nos pegam preparados. São estórias que se cruzam, cujas reações às escolhas também não serão nada como destruição ou construção do mundo, mas a manutenção ou transformação de um presente que impactará diretamente na vida dos demais, um pouco mais rico do que aquela história de graus de separação, em que todos se conectam em alguma instância. São os possíveis futuros múltiplos, a partir de decisões isoladas.
Fernando Meirelles já disse há muito a que veio. Com uma filmografia irreparável e agora internacional, o diretor brasileiro e sua equipe colaboram com esse novo capítulo do cinema de fazer calar a boca dos preconceituosos e superficiais que reclamam por aí. Daniel Rezende segue como montador, dando uma pincelada mais sutil nos efeitos, amarrando o sofisticado roteiro: os jogos com a tela dividida, eliminando o foco de um só personagem, a relativização das histórias e seus significados para cada um, a inserção da trilha, a montagem do quebra-cabeças, marca registrada do diretor. A fotografia reforça tanto os tons dos figurinos que caracterizam os personagens, quanto a distinção das cidades. Distorções de luz em túneis, tons pastéis para uma vida pastel, vermelho onde se quer mudar radicalmente. O branco da neve que confunde a paisagem e as ideias, como o álcool quando começa a fazer efeito, a maquiagem forte, os espaços que delimitam os personagens. Todos os elementos da construção fílmica mais uma vez são harmônicos e não estão ali de graça, nem o Anna Karenina que aparece de tempos em tempos.
O filme é baseado na peça La Ronde, de Arthur Schnitzler, que trata das relações sociais travadas entre encontros românticos de indivíduos de classes distintas ainda no século dezenove. Nestes 360 graus encontramos, resumidamente: uma publicitária de classe média-alta (Rachel Weisz) que tem um caso extraconjugal com um fotógrafo brasileiro que busca reconhecimento, seu marido (Jude Law), que tenta encontrar uma prostituta do leste europeu (Lucia Siposová) numa viagem de trabalho. A irmã desta mesma prostituta (Gabriela Macinkova que surpreende pelo talento e beleza) que escolhe não se envolver, mas que a acompanha, para dar suporte e conhece o motorista russo de um bandido classe A, casado com uma russa que se apaixona por seu chefe, um dentista argelino (Jamel Debbouze, de Amélie Poulain). O casal brasileiro (Maria Flor e Juliano Cazarré) que mora em Londres e entra em crise; o ex-detento americano (Ben Foster) em seu primeiro dia de liberdade; um senhor inglês (Anthony Hopkins) que busca o paradeiro da filha e cruza com a brasileira no avião. Com tantas ideias mais para uma série televisiva do que um só filme, o desafio foi amarrar tudo de forma contundente, concisa e que não deixasse nada escapar, mantendo todos os seus ápices e entrelaçando os finais.

No emaranhado de situações, as relações se dão com diferentes tipos sociais de culturas também distintas, sempre. Dos executivos ingleses e russos a iniciantes prostitutas de luxo do leste europeu, imigrantes brasileiros tentando a vida lá fora, presidiários, pobres, ricos. O filme busca participar desta teia de encontros não casuais e nos faz perguntar se aconteceriam numa outra circunstância, que não emocional, sexual. Os resultados das histórias reforçam as distinções de classe e sua manutenção, como um pano de fundo, uma idéia sutil por trás de uma trama que surpreende pela sofisticação da estrutura. Vemos desde relações de poder que coisificam, como o olhar cuidadoso que humaniza, mas não salva, num ciclo sem fim ou começo, como um círculo mesmo. A sinopse de um jornal diria: histórias que se cruzam a partir das escolhas de seus protagonistas. Suspense, drama e romance são ingredientes de um filme que surge sem gênero definido, mas completo em complexidade e maturidade de direção.
Sair deste filme é um tormento. Queremos continuar sentados, acompanhando aquelas trajetórias e embalados pela trilha sonora de músicas que eu não conhecia e que são lindas, tentando decidir pelos personagens ou entender suas decisões, ainda que não concordemos. Queremos nos aprofundar, tudo ali é interessante, as cidades espalhadas pelo mundo, o que conseguimos ver de suas ruas, como se vestem, os sotaques – lembrou Cegueira no mesmo estilo cosmopolita – idiomas e comportamentos diversos e como dialogam com a moral e conceitos de classe e sociedade. As histórias estão grávidas de futuros e nos deixam ansiosos, mesmo passando pouco tempo com cada uma delas, nos despertam um querer saber mais, uma afeição, uma aflição, um carinho. Porque a construção de cada personagem foi complexa o suficiente para que não houvesse a dualidade barata, mas camadas de personalidades distintas e que precisam ser descobertas.
Um trecho dos Jardins de Borges diz assim: Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam. Quase de imediato compreendi: o jardim de caminhos que se bifurcam era o romance caótico; a frase vários futuros (não a todos) sugeriu-me a imagem da bifurcação no tempo, não no espaço. A releitura geral da obra confirmou essa teoria. Em todas as ficções, cada vez que um homem se defronta com diversas alternativas, opta por uma e elimina as outras; na do quase inextricável Ts'sui Pen, opta - simultaneamente - por todas. Cria, assim, diversos futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam. Como o filme nos deixa o presente dos personagens em histórias concluídas mas não terminadas, vivemos junto com eles à espera de um cruzamento na pista, para decidir um novo rumo.
***
Agora, buscando o pôster, encontrei o blog da produção do filme. Aqui!
Título Original: 360
Diretor: Fernando Meirelles
Reino Unido, Áustria, França e Brasil.
2012, 110min.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. "Histórias grávidas de futuros". Gostei muito disso! Vi o filme ontem e, com o perdão do trocadilho, achei bem redondinho! Hihihihi... E ver o Adauto pegando Rachel Weisz valeu a pena!

    Bjos

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